Capítulo II
A residência no paço da Ribeira facilitou ao moço da capela relacionar-se com fidalgos que o estremaram da turba da criadagem.
O capelão-mór D. João da Silva, irmão do marquês de Gouveia, agradecido ao rei intruso que, em 1625, dera a seu irmão Manrique, conde de Portalegre, a coroa de marquês, ajoelhava nos estrados da vice-rainha, como outros muitos portugueses que, volvidos quatro anos, a ameaçaram de ser despejada à rua sobre o cadáver de Miguel de Vasconcellos (Nota 4. ª)
Este D. João da Silva corria com os negócios da grande casa de seu irmão, e sentia-se escasso de ideas e até de ortografia para dignamente fazer a correspondência. Outros fidalgos lhe gabaram a esperteza de Domingos Leite, incitando-o a estipendial-o como secretario.
Convidado para o serviço da casa do capelão-mór, o moço da capela, perscrutando ao longe, na escrevaninha de D. João da Silva, uma aberta, para elevadas regiões, aceitou o encargo com dobrado salario, e saiu do paço com fastio à musica do Alvarado e aos vilhancicos do Guerreiro com que na noite do Natal lhe gelaram a piedade na alma e nos ouvidos.
Logo que pôs mão no archivo da casa de seu amo, assignalou-se a atividade inteligente do secretario.
Ganhando a confiança de D. João e também a do marquês, entrou no segredo de certos atos clandestinos da politica, e por aí lhe alvoreceram esperanças de entrar em carreira mais frizante com a sua vocação, que ele ainda não sabia ponctualmente qual fosse.
Com quanto os Silvas da casa de Portalegre ou Gouvêa não sejam nomeados entre os principais fautores da conjuração heroica a favor do duque bragantino, é averiguado que o marquês de Gouvêa e seus irmãos assentiram à sublevação de 1640; de outro modo D. João IV não nomearia seu mordomo-mor o marquês que recebera o titulo da chancela de Filipe III, cujo mordomo-mor fora também. [1]
Em casa do áulico da vice-rainha conversava-se, planeavam-se alvitres acerca da restauração, e não havia rezervas na presença de Domingos Leite, abonado por seus amos e pelo entusiasmo dos seus dizeres conceituosos em anos tão juvenis. Os douctores João Pinto Ribeiro e João Sanches de Baenã que, para assim dizer, foram o cérebro, o pensamento do gigante que estendeu braços de ferro no 1. º de dezembro, tinham justificado a confiança dos fidalgos, dignando-se aprovar a admissão de Domingos Leite Pereira às reuniões da gente media, afim de a ir educando e predispondo com argumentos patrióticos, mui eloquentemente discursados.
E o ensejo veio bem de molde à explosão das iras de um português palavroso. naquele ano de 1637 era o povo esmagado com tributos; e a nobreza, menos ferida nas suas rendas, olhava de esconso para a desgraça das classes mechanicas, e de fito para os seus próprios interesses. Não obstante, alguns fidalgos sob-capa incitavam ao longe os motins. Nos tumultos de Évora, houve precedencia de conciliábulos em que dois homens da cidade e um estranho e desconhecido das turbas oraram de feição a irritar a rebeldia às execuções tributarias do corregedor André de Moraes Sarmento.
Os sediciosos eborenses eram Sezinando Rodrigues e João Barradas; e o de fora era o quase imberbe Domingos Leite Pereira, que depois de haver pedido na praça a cabeça do corregedor, e rompido os diques à onda popular contra o arcebispo e outros fidalgos que saíram de cruz alçada a socegar os amotinados, apareceu orando às turbas preceitos de prudencia e respeito ao ancião conde de Basto.
Vê-se que a vocação do rapaz, afinal, era a politica.
Em 1638 morreu D. João da Silva. Logo o marquês de Gouvêa chamou aos segredos da sua escrevaninha Domingos Leite, exonerando-o dos encargos impertinentes da administração da casa, e investindo-o de ocupação mais condigna. Os seus trabalhos meditados e escritos eram relativos à república, já trasladando papeis misteriosos que se trocavam entre Portugal e Castella, já discorrendo de lavra própria declamações contra o uzurpador, as quais eram lidas com um sorriso de complacência por João Pinto Ribeiro, e repetidas com enfaze pelo padre Nicolau da Maia aos lagrimosos burguezes da casa dos «Vinte-e-quatro. »
A importância do filho do cuteleiro crescia à medida que o perigoso levantamento da nação calcada se avisinhava da destemida audácia de muitos e da receiosa prudencia de alguns. Domingos Leite aliáva à energia intelectual a impavidez nas mensagens arriscadas. Uma noite se oferecêra ele para entrar ao segundo andar do paço da Ribeira cujos corredores conhecia, e apunhalar na sua própria câmara Miguel de Vasconcellos. Galardoaram-lhe com louvores o romano intento; mas dispensaram-no de antecipar o sacrifício de uma vida, que poderia abrir a sepultura de muitas vidas preciosas. Acceitaram-lhe, todavia, a melindrosa missão de ir a Madrid prevenir alguns fidalgos afetos à restauração, já quando Miguel de Vasconcellos, desde os tumultos de Évora, o trazia espiado como suspeito de ser o ardente caudilho dos amotinados a casa do corregedor Moraes Sarmento.
nesta comissão associou-se Domingos Leite a um Roque da Cunha, homem passante dos 40 anos, que ele havia conhecido nas assemblêas populares do padre Nicolau da Maia, ardente impulsor do resgate do reino.
Roque vivia misteriosamente e apenas sabia o nome de sua mãe, uma D. Vicência, de quem ao diante se fará menção.
Era temido como valente, e conceituado como perverso; mas ninguém o excedia em veemência de aplausos, quando Domingos Leite proclamava acerca da independência da pátria.
A vaidade do orador transpoz os obstáculos erguidos pela má fama do seu entusiástico ouvinte, e foi procurar um amigo em Roque da Cunha. Travaram-se de intima estima, a ponto de lhe abrir o cofre dos seus segredos o homem, cujos haveres procediam de fonte desconhecida e forçosamente impura.
Entre diversas aventuras referiu o arrebatado patriota que os seus bens eram a paga de uma boa ação; porém mesquinha paga; pois que se ele pudesse contal-a em dias de liberdade para a pátria, os portugueses deveriam ladrilhar-lhe de ouro as ruas por onde passasse. Expendido o caso, depois de o exordiar com o enfaze de um Sc½vola, disse que fora ele quem matara com um tiro de pistola Pedro Barbosa de Luna, desembargador da casa da suplicação, pai de Miguel de Vasconcellos. Deste homicídio havia ele cobrado alguns mil cruzados: e, posto que o mandante fosse um opulento mercador que assim vingava a justiça de um pleito postergada pelo desembargador, Roque da Cunha recebera os tantos mil cruzados com os olhos postos na pátria captiva. (Nota 5. ª)
Este feito, com outros significativos de esforço e destemor, captaram a índole de Domingos Leite propensa à admiração da bravura que em Roque da Cunha era realçada por intendimento e graça no desplante com que assoalhava os vícios ao seu único amigo.
Tal era o companheiro escolhido nas mensagens arriscadas de Évora e de Madrid. E tanto Domingos Leite encareceu depois os serviços do amigo, na volta a Portugal, que vingou leval-o consigo a Vila Viçosa, e apresental-o ao duque, no ato de lhe entregar cartas dos fidalgos com a noticia dos planos discutidos no palácio dos Almadas.