Notas
NOTA 1. ª
Diogo de Alvarado foi grande tangedor de tecla, que é o mesmo que de órgão. Viveu longa vida e conservou sempre a mesma destreza e agilidade no tanger daquele instrumento. Quarenta e três anos exerceu o ofício na capela real no tempo dos Filipes, e ainda três no reinado de D. João IV. Está sepultado na igreja de Nossa Senhora dos Mártires, onde tem este epitáfio: Sepultura de Diogo de Alvarado tangedor de tecla na capela real 43 anos, e de sua mulher, o qual faleceu em 12 de fevereiro de 1643. «Memorias (ineditas) de Diogo de Paiva de Andrade. » Estas Memorias referem-se à antiga igreja arrazada pelo terremoto de 1755. deste musico não encontramos outra noticia, nem dele a teve o cardeal patriarca D. Frei Francisco de S. Luiz na Lista de alguns artistas portugueses. (Lisboa, 1839).
A referencia que acima se faz a Guerreiro, intende com o padre português Francisco Guerreiro, mestre da capela da Santa Igreja de Sevilha, o qual, como ele mesmo refere no seu Itinerário da Terra Santa, estando em Veneza por agosto de 1588, aí mandara imprimir os seus livros de musica.
NOTA 2. ª
Esta novidade da morte de Bernardim Ribeiro Pacheco, a tiro, na rua Nova, deparou-em ol-a um manuscrito que possuimos intitulado MEMORIAS COLLIGIDAS POR DIOGO DE PAIVA DE ANDRADE. destes nomes e apelidos houve tio e sobrinho. O primeiro foi grande teólogo e mui sizudo padre que decerto não ferragearia os escândalos que enxameam nas MEMORIAS. O sobrinho, mais mundanal, e autor do Casamento perfeito, seria o colector de biografias, um tanto airadas, entre as quais está a do amador da infanta Beatriz. Diogo de Paiva nasceu em 1576 e morreu em 1660.
NOTA 3. ª
Memorias citadas. Concordam com a suposição de Manuel Faria e Sousa nos Comentários às rimas de Luiz de Camões, e nomeadamente à Canção VII e ao Soneto LXXVII.
NOTA 4. ª
O fidalgo, que assim ameaçou brutalmente uma senhora, foi D. Carlos de Noronha. Este sujeito havia sido estrenuo cortezão da corte de Madrid, e recompensado por Filipe III largamente; porém, como pedisse uma graça que o rei lhe não concedeu, voltou aggravado para Portugal, e inscreveu-se entre os conjurados com arrebatado patriotismo. Como a cobiça fosse o estimulo mais enérgico dos seus atos, curou de se enriquecer, litigando a posse dos bens a quem os tinha. Questionou a casa de Linhares a D. Miguel de Noronha, e perdeu a demanda. (Veja-se a História Genealógica da Casa Real, T. 5. º, página 270). Em seguida, como o marquês de Vila Real fosse degolado, demandou a corôa sobre a sucessão da casa do sentenciado: perdeu a demanda. (Veja-se a História Genealógica da Casa Real, T. 2. º, livro 3. º página 521). Como lhe não rendesse nada o vampirisar nos cadáveres dos justiçados, fez uns Estatutos da Ordem de Avis em que constituiu visitador geral das ordens militares de Portugal o presidente da Mesa da Consciência. Ora, como ele foi toda a sua vida presidente da referida Mesa, e pelo conseguinte visitador vitalicio, arranjou por este engenhoso meio traças de se locupletar, pondo em almoeda as suas concessões. Eis aqui um dos noventa heróis de 1640! Quem os quiser contar leia a História da Acclamação etc., por Roque Pereira Lobo.
NOTA 5. ª
Pedro Barbosa foi assassinado em 1621, quando recolhia da Relação para sua casa, que era um palácio na Ribeira. Este palácio, depois de 1640, passou a um dos conjurados, de apelido Noronha, e era dos marquezes de Angeja, quando o terremoto de 1755 o aluiu. Pedro Barbosa de Luna era de Vianna do Minho.
NOTA 6. ª
O receio de que nos arguam de injusto nesta apreciação do fundador da dinastia bragantina, obriga-nos a dar cópia exacta de um autografo, que possuimos, de D. João IV: são os apontamentos que o rei deu a Pedro Vieira da Silva como bazés do seu testamento. Quem leu o Testamento delrei D. João IV no tomo IV das Provas da História Genealógica da casa real por D. Antônio Caetano de Sousa, página 764 e seguintes, e o reputou da lavra do monarca, tem rasão, se formar bom conceito da inteligência do testador; quem porém vir os traços fundamentais desse documento, duvidará que ele haja sido o autor do livro de musica. Aqui está o traslado textual do testamento escrito do punho de D. João IV:
«Jesus Maria a quem emcomendo minha alma, nomeio primeiramente por herdeiro de meus Reinos, e Senhorios ao Príncipe D. Afonso meu filho como a quem diretamente pertensem e porque ele se acha em menor idade declaro por Regente de meos Reinos e tutora de meos filhos a Rainha minha sobre todas prezada mulher; e porque ela pode morrer ainda durante amenor idade de meu filho em tal cazo podera nomear os Tutores ou Tutor Governador ou governadores para meus filhos e estes Reinos e Senhorios pelo conhecimento que tem deles e de meus vaçalos e porquanto fio dela e de sua prudencia e do amor que me tem que detudo o que aentregar fara o que eu fizera por ela a nomeio por minha testamenteira e que faça pelã minha alma tudo quanto a ela lhe parecer que me comvém.
