Capítulo XVI
Esperava-o Bernardo com o ouvido colado ao postigo.
Domingos Leite entrou no quarto do criado, sem sensível mudança no rosto. Palavra, que denunciasse as revelações do marquês, não proferiu alguma. Bernardo perguntou-lhe a medo se descobrira a paragem da senhora. Respondeu que não: disse verdade.
Conversaram acerca de Ângela. O pai perguntava coisas tão insignificantes que parecia futilissimo, se não fosse desgraçado em extremo. O criado insistiu outra vez em lhe recontar o caso de ser a menina açafata. Transtornaram-se as feições do amo. Ouviu-lhe o escudeiro um ringir de dentes aspérrimo, e um como rugido estrangulado nos gorgomilos. Às duas horas da noute, Domingos Leite pediu ao criado alguns sobejos da sua ceia. Sentia-se esvaecer de fraqueza. Comeu e disse:
— Aqui tens meio cruzado pela ceia e pelo repouso de duas horas.
— Ó meu amo! — exclamou Bernardo — vossa mercê fala serio ao seu velho criado?!
— A ceia deu-te a soldada de tua ama e a casa em que me abrigas dela é. Tu vendes-me parte do que é teu.
— Não o intendo, senhor.
— Deixa-me encostar a cabeça, que há quatro noutes que não durmo e hei medo de insandecer. Antes de romper a manhã, acorda-me.
Pouco depois, Domingos Leite, sopitado em letargia de febre, sonhava alto, pronunciando vozes que gelavam de pavor o criado. Eram apostrofes em que o nome suavissimo da filha se envolvia com expressões indecentes e epítetos que entram sem rebuço nos alcouces. De mistura, estalavam ameaças de sangue, e a palavra rei soava bem distinta por entre as objurgatórias que a precipitação tornava ininteligíveis.
O escudeiro, mais supersticioso em sonhos que esperto em tirar inferências da vida real, compoz com as frases soltas que ouviu a desgraçada situação de seu amo. Chorou então copiosamente ajoelhado à beira do catre.
À hora em que devia chamá-lo, o amo adormecera serenamente e a febre remitira. Bernardo pediu conselho ao seu retábulo do Senhor dos Passos, sobre deixá-lo descançar ou espertal-o daquele tão curto dormir. Figurou-se-lhe que a vontade divina lhe inspirava que deixasse o infeliz restaurar forças para sucumbir depois de muitas e acerbas batalhas.
Era já nado o sol havia muito, quando Domingos Leite espertou. Bernardo, entre receios e lágrimas, disse-lhe que o não chamara, porque à hora aprazada adormecera seu amo, depois de arder em febre agitadamente.
— Mas porque choras tu? — perguntou Domingos Leite.
— Porque choro, senhor!... Ai! quem o viu, quem o viu, meu querido senhor!
E abraçou-se nele, abafando-lhe os gritos no seio.
O infeliz deixava-se abraçar, e murmurava:
— É verdade, Bernardo!... quem me viu!... O que era eu há sete anos! Tão festejado, tão alegre, tão rico, tão esperançado... E agora!... sabes tu lá quanto eu sou digno de compaixão!...
Não tinha o céu beneficio maior a dar-lhe que o daquela torrente de lágrimas...
— Como hei de eu sair daqui a tal hora? — disse ele ao criado.
— Se não tivesse grande precisão de sair, que mal estaria aqui vossa mercê? — e prosseguiu com risonho modo — Se ficar, paga-me o alimento e a dormida...
— Ficarei — conveio Domingos Leite — Olha, Bernardo se eu pudesse ver a cama de minha filha... o berço, aquele berço em que ela às vezes dormia no meu quarto...
— Lá está ainda debaixo do leito de vossa mercê. Nunca mais entrou alguém na sua alcova. A menina muitas vezes pediu à mãe que a deixasse lá entrar; mas a senhora — isto vi eu! — indo uma vez a entrar, para fazer a vontade à filhinha, assim que deu com os olhos nas coisas como vossa mercê as deixou, rompeu em tal choro que saiu dali quase nos meus braços.
Domingos Leite interrompeu-o asperamente.
— Cala-te, homem... O nome dessa mulher nunca mais o pronuncies na minha presença, se me estimas!
Pareceram rápidas as horas daquele dia a Domingos Leite.
