Capítulo VII O Regicida · Capítulo 8 de 22
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Capítulo VII

Aquele mercieiro, primo do mestre de Maria Isabel, atribulado agora pelas revelações que fizera a Roque da Cunha, avisou padre Luiz da Silveira, encarecendo os martírios que lhe arrancaram o segredo.

O tesoureiro de S. Miguel de Alfama ponderou o melindre da situação, e maldisse a embriaguez que o levou à imprudencia de se gabar de um delito que ele julgava já esquecido e delido como o bôlo avinhado de que lhe espumara aos beiços a jactância de ter sido amado da esbelta Maria Isabel Traga-malhas.

Trazia ele, ao tempo, requerimento bem protegido no paço, pedindo um beneficio na sé de Silves. O aviso do parente esporeou-lhe a diligencia na obtenção da prebenda; para o que, logo na mesma hora, se foi pessoalmente à corte da Ribeira, e logrou alcançar do secretario de estado a promessa do despacho num dos seguintes dias.

No entretanto cuidou o padre de enfardelar o mais precioso dos seus haveres, sendo o sobre todos estimadissimo fardel, uma rapariga de bons quilates de beleza, não sabemos se também discípula dele, se criatura já amestrada em amores, quando o cauto clérigo a instalou na freguesia de S. Mamede, no Beco dos Namorados, — nome gracioso que desdizia da imundície daquela escura alfurja, apenas palmilhada a horas mortas, por um só namorado, que era padre Luiz. Este béco abria por uma das extremidades no Terreirinho do Ximenes, local azado para amantes clandestinos, visto que raro viandante por ali transitava depois das Ave-Marias.

Para afugentar o terror que o primo lhe incutira, pintando-lhe Roque da Cunha caudilho de uma horda de quadrilheiros facinorosos, padre Luiz fiava-se na convicção de que ninguém lhe suspeitava a lura, nem por aqueles sítios desfrequentados lhe faria espera. Ainda assim, como o seu medo era mais de clérigo do que de homem, e o escândalo o assustasse mais do que a luta, cingiu um correão de pistolas, envolveu-se na capa longa de arruador nocturno, derrubou a aba do sombreiro aragonez, e, à hora do costume, saiu com o intento de conduzir para casa do primo tendeiro a moça inquilina do Beco dos Namorados.

Meia hora antes dele entrar no Terreirinho do Ximenes, precederam-no em aquela paragem, desembocando das Pedras Negras[2] dois vultos, que pareciam, no moverem-se umas sombras; e sendo dois homens, tão subtilmente deslisavam que difícil fora estremar qual deles projectasse a sombra do outro.

— Há de passar aqui ou entrar pelo outro lado — disse Roque da Cunha a Domingos Leite — A tua paragem é esta; a minha é a outra. Dou-te o ponto mais arriscado, visto que mo não cedes. Olha que o padre tem figados, torno a dizer-t'o... Até logo.

Domingos Leite retrahiu-se para o escuro de um arco sotoposto ao colégio jesuítico de S. Patrício, e acantoou-se no angulo mais comvisinho da passagem. O quarto de hora, que seguiu esta emboscada traiçoeira, arrastou-se vagaroso e dilacerante por sobre a alma ainda imaculada daquele homem, que se via precipitado a um tal feito; que nem a vaidade nem o pundonor justificavam bastantemente a matar um homem desconhecido, que não o ultrajara, que era inocente nas suas angustias de marido e amante vilipendiado. Era atroz. Mas esse homem, ébrio ou infame, proferira com fatuidade o nome de Maria Isabel, conspurcando-lhe a fama, e assoalhando a desonra do marido ao sêvo dos seus muitos inimigos, invejosos do patrimonio da esposa ou do rendoso ofício com que el-rei lhe premiára inteligentes serviços. O orgulho afinal amordaçara o instinto da justiça; ainda assim, a batalha travada na consciência de Domingos Leite era despedaçadora. A espaços, metia-lhe horror na fantasia o pensar que rasgaria a punhaladas o peito do homem, cujo nome havia de ouvir dos lábios dele mesmo; porém, se lhe negrejava no espirito a horrível irrisão de encontrar-se rosto a rosto com o sedutor da donzela, que se deixara poluir como um anjo de alabastro se deixaria inconscientemente despedaçar às mãos de um ébrio furioso, então o pulso latejava-lhe iracundo no cabo do punhal, e o ouvido escutava com avidez o rumor de passos que lhe figurava a aproximação da vítima.

neste conflito, ouviu o estampido de um tiro, a curta distancia, e um grito agudo de voz de mulher. A detonação e o brado soaram do lado do Beco dos Namorados. Promptamente refletiu Domingos Leite que Roque da Cunha se encontrara com o padre; e, por saber que a arma do seu confidente era o punhal, inferiu que o outro desfechára com ele. Isto coligia correndo ao longo do beco, de faca arrancada, e os olhos cravados no reluctar de dois corpos, sobre os quais, a revezes, resvalava o frouxo clarão da lampada de um nicho.

Ao avisinhar-se dos dois vultos, entreviu o relampejo da lamina de aço contra um corpo já cambaleante, e ouviu o rouquejar de moribundo, que pedia misericórdia, ao mesmo tempo que de uma adufa de casa próxima estrugiam gritos à-de el-rei.

