Capítulo III O Regicida · Capítulo 4 de 22
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Capítulo III

O que o leitor sabe sobejamente da história seria impertinencia repetir-lh'o no romance.

A revolução de 1640 é tão falada, desde a escola de instrução primaria até às festividades retoricas de cada 1. º de dezembro, que a pessoa inteligente em cuja mão este livrinho tem o préstimo de a livrar de ler outro pior, me está pedindo que dê vivas à independência nacional e passe avante.

Seja assim, para agradar a V. Ex. ª e não defraudar historiadores que não tem, quando historiam, análoga consideração com os novelistas.

O duque de Bragança era já D. João IV; e Domingos Leite Pereira, desde Janeiro de 1641, era escrivão da correição do cível da corte, logar que rendia para mais de trezentos mil reis — quantia valiosissima naquele tempo. Além disso fora-lhe facultado arrendar o ofício e continuar exercendo o posto de secretario do marquês de Gouvêa, mordomo-mor de el-rei, e do seu conselho de estado e despacho. O marquês, indo semanalmente à corte, levava consigo no coche o seu secretario: e bem que o deixasse na sala da espera, algumas vezes o rei admitiu ao gabinete de despacho o diserto moço folgando de o ouvir remedar alguns bassos e tiples da capela real da princeza Margarida. É notório que D. João IV foi muito caroável de musica; e, sendo analfabeto em quase tudo, publicou em 1649 uma Defesa da musica em língua castelhana, para dar bom exemplo de patriotismo aos escritores coevos. (Nota 6. ª) Concorriam em Domingos Leite Pereira predicados bastantes a distinguirem-no. As meninas cazadoiras viam o rapaz de vinte três anos, esbelto, valoroso, bem-quisto dos fidalgos, estimado de el-rei. Os pais destas meninas viam o escrivão da correição do cível, o secretario do conselheiro de estado, o mancebo fadado para coisas grandes.

Nem sequer uma leve mancha de judeu, mulato, ou mouro na candidez de tantos méritos! nem fama publica de vícios, em época tão eivada da corrupção da mocidade! Bastava a honrar-lhe os créditos de bom cristão ser ele sobrinho de fr. Gaspar de Santa Teresa, já prior de franciscanos, e tão bom patriota que havia sido ele o primeiro que dera a ideia de despregar o braço de Jezus crucificado afim de persuadir ao povo revolto no 1. º de dezembro que a imagem do Redemptor desencravára a mão da haste da cruz para abençoar o povo que lhe estendia os devotos braços banhados de sangue!

O manuscrito que vai architectando este livro, ao entrar no período amoroso de Domingos Leite, diz singelamente: «saíram-lhe muitos cazamentos. » E, nomeando algumas noivas de nascimento ilustre, repára e nota que o escrivão do cível se esquivasse a aparentar-se com famílias primaciais regeitando a neta de um bispo do Funchal, que era muito parenta da casa de Bragança e descendente de reis. (Nota 7. ª)

Passava então por ser uma das mais lindas mulheres da classe media, em Lisboa, Maria Isabel, filha de um ricasso da rua dos Tanoeiros, João Bernardes, de alcunha o Traga-malhas. Aos quinze anos era a moça tão tentadora, os fidalgos tão tentadiços, e a honra das famílias tão menosprezada, que a mãe de Maria Isabel fez voto ao santo Antônio de fr. Bartolomeu dos Mártires acender-lhe luz toda a noute para que lhe vigiasse a filha enquanto ela fosse solteira: tamanha era a falta de iluminação e policia na rua dos Tanoeiros em 1639! (Nota 8. ª)

Como era filha única e seus pais contavam bons vinte mil cruzados em moeda, Maria teve mestre de escrita em casa — um padre de boa fama, do qual ao diante daremos ampla e funesta noticia. Formosa, rica e esclarecida, por consequência um ótimo cazamento para filho segundo de casa ilustre, e o mais que podia ambicionar Domingos Leite.

Foi o tio fr. Gaspar quem lhe falou o cazamento, por ser muito da família Traga-malhas, e diretor espiritual da mãe da noiva.

Maria, ao principio, balbuciava respostas evasivas a respeito de cazar-se; porém, quando viu Domingos Leite, e o ouviu dizer-lhe umas palavras tão cândidas que mais o pareciam pelo que o rosto respiráva de amorosa brandura, decidiu-se apaixonadamente.

No entretanto, quando tudo era alegria na família, Maria Isabel escondia-se a chorar, e fazia promessas valiosas ao santo Antônio do sabido nicho em troca de um milagre de costa acima. Lá ao diante, formará o leitor conceito da natureza do milagre solicitado, e então verá que tal era ele que o santo, se o não fez, foi porque realmente não pôde.

O escrivão do cível da corte recebeu os emboras dos amigos mais ou menos invejosos, quando anunciou o seu noivado com a filha do Traga-malhas; e redobrou a inveja das congratulações ao saber-se que o rico tanoeiro dotára a filha com dez mil cruzados. Ora para aproximadamente computarmos o valor de dez mil cruzados naquele ano de 1642, basta saber-se que, no ano anterior, o mais opulento negociante de Lisboa, Pedro de Baeça, tesoureiro da alfandega, condenado à morte em suplícios atrozes, como cúmplice na conjuração de alguns fidalgos contra D. João IV, ofereceu em troca da vida a enorme quantia de trinta mil cruzados!

