Capítulo XII O Regicida · Capítulo 13 de 22
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Capítulo XII

Maria Isabel, querendo passar a Castella, ofereceu os seus prédios da Tanoaria a vários compradores que lhos haviam desejado; mas a alienação dos bens seria nula sem consenso do marido, e nula também enquanto ele não houvesse respondido à justiça, que o esbulhára dos seus direitos.

Recorreu a dama ao mordomo-mor, que não antevira o embaraço, nem podia removêl-o. A consternada senhora saiu do gabinete do marquês, desatendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o resultado da intervenção de um ministro mais influente no real animo. O mordomo-mor lembrara-se de Antônio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de D. João IV.

Seguiu dali, com a filha, para o paço da Ribeira, e entrou no Arco de Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim porque debaixo daquele arco havia entrada franca de serventia para uma casa onde estava uma roda, como a das portarias monásticas, e sobre a roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo que a campainha tocasse, D. João IV enviava alguém a reconhecer a pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquele meio menos ordinário.

Estava o rei com Antônio de Cavide na sua pomposa biblioteca de musica, situada na porção do palácio chamada o Quarto do Forte, quando ouviu tanger a sineta.

— Vá ver quem é — disse o rei sorrindo — Olhe que não vá ser algum burro lazarento...

Enquanto o secretario de estado vai e volta, saibamos que alusão é aquela do burro lazarento, visto que Diogo de Paiva e Andrade no'l-a transmitiu nas suas Memorias, por vezes citadas neste livro. Foi que uma vez entrara um jumento vadio no recinto da sineta, e começou a trincar a corda no intento provável de a comer. Ora como a sineta repicava tão ligeira quanto a fome do tangedor esgarçava no cordel, D. João IV, que estava só, e extranhára o pressuroso dos toques, desceu pessoalmente à casa da roda, e perguntou quem era. Como ninguém lhe respondesse, mandou averiguar se a pessoa que tócara já teria subido à saleta de espera. O enviado voltou anunciando a sua majestade que encontrara um burro muito magro. El-rei ordenou logo que o levassem às cavalariças reais, com recomendação de o tratarem fartamente; e acrescentou; «Semelhante pretendente não pode ter outro requerimento. »

Não me consta que D. João IV, em toda a sua vida, dissesse ou fizesse coisa de tanto espirito. A não ser coevo de sua majestade aquele burro faminto, morreriam ambos ignorados, sendo digna de escritura a lembrança que os dois tiveram.

Voltou no entanto Antônio Cavide com ridentissimo semblante, e disse:

— Mal pensava eu, real senhor, quando há pouco tentava pintar o esbelto rosto da mulher de Domingos Leite, que ela tão perto estava de desmentir na presença de vossa Majestade a pálida copia que eu fiz!...

— Foi ela que tocou?! — acudiu o rei entre alegre e maravilhado.

— Ela, meu senhor, acompanhada da filha. Pede audiência; e, apesar de coberta de lágrimas, nunca houve orvalho que aljofarasse mais purpurinas rosas!..

— Estou a ver se me fala em verso, Cavide! — disse o rei escondendo a custo a comoção da curiosidade — Mande-as entrar na primeira sala.

O secretario de estado correu o reposteiro da sala de espera e disse a Maria Isabel:

— Sua majestade houve por bem admitir a vossa mercê à sua real presença; queira entrar nesta sala, e esperar el-rei nosso senhor.

A esposa de Domingos Leite com dificuldade se sustinha nas pernas, chegado o momento de se avistar face a face do rei: tremia de respeito como tremeria de pavor. A menina aconchegava-se dela olhando-a com susto, e circumvagando a vista assombrada pelas tapeçarias e colgaduras de ouro e prata, de veludo e damasco entre as quais lampejavam contadores marchetados de ouro e marfim, grandes cofres abaulados de tartaruga e prata, bofetes torneados com feitios de dragos e serpentes, jarroens japonezes encimados das peregrinas flores que recendiam nos jardins do paço da Ribeira, redomas de christal, relógios de Inglaterra com primorosos relevos de esmalte, as pompas de toda a terra conglobadas naquele palácio, que já então pompeava primasias sobre as mais esplendidas cortes da Europa, graças à baixela da duquesa de Mântua, que nunca lhe foi restituida.

Posto que o tapete abafasse as passadas de el-rei, Maria Isabel ouviu-o nas palpitações do coração; e já estava em joelhos, quando um sumilher da cortina correu o reposteiro com um ringido de aço estridente que, digamo-lo assim, aggravava mais o terror do lance.

