Capítulo XV
Na noite de 10 de abril de 1647, por volta das onze horas, chegou Domingos Leite aos arrabaldes de Lisboa, os quais, do lado da Senhora da Graça, eram povoados de quintas, cujas casas, debruçadas pelos outeiros da serra de Almofala, o luar froixo daquela noite amarelecia tristemente.
Aí descavalgou Domingos Leite, despediu o arrieiro que o conduzira desde Moira, e esperou o repontar da manhã, hora em que as trinta e oito portas de Lisboa se franqueavam.
Com a gualteira do ferragoulo encapuzada, entrou de involta nas récovas das vitualhas, e desceu, estugando o passo, pela íngreme calçada da senhora da Graça, meteu por becos ainda desertos, e parou na rua dos Vinagreiros. Abriu a porta, depois de examinar a numeração da casa, e fechou-se por dentro, com a certeza de que ninguém o vira. Subiu tateando no escuro das escadas até ao quinto andar, que sobranceava os telhados vizinhos; abriu as janelas, respirou com ofegante prazer o ar do Tejo, que, àquela hora matinal, enquanto as adufas não resfolegavam a peste interior das casas, era saudavelmente respirável. Entre as setenta e duas torres de Igrejas procurou a de S. Tomé, porque dali perto estava a Portaria do Salvador, e nesse sitio lampejava aos primeiros raios do sol um zimbório que era o da casa onde àquela hora devia estar dormindo a sua Ângela. A manhã era de abril, o céu azul, o Tejo formoso; naquele ar da pátria resoavam-lhe os cantares que só percebem almas volvidas do desterro. Estes júbilos eram-lhe revesados de tristezas amarissimas, ao lembrar-se que a tão donairosa e poética Lisboa lhe seria apenas uma paragem de horas com perigo da sua liberdade; porém, o anhelante desejo de ver a filha, o evadir-se com ela, e a solidão do proscripto dulcificada pela convivência da criança, davam-lhe alento e alternativas de exultação.
Previra Domingos Leite que na casa de Francisco Mendes Nobre, com toda a certeza, não moravam fadas lareiras que lhe cosinhassem o jantar. Esta racional hipótese, não vulgar nos personagens das novelas, preveniu-o fora de portas, indusindo-o a comprar dois pães saloios, com que substituiu frugal e alegremente os dois repastos do dia. E, como as suas horas eram muitas e vagarosas, examinou os repartimentos da casa do seu recente amigo e benfeitor, maravilhando-se da beleza dos adornos, do aroma feminil que recendia das alfaias, e disposição graciosa dos objetos, posto que se estivesse em tudo revelando um abandono súbito e desordenado. Deprehendêra Domingos Leite que daquele recinto fugira ao mesmo tempo a tímida amante do cristão novo, e essa devia ser a formosa mulher que ele, um momento, vira em Madrid, quando se despedira de Francisco Mendes.
Assim que escureceu, e antes que o luar apontasse, Domingos Leite saiu. As noites da Lisboa daquele tempo eram apenas alumiadas pelas lampadas dos oratorios vazados entre as adufas. Os quadrilheiros rondavam em magotes, receosos dos turbulentos fidalgos cujas delicias eram investir com eles e soval-os, se os pilhavam repartidos. Fácil, por tanto, foi a Domingos Leite entrever de longe os vultos suspeitos, e furtar-se a seguro, por bêccos conhecidos, até se avisinhar da Portaria do Salvador.
Quando ali chegou, todas as janelas e portas de sua casa estavam fechadas. Nos três andares, e ao travez das trinta janelas, não translusia claridade de luz; mas, por entre os resquícios de um frestão, ao rez da rua, no quarto dos criados, viu Domingos Leite que havia luz, e a espaços ouviu o ruido de passos.
Temendo que os criados já fossem outros, hesitou em dar sinal; mas, porque a noite se adiantasse, e o medo de ser conhecido pelos transeuntes o obrigasse a fugir por vêzes da visinhagem da casa, resolveu bater no postigo e proferir o nome do escudeiro, que o servia desde que ele entrara no paço da duqueza de Mântua, na qualidade de mocó da capela.
— Bernardo! — murmurou Domingos Leite tocando subtilmente no postigo.
— Quem está aí? — acudiu alvorotado o velho escudeiro, afigurando-se-lhe a vóz do amo.