Encerrou-se no seu quarto, lendo e rasgando papeis tirados dos seus contadores, memorias da sua mocidade, extractos das suas leituras, escritos políticos com que seu talento ganhara a estima do marquês de Gouvêa, bilhetes de João Pinto Ribeiro e do desembargador João Sanches de Baenã, de incumbência ou de agradecimento de serviços prestados arriscadamente ao duque de Bragança.
A espaços, o escudeiro encontrava-o com a face debruçada sobre os braços, amparando-se no bofete. Quedava-se o velho sofreando a respiração para o ouvir dormír; e às vezes confundia os soluços com o alto respirar de um sono irrequieto. Outras vezes achava-o curvado sobre o espaldar do berço, com os olhos marejados a embevecerem-se na almofada, enquanto o leitosinho se balouçava movido pela mão.
Neste lance temia o velho que seu amo enlouquecesse, parecendo-lhe muito mulherengo aquele ato de estar um homem acalentando um berço vasio.
Aí pelo meio da tarde, o guarda-portão do marquês de Gouvêa procurou o escudeiro de Domingos Leite, e, com muito resguardo, o encarregou de levar um papel lacrado a seu amo.
Bernardo fora prevenido desta mensagem. Aceitou carta, sem dizer ao portador que seu amo estava ali.
O conteúdo era a prorogação do encontro para a noite do seguinte dia, visto que nada podia resolver sem mais algumas horas de atividade.
O mordomo-mor não tinha descansado. Vamos no encalço deste leal amigo de Domingos Leite Pereira.
A hora desacostumada na manhã daquele dia fora em seu coche acordar o secretario de estado Antônio de Cavide. Relatou-lhe, tão ingenuo quanto imprudente, a vinda clandestina do marido de Maria Isabel, de propósito para levar a filha consigo a Madrid, e continuou:
— Tem V. S. ª[8] ocasião de fazer grande serviço a el-rei, à sua amante, à filha de Domingos Leite, a este desgraçado homem e a mim. Tantos favores a tantas pessoas em pouco esforço estão. Consiga V. S. ª que Maria Isabel me entregue a menina que eu lhe prometo sair Domingos Leite de Portugal na mesma hora em que eu lha restituir. Por este modo, evitamos que o marido exasperado publique o destino da mulher; evitamos dissabores a el-rei; evitamos grandes pesares e talvez remorsos a essa mulher, finalmente resgatamos a menina de uma situação pouco exemplar.
— Diz V. Ex. ª optimamente — obtemperou Antônio Cavide — Vou vestir-me, e saio em direitura para Alcântara a procurar Maria Isabel. Não sei se poderei vê-la, porque el-rei está hoje a caçar na tapada do palácio, e a sua Diana deu agora em querer segurar a tréla dos falcões — ajuntou o velhaco sorrindo — No entanto, aguardarei __ o ensejo de me ver a só com ela. V. Ex. ª conhece o gênio de el-rei. Se eu lhe digo que o temerário Domingos Leite, afrontando a justiça, ousou meter-se em Lisboa, temos na rua os corregedores todos com a sua matilha de esbirros na piugada do pobre homem, que será aperreado depois do que nós sabemos...
Aqui arregaçou o secretario outro riso infame e prosseguiu:
— O melhor será que ela diga a el-rei que de seu moto próprio envia a pequena ao pai. El-rei não lho impede, porque a presença da criança o estorva; e as coisas feitas assim ficam excelentemente feitas.
— Muito bem — concordou contentíssimo o mordomo-mor — A que horas calcula V. S. ª poder responder-me?
— Às duas da tarde devo estar de volta de Alcântara. O Domingos Leite está hospede de V. Ex. ª?
— Não, sr — respondeu ingenuamente o marquês — disse-me que se recolhera à rua dos Vinagreiros, e eu fiquei de me encontrar com ele à noite, ou avisal-o hoje de qualquer nova.
