Capítulo XVIII
Muito terrivel é a situação de quem espera, esperando debaixo do pezo de uma duvida!
A duvida dá ao coração as alternativas da esperança e do receio; da esperança, que faz das horas seculos, do receio, que faz das horas instantes rapidissimos; da esperança, que arrebata com sonhos de dourado enlevo, do receio, que fere com os espinhos de uma perspectiva má e triste.
Esperar, deste modo, é esperar entre a lucta de dous sentimentos oppostos, que se degladiam heroicamente, braço a braço, corpo a corpo, sem se fatigarem, sem succumbirem, sem cederem um ao outro um palmo de terreno, ambos egualmente potentes, ou egualmente fracos, porque nem um cede, nem o outro vence, e porque um e outro exercem egual predominio no espirito, embora oppostamente.
O coração prende-se, durante um momento, nos arrobos da esperança, nas delicias suaves de quem vê realisado um desejo muito grande de grande ventura, para no momento immediato se embrenhar nas mil veredas tortuosas, nos muitos pezares e na grande tristeza em que se desata a ideia, o receio de que aborte essa esperança, de que não tenha uma realidade a aspiração que lá se gerou e nele vive, como pomba dentro do seu ninho.
Magdalena estava sentindo tudo isto, esperando por Luiz e Americo, que seu pae mandára chamar, depois daquela cena de lágrimas em que a vimos.
Tinha de um lado a esperança de que tudo se harmonisaria, e satisfatoriamente para todos, e que seu pae lhe restituiria Luiz, que ela amava ainda muito, apezar de tudo, e com ele a ventura, o affecto, os carinhos, o socego, as meiguices, os extremos, porque tanto almejava o seu coração, tão viçoso e tão sedento!
Do outro, o receio de que essa esperança não germinasse um unico encanto, um unico perfume; de que o sonho ridente da suspirada felicidade se esvaecesse, como nuvem de fumo leve nas azas da viração do sul!
No meio de tudo isto, Jorge pensava na felicidade da filha, como pae mais que muito affectuoso, e no meio decente de castigar dos dous, de Americo e de Luiz, aquele que fosse criminoso perante o tribunal e o juizo recto da sua impolluta consciência.
Os dois associados do honrado capitalista e negociante, vinham, separados, a caminho do Botafogo, fantasiando o que iria passar-se, embrenhando-se em mil conjecturas, sobre diversos assumptos, como causa provavel do seu chamamento, mas sempre fugindo-lhes o espirito para a ideia de que ia tratar-se do succedido, com relação à formosa Magdalena.
Até o velho Cabinda, que acompanhava Luiz no vapor da carreira, até esse ia embebido com a ideia da ventura da sua filha querida, da sua adorada senhora moça, que era neste mundo a ideia que mais o prendia, enlevava e dominava!
O pobre do negro consentiria tudo; no que não consentiria de modo nenhum, e para isso era até capaz de dar a vida, era em que o mulato vencesse Luiz, em que Americo conseguisse os seus intentos, não só porque, por uma destas immensas simpathias, que se não podem explicar, era altamente affeiçoado a Luiz, ao branco, como ele dizia, senão tambem, porque, oppostamente, odiava Americo com odio de morte, sobretudo depois dos ultimos acontecimentos, e talvez por motivos de antipathia e de raças.
Os três, Luiz, Americo e o cabinda, chegaram ao Botafogo, por volta das oito horas, e quasi ao mesmo tempo. O negro e Luiz foram os primeiros, mas o mulato não se fez esperar.
O velho escravo dirigiu-se para a cosinha, pela escadaria da rectaguarda do palacete, emquanto Luiz era introduzido na sala, e encontrou na varanda Magdalena, que o esperava numa indescriptivel anciedade.
Magdalena tinha ainda nos olhos os vestigios das lágrimas recentes, no rosto a pallidez do desgosto que soffrêra, e a expressão do seu estado de excitação, e nas ondulações do seio os signaes evidentes do agitamento das ondas interiores.
No entanto, bella sempre, sempre formosa, simpathica, attrahente!
Apenas avistou o negro, correu pressurosa a vir esperal-o ao topo da escadaria.
Ele sorriu-lhe numa expressão de dedicação.
— Então, cabinda? interrogou ela subitamente.
— O branco veio, senhora moça,
— E aonde está?
— Na sala grande que deita para o jardim.
— E vem contente?
— Ha-de estal-o. O coração do negro não mente nunca.
— Vieste com ele?
— Vim, minha filha.
— E Americo?
— Tambem vem! O mulato brigava com o branco no escritório, quando o negro chegou, mas o cabinda prendeu-o pelo pescoço e deitou-o ao chão.
— Ao mulato? perguntou assustada.
— Sim.
— Mataste-o?
— Não, senhora moça, mas o negro estrangula-o se o mulato continua! . . .
— Eu quero-te prudente, cabinda!
— E o negro quer feliz o branco e a sua senhora moça!
— E ele? interrogou Magdalena com anciedade.
— O branco? não soffreu nada. Mas para que a cobra não assalte o ninho da juriti ou do beija-flor, é preciso esmagal-a ou mandal-a para longe. A minha filha comprehende?
— Comprehendo, cabinda. Meu pae lá está; a verdade ha-de brilhar como o diamante na mina, e Deus ha-de castigar o culpado.
— Oh! exclamou o negro, ébrio de alegria; oh! e como o negro ha-de rir de contente, quando a senhora moça lhe disser que é feliz! O cabinda até ha-de dançar o batuque!
— Velho tonto! exclamou Magdalena risonha e altamente enthusiasmada com o jubilo do bom escravo.