«Ordeno que meu corpo seja enterrado no convento de S. Vicente defora para onde se tresladarão os ossos de meu filho o Príncipe D. Teodozio e os de minha filha a Infanta D. Joana para o que se faram sepulturas decentes e no dito convento se diram coatro missas cotudianas duas pelã minha alma e duas pelo Príncipe e Infanta.
«Deixo que os meus bens livres serepartão por meus filhos conforme a cada hum tocar e peço ao Príncipe lhe conserve as doaçoens que tenho feito, e espero dele o faça e lhe acrecente outras visto que eu por não defraudar o patrimonio Real lhas dei tão limitadas. Deixo aminha terça ao Príncipe mui sobre todos prezado filho e que dela setirem vinte mil cruzados que a Rainha minha testamenteira repartirâ em obras pias cazando orfas e donzelas e dando esmolas a viúvas e pobres e porque destes há muitos que são meus criados mando que seião (sejam) preferidos, e porque Antônio Cabide tem de todos inteiro conhecimento a Rainha se informara dele para saber quais são os mais beneméritos e três nomeadamente cujos nomes dira o meu confesçor.
«De Antônio cabide tenho inteira satisfação pelo modo e zelo com que sempre mecervio e assim peço a Rainha sequeira servir dele no mesmo modo com que eu me cérvia porque fio dele o fara com toda a satisfação, e porque muitos tempos correu com toda a minha fazenda e medeu dela inteira conta o dou por quite e livre e que este lhe cirva de quitação. Declaro que tenho huma filha por nome D. Maria de huma mulher Limpa que esta no convento de Carnide a quem deixo a comenda maior de santiago para a formatura da qual tenho passado decretos a mesa da conciencia e ordens e se impetrarão do Papa os breves necessários e assim mais as vilas de Torres vedras colares, e os lugares de Azinhaga, e cartaxo, que logo os faço vilas com jurisdição a parte com todas suas doaçoens de juro, e herdade sempre sojeitas a Lei mental, e porque nestas doaçõns pode aver ao diante dúvida algua mando ao Príncipe meu filho lhas satisfaça enquanto eqivalente, e sincoenta mil cruzados para por sua casa. E porque no modo e Estado que ela ouver de tomar tive alguns intentos de que tudo sabe Antônio Cabide pesso a Rainha informada dele siga minha mesma vontade. [13] Tenho tratado casar minha filha D. Catherina com El Rei de Franca por assim mo averem pedido Menistros daquela coroa e porque de todos estes negócios sabe a Rainha lhe pesso siga neles meus próprios intentos.
«A Antônio Cabide dava todos os anos atitolo decerto cerviço meu das Rendas da casa de Bragança dois mil cruzados, a D. Maria minha filha mando se lhe dem na mesma forma até tomar estado.
«Tenho satisfeito os testamentos de meus Avos principalmente tudo o que meu Senhor e Pai mandou e porque ao Morgado da Cruz conforme sua mesma instituição devo acrecentar Vinte mil cruzados de renda mando que dos meus bens se acrecentem.
«Os Reis mais que os outros homens devem dar ao mundo razão de suas acçõens. E assim digo que me restituhi a estes Reinos, e Senhorios por entender o devia fazer em conceencia por livrar a meus vaçalos do domínio, e violência estrangeira e esta razam me obrigou a fazer huma couza que poderia ser contra meu natural. A Justiça e a observância dela conserva as Monarchias maís que as armas e assim encomendo ao Príncipe meu filho siga nesta matéria inviolavelmente esta ação.
«De todos meus criados tenho inteira satisfacam por me averem servido com lialdade zelo, e trabalho principalmente os oficiais de minha casa, Mordo mor (Mordomo-mor) Estrebeiro mor, capelão mor, Porteiro mor, e os mais, que aqui hei por expreços, e declarados, e peço ao Príncipe meu filho se sirva deles porque o faram como eu sempre experementei. O conde Camareiro mor do meu concelho de Estado me tem servido nesta doença como nas mais comtodo cudado e trabalho assim mando ao Príncipe meu filho lhe faca toda a honra e Estimação que mereceo e mando se lhe entregue mil cruzados para repartir com os Moços da câmara que me cervirão nesta doença. Declaro que governei este Reino com toda a Justiça comforme entendi e se herrei em alguma de minhas acçoens como homem foi sempre cudadozo qual hera o melhor que se devia obrar.
«Tenho declarado a Rainha hum pessoa para Aio do Príncipe que ela nomeará quando lhe parecer.
«Tenho muitos papeis tocantes ao governo deste Reino, e conhesimento de meus vasalos que podem servir à Rainha e ao Príncipe e porque da publicação deles pode rezultar perjuizo amuitas pessoas mando que o Bispo meu confessor e Antônio Cabide fassão inventario deles, e os entreguem a Rainha.
«Fui muito corioso da minha livraria da muzica, e assim para que se conserve lhe deixo corenta mil reis todos os anos para fabrica, e mando que esteja sempre na casa em que está, e que se empetre hum breve do Papa com excumunhão reservada para que senão trezlade digo tire dela Livro nem papel nem se trezlade, e nomeio para Biblioticario dela a Antônio Barbosa com cecenta mil reis de ordenado, e por Ajudante a Domingos do Vale seu irmão, e faltando estas pessoas se hirão nomeando outras para sempre estes cento e corenta mil reis (que) fara a Rainha logo assentar no melhor parado da minha fazenda declarando se não tire nunca das rendas da capela.
«A minha capela mando se acabe do mesmo modo que eu tinha ordenado com Santuário Retabulo e çacrario e porque Antônio Cabide sabe o modo com que eu queria isto o deixo por superintendente desta obra.