— Eu: não me conheces? Abre depressa: mas não faças rumor — disse ele colando os lábios ao frestão.
O criado abriu o postigo, reconheceu o amo e exclamou:
— Nossa Senhora da Graça! é vossa mercê, sr. Domingos Leite?!
— Sou... abre-me a porta; mas que não se ouça lá em cima.
— Aqui estou eu sosinho e mais ninguém — murmurou Bernardo.
— O que? e minha filha? e... tua ama? — exclamou Domingos Leite conturbado.
— Eu vou abrir, eu vou abrir.
Recolhido ao quarto do escudeiro, que o abraçava pelos joelhos, perguntou:
— Onde está minha mulher?
— Há de haver quinze dias que saiu de casa.
— Para onde?
— Não sei dizer a vossa mercê.
— Como não sabes?! iria para Espanha?
— Não, senhor. Está em Lisboa; mas não sei onde está. Tudo que havia em casa, ficou como estava. A senhora levou tão somente dois baús com vestidos seus e da menina. Despediu os criados que eramos três; e fiquei eu só para ter conta na casa; levou uma criada, e a preta que criou a menina, e despediu as outras. Deixou-me dinheiro para um mês, e disse-me que, no mês que vem, cá mandaria entregar-me igual mesada à que me deixou. Eu desconfiei que a minha ama e menina teriam ido recolher-se em algum convento; mas quero cuidar que, se fosse isso, a senhora mo diria para que eu pudesse saber dela e da minha ama pequena, que tantas vezes chorou aqui neste quarto por vossa mercê...
— Viste-a sair de casa? — atalhou Domingos Leite.
— Não, meu senhor. Saíram tão de madrugada que eu apenas dei tento da saída ouvindo o tropel dos machos da liteira.
— Da liteira da casa?
— Não, senhor. Logo que vossa mercê saiu de Lisboa, dali a dias, minha ama mandou-me vender os machos, o cavalo, a liteira, a cadeirinha, e tudo mais.
— Quem vinha a esta casa depois que eu me retirei? — perguntou mais tranquilo Domingos Leite, abraçando, contra a opinião do criado, a hipótese do convento.
— Apenas aqui entrou três vezes...
— Quem?
— O sr. Antônio de Cavide...
— Oh! — exclamou o marido de Maria Isabel, arregaçando as pálpebras, como se os olhos túmidos de terror ou ira não coubessem nas orbitas — Que dizes tu? Antônio Cavide? o secretario de el-rei? conhecel-o bem?
— Se conheço, senhor!... e mais eu nunca o vi aqui entrar senão ao fim da tarde, entre lusco-fusco...
— Dize-me o que sabes... — clamou desabridamente Domingos Leite, batendo no ombro ao amedrontado escudeiro.
— Não sei mais nada, meu amo... Ah!.. outra coisa... depois que o Cavide aqui veio, as criadas disseram-me que a menina era açafata do paço...
— O que? açafata!?.
— Sim, meu senhor, e por sinal todos começamos a tratar a menina por senhoria e dom, porque a mãe assim o ordenara às criadas...
— Que mais, Bernardo, que mais? — soluçava em violento arquejar Domingos Leite, com os pulsos fincados nas fontes e os olhos espavoridos na cara atribulada do criado.
— Nada mais sei.
Quedou-se alguns minutos em silencioso anseio; e de súbito disse ao criado:
— Que ninguém saiba que estou em Lisboa...
— Ó meu amo! — volveu Bernardo — permita Deus que a morte me colha, se alguém o souber de mim...
— Fecha as portas, que eu vou sair; mas não durmas, que eu talvez tenha de voltar aqui esta noute. Vai ao meu quarto, e...
— Não tenho as chaves do quarto de vossa mercê.
— Arromba a porta e traze de lá os meus pistoletes para aqui; se eu voltar esta noite, dar-m'os-hás pelo postigo, logo que eu te der sinal, e te chamar.
— Onde vai o meu amo!... pelas chagas de Cristo, pense no que vai fazer... — rogou o velho de mãos erguidas.
Domingos Leite encarou-o de ruim aspecto, e interrogou:
— Que cuidas tu que eu vou fazer?! Então sabes onde está essa mulher? Dize, Bernardo! Ordeno-te que mo digas!..
— O Senhor dos Paços da Graça me tolha esta língua se eu sei onde está minha ama.
