Capítulo X O Regicida · Capítulo 11 de 22
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Capítulo X

Quando se divulgou em Lisboa que o escrivão do cível, secretario do mordomo-mor, desaparecera com Roque da Cunha, duas opiniões se formaram ácêrca do sucesso estrondoso.

Quanto a Domingos Leite, dizia-se que, tendo o santo ofício, no começo daquele ano de 1647, aferrolhado nos seus carceres alguns sujeitos amigos do escrivão, este, receando sorte igual, se evadira. A criminalidade dos réos presos era suspeita do pecado infame (veja Larraga, passim); porém, o delito que o vulgo atribuía ao marido da Traga-malhas era de menos impudica especie: dizia-se que o fugitivo andava gafado de herezia, e dava noticia de livros luteranos procedentes de Holanda. Os propagadores do boato, querendo explicar a fuga simultânea de Roque da Cunha, asseveraram que ele se passara a Madrid, onde vivia sua mãe, D. Vicência Corrêa, loureira famosa de Lisboa, antes de ser casada com Francisco Leitão, o Guedêlha, que tinha sido do conselho de Portugal em Madrid, de boas avenças com o usurpador, e, como renegado incontricto, lá se ficara contraminando a restauração do reino. (Nota 12. ª)

Poucos dias passados, avultou mais acirrante explicação da fuga, que necessariamente ressumou do tribunal ou das testemunhas da devassa.

Affirmava-se que Domingos Leite matara o padre Luiz da Silveira, coadjuvado pelo facinoroso meirinho Roque. A causa da morte fundavam-a na jactância do padre em ter corrompido quando muito moça a sua discípula, que depois casou com Domingos Leite Pereira. Accrescentavam os mais imaginosos que o padre lhe escrevera depois de casada, e ela dera a carta ao marido. Saía então um dos mais enfronhados em segredos de palácio, e explicava que el-rei, por não afrontar a memoria do clérigo, julgando racionável a indignação do marido, avisara ao marquês de Gouvêa para que este obrigasse Domingos Leite a expatriar-se. A voz comum, afinal, era que o escrivão do cível da corte ia caminho de Roma a negociar sua absolvição, e que Roque da Cunha estava em Madrid, vendendo barata a Filipe IV, por intermédio de D. Vicência, a damnada alma.

Pelo que respeita ao matador de Pedro Barbosa e padre Luiz da Silveira, a opinião publica ferira certeiramente o alvo. A esposa do desembargador do paço, bem segura da indulgencia do marido, quando Roque lhe escreveu, noticiando a sua chegada a Madrid, não renegou o fruto de suas entranhas, ou por escrúpulos de velha temente ao diabo com quem andara muito mana quando rapariga, ou por medo à língua do filho, que desde os dezoito anos se emancipara envergonhando-a com suas turbulências e gandaíces.

A filha da celebrada Barbara, em cujo bordel, na rua dos Cabides, os abastardados fidalgos de D. Sebastião, velavam as armas com que se infamaram em Alcacer-Quibir, orçava então cerca dos oitenta anos; e, não obstante idade tão avêssa de aspirações, era ardentissima facionária de Castella, e gozava-se de ser o cabresto de seu marido, o doutor Guedêlha, em cuja casa reunia os fidalgos portugueses que ficaram em Espanha, depois da aclamação do duque de Bragança, ou lá se foragiram, depois do suplicio dos conjurados de 1641.

Roque, historiando à mãe, na presença de Diogo Soares e do Conde de Figueiró, o motivo da sua fuga em companhia de Domingos Leite Pereira, não alegou fraudulentamente desígnios políticos: acingiu-se à verdade, calculando que seria bastante recomendação para ambos o terem apunhalado Luiz da Silveira, muito conhecido do ex-secretario Diogo Soares, no tempo em que a recovagem da correspondência de Madrid com o arcebispo D. Sebastião de Mattos era desempenhada habilmente pelo padre. Sabia-se lá que o confidente delatara os conjurados. A nova da sua morte misteriosa, receberam-na os fidalgos expatriados jubilosamente, e não menos grata lhes foi a presença dos vingadores das vítimas do traidor. Além disso, o desforço do marido de Maria Isabel foi encarecido como feito de fidalgos espíritos; e tanto que, o velho Francisco Leitão, que só saía do seu palácio para o de el-rei, foi pessoalmente visitar Domingos Leite, e apresentar-lhe o habito de cavaleiro da ordem de Cristo, com que a magnanimidade de Filipe IV o agraciava pelos motivos honrosos que o desterravam.