Domingos Leite Pereira foi presenteado com rica baixela de prata pelo rei, quando alfaiava a sua casa no sitio chamado o Salvador. O marquês de Gouvêa assistiu como padrinho do cazamento, e o prelado franciscano deu a benção nupcial aos cônjuges, e uma preciosa gargantilha de diamantes à esposada, por ordem de sua irmã, e de seu cunhado, pais do desposado.

Principiou na alcova conjugal, quando os anjos do amor e da ventura deviam vedar os umbrais dela à tristeza e à desgraça, uma secretissima luta de desconfiança e lágrimas, de invectivas afrontosas e juramentos de mãos erguidas. Quem diria que, àquela hora alta da noite, uma formosa mulher, com as tranças desatadas em serpentes pelas espaduas convulsas, ajoelhava aos pés do marido, e, lavada em lágrimas, soluçava:

— Eu te juro que nunca amei outro homem! Não intendo as perguntas que me fazes! Fui criada no regaço de minha mãe! Nunca saí de casa senão para a igreja, e sempre com minha mãe! Os homens que para mim olhavam uma vez não me tornavam a ver... Não me perguntes se amei alguém neste mundo, que metes a tua alma no inferno, e me dás vontade de me ir afogar no Tejo com a minha vergonha!..

Já se vai vendo que o padre Santo Antônio do nicho assistia de longe e neutral a este lance.

A luz do dia seguinte não alvorejou na alma entenebrecida de Domingos Leite Pereira. Apenas rompeu a manhã, o noivo saiu do talamo como de um cavalete de tractos, e foi em direitura procurar o seu antigo mestre de farmácia Estevão de Lima. Admittido à escrevaninha do matutino boticário do Hospital real, revelou no rosto livido o febril anseio de intender as anomalias possiveis na estructura do corpo humano. Disse ele ao sábio em poucas e tartamudas palavras a ignorância que o atormentava.

Estevão de Lima ouviu-o cabeceando, baixou os óculos da testa sobre o promontório do nariz, ergueu-se silencioso, abeirou-se das altas estantes dos seus livros, e tirou as seguintes obras de medicina, que ia sacudindo da poeira, e atirando para sobre a banca: Amatus Lusitanus (ou João Rodrigues de Castelo Branco) Abraham Nehemias, Tomaz Rodrigues da Veiga, Antônio Luiz, João Valverde, Garcia Lopes, Averroes, Afonso Rodrigues de Guevara.

Quando desempoava o último, afirmou o douto boticário:

— Este físico é chavão na matéria, se bem me recordo.

E, percorrendo a lista alfabética das coisas notáveis, pôs o dedo infalível na questão subjeita, e disse ao ofegante interlocutor:

— Veja isso a páginas 488, coluna 1. ª

O conteúdo da coluna 1. ª da página 488 da obra admirável, chamada De re anatômica, não se reproduz, em respeito às damas que se dispensam de saber anatomia, apesar da senhora Deraisme, certa adversaria conspícua de Dumas, para a qual o saber ciências da organização humana é coisa útil às damas maridadas.

Qualquer que fosse, porém, o contexto da página consoladora, é certo que na face de Domingos Leite transpareceu a claridade da interior alegria, e tanto era o desafogo, e desopresso o respirar do moço, que se abraçou no seu antigo mestre, exclamando:

— Vossa mercê apagou-me o inferno da alma, e tirou-me da mão o ferro uxoricida!

— Ó mentecapto! — volveu Estevão de Lima — Quem querias tu matar?!

— Ela que me infamára aos olhos do homem que ma atirou aos braços com uma gargalhada!

— Sobre infamado, matador! — acudiu Estevão — Ruim filosofo és, Domingos Leite! Se o meu autor Guevara te não defendesse a esposa com o escudo da física, ainda assim deveras cristã e honradamente desligar de ti a mulher indigna, e salvar tua honra interpondo o juízo do mundo como juiz na tua causa. A sentenciada seria ela; e tu, se fosses lastimado, não perderias com isso o direito à veneração dos homens de bem.

— Excelentes rasões... — atalhou Domingos Leite; — mas, sr. Estevão, se eu um dia for enganado, não me dê essas nem outras melhores, que eu não lhas escutarei...

Discorreram sobre o assumpto breve espaço, porque Domingos Leite anciava reconciliar-se com a esposa, pedir-lhe perdão da injúria, indemnisal-a das perguntas ultrajantes com afagos de noivo apaixonado e repêzo da injustiça.

Maravilhou-se Maria Isabel, quando o esposo entrou alegre, e a surpresou enfardelando nos baús os seus vestidos.

— Que fazes?! — perguntou ele já de má sombra.

— Arranjava a minha roupa...

— Com que intento?

— De me voltar a casa de meu pai.

— Fugindo?

— Fugindo, não; livrando-te da mulher inocente que tu cobriste de afrontamentos.

Demudou-se-lhe o semblante em ares suplicantes, e dobraram-se-lhe os joelhos aos pés da esposa ilibada pela página 488, coluna 1. ª, do livro De re anatômica do físico taumaturgo Afonso Rodrigues de Guevára.

— Perdoas-me? — balbuciou Domingos Leite, ungindo-lhe a cara de lágrimas.

E ela, que ainda tinha pudor na consciência, sentiu embargar-se-lhe na garganta a palavra que perdoava, e ajoelhou também apertando-o freneticamente ao coração.

Amaram-se em redobro desde aquele momento: ele porque ofendera uma inocente; ela... porque o santo Antoninho do nicho lhe fizera afinal o milagre. «E, se não era milagre, diria ela consigo, onde foi meu marido desfazer as suas suspeitas? quem o despersuadiu? »

Nós é que sabemos como foi.

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