«Tenho mandado a Holanda empremir as obras de João Soares Rabello da qual Impresão lhe faço merce rezervando para aminha Livraria vinte Livros e os outros espalhara por Itália e Castela. [14]
«E como na observância da Justiça consiste a conservação do Reino declaro que os Governadores das armas não terão nas Justiças mais jurisdição que a que tem os capitaens de Africa. Fim do testamento. »
Quem estiver de pachorra confronte este modêlo de supina ignorância dos rudimentos da arte de escrever, com o estilo garrafal e engalanado do secretario de estado Pedro Vieira da Silva. E depois, se poder, acredite em D. Antônio Caetano de Sousa (Hist. Genealog. da Casa Real, tomo VII, pag. 240) quando lhe diz que D. João IV ditara a Antônio Cavide a maior parte ou todas as Relaçoens anonimas das campanhas entre Espanha e Portugal, impressas entre 1641 e 1643, com o fim de ter contentes os ânimos dos seus vassalos, e satisfeitos com os bons sucessos de suas armas. O linhagista da casa de Bragança não satisfez o seu encarecimento servil com menos de inventar um literato no fragueiro monteador de veados em Vila Viçosa.
Convém notar que o redator do testamento procedeu sensatamente expungindo dos régios apontamentos a clauzula de impetrar do Papa excomunhão para quem trasladasse algum livro da Biblioteca da musica. Vilão espirito e rancorosa alma que ainda almejavam sobreviver-se no tumulo! dessa estupenda biblioteca, no dia 1 de novembro de 1755, não deixou o terremoto sequer um livro!
O autografo de D. João IV, aqui trasladado, pertenceu à livraria do ministro de estado Fernando Luiz Pereira de Sousa Barradas.
NOTA 7. ª
Remechendo com infatigável curiosidade o archivo das memorias que há vinte anos vamos collegindo ácêrca de filhas de bispos e outros coitos damnados, encontramos um apontamento que dilúcida a obscuridade do manuscrito, e nos declara a ascendência da menina regeitada por Domingos Leite Pereira. É o seguinte caso, salva melhor interpretação:
O infante D. Fernando, pai de el-rei D. Manuel, teve uma filha bastarda que se chamou Leonor. A rainha D. Leonor, mulher de D. João II, e meia irmã daquela menina, levou-a para o paço, e educou-a com esmero e carinho de irmã. Saiu a dama muito namoradeira e desatinada, com imenso dissabor da rainha, que a reprehendeu repetidas vezes inutilmente. Até que um dia, estando a corte em Santarém, a irmã colheu a bastarda de sobresalto galanteando da janela para a rua um cavaleiro que deu de esporas ao presentir a rainha. Travou-se altercação rija entre as duas Leonores, rompendo a bastarda no excesso de reguingar que havia de casar-se com quem muito lhe quadrasse. «Isso não! — replicou a mulher de D. João II — hás de casar com quem eu muito bem quiser; e há de ser com o primeiro homem que passar na rua, se for solteiro. » neste lance, apontou na extrema da rua um homem ordinário, de nome Álvaro Fernandes, correeiro de ofício. Chamou-o a rainha, deu-lhe um dote, e ordenou ao capelão que os cazasse. Tiveram filhos. O padre Jerônimo Fernandes, de Santarém, era bisneto da tal casquilha, filha do infante D. Fernando, e irmã de el-rei D. Manuel e também por tanto bisneto do tal Fernandes correeiro. O padre alegou e provou a Filipe II que era terceiro neto do infante D. Fernando, e obteve a mitra do Funchal. Este devia ser avô da noiva regeitada.
NOTA 8. ª
A rua dos Tanoeiros ou Tanoaria principiava ao pé do Paço da Corte Real, e seguia até ao Arco do Ouro junto ao Terreiro do Paço. nesta rua se arruavam os tanoeiros em 1318, em numero de quinze. Quanto ao Santo Antônio de frei Bartolomeu dos Mártires, sabe-se o seguinte para explicar o texto: em casa humilde nasceu nesta rua o venerável arcebispo de Braga frei Bartolomeu dos Mártires; e na fachada da casa onde nasceu, ainda antes de 1755 havia um nicho com a imagem de Santo Antônio que o arcebispo, quando estudantinho, fizera com um canivete. Este Santo Antônio era festejado todos os anos à custa dos devotos da rua, e conservou sempre lampadário aceso, de noite e dia, porque toda a freguesia dos Mártires se apegava com o milagroso Santo nas suas necessidades.
NOTA 9. ª
É notável este facto omitido pelos historiadores, esquecido na tradição, e consignado nas Memorias coligidas por Diogo de Paiva de Andrade. «D. Rodrigo da Câmara, terceiro conde de Vila Franca, foi preso por culpas de sedomia na inquisição de Lisboa, sendo inquisidor geral o bispo da Guarda D. Francisco de Castro. Não faltou quem dissesse que a soberba de um ministro daquele tribunal o culpára ao conde sem causa; porque tratando o conde de amores uma parenta do dito ministro, este o avisára que cazasse com ela; e, tendo em resposta que só para amiga lhe podia servir, lhe castigára o dito com um testemunho. Houve votos de que saísse publicamente na procissão do Auto da fé; porém, o príncipe D. Teodósio embaraçou isto dizendo a D. Francisco de Castro que, se não mudasse de propósito, deitaria fogo à Inquisição; do que, sentido o bispo, se travaram de razões, e estas se atearam por maneira que o príncipe lhe deu de bofetadas. O certo é que o conde não veio a publico, e saiu em ato particular na sala da Inquisição. Disse-se que o príncipe era muito avesso às baixas manhas do inquisidor, e não aprovava que el-rei seu pai honrasse com a prelazia o denunciador dos maús portugueses que padeceram em 1641. »
deste príncipe D. Teodósio que dava bofetadas no Inquisidor-geral formou o nosso amigo Pinheiro Chagas, na sua valiosissima História de Portugal (tomo VI, página 110) conceito muito mais ameno, quando escreveu: «mancebo ascético, melancólico e fanático... dirigindo os seus estudos em sentido mistico, etc. ». Se Diogo de Paiva não desfazia no gênio pacifico do primogênito de D. João IV, a cara do inquisidor-geral, bispo da Guarda, protesta contra o ascético fanatismo do príncipe; e já o arcebispo de Lisboa protestaria também quando o futuro rei lhe fez chacota da magreza, dizendo-lhe que só um embalsamado podia trazer-lhe a noticia de que ele seria príncipe do outro mundo, referindo-se ao Brasil. Era mais calemburista que asceta o irmão de Afonso VI, quer-nos parecer.
