Capítulo XI O Regicida · Capítulo 12 de 22
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Capítulo XI

Chamava a cada hora pelo pai a inconsolável Ângela.

A mãe acariciava com beijos o rosto da filha; e, soluçando, dizia-lhe que o pai não tardaria.

A menina adoeceu de moléstia que a mãe atribuiu a saudade. Maria Isabel desvelou as noites de joelhos à beira do leito; e, invocando o testemunho ou a piedade da Virgem do céu, protestava suicidar-se, assim que sua filha morresse.

Quando Ângela se amodorrava em letargia febril, Maria Isabel escrevia ao marido a história por minutos da doença da filha. Cada página terminava por nova suplica de as levar para si, a não ser que a criança expirasse, que então nada lhe pediria a não ser o perdão.

A desventurada amava o marido em aquelas horas escurissimas. As derradeiras palavras dele, ao despedir-se, compungiram-na profundamente, porque gemiam na alma onde o desalento amolentára os espinhos do ódio. O natural despeito de se ver desprezada, por espaço de ano e meio, pôde menos que a consciência de haver matado o porvir daquele homem, tão prosperado e ditoso em outro tempo! Alanciavam-na remorsos de o ter enganado, e pensou que a Providência a punia, pondo-lhe o marido no desterro e a filha na sepultura.

Ângela resurgia salva da perigosa enfermidade, quando Maria Isabel, fechando a longa relação com a fausta nova da convalescença, sobrescriptou a carta para Madrid.

naquele tempo, cartas enviadas a Espanha eram revistadas e rasgadas quando não davam margem a suspeitas. Todo o português que demorasse então em Castella pecava por traidor à pátria ou criminoso foragido à justiça. Domingos Leite Pereira fora arrolado na classe dos últimos.

Tanto que o seu confessor lhe disse que o marido não recebia as cartas, Maria Isabel, sofreando o pejo, recorreu pessoalmente ao marquês de Gouvêa, levando consigo a menina. O velho mordômo-mór recebeu-a com benevolência. As lágrimas em rosto formoso ensinam a delicadeza e afinam almas compadecidas. Entretanto, o marquês não se prestou a transmitir as cartas, receando molestar a irritabilidade de el-rei.

— Mas que mal fez meu marido a el-rei? — perguntou Maria Isabel.

— Não fez mal diretamente a el-rei; uzurpou-lhe simplesmente o direito de castigar. Quem mata um homem sem poder alegar que o fez em justa defensão de sua vida, dá a entender que o faz desconfiado da lei.

— Então o sr. D. João IV persegue meu marido?

— Não, senhora; permite que a justiça cumpra o seu dever.

— E, se eu fosse com a minha filha lançar-me aos pés da rainha?

Sorriu-se o marquês em ar de reprovação do alvitre, lembrando-se que D. Luísa de Gusmão impedira que el-rei se deixasse apiedar das deplorações da duquesa de Caminha, quando já se estavam carpintejando as peças do cadafalso. Além disso o mordomo-mor sabia que o nome da mulher de Domingos Leite chegara ao aposento da rainha com o lábeo de prostituida a um padre. Não revelou o que lhe passava na mente, e fez apenas um gesto negativo.

— Mas el-rei não me trataria com desabrimento? — prosseguiu ela.

— Não, com certeza. El-rei tractou mui urbanamente a sr. ª duqueza de Caminha, quando lhe foi pedir o perdão do marido.

— Mas não perdoou...

— É verdade; porém, são muito diversos os pedidos e as causas. Que lhe quer vossa mercê pedir?

— Que deixe vir meu marido para Portugal.

— E não seria melhor buscar meios dele ser julgado e absolvido? — replicou o fidalgo.

— Não conheço ninguém... e tenho vergonha de falar aos juízes!...

— Acho justa essa repugnância... — assentiu o marquês — todavia, se quer falar a el-rei, maior lhe deve ser o pejo.

Maria, apóz breve pauza, em que ponderou a replica judiciosa do mordomo-mor, insistiu ainda chorando:

— Se V. Ex. ª se compadecesse de nós...

— Em que posso mostrar-lhe que me compadeço das suas magoas?..

— Se V. Ex. ª tivesse modo de fazer chegar a minha filha à presença de el-rei nosso senhor com um requerimento meu...

— Hei de pedir licença a sua majestade, e espero alcançal-a. Dar-lhe-hei a resposta. Porém, supondo que el-rei lhe nega audiência ou lhe indifere o requerimento, dou-lhe um conselho. Vá para Madrid com sua filha. Seu marido de certo a não repulsará, se a senhora abrir o caminho ao perdão por intermédio da filha que ele adora. Se acontecer achal-o colérico, haja-se com discreta paciência, dispensando-se de viver em comum com ele. Vossa mercê é bastante rica. Tanto lhe faz viver em Lisboa como em Madrid. Quadra-lhe o conselho?

— Sim, sr. marquês — assentiu Maria Isabel muito reanimada — E V. Ex. ª protege a minha ida?