— Pois eu vou satisfazer a V. Ex. ª; entretanto, esse infeliz que tenha cuidado sobre si, porque de Madrid tem vindo confidencias a el-rei muito aggravantes para Domingos Leite e para o tal Roque da Cunha, que assassinou o padre Silveira. Eu ouvi dizer a Gaspar de Faria Severim que, precisando de um fino espião em Madrid, o patife mais ajustado ao intento era o tal Roque da Cunha; e sua majestade, que conhece os mais egrégios malandrins de Portugal e conquistas, aprova o alvitre. Domingos Leite que se precate... Isto revéllo eu muito à puridade a V. Ex. ª por saber quanto esse desafortunado homem lhe é agradável, e os bons serviços que ele fez na restauração, escrevendo e falando nas juntas do padre Nicolau da Maia.
Retirou-se o marquês muito agradecido e esperançado no bom exito da sua discreta ideia.
Antônio Cavide foi sem detença a Alcântara, apeou à porta do palácio real, e soube que elrei estava almoçando. Perguntou se sua majestade era sosinho; e, como lhe respondessem afirmativamente, deixou o côche, e foi a pé em demanda de um palacete contíguo ao mosteiro das religiosas do Calvário.
Residia aí Maria Isabel Traga-malhas com sua filha, criadas e pagens. A vizinhança não a presumia teúda do monarca. O fausto do viver justificava-o naturalmente a fama dos seus teres. Dizia-se que a desgraça do ex-escrivão do cível, seu marido, fora causa daquela retirada para longe do concurso da gente, e que o avisinhar-se de mosteiro tão rigoroso era já indicio de profunda piedade a que se acolhiam enormes desgostos. Isto rezava a opinião publica que resa sempre bem.
D. João IV recebia Maria Isabel, a horas mortas, por uma porta do extremo da tapada. Às vezes, passavam-se dias inteiros sem que sua majestade alvorotasse os gamos e veados da floresta; outras vezes, o real caçador, com a escopeta atravessada sobre as pernas, e a fronte pendida ao seio da sua Diana, como dizia o secretario, ouvia os gorgeios dos rouxinóis emboscados nos olmedos e espinheiros. A opinião publica não dizia isto: era Antônio Cavide, e mais algum fidalgo da intima confiança do rei, que o segredavam entre si.
Anunciou-se o ministro a Maria Isabel. Saiu a recebêl-o a açafatasinha, e daí a pouco a mãe com semblante de quem se espantava e assustava da visita.
Expôs Cavide a sua mensagem, segundo o plano convencionado com o marquês. Interrompera-o ela com exclamações, com esterismos, já corando, já empalidecendo; quando, porém, o expositor chegou ao ponto essencial, aconselhando a entrega da menina, Maria Isabel replicou inflexivelmente que não dava sua filha, e que ninguém lha arrancaria dos braços.
Desanimou o agenciador, receando desvaliar-se aos olhos de el-rei nos olhos da sua amante. Pediu perdão de a ter aconselhado, beijou-lhe mesureiramente a mão, e ergueu-se para sair.
Perguntou-lhe, ao retirar-se, Maria Isabel se seu marido se alojára na casa do Salvador. Respondeu Cavide que lhe constava estar Domingos Leite na rua dos Vinagreiros.
Antes de duas horas da tarde, o marquês sabia que as diligencias do secretario se malograram. Tergiversou entre desenganar e esperançar Domingos Leite. Venceu-se alfim do mais generoso pensamento, resolvendo ir pessoalmente falar com Maria Isabel, calculando reduzil-a com o vaticínio das funestas consequências da sua recusação.
Quando às quatro horas da tarde a procurou, a dama era fora de casa, posto que a sua aia dissesse estar de cama com súbito incômodo. Maria Isabel, sem prevenir o seu real amante, nem usar grandes resalvas de honestidade, entrou no átrio do palácio com Ângela pela mão, e foi conduzida reverentemente às salas.
D. João IV, mais contente que sobresaltado da inesperada visita, foi receber a gentil comborça ainda mal enchuta das lágrimas. Referiu ela com entrecortadas vozes, sem pejo da filha, e quase deitada nos braços do rei, o que passara com Antônio Cavide, e concluiu mostrando-se receosa e até certissima de que Domingos Leite, não lhe tirando a filha, seria capaz de matal-a. Era sincera no seu terror.
Tranquillisou-a o rei; e, sem medear tempo, mandou chamar Antônio Cavide. Apartou-se com ele, e deu-lhe ordens rápidas. Ao cair da noute, o secretario de estado entrava em Lisboa, a tempo que o marquês, por palpite de maior desgraça, sabendo que o valido fora chamado a Alcântara, o estava esperando no seu palácio.