Quando o desembargador procurou o brioso português na estalagem, estava com o fugitivo um homem entre cinquenta e sessenta anos, vigoroso, encorpado, vestido de baeta, e coberto de tabardo de borel.

— Pelo vestido, parece-me português do Minho do nosso Portugal, este homem: — disse Leitão a Domingos Leite.

— É meu pai; chama-se Antônio Leite; é de Guimarães, cuteleiro de ofício. Avisei-o de minha fuga, pedindo-lhe meios para subsistir em Madrid. O meu pobre pai veio trazer-m'os, e volta para a sua forja.

— V. m. cê não precisava de pedir recursos a alguém, sabendo que estão aqui portugueses. E voltando-se para o cuteleiro, prosseguiu: — Bom pai, escusa de mandar dinheiro ao seu honrado filho, que nada lhe há de faltar em Madrid.

— Mercês, meu senhor — respondeu Antônio Leite — mas, enquanto eu poder lidar na oficina, o meu Domingos, querendo Deus, há de viver do que é seu. Só tenho este filho; e, graças ao Senhor, ainda sinto braços para a bigorna. Oxalá que o rapaz nunca me saísse de casa; que, a esta hora, não andaria por terras alheias...

— Terras alheias! ... — objetou o velho ministro de Filipe III. — Não é terra alheia Espanha; espanhóis todos nós somos...

— Nemja eu! — acudiu o cuteleiro — nem meu filho o há de ser, sem a minha maldição. Tanto eu como ele nascemos na rua de Infesta, em Guimarães, onde tudo é português, desde que lá nasceu e se baptisou o primeiro rei de Portugal.

Francisco Leitão espirrou uns jactos de riso zombeteiro, e regougou por entre os insultos do catarro caquético:

— Estas abusoens do povo, filhas da ignorância, ainda mal que nos trazem divididos os filhos do mesmo tronco visigodo, e teimam em fazer nação um retalho de Castella, que já valeu muito sobre o mar, mas que pouco monta em terra firme. Meu honrado homem de Guimarães, dou-vos de conselho que não façais alardo do vosso patriotismo em Madrid, agora principalmente que tendes cá o filho, bem acolhido nos braços dos seus compatriotas, quando os compatriotas de lá o exterminam, e o enforcariam, se o houvessem às mãos...

— Mas, sr. desembargador — interrompeu o vimaranense — o meu filho não tem crime de ir à forca; à forca devia ir o outro que...

— Meu pai — atalhou Domingos Leite, obstando referencias à causa do homicídio — o sr. desembargador não me acusa, para que meu pai me defenda. Isso pertence à justiça, que não se há de ver embaraçada com a minha defesa.

— Nem v. m. cê com a condenação — acrescentou o ex-conselheiro de Portugal em Madrid. — Se em Lisboa os desforços das almas nobres são punidos como os crimes dos facinorosos de profissão, el-rei nosso senhor Filipe IV galardoa Domingos Leite Pereira com o habito da ordem de Cristo, e admira-se que o duque de Bragança tão indignamente remunerasse a inteligência do secretario do marquês de Gouvêa, alentado vilão que se lhe vendeu pela mesma causa, que ainda se há de vender a el-rei de Espanha.

— O sr. marquês de Gouvêa — observou Domingos Leite — não se vendeu.

— Então deu-se de graça como quem não achou comprador? — replicou o sarcástico Guedêlha, casquinando a sua aspérrima risada. — Está v. m. cê bem informado. D. Manrique, filho do castelhano conde de Portalegre, não se vendeu: atraiçoou o rei que lhe deu a coroa de marquês. Mais infame, por consequência, que os vendidos; que estes tem a desculpa da necessidade subornada pelo ouro; enquanto o marquês de Gouvêa se infamou gratuitamente.

Pereira Leite submeteu a replica ao respeito devido à provecta idade do conselheiro, e desviou a pratica incomoda, pedindo licença para não aceitar a mercê do habito de Cristo.

— Porque não? — sobreveio o desembargador.

— Porque as honras, sem a procedência dos serviços, não lisongeam o agraciado, nem grangeam a consideração publica. Eu, como v. s. ª sabe, sou pobre. Está aqui meu pai de quem me socorro, falta-me posses para me ostentar, e contentamento para me prezar em mais do que valho. Digne-se v. s. ª ponderar a sua majestade a minha situação qual ela é. O meu prazer, se algum posso haver neste mundo, é a obscuridade, a solidão, o chorar tudo quanto perdi, e mais que tudo uma filha, que era toda a minha vida, e brevemente me será a morte...