A suplica de misericórdia, que padre Luiz da Silveira vociferára, foi-lhe cortada pelo decimo golpe que Roque lhe vibrou ao peito; e quando Domingos Leite se abeirou do amigo, que alimpava o rosto banhado de sangue, já o mestre de Maria Isabel jazia morto.

— O ladrão crivou-me a cara de zagalotes! — murmurou Roque da Cunha — Olha do que eu te livrei, rapaz!... Vê lá se o diabo tuge, e toca a safar, que a barregan não se cala...

Domingos Leite olhou de revez para o cadáver que caíra de bruços, esforçou-se para ir examinar-lhe a respiração; mas as pernas tremiam-lhe.

— Não vais?! — disse Roque, embebendo na capa o sangue que lhe gotejava da face direita — Tu és covarde ou sandeu, homem?

— Podemos ir que ele está morto... — respondeu tiritando Domingos Leite.

— Podemos ir que ele está morto? — replicou sorrindo — Cá te avirás com o padre, se ressuscitar — volveu Roque, e saiu pelo outro lado, descendo a calçada de S. Chrispim; e, atravessando o Beco do Bogio, baixaram até às Portas do Ferro, onde morava o matador do padre.

Examinada a ferida, Domingos Leite decidiu, com a competência de experto boticário, que o pelouro resvalára na maçan do rosto, sem ferir osso nem cortar veia importante.

O ferido, restaurando o sangue esgotado com uma botelha de vinho espanhol, contou modestamente que o padre vinha entrando ao Beco dos Namorados, quando ele, ouvindo passos, se cozêra com a sombra de um cunhal, afim de o reconhecer, ao tempo que a lumieira do nicho lhe desse na figura; porém, ajunctou ele:

— O homem, a três passos de mim, desembuçou-se, arremeteu comigo, pôs-me a pistola tão perto da cará, perguntando-me quem eu era, que, a falar-te verdade, se eu não tivesse alguma experiência deste mundo e a certeza de que ninguém morre duas vezes, talvez dissesse ao padre que fosse em paz e não contendesse com quem estava manso e quieto. Mas hás de tu saber, amigo do coração, que eu, quando tenho medo, mato mais depressa. Um gato brinca com a ratazana que a final estripa; mas, se é cão o inimigo, o gato crava-lhe as unhas logo nos gorgomilos, e não brinca. Deu-se com o perro do clérigo o mesmo cazo. Perguntou-me quem era, de pistola abocada. Respondi-lhe com as punhaladas, que o escrivão do corregedor amanhã dirá quantas foram. Atirou-me à cabeça ainda antes que eu lhe tocasse. Folgo de ter luctado com um homem. Se eu tivesse matado um poltrão, isso havia de me custar remorsos, palavra de Roque da Cunha! Estás aí a contemplar-me com uma cara de mocó de coro da real capela, homem! Parece que o mestre de tua mulher, se até há pouco te andava às cavaleiras da honra, te peza agora às cavaleiras da consciência! Vamos a saber: estás contente comigo, ou querias que eu, em vez de matar o padre, lhe pedisse que me contasse historias do seu sistema de ensinar raparigas?

— Sei que me não queres inxovalhar com esses remoques... — acudiu gravemente Domingos Leite Pereira — Eu sou um homem triste como todos os desgraçados, Roque!.. Se vês em meu rosto o terror, é porque a minha felicidade morreu primeiro que esse homem... que devia morrer. O meu desejo seria tel-o morto, para me apresentar à justiça, e dizer: «fui eu quem o matou; matem-me, que me dispensam de um martírio sem fim!.. » E, se acontecer que a justiça te culpe, irei eu denunciar-me como matador. Agora, meu amigo, pelo que cumpre à minha obrigação para contigo, sou a dizer-te que disponhas de tudo que eu valho, e da minha vida, que pouco vale.

— Tudo que tenho a pedir-te cifra-se em pouco — respondeu Roque da Cunha — Amanhã falas com o corregedor do bairro, e lhe dirás que estou doente: bem vês que não devo aparecer com o carão esfarrapado. Depois, trarás o betume com que se fecham estas gretas, e cuidarás de mim, mandando-me da estalagem do espanhol do Largo do Forno umas empadas de galinha, e do armazém dos Sete Cotovêlos algumas botijas do de Torres Novas. Feito isto estão saldadas as nossas contas; e, quando souberes que tua mulher t'as não dá direitas, abriremos novo saldo.

Uma hora depois, Roque da Cunha, afeito a dormir em conjuncturas análogas, admirava-se de não ter ainda adormecido: e Domingos Leite Pereira, entrando em sua casa com todas as precauções para não ser ouvido, fechou-se no seu quarto, abriu a janela para sentir na fronte esbrazeada o frio da noute, vagou a vista errante pelo céu estrelado; e, chorando como nunca chorára, disse entre si:

— Porque saí eu da tua sombra, meu pobre pai, que a estas horas dormes serenamente no regaço da honra!... Bem me dizias tu, minha santa mãe, que eu fazia mal em deixar a casa, onde nunca chorara alguém até à hora da minha partida... para este inferno em que estou penando!

Ao arraiar da manhã, Domingos Leite ouviu, no corredor contíguo ao quarto, a voz da filha, que, por costume, se erguia de madrugada e ia deitar-se com o pai. Foi abrir a porta, tomou-a do colo da ama, agazalhou-a no peito, porque a menina tremia de frio, aqueceu-lhe o rosto com o respirar febril e cortado de soluços, e longo tempo anceou em aquela tortura misturada com o desafogo aprasivel das lágrimas.

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