Cavide, vendo o mordomo-mor na sua sala de espera, acercou-se dele, e disse-lhe ao ouvido:
— Não há tempo a perder. V. Ex. ª saiba corresponder a esta confidencia... Domingos Leite que se esconda, que fuja, porque vai ser preso. Adeus. Vou procurar o conde de Odemira; vou cumprir ordens de el-rei. O amor é o diabo, sr. marquês, o amor é o diabo! Estas Dalilas tosquiam o nosso Sansão, e queira Deus que o templo se não aluá sobre ele e sobre nós...
— Biltre! — disse de si consigo o marquês.
Era noute cerrada.
O mordomo-mor só confiou de si o melindroso aviso. Disfarçou-se com a maior precaução, e foi à porta do Salvador.
Domingos Leite esperava ainda alguma nova, quando o escudeiro abriu a porta ao desconhecido, que se intitulou enviado da pessoa que já ali tinha mandado recado a seu amo.
Esquivava-se a dar-lhe entrada, quando Leite Pereira reconheceu a vóz do marquês. Subiram para o primeiro sobrado. A terrível noticia revelava-se no aspecto do consternado fidalgo. Domingos compreendeu-o.
— Nada feito, sr. marquês?
— Nada feito. Serei breve porque o tempo urge. Cavide falou a Maria Isabel na entrega da filha. Foi repelido. Quis eu experimentar a condição dessa mulher. Procurei-a; mas não estava em casa. Devia estar com el-rei. Perto da noute soube que o conde de Odemira ia ser encarregado da sua prizão.
— Ainda bem! — exclamou Domingos Leite — Quero ser prezo!
— Não diga absurdos, que me faz arrepender de lhe votar tamanha amizade! Quer ser preso! para que?
— Direi entre ferros quem é o rei de Portugal!
— Não dirá nada entre ferros, porque há mordaças. De sobra sabia Francisco de Lucena quem era D. João IV, e nada disse, morrendo inocentíssimo, e D. João IV de sobra sabia que Lucena morria inocente... e deixou-o morrer. (Nota 22. ª) Não me conteste nem resista, que perde o único amigo que tem no reino. Fuja sem demora. Vá para Madrid, se não prefere antes ir para França. Eu, à força de idear traças de lhe restituir sua filha, hei de conseguil-o cedo ou tarde. Espero comover o rei, pintando-lhe a dor do infeliz marido e pai...
— De modo nenhum! — obstou Domingos Leite com azedume — Peço-lhe que me não avilte, sr. marquês! Deixe-me morrer com dignidade! Não quero a misericórdia do tirano, do adultero, do devasso, que eu por entre punhais de castelhanos e de portugueses aclamei em Évora. Não quero desse homem senão um saldo de contas que se hão de liquidar...
— Sio! — atalhou o marquês, tapando-lhe a boca, e sopesando os cabelos que se lhe irriçavam de terror na fronte gelada. — Cale-se, mentecapto!... cale-se! que, senão, eu maldigo a hora em que vim aqui!..
— Perdão, meu nobre amigo! — volveu Domingos Leite — Se v. ex. ª se arrepende de vir aqui, repêso me sinto eu também de o haver procurado. Entretanto, como v. ex. ª se me figura traspassado de um certo horror de cumplicidade nos meus propósitos de vingança, o meu dever é preserval-o de susto, retirando-me amanhã para Castella.
— Amanhã não, hoje, é urgentissimo que seja hoje; porque, ao raiar da manhã, esta casa pode ser rodeada de quadrilheiros.
— Em tal caso vou retirar-me para outra casa que tenho, e sairei dela ao romper do dia.
— Vai para a rua dos Vinagreiros?
— Não, senhor marquês... E, quando fosse, quem denunciou o meu esconderijo da rua dos Vinagreiros?!
— Fui eu por imperdoável imprudencia a Antônio de Cavide. Cuidei que o tinha compadecido, e hoje receio que ele dirija para lá e para aqui ao mesmo tempo os aguasis.
— Vá v. ex. ª descansado que não hei de ser encontrado aqui nem lá.
— Meu amigo do coração! — clamou o mordomo-mor abraçando-o — Adeus! adeus! fie de mim o seu futuro, o seu perdão, e a entrega da sua querida filha!