D. João IV entrou; o reposteiro ajustou-se outra vez aos batentes da ampla porta; e, neste conflito, a filha do burguez João Bernardes Traga-malhas cuidou que desmaiava, encostando a face esquerda ao volante que cobria a cabeça da menina.

Orçava então o rei pelos quarenta e três anos. Não obstante as bexigas, que lhe alteraram notavelmente a gentilesa do rosto, conservava vivacissima a graça dos olhos azuis, mais risonhos que os lábios, nos escassos momentos em que o contentamento lhes transluzia desafogado da violenta caracterisação de rei suspeitoso. Era de estatura mean, e largo de espaduas, robustecido em lides fragueiras, despresador de inclemências de tempo, quando nas monterias da tapada de Vila-Viçosa dispendia selvaticamente os melhores anos da existência. Dá a perceber o conde da Ericeira, D. Luiz de Menezes, no Portugal Restaurado, que D. João era tão desregrado na alimentação que anticipara a caduquez do corpo. O historiador áulico, se lhe dessem trela, e alforria no pensamento, assim como nos disse que no rei o trajar era pouco menos que rustico e sujo, comunicar-nos-hia a intemperança do espadaúdo sujeito, cevando-se nas lubricidades que adelgaçam as mais maçorras e rijas compleições.

Não se pense, porem, que o rei de Portugal naquele dia trajasse imundo ou denotasse na epiderme do rosto padecimentos de hidropesia. Vestia um pourpoint (gibão) de pano preto, refegado no peito, sem guarnições até baixo do joelho, como loba clerical, e a pescoceira da camisa derrubada sobre a gola daquela vestimenta que muitas vezes usava, da vil droga chamada estamenha. (Nota 20. ª)

Os cabelos loiros, mas tosquiados quase rentes, descampavam-lhe a fronte, relevada em proeminencias, que inculcariam talento, se a ciência frenológica de Spurzheim não fosse um lôgro nas cabeças da raça dos braganças, não colaboradas.

Calçava meia de sedã escura e sapato de veludo com um simples botão, sem os broches e orladura de ouro e perolas com que medianos fidalgos e até os pecuniosos da classe média se ajaesavam.

Como já vimos, Maria Isabel Traga-malhas esperava ajoelhada e perturbadissima a entrada de el-rei.

Caminhando a passo vagaroso para ela, D. João IV parou a pequena distancia, e disse-lhe:

— Levantae-vos, senhora!

E como ela permanecesse em joelhos e ansiada, o rei insistiu:

— Erguei-vos, que eu desejo ouvir-vos sem essa postura de adoração. Vamos! a pé!

Sua majestade poderia dizer alguma coisa mais regia, mais conceituosa, mais galan, ou, sequer, mais espirituosa, para arrolarmos com a outra do quadrupede da sinêta; mas não o arguamos de canhêstro ou peco de frases, dado que, a respeito da sua eloquência, o referido conde da Ericeira nos diga que não costumando o rei a empregar as palavras mais polidas, usava delas com tal arte, galantaria e agudeza que parecia fazia estudo do que em outros podera ser defeito. [4]

desta vez, cumpre desculpar-lhe a insufficiencia, dando-lhe foros de mero homem em presença da mulher que ultrapassava toda a beleza imaginada.

Maria Isabel, apesar de ter meia face velada no rebuço do capotilho — descortezia que ela ignorava por desconhecer ceremonias palacianas — deixava metade do rosto aos deleites da admiração, e a outra metade à curiosidade dos desejos, como diria na sua retorica farfalhuda Antônio Cavide.

Quando Maria se levantou, sem altear os olhos acima do estrado, acercou-se mais o rei, e pôs a mão na face de Ângela, dizendo:

— És muito galante, menina!

A mãe relançou a vista menos tímida à face de D. João, e, como lhe encontrasse os olhos fixos, derivou logo os seus para a criança, absôrta na contemplação do rei.

— Sentae-vos, senhora — continuou, apontando-lhe uma cadeira, e olhando de esconso para o reposteiro, afim de certificar-se que ninguém lhe espreitava tão insolita cortesia ou tamanho abatimento da majestade.

— Se vossa majestade não quer ouvir-me de joelhos, peço que me deixe suplicar de pé a sua misericórdia — balbuciou Maria.

— Sentae-vos e dizei. Tudo que o rei poder fazer-vos sem gravame da justiça e direito de seus vassalos, ser-vos-há feito. Vindes pedir-me que absolva vosso marido de um crime publico? não sou eu quem há de sentencial-o ou absolvel-o.

