Capítulo VIII
O assassínio do padre Luiz da Silveira foi explicado por vários modos, tanto que o cadáver apareceu, no Beco dos Namorados, com dez punhaladas no peito.
Disse-se que os seus antigos consócios de infidelidade à pátria, e contubernais em patifarias, receiosos que ele lhes delatasse os delictos, visto que medrava na estimação dos ministros de D. João IV, o matariam para se desfazerem de um delator perigoso. Diziam outros, mais plausivelmente, que o padre acabára às mãos dos vingadores do arcebispo Sebastião de Mattos e seus cúmplices, levados ao patíbulo pela delação do seu ignóbil confidente. Outros finalmente acusavam sem rancor, antes com aprovação, um tal licenciado Rui Pires da Veiga, irmão da manceba do clérigo, desde que a viram abraçada ao morto, e reconheceram nela a menina que, dois anos antes, desaparecera de casa de sua família honesta e abastada.
Instaurou-se a devassa.
O primeiro que mui secretamente se apresentou a fazer revelações na corregedoria foi aquele mercieiro, primo do clérigo morto. O testemunho deste sujeito, forçado a confessar a Roque da Cunha o que ouvira respeito à esposa do escrivão do cível da corte, elucidava cabalmente a morte do padre Luiz.
No entanto, o escrivão do cível da corte continuava a exercer o seu ofício, Roque da Cunha também, e ambos desassombradamente fruiam os seus direitos de cidadãos bem procedidos. Não sucedeu o mesmo com Rui Pires da Veiga, que se homisiou, quer envergonhado de ser o irmão da mulher teúda e manteúda do clérigo, quer receoso de que o prendessem por suspeito do homicídio.
Sabia-se, porém, e com grande espanto, que o rei mandara suspender a devassa. Os políticos inferiram daí que na morte do antigo oficial de Miguel de Vasconcellos, e secretario particular do arcebispo de Braga, havia segredo de estado cujo rastro era perigoso farejar.
Volvido um ano sobre a morte do tesoureiro de S. Miguel de Alfama, Rui Pires da Veiga, indigitado homicida pela maioria das opinioens, sabendo que sua irmã era já falecida de paixão em rigorosa clausura, apareceu na corte a defender-se da calúnia. A voz publica, espicaçada por este novo estimulo, deu vida ao esquecido assumpto, concorrendo bastante o mercieiro com as suas revelações feitas em segredo, mas, a poucas voltas, divulgadas por toda a cidade.
Estes murmúrios chegaram aos ouvidos de D. João IV, que de sobra sabia quem era o assassino directo ou indirecto do clérigo.
O rei estimava Domingos Leite Pereira, já pelos corajosos serviços que lhe prestára nos passos anteriores à sua aclamação, principalmente nos tumultos de Évora e recovagem de recados a Madrid e a Vila Viçosa, já pelos créditos em que o trazia abonado o seu ministro e mordomo-mor marquês de Gouvêa. E, posto que el-rei timbrasse na rigorosa execução das leis, suspendendo agora a devassa, parecia indultar Domingos Leite porque o delito do padre, sedutor da discípula, lhe era odioso; e a circumstancia da delação dos conjurados, feita por um seu confidente, não melhorava em seu particular conceito a condição perversa do traidor.
Perguntara o rei ao marquês de Gouvêa, quando se viu forçado a dar satisfação aos boatos que manchavam a justiça dos seus executores, o que sabia de Domingos Leite Pereira e de sua mulher. O marquês respondeu que o seu secretario, desde a morte do padre, nunca mais abrira um sorriso, nem dera azo a que se lhe perguntasse coisa relativa ao seu viver domestico:
— Mas vivem com aparência de bem casados... — observou maliciosamente o rei.