— Sei isso; — interrompeu Francisco Leitão — já tudo nos contou Roque da Cunha; e minha mulher disse logo que a sua filha há de vir para a nossa companhia; e, desde menina, há de pisar as alcatifas do paço.

— Beijo as mãos de v. s. ª e de sua illustrissima esposa — disse comovido e grato Domingos Leite, desafogando em esperanças a saudade que lhe apertava o coração.

— Havemos de gizar o melhor modo — prosegiu o ministro — de trazer sua filha a Madrid, quer a mãe queira, quer não queira. V. m. cê tem um amigo capaz de tudo que é difícil. Se Roque da Cunha tentar trazer-lhe sua filha, vai a Portugal, e só não voltará, se os carrascos do duque de Bragança tiverem grande faro e grande sede de sangue. Entretanto, se me deixa dar-lhe um conselho de amigo, de ancião, e de homem, que há cinquenta anos lida com o capricho dos reis, digo-lhe que aceite o habito de Cristo, e não perca azo de ajoelhar a sua majestade, agradecendo-lh'o. Lembre-se, emfim, sr. Domingos Leite, que D. João de Bragança, podendo rasgar a sua devassa, como rasgou tantas outras de inimigos pessoais que se lhe venderam, ordenou ao mordomo-mor que lhe impozesse o desterro, como quem diz: «escolher entre o extermínio e o patíbulo! » Bom amigo! raça de Bragança pura! couce de quartão galego em quem o afaga, e orelha cahida ao ver o látego na mão do potreiro... Conhecemos de há muito quem são os Braganças: por uma linha coito damnado, pela outra o lavrador de Veiros que não se tosquiou, desde que o bastardo de Pedro I lhe pegou da filha para fabricar em ela uma vergôntea ducal. Ora bem... estou cansado de taramelar, meu amigo e sr. Leite. Vou-me com Deus, e cá deixo à apreciação do seu espirito inteligente estas frases que, bem espremidas, hão de estilar muito suco. Medite-as, e... seja esperto, porque o facto de ser infeliz não o força a ser inepto. Sem mais. Escuso dizer-lhe que o deixo na obrigação de me visitar. Minha mulher quer conhecel-o, e perguntar-lhe por certas fidalgas das suas relações. O nosso grande amigo D. Rodrigo da Cunha há quatro anos que foi dar contas a Deus do logro que pregou ao povo, fazendo cúmplice das suas tramoias o braço do Senhor Crucificado. Quem diria que um prelado de tantas letras havia de socorrer-se de tamanhas trêtas! E aquilo feito por um politico, derrancado pelo mimo com que el-rei nosso senhor o tratou a ele e a toda a parentela! Emfim, adeus; que eu, se começo a bacharelar, não despego daqui. Eu lhe contarei quem são os faccionários do duque de Bragança; e, se Deus quiser, cêdo o convencerei de que o fidalgo mais fácil de vender Portugal a Castella é esse a que lá chamam rei. (Nota 18. ª)

Na ausência de Francisco Leitão, o cavaleiro da ordem de Cristo olhou para a cara espantada do pai, e disse tristemente:

— Por desgraça, este inimigo de Portugal disse verdades horriveis. Eu sei que há torpezas reconditas nas secretarias dos ministros de D. João IV: e, se essas são sabidas em Madrid, o edifício de 1640 há de vir a terra, derribado pelos mesmos que o levantaram. Ainda assim Deus sabe que eu desejo morrer debaixo das suas ruínas. Prouvera ao céu que eu não estivesse em Madrid no dia em que a nossa querida terra há de ser juncada de cadáveres do povo; do povo somente; que os fidalgos esses hão de ter novas cédulas em aberto como no tempo...

— Em que teu avô morreu na hoste do sr. D. Antônio — atalhou o pai — e eu, se Deus até lá me der vida, não hei de ver soldados espanhóis no Castelo de Guimarães. Domingos! — prosseguiu o artífice com veemência — não me ponhas essa venera ao peito; deixa-me primeiro fechar os olhos; e, depois, cá te avêm com a tua vida; que eu não veja isso, nem ouça lá dizer aos meus vizinhos que tu és castelhano.

— Não ouvirá, meu pai... — refutou o filho. — Mas atenda à minha situação de foragido, em meio dos encarniçados inimigos dos bons portugueses. Se eu campar de patriotismo em Madrid, de certo não terei amigo que me avise para fugir deste reino para outro. Procederei de modo que não dê suspeitas a Portugal nem a Espanha, até que um dia possa ir obscuramente morrer à casa onde nasci...