NOTA 10. ª
O palácio dos duques de Aveiro que também foram depois marquezes de Gouveia, foi mandado em 1758 arrazar em Belém, em seguimento ao suplicio de D. José Mascarenhas. O marquês D. Manrique da Silva, cujo secretario foi Domingos Leite, era quarto avô do último duque de Aveiro, e habitou o palácio de Pedroiços, no local onde ainda hoje se vê afogado em cazinholas um padrão comemorativo do delito.
NOTA 11. ª
«D. Maria de Castelo Branco, filha de D. João de Castelo Branco, alcaide-mor da vila de seu apelido, cazou com Fernão Cabral, alcaide-mor de Belmonte. Apaixonou-se esta dama por um clérigo com tanta loucura, que trocou em ódio o amor conjugal, e persuadiu o dito clérigo que lhe matasse o marido. Descobriu-se o crime e a aleivosia, e por ele foi sentenciada a morrer morte natural por justiça sem lhe valer a grandeza do nascimento, nem a valia de seus muitos e ilustres parentes». Memorias de Diogo de Paiva de Andrade.
Não marca Diogo de Paiva o tempo deste sucesso; mas conjecturamol-o no meado do século XV, reinando D. João II. Este Fernão Cabral, que levou a mulher ao patíbulo, era quinto neto de Álvaro Gil Cabral, que el-rei D. João I fizera alcaide-mor de Azurara. Computando o lapso das gerações poderão os curiosos, favorecidos por algum linhagista menos indulgente, determinar a época da tragedia. D. Maria era neta do almirante Nuno Vaz Castelo Branco, e bisneta por sua avó paterna de Micer Antão Peçanha, almirante, que viveu no começo do reinado de D. Afonso V. De um dos filhos desta senhora decapitada procedeu Pedro Alvares Cabral, o descobridor do Brasil.
NOTA 12. ª
Estas miudesas do meu M. S. são corroboradas com a seguinte noticia extractada das Memorias de Diogo de Paiva de Andrade: «Vicência Correia, chamada depois Dona Vicência, foi filha de uma grande alcaiota e bêbada, chamada Barbara, que morou na rua dos Cabides em Lisboa, reinando el-rei D. Sebastião, e tão perita no seu ofício que o exercitava com destreza esquisita. Os seus primeiros anos passou bem divertida por industria da mãe e habilidade própria, e vivendo de mancebia com um fulano Cunha, teve dele um filho chamado Roque, e de outro fulano Pereira teve uma filha chamada Mariana. Mudou depois de amorios com Francisco Leitão, com o qual casou; e este fazia tanta estimação da sogra, da mulher e da enteada, que todos viviam junctos, comiam à mesma mesa; e morrendo a enteada, que quis casar com o porteiro que então era do Juízo de Índia e Mina e ele não quis, tomou luto publico. Servia neste tempo Francisco Leitão de Juiz de Índia e Mina. Foi depois (por valias, e não por merecimentos, por ser homem de poucas letras, falto de honra e atraiçoado) fidalgo da casa real, cavaleiro da Ordem de Cristo, desembargador do Paço, do conselho de Portugal em Madrid, e lá teve grandes estimações, e a mulher, que era visitada dos grandes e senhores da corte. E da mesma sorte o foi neste reino, onde o nosso D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa, bem conhecido pela sua literatura, visitava D. Vicência, e a presenteava. »
Acho noticia deste marido de D. Vicência em um dos papeis que apareceram em Madrid, por 1637, assignados pelo Manuelinho de Évora, que simbolisava o espirito revolucionário de Portugal. Como peça desconhecida, extrahimos o mais curioso dela. É uma sátira intitulada Quadras que se mandaram a Sua Majestade para uma sala de bom retiro. Figuram Filipe IV, as damas da corte, Diogo Soares, Miguel de Vasconcellos, Francisco Leitão, [15] o conde do Prado e Tomaz Dibio, o marquês de la Puebla, D. Jorge Mascarenhas, D. Antônio de Athaide, Matias de Albuquerque e o conde da Vidigueira. Aqui se deparam ao leitor alguns nomes e apelidos que, rodados poucos anos, realçam em Portugal pela sua dedicação.
Diogo Soares tem um livro na mão com esta letra:
Este livro ensina os modos De roubar os povos todos.
Miguel de Vasconcellos revê-se em uma taça de vinho com esta letra:
Nos bofes fel e vergonha; E em ser ladrão atrevido Saí a meu pai cuspido.
Vai Francisco Leitão com esta letra:
Nasci de quem nasci, Cazei com quem cazei, E o prazo renovei
E à margem: Filius meretricis.
Vai o conde do Prado e diz este mote:
A missa ouço em S. Roque, Beijo o chão antes que acabe, A tenção só Deus a sabe.
