Capítulo IX
Ele disse que não teria animo de se despedir da filha. Animo de partir sem vê-la é que ele não teve.
Saindo do palácio do marquês seguiu o trilho de sua casa. A cada rua e travessa, por onde podia desviar-se, parava, guinando os olhos tôrvos e cheios de lágrimas, entre os dois caminhos. Em uma dessas paragens de dolorosa perplexidade avistou Roque da Cunha, que marchava de cara alta, mão na ilharga, consciência tranquila no aspecto ridente.
Esperou-o Domingos Leite, e disse-lhe ofegante:
— Amanhã sairemos de Lisboa e passaremos a raia. Prepara-te.
— Então que há?
— Uma ordem de prisão é o que vai haver contra nós. Fecha-se amanhã a devassa.
— E para onde vamos? já resolveste?
— Para Espanha.
— Está claro. O meu dinheiro são oitenta cruzados; mas tu vais assombrar Madrid com o cofre do Traga-malhas, que Deus tem na gloria dos tanoeiros.
— Eu tenho de meu ainda menos do que tu — respondeu Domingos Leite com severidade — Escrevi a meu pai pedindo-lhe alimentos; se ele mos não der, veremos em que trabalho a Providência mos depára.
— A Providência, amigo Leite, — replicou o folião — não tem neste mundo secretario das mercês conhecido, a não ser o padre santo. Este anda às avessas com portugueses, e não me parece que deva ser assaz amigo de quem lhe bate seriamente nos padres. Leva dinheiro, homem; que um português pobre em Madrid vale menos que um judeu rico em Lisboa. Mas não esmoreças se fizeste voto de ir por Castella dentro com esclavina e bordão de peregrino. Lá está em Madrid minha mãe. Se ela me reconhecer e não tiver pejo de me haver gerado, não nos há de faltar boa mesa em casa de meu padrasto o desembargador do Paço Francisco Leitão...
— Não percamos tempo — interrompeu Domingos Leite, aborrecido do tom jovial do interlocutor — À noite, serei em tua casa, e de manhã partiremos.
— Olha lá, Domingos Leite, — volveu Roque, cingindo-lhe o braço pelas espaduas — conselho de amigo que anda cá neste vale de lama há quarenta e oito anos...
— Que é?
— Não deixes a mãe de tua filha à matroca, com lastro de vinte mil cruzados na falua, e vinte e dois anos de idade, e com mais tentações no rosto que todas as moiras juntas em noite de S. João. Convento com ela, ouviste?
Domingos Leite encarou torvamente Roque, e respondeu-lhe, passados dois segundos:
— Que me importa isso a mim? Sabes que, há um ano, vivo ao lado da mãe de minha filha, como se entre nós se metesse a pedra que separa duas sepulturas. Nunca pensei em lhe dar maior castigo que o do meu desprezo. O enclausural-a dentro dos ferros do mosteiro não a lavava da mancha indelevel de donzela que foi as delicias de um padre. Eu sentia por ela alguma coisa mais implacavel que o ódio: era o nôjo. Que me faz a mim já agora que essa mulher cave com as próprias mãos mais um palmo no seu abismo de lôdo?
— Palavrório! — replicou o quadrilheiro — Se tua mulher te não fosse leal, enforcaval-a como o alcaide de Belmonte fez à mulher por causa de outro clérigo da casta do padre Luiz da Silveira. (Nota 11. ª) Contava-me o caso minha avó, que era do tempo em que se enforcavam as fidalgas adulteras.
— Acabemos esta semsaboria... — cortou Domingos Leite com trejeitos desabridos — Cuida de ti, e não entrevenhas nas coisas alheias da tua alçada...
— Intervim de mais... — murmurou Roque estomagado do repelão — Cá vou tratar de mim, amigo Leite... Sempre será bom que me não ponham a prumo no logar onde eu pus o padre de bruços, por intervir de mais nas coisas alheias da minha alçada. Até à noite.
Ao separarem-se assim irritados, Leite Pereira, pezaroso da sua impertinencia, ainda se voltou para chamar o amigo e dar-lhe satisfação das palavras rudes; mas Roque da Cunha estugára o passo, como quem ia mais preocupado da devassa que da ofensa.