— Irás, meu filho — atalhou o cuteleiro, debulhado em lágrimas — Eu daqui vou direito a Lisboa, e irei lançar-me aos pés de el-rei...

— Não dê semelhante passo — despersuadiu Domingos Leite. — Dois homens unicamente poderiam dominar o animo de D. João IV. Um, o mordomo-mor, rogou e foi secamente desatendido; o outro é o alcofa do rei, Antônio Cavide, o secretario de estado, que me odeia, porque eu ousei censurar ao ouvido de quem me denunciou, que um ministro da sua polpa andasse negociando com as açafatas do paço os amores do seu rei. Desista do seu intento, que é humildade e abjecção inútil. O que eu lhe rogo é que vá ver minha filha....

— Não! — objetou o velho tregeitando um gesto de indignado.

— Porque, meu pai?

— Porque terei de ver a mãe! Não hei de ver essa mulher que te fez desgraçado! A criança não tem culpa; é verdade; mas, se eu lá for, parto a cabeça da mãe contra uma parede!

E, dizendo, estirava os ligamentos das mãos e arqueava os dedos, como se entre eles sentisse a cabeça da nora.

neste comenos entrou Roque da Cunha, galhardeando capa e sombreiro novos, espada no telim, meias de seda, gibão de passamanes, calças golpeadas, e um tregeitar de corpo que denotava estar lá dentro uma alma espanejando-se em júbilos.

— Soube agora mesmo — exclamou com alvoroço o filho de D. Vicência — que estava aqui teu pai. Venha de lá esse abraço! — prosseguiu Roque, estreitando ao peito o cuteleiro, que se deixou abraçar impassivelmente.

— Este é o meu amigo Roque — interveiu Domingos apresentando-lh'o.

— Ah! — disse o velho, abaixando a cabeça, sem lhe desfitar os olhos onde se espelhava a desagradável impressão que lhe incutira o aspeito do cúmplice de seu filho.

— E amigo como poucos! — confirmou Roque — Amigo como nenhum! Amigo como eu só sei ser, quando os homens cá me chegam ao coração.

— Sim, senhor... — balbuciou Antônio Leite, forcejando por sopezar a antipatia que os gestos e maneiras do homem lhe opunham aos transportes de gratidão, próprios da conjuntura.

— Teu pai está sorumbático, ó Leite! — observou Roque, despeitado da recepção fria do velho.

— Está triste... — explicou o filho.

— Porque?! — volveu o jovial enteado de Francisco Leitão, fazendo posturas gimnasticas e reviravoltas. — Triste devia o nosso velhote estar, se em vez de vir a Madrid visitar um filho, cavaleiro da ordem de Cristo, o houvesse de ir visitar a Lisboa, ao Limoeiro, de onde alguns cavaleiros costumam sair para dar cavalaria aos carrascos. Por que está v. m. cê triste? Diga lá! Cuida que em Espanha não medra a melhor gente de Portugal? Tem medo que o seu filho sofra privações em uma nação, onde é recebido nos braços de um desembargador do paço, e coberto com o manto de cavaleiro que el-rei Filipe IV lhe manda, sabendo que Domingos Leite Pereira foi o discursador fogoso nos tumultos de Évora, e um dos mais estrondosos gritadores da aclamação do duque de Bragança?...

— Legitimo rei dos portugueses — acrescentou o cuteleiro, baixando reverentemente a cabeça.

— Isso agora — replicou Roque da Cunha — é questão que nem v. m. cê nem eu decidiremos, enquanto não tivermos grão de doutores de Salamanca. Deixemos esse ofício a quem toca. V. m. cê faça partazanas na sua oficina; e eu, enquanto não tiver ofício, preferirei não fazer nada a fazer legítimos reis, que é coisa que não sei fabricar. Sr. Leite, sabe que mais?... Seu filho nada deve ao duque de Bragança. Se teve bom ofício, maiores serviços prestou seu filho ao duque, e maiores prêmios devia D. João à sabedoria de Domingos Leite. A final, pagou-lhe como era de esperar de um aventureiro que subiu de duque a rei, e desceu de rei a vilão, desprezando o amor provado dos amigos e galardoando o ódio solapado dos inimigos, para firmar sobre consciências vendidas a segurança do trono, de cuja legitimidade e firmeza tanto crê ele como eu. Chegada a ocasião de provar que estimava Domingos Leite, não só pelo que lhe devia, mas também pela honra do seu delito, que fez o seu rei? Ordena-lhe que se desterre voluntariamente, que se despoje do seu ofício, que perca a pátria e o pão, sob pena de ser preso, julgado, sentenciado e talvez inforcado, porque as testemunhas da devassa o culpam, de cumplicidade na morte de um clérigo torpe. E sabe v. m. cê a rasão que tem o duque para querer fingir-se justiceiro na morte do clérigo? é porque ele preza os traidores, e premeia-os à conta de os ter sempre à volta de si. Ora, como o padre Silveira lhe delatou os fidalgos em 1641, quer agora o tal chamado rei honrar-lhe a memoria, exterminando este honrado moço, a fim de que ele não possa defender-se; porque, se Domingos Leite entrasse em julgamento, havia de sair absolvido na consciência do povo, embora o levassem do tribunal para o oratório.