Tomaz Dibio glosa-lhe o mote:
As palavras são de um santo; Mas as obras joeiradas São malicias refinadas.
O marquês de la Puebla é pintado a espreitar por uma porta com este mote:
Desterrado i ocioso, Miro solo la destresa Con que hurta su Altesa.
E diz D. Jorge de Mascarenhas:
Com capa de zelo vosso Muito dinheiro ajuntei, Sem ele e sem vós fiquei
Matias de Albuquerque, Jorge de Athaide, e o conde da Vidigueira, em camisa com uma vela na mão, tem esta letra de D. Antônio:
Mentir, calar, e fingir Verbos de que tenho usado Me pozeram neste estado.
O mote de Matias de Albuquerque diz:
Sem tiro e golpe de espada A Pernambuco larguei, São e rico me fiquei.
Mote do conde da Vidigueira:
Estes como eu fugiram, E escaparam por tais modos, Que eu vim a pagar por todos.
Diz o bispo do Porto:
Sou de geração humilde; Mas mui sagaz e astuto Com duas pedras de p...
Tem ementa à margem da trova, cuja última palavra é um calemburgo que finge estar no tempo presente, modo indicativo do verbo deputar. Diz a glossa: Este bispo, neste ano, fez tudo aquilo que quis, pondo e dispondo à sua vontade.
Em livro mais de molde a demoradas exhumações históricas, darei ao leitor curiosa e ampliada noticia deste prelado, definido pelo Manuelinho de Évora.
A nota, que já se vai delongando, não é despecienda como amostra do gênero tão falado como desconhecido que usaram os fermentadores da restauração, a despeito da espionagem que rastreava os audacissimos secretários do Manuelinho.
NOTA 18. ª
Provavelmente, neste ano de 1647, já Filipe IV e os seus ministros conheciam o tímido animo do rei de Portugal, que mais covardemente se manifestou em 1650, depois da paz de Westfália. neste ano, pois, encarregou D. João IV o padre Antônio Vieira de negociar desde Roma o casamento do príncipe D. Teodósio com a infanta de Espanha, dando esse enlace como caução única e segura à fuzão ibérica; por quanto, não tendo Filipe IV filho varão, àquele tempo, sucediam no trono de Portugal o príncipe português e a princeza espanhola; acontecendo, porém, a superveniência de filho varão, reinariam em distinctos reinos, com aliança ofensiva e defensiva. Além disso, dado que o rei de Espanha teimasse em negar a legitimidade de D. João IV, este abdicaria no filho e na infanta. O padre Vieira tractou o negocio com os jesuítas castelhanos, em Roma, resalvando que Lisboa se constituisse a capital dos dois reinos fundidos em uma monarchia grandiosa. A proposta abjecta foi desprezada em Madrid. D. João IV, dando assim o pulso ao exame do poderoso inimigo, revelava quão depauperado lhe girava o sangue nas veias. E pelo que respeita ao jesuíta medianeiro de tamanha protérvia, teve de fugir de Roma onde o espiavam os sicários do embaixador espanhol. Judiciosamente escreve o sr. Manuel Pinheiro Chagas, relatando os pormenores deste vilipendio: «Lembraremos ao leitor que em isto se prova que se, depois da restauração de Portugal, houve algum traidor que, por interesses pessoais ou de família, projectasse vender à Espanha a independência da pátria, esse traidor foi... D. João IV. » História de Portugal, tomo 6, página 106 e seguintes.
NOTA 19. ª
Narra fr. Cláudio da Conceição, nomeando os filhos de D. João IV: «Teve fora do matrimonio a senhora D. Maria, nascida a 31 de abril de 1644, de uma senhora limpa de sangue, que entrando depois no convento de Chellas professou a vida religiosa. Educada em casa do secretario de Estado Antônio de Cavide, entrou a 25 de março de 1650 no Mosteiro de Santa Teresa de Jesus, das Carmelitas Descalças de Carnide, por ordem de el-rei seu pai a receber as instrucções da Madre Michaella Margarida de Santa Ana, filha do imperador Matias, e parenta do mesmo senhor rei D. João IV, [16] fundadora do dito mosteiro de Carnide em 1612, sendo vinte e dois anos sucessivos priora. Estimou el-rei muito esta filha, o que assás prova a seguinte carta que lhe escreveu antes de morrer: «_Minha filha, foi Deus servido que a primeira vez que tendes carta minha, seja despedindo-me de vós, dando-vos a minha benção acompanhada de Deus que fique comvosco, e lembrai-vos sempre de mim como eu o fio de vós. Escrita em Lisboa a 4 de novembro de 1656. Vosso pai, que fica com grande sentimento de vos não ver. _» (Traslada os legados do rei à filha; segue uma carta de D. Pedro, regente, à irmã; e prosegue na edificante biografia da virtuosa senhora). «A rainha D. Maria Francisca a foi visitar a Carnide, e lhe fez grandes honras merendando no seu apozento. A corte lhe dava o tratamento de Alteza. Viveu sempre neste mosteiro em habito de religiosa, ainda que era de matéria mais fina. Propondo-se-lhe para esposo o duque de Cadaval com aprovação regia, respondeu: que não sairia da clausura senão em postas a tomar outro esposo, pois que já o tinha há muito tempo»... Depois de outros lanços assim piedosos, remata fr. Cláudio: «Faleceu recebendo todos os sacramentos com suma edificação a 7 de fevereiro de 1693 quando contava quarenta e nove anos de idade» Gabinete Histórico, Tomo IV, pag. 214 e seg. Da mãe de D. Maria não houve frade nem chronista que sequer nos contasse como lá se foi derretendo em lágrimas a vida da freira que o rei dera como esposa a Jesus, depois de se enfastiar dela como barregan.