Emquanto, porém, este colloquio tinha logar na varanda da rectaguarda do palacete de Jorge, entrava Americo para a sala da frente, onde Luiz permanecia só, esperando pelo capitalista.
Os dous estavam de novo, frente a frente. Ambos opprimidos, receiosos ambos, sem a certeza do que se ia passar, do que se ia decidir alli, olharam um para o outro, ambos numa expressão de duvida, mas sem trocarem uma unica frase, uma unica palavra.
O receio, pelo qual, cada um de eles, era dominado, tinha origens diversas e faceis de explicação.
Luiz não receiava pelo seu procedimento, porque bem alto lhe falava a sua consciência; temia, sim, que de todo se perdesse a melhor ocasião, qual a que se lhe proporcionava, agora, de realisar o sonho ardente da felicidade porque suspirava com tanta loucura.
Americo, esse receiava o castigo da sua infame tentativa, porque uma voz intima lhe segredava que todo o seu procedimento era reprehensivel, indigno e injustificavel.
Ainda assim, nem um nem outro tinham a certeza do negocio que alli os reunia, e isto dava ao mulato a esperança de que se agora não fosse fulminado, ainda poderia tentar o conseguimento dos seus fins, ou pelo menos indispor de todo Luiz e Magdalena.
Estava uma tarde explendida.
Os raios do sol vivo, que docemente ia descendo ao seu ocaso, projectavam-se brilhantes no jardim, sobre que abriam as janellas da sala, onde esperavam Americo e Luiz, e imprimiam nas rosas brancas e nos jasmins perfumados uns reflexos da sua cor avermelhada e tropical.
Zumbiam as vêspas nos trançaes dos maracujás, volitavam rapidos, de flôr em flôr, deixando beijos em toda a parte, uns mimosos e pequeninos beija-flores, e cortavam o espaço, em mil caprichosas linhas, ora subindo, ora descendo, ora rapidas, ora vagarosas, algumas borboletas de tamanhos variados e cores vivas e formosas.
Lá ao longe, entre as folhas verdes do capim, andavam arraiando amores as juritis mimosas.
Luiz e Americo, cada um em sua janella, parecia estarem ambos embebidos na silenciosa contemplação das bellezas da natureza, do explendido quadro que tinham diante dos seus olhos, expressivamente scismadores. Longe, porém, e muito longe, estavam eles, dos encantos que alli se desenrolavam, e que, sem duvida, inspirariam muito a alma sensivel e contemplativa de algum poeta ou de algum artista.
Estavam, pois, assim, quando de subito se abriu uma porta, que, da sala espaçosa, ricamente mobilada e adornada, dava passagem para o interior da casa.
Os dous voltaram-se immediatamente, e ao mesmo tempo, dirigindo-se ao personagem que entrava.
Era Jorge de Macedo.
Trazia no rosto a expressão da affabilidade, mas ainda assim, carregada com as linhas sombrias de uma severidade mal disfarçada. Quatro olhos se cravaram nos dele, como para traduzirem alguma cousa, os olhos de Luiz e de Americo.
Seguiram-se os cumprimentos indispensaveis, de respeito e de boa cortezia.
Os dous, cada um pelo seu lado, haviam percebido que Jorge de Macedo não estava no seu estado normal, e os traços de mudança que lhe soletraram no semblante, mais se inclinavam para uma certa tristeza, para uma vaga melancolia, para o que quer que é de um desgosto, embora pequeno ou mal traduzido, do que para a indicação de uma irritação, de uma exaltação, que rompesse em asperezas ou se desatasse em colericas insinuações.
Agora é que mais que nunca o receio os dominava. E o mulato, se não fora a lembrança de que commetteria um acto de inqualificavel cobardia, que mais provaria ainda contra o seu procedimento, decerto teria fugido, para nunca mais aparecer.
Teve tentações de fazel-o.
Era a propria consciência que o estava accusando daquele modo! Bastava a presença do juiz que ia julgal-o para o fazer tremer!
Luiz esperava receioso, mas resignado. E diante dos seus olhos surgia ainda formosa, explendida, encantadora, a imagem de Magdalena, que ele adorava muitissimo.
E na sua consciência só tinha o espinho de um remorso a magoal-o! Era o de haver tão impensadamente, quasi que insultado a mulher a quem desejaria agora lançar-se aos pés, implorando, humilde, um perdão para os arrebatamentos que lhe fizeram, a ela, derramar tão amargas e sentidas lágrimas.
E Magdalena?
E o cabinda?
O que faziam os dous, agora, no momento em que talvez se fosse decidir da ventura daquela e de alegria intima dos ultimos dias da velhice deste?
Depois do dialogo travado na varanda, foram ambos cautelosamente collocar-se atraz de uma porta fechada, que communicava com a sala grande, onde se achava Jorge, com Luiz e Americo, a fim de verem se era possivel escutarem o que se passava.
Chegaram no momento em que terminavam os cumprimentos dos dous socios do capitalista, e quando este delicadamente lhes oferecia duas cadeiras, collocadas ao lado do sofá, onde tomou assento tambem.
Jorge ficou, assim, entre os dous; Luiz à direita e Americo na esquerda.
Houve um momento de silencio.
Os dous esperavam de olhos cravados no chão. Jorge dispunha-se para começar, e dentro, Magdalena e o cabinda, tentavam abafar a respiração para que nem essa trahisse a sua presença, alli, atraz da porta que os escondia, mas que os devia deixar ouvir tudo.
Que contrastes no íntimo de cada um de aquelles individuos! Que mares, tão diversos nas suas agitações, no seio de cada um de aquelles personagens!