Capítulo XIV
Na correntesa dos referidos casos passados em Lisboa, Domingos Leite Pereira, desmentindo os informadores de D. João IV, vivia pouco menos de obscuro, nos arrabaldes de Madrid, gastando restrictamente o que seu pai lhe enviava com grande resguardo e dificuldade.
Ideára ele que sua mulher, quer por compaixão, quer a rogos de Ângela, lhe escrevesse, dizendo-lhe, ao menos, que a filha chorava. Esta dor filial quisera ele que lhe fosse desafogo às suas.
Mentira o rei quando affirmára que Domingos Leite se pavoneava de desmacular sua honra de marido, matando directa ou indirectamente o padre. Nunca ele articulou o nome da mulher, nem consentira de boa feição que lhe aludissem aos motivos da fuga. A Roque da Cunha rogava que não deslustrasse o nome de sua inocente filha, divulgando as afrontosas desventuras da mãe.
Mostrava-se muito comiserada da tristeza e soledade de Domingos Leite, D. Vicência Corrêa. Convidava-o miúdas vezes a passar com ela, e acintemente reunia em sua casa os filhos da marquesa de Montalvão, o conde de Figueiró, Diogo Soares, o senhor de Regalados, e outros dos muitissimos portugueses que juraram fidelidade a Filipe IV. A fidalguia rodeava-o de atenções, sem o desengolfarem da sua tristeza, nem, sequer, o moverem à cortez condescendência de negar a legitimidade de D. João IV. Roque reprovava-lhe a ingratidão, a falta de tino politico, e o perigo em que ele se expunha de não ter amigos em Portugal nem em Castella. Respondia então o desterrado que os recursos de seu pai tanto lhe davam um pão negro em Madrid como em qualquer outra parte do mundo; e que tanto lhe fazia estar ali como em outro ponto da terra, pois, fora de Portugal, toda a terra lhe era exílio.
E acrescentava:
— Olha, Roque... Fui menos infeliz do que esperava, porque te vejo contente em Madrid.
— Contentíssimo — confirmou o enteado do desembargador — Tenho cem escudos da junta dos portugueses, cinquenta de meu padrasto, o nobilíssimo Guedelha; serei brevemente nomeado criado do paço; e, quando Portugal voltar ao que era em 31 de novembro de 1640, uma das boas comendas do teu marquês de Gouvêa, ou de outro quejando rebelde, será minha!
— Bem falado! — disse, sorrindo, Domingos Leite — Eu, no teu logar, ia requerendo uma boa comenda em Espanha, na incertesa do reviramento que desejas em Portugal. Bem sabes quantas investidas tentam há sete anos os espanhóis contra a nossa milagrosa independência. Pergunta-o aos melhores cabos de guerra: ao duque de Feria, ao marquês de Castroforte, ao conde de Monterei, ao marquês de Mollingen, ao marquês de Torrecusa...
— Et c½tera... — atalhou Roque da Cunha — Espera-lhe pela volta. O duque está sem dinheiro e sem gente. Se não fosse o judeu Jerônimo Dias, não haveria fôlego dinheiroso que lhe desse vinte cruzados pelas letras de cambio.
Esta replica era tristemente verdadeira. Quando D. João IV necessitou comprar em Amsterdão petrechos de guerra, ninguém lhe quis honrar a firma; por maneira que as letras foram apregoadas na praça, para serem protestadas. nesta conjuntura, o hebreu expulso, Jerônimo Dias da Costa, resgatou do opróbrio o nome do rei e talvez a honra da pátria, pagando as letras e abrindo os seus tesouros à causa da independência da nação, que lhe queimava os parentes. E tão grandemente qualificou D. João IV este serviço, que despachou Jerônimo Dias com a patente de seu ajudante, honra que o sucessor na corôa confirmou em Alexandre e Álvaro Nunes da Costa, filhos do hebreu; mas, no seguinte reinado, D. João V não consentiu que o emprego se desse ao neto por ser judeu, como se seu pai e avós fossem cristãos, diz com irônica elegância D. Luiz da Cunha. [6]
Domingos Leite não redarguia triumfantemente aos argumentos de Roque, senão recorrendo-se dos factos mais eloquentes que as hipóteses.
Todavia, o animo abatido e desvigorisado para contendas politicas esquivava-se a disputações.
Em horas de desalento, a só no seu retiro, escrevia cartas ao marquês de Gouvêa, todas alheias da guerra travada entre as duas nações no mais alto ponto de encarniçamento. Eram lastimas de pai, por onde se transluzia a esperança de apiedar com elas D. João IV. Tais cartas ou não chegaram ao conhecimento do mordomo-mor, ou o estadista meticuloso as inutilisou, por entender quanto seria malogrado o intento com el-rei. O marquês espiava os passos surdos de Antônio Cavide, e usava traças de lhe explorar o recesso da alma, durante o postre de um jantar bem lardeado de taças. Se o fidalgo farejára um segredo, cuja revelação iria angustiar o desterrado, nobre e caritativo era o silencio; e boa prova de amizade seria têl-o afastado do reino por modo que ignorasse sua desonra, e o derradeiro golpe lhe não fosse vibrado por mão de um amigo.
Em frustradas esperanças de perdão ou sequer de resposta, às suas cartas, passaram três acerbos meses na vida erma e desconfortada do pai de Ângela.