Este incidente carregou mais a treva daquela alma. Zoavam-lhe estridores metálicos na cabeça, e confragia-se-lhe a fronte crivada de dores como se esgarçassem por ela os espinhos mordentes de uma corôa. A revezes, parava, porque o respirar lhe dava aflições, ou o pavimento se lhe figurava um despenhadeiro. Quando chegou a sua casa, à Porta do Salvador, sentou-se no escabelo do pátio, e arquejou largo espaço, olhando para a escada, ainda indeciso se subiria a despedir-se da filha, se encarregaria um criado de lhe levar a sua bagagem a casa de Roque da Cunha.
neste comenos, entrava Maria Isabel, vinda de fora, com a criancinha pela mão.
Estremeceu dando de rosto com o marido. Leite Pereira, ao vê-la, ainda se esforçou por evital-a; mas a filha corrêra contra ele, com os braços abertos, balbuciando palavras cariciosas. O pai sentou-a sobre os joelhos, e rompeu em alto choro, que a menina acompanhava em gritos, afagando-lhe as faces e beijando-lh'as com ternissima ansiedade.
em isto, levantou-se de golpe, aconchegou do seio a filha, e subiu aceleradamente as escaleiras.
Seguiu-o Maria Isabel, sinceramente consternada, dizendo-lhe palavras maviosas; e, quando ele entrava no seu quarto e fazia menção de se fechar por dentro, a mulher, arrostando o perigo de sofrer o embate da meia-porta, rompeu de pôs o marido, e, pondo-se de joelhos, exclamou:
— Se podes ser mais feliz com a minha morte, peço-te que me acabes de uma vez!.. Eu já não posso com o teu desprezo; tenho procurado viver por amor desta criança; hoje creio que ela já não precisa de mim, visto que tu a amas, e a Virgem do céu atendeu os meus rogos. Desde que me abandonaste, não cessei de pedir a Deus que te voltasse o coração para a nossa filha, embora eu fosse a odiada. Agora que o meu querido anjo tem o teu amparo, peço a Deus que me tire deste suplicio; peço-te a ti que me dês uma morte bem rápida, de modo que eu não possa ver na minha agonia de morte esta menina a chorar!...
Domingos Leite, que havia sentado a filha sobre o leito, ouviu a exclamação de Maria Isabel, fitando-a com terrível imobilidade de olhos. E, quando ela acabou a suplica, e parecia de mãos postas esperar a morte, o marido, avançando para ela os dois passos interpostos, disse-lhe com serena voz:
— Levante-se e escute-me!
Ela ergueu-se encarando-o espantada, e abeirou-se do leito em que a menina, de pé e tremente, relançava olhares espavoridos entre o pai e a mãe.
— Sou obrigado a desterrar-me, senhora! — disse ele pausadamente — À mulher, que fez da sua mocidade o opróbrio do marido, e que fez do marido um assassino, é preciso que eu nesta hora lhe diga que amanhã a justiça me pedirá contas da vida de um homem que devia morrer, visto que ele matara a honra da mulher de Domingos Leite. Vou homisiar-me, e não mais voltarei a Portugal, porque vai comigo a ignomínia que lá fora me há de espedaçar...
— Ó Domingos... — exclamou Maria Isabel — Ó filho do meu coração, leva-nos contigo!..
— Não me atormente com interrupções frívolas! — obstou ele mal assombrado — Deve saber, senhora, que eu vou sair de sua casa extremamente desvalido, pobrissimo, com umas migalhas que ontem recebi dos meus ordenados. Há de encontrar de portas a dentro tudo que seus pais lhe deixaram, e o mais que eu lhe pude acrescentar com os meus recursos. Se alguém na sua presença me alcunhar de homicida, não me defenda; mas, se lhe disserem que eu no desterro mitigo as saudades da pátria com os haveres da mulher que a fatalidade me deu, negue, negue, senhora, porque eu fui cinco anos seu marido, e não toquei em um cruzado do seu patrimonio. Prouvera a Deus que esta criança tivesse a necessária inteligência para me ser testemunha da minha pobre honra, por essa parte ilesa! Oxalá que depois da minha morte esta menina pudesse dizer que seu pai foi um desgraçado sem nodoa na sua probidade!..
Fez uma dilatada pausa, porque os soluços lhe cortavam as palavras, enquanto Maria Isabel, tomando a filha nos braços, lhe ajoelhava outra vez.
