Capítulo XV
Eram onze horas quando chegou.
Magdalena havia acabado de almoçar e viera para o salão, no proposito de espalhar saudades com o seu piano, com o seu discreto confidente, mas esqueceu-se dele, embebida na leitura do suavissimo Camões do nosso immortal Garrett.
Estava lendo, a meia voz, estes admiraveis versos:
«Longe, por esse azul dos vastos mares, Na solidão melancólica das águas, Ouvi gemer a lamentosa alcione E com ela gemeu minha saudade. . . »
quando Luiz surgiu à porta, através do reposteiro, que a velava.
Vinha pallido, como que acabrunhado, mas luziam-lhe nos olhos as chammas rubidas do fogo do ciume, do desespero e da descrença.
Magdalena não o esperava e, ao vê-lo entrar deixou cahir o livro das mãos e correu para ele, gritando commovida:
— Ah! ainda bem que veio!
Luiz recebeu-a com frieza, furtou as mãos às mãos dela que as procuravam, e recuou dous passos dizendo:
— Perdão, minha senhora, se venho interrompel-a!
— Luiz! . . . acudiu ela, vendo o modo como ele se apresentava.
— Não venho aqui, minha senhora, para continuar a ser o ludibrio dos seus caprichos de creança! Lamento as horas que perdi, pensando em V. Ex. ^a, como se pensa no nosso anjo da guarda, como se pensa na visão seductora dos sonhos do nosso amor purissimo. . .
— Desconheço-o. . . Porque me falla assim? interrogou Magdalena com a voz em lágrimas.
— Porque? Ainda m'o pergunta? Porque vejo que V. Ex. ^a é uma mulher, como todas as mulheres, vulgar, sem um ponto unico que a eleve acima do nivel das outras, quando a julgava um anjo, um ente superior, uma destas pombas immaculadas, que o mundo não sabe apreciar, infelizmente! Porque a julgava uma perola de subido valor, e vejo agora que é apenas a concha da praia, sem merito de qualidade alguma! Porque a tinha como flor, capaz de perfumar com toda a felicidade os dias de amor, que lhe depunha aos pés, e venho encontral-a rosa eivada de milhares de espinhos envenenados! Porque lhe vi o mel nos labios, a doçura na voz e o céu nos olhos, quando, afinal V, Ex. ^a só preparava a victima para lhe despedir a punhalada! Porque a julguei sincera, no meio do devanear sublime do meu sentimento affectuoso, quando tudo em V. Ex. ^a era a mascara, debaixo da qual se escondia uma grande hipocrisia. . . toda a sua preversidade, emfim!
— Oh! eu não lhe mereço isso! exclama ela com duas lágrimas nas pupillas.
— Bem sei; são ainda as lágrimas do crocodillo! Era realmente bonito, e sobretudo, digno de V. Ex. ^a que um homem andasse a rojar-se-lhe aos pés, a entregar-lhe tudo, pensamentos, alma corpo, vida, futuro, crenças e aspirações, enquanto que V. Ex. ^a, zombando da sua fé, zombando do sentimento e da sinceridade desse homem, se ria, brincando com ele, como se brinca com um objecto qualquer, que nada vale! Era realmente bonito, era, e, sobretudo, uma grande gloria para V. Ex. ^a! O que não sei é como V. Ex. ^a vivendo isolada desta sociedade corrompida e depravada, põe em prática os principios da filosofia dela! O que não sei é como V. Ex. ^a, sendo tão nova, tem já tanta maldade!
— Por piedade, Luiz, não me accuse, não me affronte desse modo, porque eu estou innocente! . . .
— Innocente! . . .
— Innocente, sim! E se não, diga-me qual é o meu crime, a minha culpa, o meu peccado! . . .
— Ainda m'o pergunta! Já o esqueceu, talvez, como pôde esquecer que invocára, num momento de hipocrisia, a memoria sacratissima de sua mãe, para me fazer um protesto de amor!
— Oh! muito, eu. . . bem vê que não tenho forças para tanto! . . . soluçou ela, inundada de lágrimas.
— É muito! é muito! diz V. Ex. ^a! O que não será, então, rojar um homem aos pés de uma mulher todas as flores purissimas do seu amor primeiro, acolher cheio de esperanças um sorriso. de amor dessa mulher que lhe fica sendo vida, ar, luz e tudo, para depois, esquecendo a loucura desse homem, aproveitar uma curta ausencia para dizer a um outro: — Venha que o espero a tantas horas da noute! O que será isto, minha senhora, se acha muito o que me está ouvindo?
— Oh! foi ainda por sua causa, Luiz, mas perdoe-me!
E Magdalena cahiu-lhe de joelhos aos pés, soluçando convulsivamente.
Eram as consequencias da sua imprudencia!