Em começo do mês de abril de 1647, apareceu em Madrid um português, foragido ao santo ofício; e, sabendo acaso que Domingos Leite Pereira estava ali homisiado e pobre, bem que de leve se conhecessem, procurou-o para lhe oferecer quinhão da sua abundancia.
Francisco Mendes Nobre, que assim se chamava o cristão-novo, — e então orçava por vinte e cinco anos — conhecia de vista Maria Isabel; e, como residisse perto do Salvador, muitas vezes vira a menina com sua mãe.
Consolação imensa para o saudoso pai ir ali um enviado da Providência falar-lhe de sua filha, da sua beleza, dos anéis dos seus cabelos, da cor dos seus mantos, da graça do seu andar, e até da palidez das facesinhas, onde parece que as lágrimas haviam arado o frescor da puerícia!
Domingos Leite chorou nos braços deste quase desconhecido que de sobresalto lhe senhoreára o coração.
E Francisco Mendes, cativo da expansão de Domingos Leite, animou-o a ir secretamente a Portugal buscar a filha, facilitando-lhe recursos abundantes para a empresa, e dinheiro em Madrid para subsistência de ambos, a não querer Domingos Leite acompanhá-lo para Holanda. Além disso, deu-lhe duas chaves de dois prédios em Lisboa, dizendo-lhe:
— Tem vm. cê esta chave que é da minha casa na rua dos Vinagreiros, e est'outra da casa em que eu morava na rua das Olarias. [7] Sirva-se da casa que melhor lhe quadre, ou de ambas, para as suas sortidas nocturnas. Se vir que os quadrilheiros o suspeitam em uma, vá esconder-se na outra: isto é no caso de que o santo-ofício as não haja sequestrado; mas presumo que não, porque eu, apenas soube que um meu parente remoto foi preso, escapuli-me com o melhor e mais portátil dos meus haveres, comprando muito cara a passagem nas fronteiras ao conde de S. Lourenço, que é um honrado cristão velho, desde que o hebreu Lafeta conquistou foros de cristão mais velho que o próprio Cristo. (Nota 21. ª)
O israelita, cuidando que preparava dias alegres e resignados ao seu amigo, despenhava-o da esperança na última paragem da perdição.
Participou Domingos Leite a Roque da Cunha o seu desígnio.
— O diabo arma-as! — contraveio Roque — Não vás, doido! Tu não sabes onde te vais meter... Olha que em Lisboa já se sabe que és cavaleiro de Cristo em Espanha, e que os ministros de Filipe IV são teus amigos.
— Mal os conheço...
— Porque foges deles, ingrato! e foges deles porque a tua perdição te chama a Portugal.
— O que Deus quiser. Não me despersuades. Vou buscar minha filha. Se me prenderem, se me matarem, é-me indiferente acabar de um golpe ou agonisar nesta arrastada tortura da saudade. Um favor te peço.
— Que vá contigo? Nego-me. Matei um homem, porque a tua honra mo exigiu; deixar-me agora matar, porque és um fraco, um piegas, que não pode viver sem a filha, isso é que não assigno.
— Espera, homem, que eu ainda te não disse o que pretendia — replicou bem humorado Domingos Leite.
— Dize lá, então.
— Quero que obtenhas uma ordem para que o marquês de Molinguen, governador das armas em Badajoz, me dê passo franco para Portugal.
— Isso te arranjo eu. E dinheiro, queres?
— Não. Achei aqui um português que me socorreu, um cristão-novo.
— E despresas os socorros dos cristãos-velhos! Ora queira Deus que o tal judeu te não leve ao calvário como fizeram ao seu rei. Como se chama ele?
— Desculpa-me: pediu-me segredo da sua passagem por Castella.
— E tu, Domingos Leite Pereira, tens segredos para Roque da Cunha?
— E para meu pai que me pedisse o nome de um homem que confia tanto nos domínicos de Lisboa como nos de Madrid. Os segredos da minha desonra, revelei-t'os; os da consciência alheia não devo, nem posso.
— Nem eu quero sabel-os. Foi mera curiosidade que me levou a perguntar-te o nome do teu banqueiro hebreu. Leva-te grande onzena?
— Não. O juro das esmolas recebe-se no céu.
— A pagal-os lá, todas as burras judaicas da Holanda vazaria eu a juro de 200 por cento ao mês! — volveu cascalhando Roque, e acrescentou: — Quando partes?
— Logo que me obtenhas a ordem para o general.
— Vou tratar disso. Entretanto, pensa, Domingos Leite! Que plano levas?
— Por enquanto, nenhum.
— Raptas a pequena, e foges?
— Não: se poder convencerei Maria Isabel a deixar-m'a.
— Se o conseguires, serás feliz; mas duvido que a mãe te dê a pequena. Se tua mulher quiser acompanhar-te, vem?
— Não.
— Bom será isso; que, se a trazes, depois que a devassa esclareceu a morte do padre, tão infamada está ela em Portugal como em Espanha.
— Sei o que devo à minha dignidade, Roque. O rubor das minhas faces não há de aquecer a dos meus amigos.
— É o que todos desejamos. Vou em teu serviço. O mais tardar amanhã, terás a ordem do ministro valido D. Luiz de Haro.