— Não serve de nada essa humildade, senhora! — volveu ele com desalento e desesperação — Levante-se; peço-lhe que se levante, se alguma pena tem de mim. Eu necessito pedir-lhe que seja boa mãe... que ame esta criança, que reduza a sua existência em lhe preparar o futuro. Lembre-se que eu lá do desterro lhe estou sempre pedindo que se sacrifique à minha filha. Expie a sua culpa, formando-lhe o coração com as virtudes que até as mães péssimas conhecem quando chegam a ter pezar do seu vilipendio. Faça tudo que entender preciso para que sua filha não leve com um pouco de ouro um grande cabedal de infâmia a seu marido. Vigie-lhe os passos da mocidade afim de que o marido, que lhe escolher, não tenha de apartar-se dela com o ferrete de assassino na fronte. Não tenho mais que lhe pedir. Agora, rogo-lhe que me deixe.
— Não, não te deixamos... — tornou a esposa — Ó Ângela, ó minha querida filha, pede com as mãos erguidas a teu pai que nos deixe acompanhá-lo!
A criança ajoelhou, suplicando:
— Deixe, deixe, meu pai!..
Domingos Leite pôs na mulher um olhar enfurecido, fez arremêço de indignação, e bradou:
— Quem lhe disse, mulher, que eu lhe perdoei?! Se estava morta para mim, como hei de eu dar-lhe vida de esposa, fazê-la minha companheira do desterro, quando a justiça me persegue porque eu lhe matei o amante?
E, ao proferir a palavra indecorosa, olhou vertiginosamente para a filha, travou dela com impeto frenético, ergueu-a à altura dos lábios, e murmurou:
— Eu morreria de vergonha, se me tivesses comprehendido!..
E, voltando-se para Maria Isabel, que tiritava apoiada no espaldar de uma cadeira, bradou-lhe:
— Deixa-me levar minha filha? deixa-m'a levar só a ela?..
— Meu Deus! — exclamou a mãe.
— Diga, diga! — instou ele com crescente veemência — Fica-lhe tudo, riquesa, mocidade, liberdade, tudo; mas deixe-me levar Ângela... Não deixa?
— Não posso, não posso!.. Mate-me, mate-me, e depois leve-a!..
— Que a mate!.. Olhe que eu não tenho sangue nas minhas mãos, mulher!.. Veja-as, que estão limpas... eu levo sobre a consciência o peso de uma enorme vergonha; não levo o peso de um cadáver, percebeu-me?... Pois cuida que as entranhas que tanto amam uma filha podem ser as de um carniceiro? Poderia matal-a o homem que viveu ano e meio nesta mesma casa, sem ver a mulher que o mundo chamava minha esposa, e que viveu aqui, e daqui saía todas as manhãs com aparências de feliz, para que o mundo duvidasse de que a senhora tinha sido a recatada amante de...
Soffreou de novo a palavra infamante; e, cravando os olhos nos de Ângela, parecia indeciso sobre a inteligência da criança.
— Ó infindo tormento! — clamou Domingos Leite apertando a cabeça, e debruçando-se prostrado sobre o leito.
neste lance, Maria aproximou-se do marido, pôs-lhe a mão no ombro, e murmurou:
— Olha, Domingos, escuta... Leva a nossa filha.
— O quê?! bradou ele, erguendo-se.
— Leva a criança. Queres ir com teu pai, Ângela?
A menina deteve-se a responder, olhando para ambos alternadamente.
— Queres ir comigo, filha? — perguntou o pai.
— E a mãe também vai? — disse a menina assustada e irresoluta.
— Eu vou-me embora, e nunca mais volto — tornou o pai — Não me tornas a ver. Queres ir com o teu pai?
— E não torno a ver a mãe?
— Hás de ver, menina — acudiu Maria Isabel engulindo as lágrimas — Tu depois hás de pedir ao pai que me deixe ir ver-te, sim?.. pedes, filhinha?
Ângela, sem perceber a profundesa do trance que ali se passava, abraçou-se na mãe, chorando. Domingos Leite cruzou os braços contemplando mãe e filha que se estreitavam num abraço convulso como o estorcer de suprema angustia. Volvidos alguns segundos, disse com o desanimo de alma emfim sossobrada:
— Irei só. Tu ficas, Ângela. Deus não quer que o anjo de inocência vá nos braços de um pai homicida mendigar o pão de estranhos. Não deves ter quinhão do meu castigo, pobre menina!... Agora, peço de novo à sua compaixão... Maria Isabel... que leve sua filha, e me deixe só...
A esposa saiu com vacilantes passos, levando a menina à força. Domingos Leite volveu de novo a beijal-a, e impeliu-a brandamente para fora do quarto. Depois, correndo a língua da chave, voltou-se para um Senhor Crucificado, e disse mentalmente:
— Forças, meu Deus! Guardae-me os maiores tormentos para o desterro, e dae-me alento neste lance!