— Não peço tanto a vossa majestade, meu Senhor...

— Que quereis então?

— Ir com minha filha para Madrid.

— Quereis ir para Domingos Leite? — perguntou o rei com estranhesa.

— Sim, real Senhor.

— É ele que vos chama?

— Saberá vossa majestade que eu, desde que ele partiu, nunca mais tive noticias suas.

— Apesar disso, quereis ir... Quem vos priva?

— Quis vender parte dos meus bens, e a justiça não mo permite nem permitirá ainda que meu marido assigne os contractos.

— Porque é essa a lei dos criminosos — volveu gravemente o rei — Vindes pedir-me que submeta a lei à minha vontade particular? O que não posso fazer como homem, neste caso, também o não posso fazer como príncipe. Eu não subordino a justiça: sou-lhe subordinado. Porém, como homem, poderei prestar-vos um serviço, se o quizerdes aceitar. Dar-vos-hei meios para irdes a Castella; e enquanto lá os carecerdes, remediar-vos-hei.

Maria, pela primeira vez, encarou a fito o monarca. Brilhavam-lhe as lágrimas nos esplendidos olhos. El-rei parecia olhal-a com o resguardo tímido de vassalo a contemplar, reconditamente amoroso, a sua rainha.

— Eu queria — murmurou ela — levar a meu marido o que herdei de meus pais; mas agradeço a vossa majestade a esmola que me oferece.

— Não é esmola; é empréstimo. Quando a sentença remover os estorvos que vos privam de vender os bens, então me pagareis. Entretanto, sabeis se vosso marido vos receberá graciosamente?

— Não sei, meu senhor...

— Ouvi dizer que ele, desde a morte de certa pessoa, vos não falara mais. É verdade?

— Sim, meu senhor.

— E esse desprezo não impede que o ameis? Fallae-me verdade inteira, porque a vossa sorte me está prendendo extraordinariamente a atenção. Amaes Domingos Leite?

Deteve-se alguns momentos a interrogada, e respondeu com embaraço:

— Casei com ele por paixão, e foi a paixão que me cegou... — e aqui reteve-se vexada e confusa.

— Sei o que vos custa a dizer: — acudiu o rei — passae adiante, Maria Isabel.

A suavidade com que D. João proferiu os dois nomes parecia arrasar uma alta barreira, erecta entre os desiguais interlocutores. Aquele tom de benévola confiança — o ver ela seu nome na memoria de el-rei — deu-lhe umas largas à alma, uns assomos de vaidade, um desafôgo análogo ao dos pulmões que se impregnam de correntes de ar novo em recinto abafadiço.

— Dizei, — prosseguiu ele — O desamor com que Domingos Leite recusou perdoar-vos uma culpa, que devia ser atenuada pela inocência com que a praticastes, foi causa a que a vossa paixão se desvanecesse... Errei o meu juiso?

— É verdade, real senhor!.. Eu sei que fui criminosa em aceitar o seu galanteio; mas não o seria... se não fosse tão inocente.

— Ainda assim, é compaixão ou amor que vos resolve a procurá-lo em Espanha?

— É esta criança que chora por ele; e é a aflição que eu sinto quando me lembro das aflições com que meu marido se separou da filha...

— E de vós, não?! — redarguiu ele com pérfida admiração.

— Parecia querer perdoar-me nessa hora...

— Bem. Perguntae-lhe se vos perdoa. Se ele vos disser que sim, ide, e contae comigo. Lembro-vos, contudo, que em Madrid Domingos Leite é recebido como homem brioso que matou um padre, amante de sua mulher: e que o sr. D. Filipe IV, atendendo aos merecimentos de tal façanha, o honrou com o habito de cavaleiro da ordem de Cristo. Não sei se ele vos aceitará, depois que este boato, em grande parte aleivoso, se derramou em Portugal e Espanha; e estou em crer que Maria Isabel, tão mal considerada em Madrid, não quererá aparecer aos admiradores de seu marido.

— Esse boato é uma calúnia, senhor! — exclamou ela com os olhos secos e o rubor nas faces.

— Não mo digais a mim, que eu já vol-o disse. Li o processo com o maior empenho; quis salvar vosso marido; já vêdes que se alguém dúvida da vossa inocência de esposa, não sou eu. Como quer que seja, em matéria tão melindrosa, não sei nem devo aconselhar. Fazei o que bem vos apraza. Repito: escreva Maria Isabel a seu marido, e dê a carta ao meu secretario de estado Antônio Cavide, que ele a fará entregar diretamente a Domingos Leite, e a resposta, se vier, ser-vos-há entregue.