— Por minha causa! disse Luiz ironicamente. Nada creio, nem quero justificações. Foi porque assim o quiz e fez muito bem. E V. Ex. ^a teve razão. Pois quem era, quem sou eu? Um homem sem fortuna, sem um nome pomposo, expatriado, de uma família humilde e ignorada, que tem apenas por brazões as gotas do suor do seu trabalho, por timbre a honra, por divisa, a virtude, enquanto que V. Ex. ^a é a senhora D. Magdalena, a filha riquissima, a herdeira unica do ex. ^mo capitalista Jorge de Macedo!
Magdalena, profundamente magoada com as palavras de Luiz, sentiu uma violenta commoção nervosa, levantou-se de subito, recuou dous passos, perfilou-se, e exclamou numa como explosão, que era a prova mais evidente da dôr aguda que estava sentindo:
— Basta, senhor! nem tanto! Não se abusa impunemente da fraqueza de uma mulher, e é mais que crueldade estar a fazer-lhe derramar lágrimas de sangue! Envergonho-me agora de as ter chorado e lamento devéras a loucura, que me obriga a esta humilhação em que me vejo, há meia hora, na sua presença! Confiou muito pouco em mim, senhor Luiz, e muito menos, ainda em si. Julgou-me uma creança imprudente, uma mulher vulgar, uma mulher leviana! Estava no seu direito! O que não tinha era direito para me insultar as lágrimas de que me arrependo agora, porque não merece! Não quer justificações; pois bem, não as terá e se acaso voltar a pedir-m'as não se admire de lh'as recusar!
— Ah! e, demais a mais, é orgulhosa!
— De certo. Pois que esperava, vindo provocar-me tão pouco benevolamente?
— Que tivesse menos hipocrisia e mais consciência.
— O senhor Luiz esquece-se, de certo, que está fallando com uma mulher! Consciência!
— Consciência, sim, minha senhora. E fallo-lhe deste modo, porque tenho aqui as provas! Veja-as, analise-as, reveja-se V. Ex. ^a em elas. Ahi lhe ficam. O que unicamente lhe peço, é que se esqueça para sempre de mim, e que creia, que, apesar de tudo, a desejo ver muito e muito feliz!
E deixou-lhe em cima do piano o bilhete que ela havia escripto a Americo, e a fita, que dos cabellos, ele lhe levára, em aquella noite fatal da entrevista junto ao lago.
Magdalena, vendo sair Luiz, cahiu numa cadeira, apertando o seio convulso com uma das mãos, amparando a cabeça com a outra, e exclamando, debulhada em pranto:
— Ah! é assim que se paga um amor como este! . . .
E soluçava nervosamente, vertia lágrimas copiosas!
Pobre creança!
Começava a amar, e logo as primeiras flores desabrochavam espinhosas! As auroras esplendidas dos primeiros dias de amor sumiam-se mal despontavam, e após os primeiros sorrisos vinham logo as vicissitudes do soffrer.
E como ela não soffria agora!
Luiz fora cruel tratando-a tão asperamente, mas é certo que não podia fugir a uma explosão de aquellas. Depois da tempestade viria a bonança, depois das arguições o arrependimento.
Em teoria ninguem deixará de censurar o pobre moço, mas na pratica, nenhum de aquelles que se vissem em circumstancias iguaes, deixaria de fazer o que ele fez. Era uma coisa que o coração lhe exigia, uma satisfação dada ao sentimento, que lhe estava quasi abafando a respiração.
Deixar de amal-a, não deixava ele, e este incidente, que dera causa a lágrimas, de um lado, e mágoas do outro, não fez senão accender-lhe mais as labaredas que lhe queimavam o seio.
Todo o amor tem a sua cruz e o seu martirio, como tem a sua redempção e as suas alegrias.
Magdalena estava soffrendo os martirios e o peso da cruz do seu amor. A redempção e as alegrias haviam de vir tambem; não podiam faltar, sobretudo a quem era tão digna de elas.
No entanto, a formosa menina estava chorando, e sem esperanças de remover a tempestade, que uma imprudencia, filha ainda do seu immenso amor, havia feito desencadear.
em isto entrou o cabinda; vinha trazer à sua filha um ramo de flores do jardim. Ficou, porém estupefacto, vindo encontral-a soluçando, quando esperava achal-a contentissima.
O negro correu para ela, presentiu as dores que a alanceavam, soffreu com elas como se foram proprias e cahiu-lhe, de joelhos, aos pés, exclamando:
— Porque chora a senhora moça? o que tem a minha filha?
— Sou muito desgraçada, cabinda!
— O branco. . .
— Maltratou-me. . . saiu. . . já me não ama! . . .
O negro levantou-se de subito. Fervia-lhe nas veias o sangue da sua pura raça africana. Passou-lhe pela mente uma ideia terrivel; os olhos fuzilavam-lhe relampagos, as mãos tremiam-lhe convulsivamente. Cahiu-lhe de elas o ramo de flores, quando ele exclamou:
— Oh! o branco é bom! Foi o mulato! o mulato é mau! Mas o cabinda ainda cá está, e a minha filha há de ser muito feliz!