NOTA 20. ª
«O sr. rei D. João IV... vendo um dia meu pai que tinha a honra de ser seu trinchante mor com um Porpoint guarnecido com uma rendilha de prata, lhe disse: vindes mui bizarro D. Antônio!; mas nunca fui tão rico que pudesse ter outro semelhante. E assim era, porque sempre se vestiu de estamenha... E mandou que nenhum (vassalo) viesse ao Paço com os seus cabelos, porque ele os não conservava, e todos se tosquiaram». Carta de Luiz da Cunha ao Príncipe D. José.
NOTA 21. ª
Esta alusão epigramática do cristão novo requer illucidação necessária aos leitores descuriosos de genealogias. No reinado de el-rei D. Manoel veio a Portugal um rico mercador genovez, chamado João Francisco de Lafeta ou Lafetá. De amores com uma fidalga de nome Guiomar Freire, teve um filho ilegitimo, e também teve uma cutilada legitima na cara, com que o brindou um parente da senhora namorada, e teve ainda outro filho de uma Judia fanqueira de Setúbal, chamada Branca de Castro. É indeciso nos linhagistas se o sucessor de João Francisco era filho da fidalga, se da judia. É certo que o seu sucessor Agostinho de Lafeta administrou o vinculo que seu pai instituira, foi trinchante de el-rei D. João III, e casou com D. Maria de Távora, filha de Rui Lourenço de Távora. Deste matrimonio nasceram dois filhos: João e Cosme. O primeiro casou com D. Antônia de Mello filha de Rui Gomes de Azevedo, alcaide mor de Alemquer; o segundo casou na Índia com a filha de um advogado que lá chamavam por alcunha o conde da barba rapada. Os filhos deste assignaram-se Távoras, e os do segundo Lafetas. Enquanto o pai, cazando segunda vez com uma filha de Manuel de Mello, eivava de judaísmo e melhor sangue ostrogodo, um filho de João Lafeta cazava com D. Maria de Vilhena, filha de Henriques Jacques de Magalhães, e D. Violante de Vilhena. deste consorcio, procederam Christovão de Lafeta, que casou com sua prima D. Brites da Silva, filha do primeiro visconde de Fonte Arcada, e D. Violante de Vilhena que casou com Gonçalo Garcez Palha. destas últimas alianças por diante, o apelido Lafeta é absorvido nos mais ilustres das raças históricas, por modo que, no dizer de um genealógico de inexorável crítica, apenas haverá em Portugal três famílias tradicionais que não estejam inquinadas do judaísmo dos Lafetas genovezes, e da Branca de Castro, fanqueira de Setúbal. Que lhes preste.
NOTA 22. ª
«Bem poderia referir outras muitas precauções que este príncipe (D. João IV) tomava para não ser enganado pelos seus ministros; e contudo, conhecendo ele a inocência de Francisco de Lucena, seu secretario de estado, o deixou condemnar à morte, porque os fidalgos o fizeram passar por traidor, não podendo sofrer que ele lhe aconselhasse que lhes não devia alguma obrigação em lhe porem a côroa na cabeça, pois lhe era devida, afim de que se não julgassem credores de grandes recompensas. Os descendentes deste ministro justificaram depois de muitos anos a sua inocência, e sua majestade lhes veio a restituir as honras e os bens, em que eu tive alguma parte estando em Madrid. » Carta de D. Luiz da Cunha ao Príncipe D. José. Esta carta muito notável e pouco lida, publicou-a Antônio Lourenço Caminha em 1821, sob o titulo: Obras ineditas do grande exemplar da ciência do estado D. Luiz da Cunha, etc. Observa avisadamente o erudito sr. Inocêncio Francisco da Silva que escaparam na edição numerosissimos erros que às vezes transtornam o sentido e inteligência dos períodos. É exactissima a censura. Possuo a mesma carta manuscripta, trasladada pelo acadêmico Foios, e que envergonha as incurias do editor da impressa.
O que raras pessoas terão visto sem lhe saberem a procedência, é a peça explicativa do ódio dos fidalgos, que aclamaram D. João IV, ao secretario de estado Francisco de Lucena. Encontrei-a entre os manuscritos ineditos do chantre Manuel Severim de Faria (1583-1655). Intitula-se: _Carta de parabéns, advertências, avisos e conselhos que se supõem e figura escrever do outro mundo o duque de Bragança D. Teodósio a seu filho o sr. D. João o Quarto, logo depois que pela lealdade da pátria foi aclamado legitimo Senhor e Rei de Portugal_. É atribuida a Francisco de Lucena, e escrita em 1641. Trasladamos os conselhos do pai ao filho, ou antes do ministro ao príncipe: «... Resta que vos façais também temer e respeitar dos maiores fidalgos, que, como vos viram nascer vassalo, e eles, por portugueses, são invejosos e soberbos, mais com rigor e medo se sujeitam que com amor e brandura; e assim a vossa afabilidade com que os tratais, a vossa facilidade com que os admitis e ouvis, a confiança com que de ordinário comeis perante eles, o trage inferior de que, por dardes exemplo, vos vestis, tudo isto os faz a eles piores, mais ousados, menos comedidos. Filho, não é ainda tempo disto; virá ao diante, em que isto se vos estimará muito. Agora, o que neste particular fazeis, tão fora está de se vos gabar e estimar, que antes lhes serve de o motejarem uns com outros, atribuindo tudo a faltas naturais, e que são avisos divinos, ao diante lhe virão assim a parecer.