Com quanto Antônio Leite não objectasse ao longo arrasoado de Roque da Cunha, o silencio do velho não desaprovava nem assentia; todavia, os modos grutescos do amigo de seu filho cada vez lhe azedavam mais a invencível repugnância.

Quando, emfim, o alegre e palavroso neto da Barbara da rua dos Cabides se despediu para ir visitar homisiados portugueses chegados recentemente a Madrid, Antônio Leite disse ao filho:

— Tenho má fé com este homem, Domingos!...

— Porque, meu pai?!.. Não vê que ele me deu provas de amizade tamanhas, que por amor de mim perdeu a pátria e o ofício que tinha?

— Provas de amizade... — murmurou o artífice — Maiores te daria eu, se, antes de resolveres matar o padre, me contasses a tua vida. Bom amigo seria o que te aconselhasse a não o matar...

— Então?... que me aconselharia meu pai?!

— Já to dei a perceber logo que me contaste as tuas desgraças. Eu, se fosse tu, fazia de conta que não tinha mulher. Tirar a vida a um homem sem rasões muito fortes, não se conforma com a minha rasão. Se ele fosse teu falso amigo, ou te desinquietasse a companheira, vá; mas, se nem ela era tua mulher nem ele sabia que tu a pretendias, mal aconselhado andaste; e, se foi este amigo que te aconselhou, mau amigo foi. Dizes tu que não puzeste a mão no padre: que foi Roque da Cunha quem o matou. Pior, pior! Quem mata um homem, que o não ofendeu de longe nem de perto só por ser agradável a um amigo, e anda depois, à laia deste, contente e prazenteiro, olha que não é a primeira vez que mata, nem lhe custou muito essa prova que deu. Tens um maú amigo, Domingos... Acautella-te dele.

— Não seja injusto... — voltou o filho com menos calor do que era de esperar em defesa de um amigo calumniado — Conheço há onze anos Roque da Cunha, e achei-o sempre leal e serviçal até pôr o seu braço desinteresseiro em desagravo da minha honra. Não foi ele que se me ofereceu para matar o padre; fui eu quem antecipadamente o obrigára por juramento a correr comigo todos os perigos...

— E dize-me cá — interrompeu Antônio Leite — este homem era bem procedido quando te amistaste com ele? Vivia com honra?

— Não tenho que ver com o que ele era... — respondeu Domingos Leite froixamente, lembrando-lhe o assassínio do pai de Miguel de Vasconcellos, a denuncia de Matias de Albuquerque, os insultos que este general recebera à entrada da Torre de Outão, e outras malfeitorias que não sobreviveram à memoria dos contemporâneos.

— Não tens que ver com o que ele era? — repetiu tristemente o velho — Pois, filho, muito te convém estar de sobreaviso para o que ele há de ser.

Estas palavras, proferidas torvamente, impressionaram o espirito já preparado a recebel-as sem constrangimento da rasão, bem que ao animo reconhecido de Domingos Leite doêsse o consentir em tão austeras demasias. É uma santa verdade não haver aliança de estima honesta entre dois homens pactuados por um feito criminoso. O afeto de Domingos Leite Pereira a Roque da Cunha era tão simulado ou sobreposse, quanto os remordimentos de um e o despejo do outro se distanceavam entre si. O coração — que desbordava de lágrimas, cismando na filha estremecida, e, às vezes, vibrava de angustia, pensando que a esposa poderia vingar-se dando a outro a beleza desprezada — não entraria aos lodaçais, onde as grandes angustias se atordoam e atrofiam, imparceirado com Roque da Cunha.

Domingos Leite era muitissimo desgraçado, quando seu pai o deixou, indo a Guimarães vender o prediozinho que representava trinta anos de economias.

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