Domingos Leite saiu em direitura ao Bairro da Marinha, que assim chamavam à parte da cidade convisinha do Tejo. Aí, contíguo ao convento dos hibérnios ou dominicanos irlandezes, era o palácio do marquês de Gouvêa, somente habitado durante o inverno.
Soavam onze horas no relógio do paço da Ribeira, quando Domingos Leite aldravava no portão do mordomo-mor, com o desassombro do seu tempo de secretario. Falou o porteiro pelo postigo, e disse que o sr. marquês estava na cama. Instou Domingos Leite por lhe falar, dando-se a conhecer ao pávido porteiro, que levou a noticia ao fidalgo.
Ergueu-se o marquês sobresaltado, e foi receber Domingos Leite, ordenando ao porteiro que escondesse dos mais criados a vinda daquele infeliz a Lisboa.
— Vossemecê aqui?! — exclamou o mordomo-mor.
— É verdade — respondeu Domingos Leite com semblante em aparência sossegado — venho perguntar a V. Ex. ª se me sabe dizer onde está Maria Isabel.
O marquês olhou-o compassivamente, deteve-se silencioso, apoiou a fronte entre os dedos entrelaçados, deu um gemido de sincera mágoa, e murmurou:
— Fuja, desgraçado; saia de Lisboa... A que veio aqui?
— Buscar minha filha. Não disse eu tantas vezes em minhas cartas a V. Ex. ª que morria de saudades dela? Venho buscá-la; mas, não a achando nem a mãe na casa onde ficáram, pergunto a V. Ex. ª onde estão.
Após longo silencio do interrogado e rápida mutação no aspecto de Domingos Leite, o marquês, dados alguns passeios na sala, perguntou:
— Contenta-se com levar sua filha, sr. Leite?
— É minha filha unicamente que eu quero levar.
— Vou esforçar-me pelo conseguimento desse desejo.
— Beijo as mãos de V. Ex. ª; mas devo ignorar onde ela está?
— Poderia sabêl-o, se tivesse pela mãe todo o desprezo que ela merece.
— Prostituiu-se? Bem vê V. Ex. ª que eu lhe faço esta pergunta com a maior serenidade. Não vê?
— Desconfio que não.
— Creia, sr. marquês; se eu tirar a minha filha do abismo em que está Maria Isabel, visto-me de gala... Mas como foi este rápido despenho da malfadada, por quem eu me perdi?
— Jure-me que há de ser homem de bem!
— Juro a V. Ex. ª que hei de ser homem de bem até o provar no patíbulo, onde os malfeitores ouvem o pregão da sua infâmia.
— Que está aí a imaginar patíbulos! Os homens de bem não vão aos patíbulos.
— Isto foi um modo figurado de falar. Deus há de permitir que eu não expie na forca as devassidões da barregan de... De quem? ainda V. Ex. ª me não disse de quem...
— De D. João IV — respondeu serenamente o fidalgo.
— Veja, sr. marquês, que esse augusto nome não me colheu de assalto. Eu tinha-o suspeitado, logo que um meu criado me disse que Antônio de Cavide frequentava a casa da mulher perdida.
Nos beiços de Domingos Leite crispava o que quer que fosse análogo a um sorriso, como se as dores lancinantes da nevralgia facial lhe vibrassem os músculos labiais. O marquês contemplava-o. E ele, sem poder exprimir-se, exercitava com as mãos e cabeça uns gestos significativos de torvação.
— Sr. Leite... — disse o mordomo-mor, tocando-lhe afavelmente na mão esquerda com que ele comprimia o coração.
— Sr. marquês... — respondeu muito abatido Domingos Leite.
— Força e alma!
— Sinto que tenho ambas as coisas... e demais! Antes Deus me fizesse mais fraco.
Passados momentos, prosseguiu:
— Parece incrivel, mas é atrozmente verdade, que eu peço e desejo que V. Ex. ª me conte como ela se perdeu... Não foi por necessidade, que eu tudo que ela tinha lhe deixei. Não foi por paixão, porque o rei não tem as graças fulminantes que prostrem num estrado ou num leito real a mulher de alguma honestidade. Então que foi? um longo trabalho de seducção? uma cadeia de perfídias que deram de si a posse pela violência imprevista? Não pode ser. Há três meses que eu saí do reino, e há quinze dias que a rameira se mudou para o real bordel... Como foi isto então, sr. marquês? Faça de conta que refere a história a um estranho, que afinal se há de rir do marido, e achar que o rei não tinha obrigação de ser mais honrado que o padre Luiz da Silveira...