— Um viver mais horrível que a separação com escândalo publico, real senhor! — disse o marquês. — Há um ano sei eu que nunca mais se falaram nem viram de portas a dentro. Tem Domingos Leite uma filha que adora. Uma vez única me falou da sua desgraça, bem que me não desse novidade; porque eu, antes que ele a conhecesse, já a sabia das atoardas publicas, auctorisadas pelas gabações do clérigo. Então, nessa vez única em que Leite Pereira desafogou comigo, lhe ouvi dizer que pensava em sair da corte, e recolher-se a Guimarães ao amparo de seu pai; mas que o não faria sem levar consigo a filha; receava, porém, que a mulher, irritada por se lhe tirar a filha, desse ocasião a divulgar-se um opróbrio nocivo à criança que ele queria defender da desonra da mãe. Fiz quanto pude em despersuadil-o de tal propósito, incutindo-lhe sentimentos generosos de perdão à esposa por amor da filha. Este argumento não o convenceu, antes parecia exasperal-o; pois que, a seu ver, era indigna de misericórdia tal mulher que, depois de o ter enganado quanto ao seu passado, e tendo a certeza que a morte do padre ninguém melhor do que ela poderia explical-a, em vez de viver amargurada do desprezo do marido, ousava estadear-se nas igrejas e nas ruas com ar de senhora honesta, ou antes de mulher despejada que despreza os malsins da sua reputação, fazendo gala da sua formosura e riqueza...
— Tenho ouvido dizer que é muito formosa... — atalhou o rei.
— Não há em Lisboa quem lhe dispute a primasia. Nunca Vossa Majestade viu mais galante mulher, sendo a corte da rainha, minha senhora, a mais selecta de belas damas!
— E o seu procedimento?
— Aparentemente bom — respondeu o mordomo-mor sorrindo — Digo aparentemente, porque não sei quantos astutos velhacos deixou em Lisboa o padre Luiz, nem Vossa Majestade crê que tão somente os mestres de meninas tem a fortuna de armar em segredo as suas aboizes a estas avezinhas inocentes; e, depois que as avesinhas uma vez deixaram penas das azas na esparrela, há de ser difícil fazel-as entralhar sem que elas se guardem de perder a plumagem.
— Assim parece — assentiu o rei — Seja como for, Domingos Leite andaria melhor avisado se saísse da corte logo que vingou no padre a aleivosia da mulher, se aleivosia houve. Mandei suspender a devassa, quando eram já declarados os criminosos. Não consenti que se prendessem porque bastante causa dera o padre a ser castigado; e, além disso, às cegueiras do coração e do brio é mister conceder o que não concedemos aos matadores que matam de animo frio. É também culpado na morte do padre, como o marquês deve saber, um Roque da Cunha, que se tem salvo à sombra de Domingos Leite, e de alguns serviços que me fez. Sei que mau homem é, desde que há seis anos me denunciou Matias de Albuquerque por motivos de ódio pessoal. Mas este e outros iguais membros gangrenados não os posso amputar cerces, enquanto preciso me for espiar uns infames com outros infames. Se nos não valermos de quem os conhece de intimidade, não teremos quem nos ponha de sobreaviso. Já o marquês sabe a razão porque Roque da Cunha está logrando a impunidade de Domingos Leite. Porém, desde que Rui Pires da Veiga voltou do seu voluntario desterro e passeia em Lisboa desmentindo e afrontando o boato, que lhe assacava a morte do padre, a devassa tem de proseguir, e os reos, muito a pezar meu, hão de ser presos, se estiverem no reino. Por tanto diga o marquês ao seu secretario que se retire sem demora de Portugal; e o homem, que o serviu na sua vingança, que se retire também, se Domingos Leite deseja salvar o cúmplice. O julgamento de Domingos Leite correrá os seus tramites, e faremos que a sentença o não prive para sempre da pátria.
O marquês de Gouvêa, bem que profundamente magoado, não ousou pedir ao rei que a devassa permanecesse suspensa. D. João IV esfriava a coragem dos poucos que privavam da sua confiança, quando dava ordens com tão carregado e resoluto semblante, quanto, antes de aclamado, era com todos os fidalgos ameno de tracto e dócil aos votos alheios.
Bem quisera o amigo e protetor de Domingos Leite rogar ao menos a delonga da partida, e nesse intuito começou perguntando ao monarca se era forçosa a saída do seu secretario ainda naquele mês de fevereiro, que ia em começo.
O rei respondeu:
— É amanhã que deve sair; porque depois de amanhã fecha-se a devassa, infalivelmente.