«Até agora, filho, lidastes com vassalos que sempre foram vossos; agora lidais com os que há só dois meses que o são. Não vos hajais com eles como se sempre o foram, comei raras vezes em publico para que se estime quando o fizerdes. Ouvi a todos que quiserem requerer diante de vós; mas não converseis com nenhum, para que, quando nesta matéria lhes fizerdes algum favor, o tenham por mercê.
«Olhai, Filho, que, como muitos desses fidalgos riram e folgaram comvosco sendo duque, com pouco azo que lhes deis, vos perderão o respeito devido como a Rei; e, se assim for, dai-vos por acabado, porque a principal guarda das coroas e sceptros é o respeito... A este fim vos digo que nestes princípios não sofrais nem dissimuleis aos fidalgos mais poderosos serem desmandados contra a vossa real pessoa, e contra a lealdade que vos devem: lembre-vos que o dissimular estes crimes é dar ousadia a maiores.
«Para os enfreardes ponde ferro em fogo em quem o merecer, e com o castigo de dois se emendarão os mais, e com o dissimulardes com eles todos se acabarão de damnar, porque os mais não vos hão de guardar e defender; e mais certo é que vos hão de vender e trahir, e, se poderem, matar».
Assim predispunha o secretario das mercês o animo do rei contra os conjurados de 1641; e relevantemente se mostrou serviçal, colaborando com o carrasco, pois que emprestou para a degolação dos fidalgos o cutelo que trouxera de Madrid, por haver sido com ele decapitado D. Rodrigo Calderon.
NOTA 23. ª
Isto de ser agarrado pelas costas o duque de Viseu, quando o Luiz XI português o esfaqueou, não se vislumbra da história, porque a história dos governos monarchicos tem sempre sido escrita de joelhos sobre os estrados dos tronos. De feito, D. João II, quando resolveu matar o duque guarda-roupa das casas de Nuno da Cunha em Setúbal, convidou três homens para testemunhas do feito: Diogo de Azambuja, Lopo Mendes do Rio, e D. Pedro de Eça, alcaide de Moura. Este último era um dos mais valentes homens de Portugal. dele diz Diogo de Paiva de Andrade, nas suas Memorias: _foi um Fidalgo a quem a natureza dotou de muito animo e grandes forças, e por isto El-Rei D. João II o escolheu quando quis matar a D. Diogo, Duque de Viseu a quem abraçou por detrás. Eis aqui a singular missão da testemunha_!
E, como prova da coragem de D. Pedro de Eça e dos medianos espíritos do covarde matador do duque, refere Diogo de Paiva um bonito lance: Acontecendo em Moura matarem um homem uns criados seus (do alcaide) foram-se dois irmãos do morto queixar a El-Rei, e disseram-lhe que D. Pedro lho mandara. Pelo que, El-Rei o mandou vir à corte, e esteve nela mais de dois anos, posto que, tirada a devassa, o não acharam culpado. Enfadado D. Pedro, disse a El-Rei, que pois sua Alteza não queria crer que ele não tinha culpa na morte do homem, e os que o acusavam eram dois, que lhe fizesse mercê de lhe mandar dar campo com ambos, para assim se purificar: do que, agastando-se El-Rei lhe disse: «que tomara ele ser um dos dois». E D. Pedro lhe respondeu: «Não fora Vossa Alteza meu Rei, e fosse com eles o terceiro».
NOTA 24. ª
Não é impertinente a noticia do processo de empeçonhar as balas. Acceitemol-a do livro inedito de um Mestre de Campo do exercito de D. Pedro II: «Tomarão licoctomum, que he outra casta de acônito ou de Rozalgar (não alteramos a ortografia do texto) e Napello, dos quais espremerão o sumo com hua empressa, que se receberá em hua vasilha de vidro, precatando-se de não lhe tocar com as mãos, a qual vasilha será exposta ao sol no mês de julho por espaço de 30 dias, recolhendo-a todas as tardes ao por do sol em hua cestinha coberta e guardada em logar cálido, izento de todo cheiro forte, como de alhos ou cebolas, por os tais lhe embotarem a força; e ó outro dia ao sair do sol se torne a expor nele a vasilha até que o sumo se engrosse a modo de unguento que será pouco mais ou menos ao cabo do tempo dito; advertindo que na madrugada, antes que se tire a vasilha do cesto, para a expôr ao sol, hão de descobrir o sesto desviando-a dele, e o deixarão assim aberto por espaço de boa meia hora, antes de pegar na vasilha, e à tarde, antes de a arrecadar no sesto a cobriram com alguma coisa, o corpo mais desviado que poder ser. Despois tomaram três ou quatro Rubetos que são sapos de silvas grandes, e cheios de nodoas de varias cores, muito peçonhentos, e tanto mais o serão quando sejam apanhados em logares sombrios e frios como nos paues cheios de palha tábua. Estes serão metidos em uma vasilha de cobre de fundo redondo, capaz de os receber comodamente, com sua tapadoura que venha justamente com a boca da vasilha, que terá uma azêlha por cima pela qual poderá entrar a ponta de hua aste para delonge a poderem descobrir; ao lado da vasilha hum pouco por cima do seu fundo haverá huas cavas em forma de hua meia laranja, situado em modo de Bebedouros de Gaiolas, e no meio do fundo da vasilha haverá hua fença ou abertura estreita que dará em hum segundo fundo, do mesmo metal, a modo de funil. As ditas covas a modo de Bebedouros, se encherão de óleo de Escorpião; feito o que, os sapos se meterão na vasilha que será bem e justamente coberta com sua tapadoura e assentada sobre uma trenpe, em modo que a ponta do funil do segundo fundo dê em a boca de hua garrafa de vidro, assentada em hua tigela de água fria, e a coisa assim desposta se fará hua cama em redondo de ladrilhos da altura da trempe que a cercará toda ao redor, na largura de dois palmos até dois palmos e meio, em cima da qual se acenderá um fogo de roda brando e moderado de carvoens afastados da vasilha um palmo, mediante o que a vasilha irá aquecendo pouco e pouco, dentro da qual os sapos sentindo a quentura não acostumada, de sequiosos e suados, arremeterão a beber o olio de Escorpião dos Bebedouros, que lhes fará bomitar toda a peçonha que dentro em si tiverem, a qual, caindo pela abertura do fundo da vasilha no segundo fundo do funil, e deste à garrafa, continuará o fogo, no mesmo estado por espaço de 4 a 5 horas, e assim o deixarão até o outro dia, em o qual, querendo abrir a vasilha, terão em sentido virar as costas da parte do vento, e com hua vara ou aste hum pouco comprida, que passará pela azelha da tapadoura, desviando se o corpo da vasilha, o mais que poder, a destaparão e deixarão assim aberta por espaço de outras 4 ou 5 horas, ao cabo das quais seguramente se poderão chegar à vasilha, e recolher o veneno da garrafa, ao qual se poderá ajuntar o sumo das ervas dos acônitos dantes exprimidos, e juntamente anemona, sicuta, meimendro, mendragora, mala insana, berengella, pés de ganços de todas as castas, ranúnculos, erva Moura, arsênico branco, e cérebros de rato e de gato».