Domingos Leite, neste ponto do seu lento e sinistro discorrer, desfechou uma risada estridula que fez frio na espinha dorsal do fidalgo; e logo abruptamente continuou com a máxima gravidade:
— Mas quem diz aos reis que eles são mais invulneraveis que os padres?
— Fale baixo! — acudiu o marquês chegando-lhe a mão tremente até aos beiços — Sr. Leite, olhe que há muita gente nesta casa... Peço-lhe que me não exponha, e peço-lhe que se não precipite irremediavelmente...
— Eu falarei baixinho, sr. marquês — replicou Domingos Leite, quase em segredo — Perdoe-me V. Ex. ª estas explosões; são relâmpagos sem raio. Eu não faço mal a ninguém. Sou um proscripto... um proscripto da laia de João Lourenço da Cunha, que lá em Castella usava pontas de ouro. Ora eu, que sou pobre, hei de usal-as... da sua natural matéria...
E riu rispidamente, esfregando com frenesi as mãos nos joelhos, com umas figurações de louco.
— Valha-me o céu! — tornou o marquês de Gouvêa — Cuidei que o infortúnio de muitos, em casos desta natureza, lhe daria o exemplo do que é a verdadeira dignidade de um marido...
— Qual é? o despejo?
— Não: é o desprezo.
— E por ventura que sinto eu senão o desprezo por ela? Mas a mim é que eu não posso desprezar-me também, sr. mordomo-mor! De uns homens, como o conde D. Gregório Castelo Branco, sei eu que não só não desprezam mas até acatam suas mulheres, se D. João IV houve por bem difamar-lh'as. Não sei se esta tolerância é cortesia aprendida na frequência da corte. Eu... bem sabe V. Ex. ª que sou da arraia miúda, e creio ainda que me seria mais airoso ter uma esposa honesta que ter-m'a no seu leito el-rei nosso senhor... — E ria-se!
— Meu amigo — redarguiu tanto ou quanto impacientado o mordomo-mor — desculpo-lhe o desabafo das ironias, e até lhe desculparia as mais aceradas injúrias a quem quer que fosse; mas não é assim que o seu destino há de melhorar, sr. Leite. Respeitemos a fatalidade e remediemos o que poder ser.
— Diga V. Ex. ª, meu nobre amigo.
— Sua mulher, querendo ir para Castella unir-se a seu marido com sua filha...
— Ela!.. ela unir-se a mim?
— Ou subjeitar-se ao desprezo, com tanto que pudesse aliviar-lhe a desgraça levando-lhe a menina, sua mulher, repito, quis vender os bens; mas a justiça impediu-lh'o. Consultou-me sobre solicitar de elrei a licença; eu desaprovei-lhe semelhante recurso; ela menospresou o meu conselho, e falou ao rei. Mal sei o que passou entre ambos. O que fácil me foi saber de pessoa competente foi que el-rei, por intermeio de Antônio Cavide, é hoje o que o sr. Leite sabe. Agora que de fugida lhe disse o que me afligiu grandemente referir-lhe, vamos ao ponto, vamos satisfazer o motivo que o trouxe a Portugal. Quer sua filha?
— Sim, sr. marquês.
— E, obtida ela, retira-se sem estrondo, sem escândalo?
— Imediatamente.
— Pois então vá o sr. Domingos Leite para sua casa, e amanhã dê-me ponto onde eu o encontre às dez da noute. Não venha aqui. Onde se alojou?
— Na casa desabitada de um amigo.
— Aonde?
— Na rua dos Vinagreiros. Seria difícil a V. Ex. ª achar de noute o numero da porta.
— Espere... Às nove em ponto o meu coche há de estar nas teracenas. Vossemecê vai aforrado, entra, e lá me encontra. Então lhe darei noticia das minhas diligencias de amanhã. Entretanto, se eu antes dessa hora tiver precisão de lhe dar aviso, como há de ser?
— Em casa de Maria Isabel está um criado a quem V. Ex. ª pode mandar qualquer aviso, que ele irá comunicar-m'o.
— Tranquillize-se, sr. Leite, seja homem; sem isso não pode lograr a satisfação de ser pai extremoso.
Domingos Leite curvou-se até beijar a mão do marquês, e saiu.