O mordomo-mor beijou a mão do rei, e sentiu no animo recondita aversão ao soberano aprumo de D. João de Bragança. Latejou-lhe talvez nas artérias o sangue castelhano de seu pai, conde de Portalegre, tronco daquela alta vergôntea que caiu com a corôa ducal de Aveiro sob a lamina do algoz em 1759.
Saiu triste o ministro a encontrar-se com o secretario, em seu gabinete. Referiu-lhe o que se passara com el-rei, deplorando a fatalidade que o privava temporariamente de tão bom como infeliz amigo.
Domingos Leite ouviu a nova, com exterior de mediano sobresalto.
— Agradeço a sua majestade — disse ele — a permissão de levar comigo o homem que associei ao meu funesto desagravo. V. Ex. ª sabe que eu me furto às penas da justiça mais para salvar Roque da Cunha. Nada monta para mim a vida, se sou obrigado a desterrar-me, e deixar a minha filha — único amor que me ficou ao de cima deste abismo em que me vejo precipitado com tantas quimeras brilhantes que me enganaram. Todo me sinto perdido, e morto, pior que morto, se hei de no exílio agonisar de saudades daquela criancinha...
— Eu olharei por ela — consolou o marquês — Se não vier tão depressa quanto eu desejo, sr. Leite, creia que hei de conseguir mandar-lhe sua filha, logo que ela esteja criada.
— Não mande, sr. marquês... — acudiu Domingos Leite.
— Que não mande?! Porque não?..
— Porque eu não sei se terei lá fora de Portugal um pão que repartir com minha filha...
— Pois vm. cê não é rico?
— Eu tinha bom ofício, e os grandes salários que v. ex. ª me dava. neste momento deixei de ser o escrivão do cível da corte e o secretario do mordomo-mor. Sou um assassino sem pátria. Verdade é que meu pai, o cuteleiro de Guimarães, apesar de eu lhe pedir que saísse da forja e descansasse, com os seus haveres e os meus, o restante da velhice, ainda trabalha: mas eu não sei se ele enviará a um filho apregoado assassino o que adquiriu com o trabalho honrado que eu desprezei, apesar das suas suplicas...
— Mas... — atalhou o marquês — O sr. Leite, desde que casou, tem parte no grande patrimonio de...
— De Maria Isabel? — acudiu com veemente repugnância o secretario — de essa mulher não tenho senão a parte que me cabe do seu desdouro. E quando eu pensava que a minha honra havia de sair depurada deste fogo que me devora desde a noite em que vi o cadáver do padre, afinal de contas, sou o mesmo desgraçado que era, e ajunto à desgraça de perder uma mulher que adorava, três grandes infortúnios: não terei de hora avante pátria, nem filha, nem meios de que viver com honrada independência. Dos bens de Maria Isabel não levarei um ceitil, sr. marquês. Aqui mesmo, se v. ex. ª me permite, escreverei a meu pai, a fim de o preparar para o golpe. Não posso mentir-lhe. Eu não matei; mas mataria com certeza, se estivesse no posto de Roque da Cunha. É forçoso que eu diga a meu pai que tenho um grande crime; mas que em minha consciência não perdi o direito de lhe suplicar a esmola que os encarcerados imploram pelas grades das masmorras aos que vão passando.
O marquês enxugava as lágrimas, enquanto Domingos Leite Pereira escrevia, parando a cada palavra a pena, à espera que as pálpebras embebessem o jorro das lágrimas. Ao dobrar a carta, murmurava o extremoso pai:
— Não vou despedir-me de minha querida filhinha... Isso é que eu não posso, meu Deus!.. Sei que não posso... Quando eu tiver partido, mande-a v. ex. ª buscar e fale-lhe de mim... Pede-lh'o esta alma que se me parte de angústia, sr. marquês! Eu queria que ela me não esquecesse; e, a não ser v. ex. ª, quem lhe falará de seu pai!..
— Vá com a certesa de que hei de mandar buscar a sua filha muitas vezes, e não desanime de voltar a Portugal, sr. Leite. Eu quero ainda vê-lo hoje à noite. Vá dar os passos que tem a dar, e volte a despedir-se do seu velho e inútil amigo.
Debalde o esperou.