É de recear que o leitor desconfie da capacidade deste sujeito que mandava hervar as balas com sucos de pés de ganço e miolos de gato e rato! Saiba, pois, que o autor da receita foi um militar de elevada patente que exerceu em Portugal no reinado de D. Pedro II cargos importantíssimos na guerra. Possuo com grande estimação dois manuscritos ineditos de Miguel de Lescolle, que assim se chamava o Mestre de Campo. Um, é este de que trasladamos o processo de hervar as balas, e intitula-se: Recopillação de alguns fogos artificiais, para ofensa e defensa de praças, e embarcações, e de alguns outros para as alegrias e recreaçoens feitos pelo Mestre de Campo Miguel de Lescolle. O outro manuscrito, de primoroso calígrafo do começo do século XVIII, é: _Liçoens de Artelharia recopiladas e feitas por Miguel de Lescolle, Mestre de Campo intertenido na Província de Entre Douro e Minho, a cujo cargo está a conservação do trem de Artelharia, Armas e Muniçoens dela, e as fortificaçoens das Praças de sua fronteira por mandado do Sr.. Marquês das Minas, dos Conselhos de Sua Alteza, Mestre de Campo general, e Governador das Armas da mesma província_.
Um homem deste vulto, se acreditava na peçonha dos pés de ganço e do cérebro dos ratos, é porque realmente, em aqueles dias, a toxicologia era mais investigada que hoje.
NOTA FINAL
As pessoas lidas na história pátria estão afeitas a encontrar, neste caso da tentativa de morte contra D. João IV, que houve um denunciante de Domingos Leite, chamado Manoel da Cunha, e não Roque da Cunha, como eu o denomino. Arguem-me pois de inventar nomes desnecessarios à novela com agravo da história. É injustiça que me fazem. Todos os historiadores que o leitor conhece o enganaram involuntariamente ou por negligencia de quem fiou de mais nos seus antecessores e guias. Tenho presentes o conde da Ericeira, (Portugal restaurado) Fr. Cláudio da Conceição, (Gabinete histórico) D. Antônio Caetano de Sousa (História Genealógica da Casa Real Portuguesa), Roque Ferreira Lobo, (História da aclamação de D. João IV) Ferdinand Denis, (Portugal Pittoresco) João Batista de Castro, (Mappa de Portugal) o sr. Viale, (Resumo da história de Portugal) e melhor que todos o sr. Manuel Pinheiro Chagas, (História de Portugal). Dizem todos invariavelmente que o delactor de Domingos Leite era Manuel Roque, porque todos invariavelmente se guiaram pelo conde da Ericeira, que escrevia 32 anos depois do sucesso. O mais curial seria averiguar nos escritores coevos, e nomeadamente as relações escritas no mesmo ano de 1647. O investigador laborioso encontraria, acerca deste assumpto, afora a citada noticia de Fr. Francisco Brandão impressa em 1647, duas mais do mesmo ano, uma de Antônio de Sousa de Macedo, e outra de D. Francisco Manuel de Mello. São duas peças declamatorias: retorica em barda, e muita pobresa de particularidades. O documento mais precioso é do chronista-mór do reino. O conde da Ericeira não o leu; que farte revela ignorância dos elementos que o deviam esclarecer. Diz que Domingos Leite Pereira era de Lisboa, e de família distinta. Quanto a ser de Lisboa, claramente contradiz a afirmativa do escritor coetâneo que o faz de Guimarães neste trecho da sua relação: Foi o executor da maquina... Domingos Leite Pereira indigno de haver nascido na nobre e leal vila de Guimarães, que sempre abominará tão monstruoso aborto. E em outra passagem, já referida no texto, nos conta que Domingos Leite, da primeira vez que viera de Castella a Lisboa, fora procurado em Guimarães. Pelo que respeita ao nome do traidor, em vários lanços o nomeia Roque da Cunha, e em um deles, por signál, a crítica de Brandão desmerece grandemente dos créditos alcançados em outros escritos. Senão, vejam: _Dia de S. Roque, a 21 de agosto, se executou a sentença no delinquente, e o ser Roque da Cunha o companheiro que o entregou à justiça, faz crível que por ser este Santo um dos tutelares do reino, escolhido pelo sr. rei D. João III, de que na capela real há particular confraria, acudiu à vingança merecida contra os legítimos reis desta corôa_.