— Hei de conseguir que não lhe impeçam a passagem nas fronteiras, e dar-lhe-hei uma carta que esta menina há de entregar ao pai.

— E como hei de encontrá-lo em Madrid?

— Antes de vinte e quatro horas saberei de Gaspar de Faria onde seu marido se alojou. Se chegar a ir, e reconciliar-se, recomendo-lhe com muita instancia que môva Domingos Leite a sair de Espanha. El-rei tem bons amigos em Madrid que lhe relatam pensamentos, palavras e obras dos portugueses que lá vivem. Já cá é notório que Domingos Leite, dominado pelo seu funesto amigo Roque da Cunha, concorre às casas mais suspeitas dos maquinadores da nossa escravidão. Sobre queda couce, diz o ditado. Não é assim que ele há de ter por si el-rei e os juízes. Por estas e outras rasões lhe aconselho, como bom amigo que ainda sou de seu marido, que em vez de ir a el-rei, passe a Espanha; e depois, se Domingos Leite a quiser atender e à carta que eu lhe hei de dar, vão para França ou para Roma.

Nesta conjuntura entrou o secretario Antônio de Cavide, que fitou com ares de assombrado o belo rosto e garbosa compostura da dama desconhecida.

Maria Isabel, erguendo-se, disse à filha que beijasse a mão do sr. marquês, e saiu.

— Quem é esta gentil fada?! — perguntou Antônio de Cavide — Eu nunca vi mais guapa mulher!

— É a esposa de Domingos Leite Pereira.

— Oh!... é esta!?. Olha o maganão do padre Luiz com que cilícios se penitenciava! Bem me dizia el-rei que a mais bonita mulher de Lisboa, segundo ouvira ao juízo competente do sr. marquês, era a Traga-malhas... Que diria sua majestade, se a visse?

— Que diria, e que pensaria!.. — acrescentou o mordomo-mor, sorrindo com a malicia comum dos dois fidalgos.

— Eu sei cá!.. — tornou o secretario de estado franzindo o sobr'olho — Talvez desculpasse o clérigo, e perdoasse aos ciumes ferozes do marido...

— Esta é joia mais de preço que a condessa de Vila Nova!..

— Upa, upa!

— E vai muito além da açafata?

— Da Justa Negrão? Upa, upa! sr. marquês!

— Vem a ponto uma pergunta: a D. Justa está contente no mosteiro de Chellas? — perguntou o marquês.

— Está resignada desde que eu lhe mostro a filha de mês a mês.

— E el-rei continua a ver a menina?

— Levo-lh'a ao palácio de Alcântara todas as terças feiras. El-rei é doido pela pequena, e chama-lhe a sua querida infanta: mas a criança, que fez agora três anos, tem uns ares tristes que fazem cismar.

— Adivinhará as lágrimas da mãe? — aventou o marquês — Ou seria concebida em estação amargurada...

— Lá como ela foi concebida não sei; são segredos de alcova; mas a história das damas dos reis não me fez conhecer uma só que se carpisse de ser mãe...

O mordomo-mor derivou a palestra em outro rumo, receando molestar o pundunor do ministro lançarote de el-rei.

Era Antônio de Cavide tanto das entranhas de D. João IV que, se o leitor leu em a Nota 6. ª o testamento do rei, trasladado dos apontamentos originais, veria as referencias com que o seu real amigo o recomenda à consideração da rainha. Arguiam-no os áulicos de ser o medianeiro dos amores illicitos do monarca. Da açafata D. Justa Negrão segredava-se na corte que fora ele o corruptor à custa de infames aliciações, necessárias a vencer a indiferença e até a reluctancia da criada do paço. Fora ainda Antônio Cavide o agente da profissão de D. Justa no convento de Chellas, e em casa deste secretario se estava creando a filha desses amores, em que a vítima violentada ganhára vestir a mortalha monástica, volvidos dois anos, mais que longos, para o régio fastio de sua majestade (Nota 19. ª)

Este secretario de estado, raramente referido nos historiadores do reinado de seu real amo, exercia atribuições, segundo parece, nas coisas secretissimas do rei, não lhe sobrando vagar para as do estado. Ainda assim, do testamento do monarca deprehende-se que nenhum homem gosou como ele a confiança do rei até à hora final. Rodados vinte e seis anos, achamos Antônio Cavide condenado à morte, na regência de D. Pedro, como conjurado na tentativa de rebelião a favor de Afonso VI, prezo na Ilha Terceira. E dado que dois modernos historiadores[3] nos dêem Antônio de Cavide executado em Lisboa em 1673 é bem de ver que não colheram idôneas informações de escritores coevos. Carlos II de Inglaterra, enviando, a rogos de sua esposa D. Catarina de Bragança, um navio a Lisboa com embaixador expresso, a pedir o perdão do velho secretario de D. João IV, logrou salval-o do patíbulo; mas, decorrido breve termo, Cavide morreu com suspeitas de empeçonhado por insinuação do regente.

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