— Ah! — suspirou a formosa — se o meu nome anda tão infamado em Madrid, meu marido não me responde... Ele desprezava-me, quando toda a gente ignorava a minha desgraça; que fará agora que é maior desonra para ele reconciliar-se comigo!..

— Quem sabe? O coração humano faz mudanças de que não sabemos dar causa nem rasão. Nada se perde em lhe sondardes o animo. Escrevei-lhe hoje, que amanhã Antônio Cavide, ou alguém com recado seu, irá procurar vossa carta.

E, voltando-se para a menina, perguntou:

— Como te chamas, linda?

— Ângela — respondeu a criança.

— Criada de vossa majestade — acrescentou a mãe muito desvanecida da regia curiosidade.

— Pois que dizeis que é minha criada — volveu D. João IV — minha criada fica sendo desde hoje, e virá exercer o seu ofício, quando a idade lho permitir. No emtanto, o seu nome será registrado no livro das açafatas da rainha, desde já.

— Ajoelha a sua majestade, e pede-lhe licença para lhe beijar a mão — disse Maria Isabel com transporte.

O rei colheu a menina nos braços, e disse:

— Eu é que lhe beijo estas duas rosas do rosto, que fazem lembrar os cherubins. Uma reflexão — prosseguiu o rei de súbito — não diga Maria Isabel a seu marido que eu nomeei sua filha criada do paço. Seria muito dolorosa para mim semelhante nova dada a um homem, que não pode ser galardoado enquanto não for absolvido. Tendes entendido?

— Esteja vossa majestade segurissimo de que eu não direi que falei a vossa majestade.

— Ainda melhor, ainda melhor. Nem uma palavra que prenda comigo.

Maria levantou-se indecisa se lhe cumpria despedir-se ou ser despedida de el-rei.

— Quereis sair? Esperae, — disse D. João — que eu vou mandar-vos o meu secretario de estado para vos acompanhar à liteira.

— Vim a pé, real senhor.

— Ah! sim? Não obstante, esperae.

Saiu o rei, beijando outra vez Ângela, e deteve-se breves minutos com o secretario, que saiu a dar ordens a um pagem, que as foi transmitir a um moço da estribeira.

Voltou Cavide outra vez à presença do amo.

D. João IV, encaracolando o bigode louro, e palmeando na espaciosa fronte, clamava entusiasta:

— Que mulher! que mulher! Bem me dizia o marquês... Não há dama no paço que lhe ganhe!.. Oh! que soberba criatura! tem musica na voz a feiticeira! Nunca vi coisa assim, nem viva nem pintada!

Cavide ria-se e esfregava as mãos.

— Isto não é para rir, meu caro!.. — obstou o rei — Querem ver que eu estou apaixonado!..

neste lance grave, que as expressões do rei e a cara do valido tornavam ridículo, o pagem disse por detrás do reposteiro que o moço da estribeira enviára dizer que a liteira das açafatas estava no pátio do norte.

— Vá! ordenou o rei ao secretario.

Antônio Cavide entrou na sala, onde ficara Maria Isabel, e inclinando a cabeça, disse:

— Sigam-me vossas senhorias. [5]

E, descendo ao pátio onde estava a liteira com lacaios de libré da casa real, deu a mão a Maria Isabel para ajudal-a a subir.

— Eu vim a pé... — gaguejou a mulher de Domingos Leite, não percebendo o convite do fidalgo.

— Sei isso; mas sua majestade manda conduzir na competente liteira a sua açafatasinha e mais sua mãe, muito minha senhora.

E, ao mesmo tempo que dizia isto mui galãmente, tomou Ângela nos braços, e sentou-a no almadraque inferior; depois, ofereceu o ombro à mãe, fechou a portinhola, e disse ao lacaio da frente:

— A casa de suas senhorias é na Porta do Salvador.

A liteira partiu com as cortinas fechadas. O instinto do pejo imprimira aquele impensado impulso ao braço da mulher do expatriado.

E D. João IV, que de uma janela que abria sobre o terreiro, presenciára o fecharem-se as cortinas da liteira, dizia depois a Cavide:

— Aquele recato pagára-lh'o eu com milhões, se o meu coração não valesse mais que eles!...

O confidente ouviu isto com a maior circumspecção.

O castigo supremo dos validos é não poderem escancarar sinceras gargalhadas nas faces dos reis.

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