Capítulo XX O Regicida · Capítulo 21 de 22
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Capítulo XX

Diogo Soares, previsto e diligentíssimo em proporcionar aos assassinos enviados os meios de fácil fugida, mandara uma chalupa do porto do Ferrol para os receber na barra de Lisboa; mas o portador, que por terra trouxera o aviso ao mercador Simão Serges, não o encontrando no dia 19 de junho, segundo as ordens que trazia, foi na noite de 20 a Passo de Arcos fazer sinal de erguerem ancora aos da chalupa. Simão Serges, àquela hora em que o buscavam, temeroso do resultado da tentativa, passara o Tejo, e esperava em Aldeia Gallega a noticia das ocorrências. O manuscrito, que nos esclarece as escuridades da história, diz a tal respeito: «neste tempo estava Roque da Cunha com os cavalos esperando-o ao Postigo da Graça, onde foi ter com ele Domingos Leite, e que lhe contou o que passara; e é de saber que na mesma tarde foi visto em Passo de Arcos um barco longo de Castella, e que havendo descuido em ir a ele de noute, fugiu este, e desapareceu, e os dois foram por terra. »

Ao mesmo tempo, Bernardo, que passara a noite e o dia em oração, quando viu terminadas as festas do Triunfo, e nenhum caso extraordinário se contava em Lisboa, nem voz humana proferia o nome de seu amo, deu fervorosas graças ao Senhor, porque atendera às suas preces.

O aparecimento de Roque e Domingos Leite em Madrid foi acolhido com frieza dos fidalgos portugueses e dos ministros de Filipe IV. Diogo Soares, rindo da história pueril da visão da menina que paralisára o braço do pai, disse que os covardes, antes de se afrontarem com emprezas grandes, deviam medir a sua altura pela das meninas que lhes pudessem aparecer na hora da prova. Roque da Cunha transmitiu a frase, qual a recebera, a Domingos Leite.

O frustrado regicida volvêra-se à vida solitária com a sua dor exacerbada pela nota de covarde e digno marido da meretriz Traga-malhas. Quem mais lhe carregava a mão no pecado da mulher era D. Vicência, filha da Barbara da rua dos Cabides. Insidiosamente lhe escreviam sátiras celebrando-lhe a façanhosa jornada a Lisboa, e oferecendo-lhe outra comenda para se ir a Paris matar Luiz XIV, e duas comendas para ir ao inferno matar o diabo.

Na correnteza destas coisas, fallecêra em Madrid um padre da companhia de Jesus, a quem D. João IV estipendiara grandiosamente na espionagem dos planos de guerra. Esta pêrda contrariava o rei, e mais ainda o impedimento de substituir sem dilação a sagacidade do jesuíta, que saíra bem amestrado do gineceu de padre Antônio Vieira.

Arrolando os portugueses mais infamados que demoravam em Espanha, D. João lembrou-se de Roque da Cunha. Conhecia-o pela falsa delação de Matias de Albuquerque, e por homicídios que a obscuridade protegera, como o do pai de Miguel de Vasconcellos, divulgado em 1640, e indultado pela politica. E, bem que soubesse da sua parceria com Domingos Leite no assassínio do padre Luiz, intendêra o rei que o sicário, vendido ao marido de Maria Isabel, estava em almoeda para quem o quisesse comprar.

No propósito de chatinal-o, enviou Gaspar de Faria Severim a Madrid pessoa idônea, e conhecida de Roque da Cunha. Era quase sempre um clérigo ou frade de inculcada virtude e erudição teologica, por parte das duas nações irreconciliaveis, o espia ou o catequista dessas personagens indispensaveis na diplomacia de aqueles tempos, assim como o algoz era o artigo fundamental da arte de reinar. Apenas restaurado o reino, fora fr. Diogo Seiner espião de Castella em Portugal, e também um padre Azevedo, que acabou envenenado em Angola. Em compensação, as denuncias mais importantes que vinham de Espanha, quanto às intenções de invasão, procediam da companhia de Jesus, pois que os Filipes, com quanto patrícios do santo fundador da ordem, nunca se avençaram politicamente com a teocracia da omnipotente roupêta. Ainda naquele ano de 1647, a Espanha festejava a pérfida passagem do jesuíta flamengo, o padre Cosmander, que vestiu as insignias de sargento-mór de batalha, depois de as ter já usado no exercito português. Este sacerdote, que timbrava de engenheiro, viria outra vez ajudar os nossos a repelir os estrangeiros, se não morresse debaixo das baterias portuguezas; no entanto, enquanto viveu, deu de si boa conta, espiando as duas nações, visto que nenhuma era sua.

Com este se intendêra o padre português, e ambos com Roque da Cunha.

A proposta era em termos de seduzir um aventureiro com dois terços menos da perversidade de Roque. D. João IV enviava-lhe o perdão do crime de homicídio na pessoa do padre Luiz, aproveitável quando a sua continuação em Castella fosse desnecessaria, e ele quisesse voltar ao reino. Enviava-lhe como comêço de gratificação três mil cruzados, e promessa de ao diante o ir premiando com dinheiro à medida dos seus serviços e habilidade nas pesquisas. Quanto ao futuro, quando Roque se repatriasse perdoado, despachal-o-hia em pingue emprego na casa da Índia e Mina.

Seduziram-no; jactavam-se os dois jesuítas de o terem seduzido; mas a verdade é que o infame não deu ansa a que os sedutores provassem os dotes de corrupção: rendeu-se logo.

Dias depois, Roque da Cunha, ao despedir-se do agente português, disse-lhe com misterioso recato:

— Diga V. Reverencia a el-rei nosso Senhor que eu só entrarei em Portugal, quando lá for para o salvar da morte.

O padre não obteve illucidações destas vagas palavras.

Assim as revelou a D. João IV, que lhes deu a máxima ponderação, sem todavia suspeitar de qual dos fidalgos homisiados poderia proceder a tentativa, se dos Mascarenhas, se dos Lencastres, se do conde de Miranda, se do conde de Figueiró, se dos Távoras, se dos Taroucas, se de todos. De Domingos Leite Pereira não se lembrou, ou apenas se lembrava quando Maria Isabel lhe dizia:

— Vossa majestade, mais dia menos dia, acha-me assassinada por ele...

O ele substituia a palavra que tanto repugnava ao rei como à princeza do seu econômico serralho.

Sorria-se el-rei; e por delicadeza com a dama lhe não replicava que o expatriado lhe havia dado provas de se prezar mais a si no seu orgulho do que a ela na sua beleza.

Quando Roque enviou o recado a D. João, já sabia que Domingos Leite deliberára voltar a Lisboa se não renovar a tentativa. Flagelavam-no os apodos e zombarias que secretamente lhe iam em cartas anonimas, e as censuras de Roque da Cunha, não à covardia de homem, mas à pusilanimidade de pai.

Houve horas em que o desgraçado acariciou a ideia do suicídio; porém, lá vinha a imagem da filha arrancar-lhe o veneno como lhe arrancara a cravina. nesta reluctancia atroz, obsediou-o o pensamento de passar a Lisboa, esconder-se em casa de Bernardo, espiar a hora em que Maria Isabel estivesse com o amante, entrar de sobresalto na casa dela, fugir com a filha para Castella, passar-se a Amsterdão, buscando o amparo de Francisco Mendes Nobre.

Revelou o alvitre a Roque da Cunha, que lhe respondeu:

— A final, vejo que não és marido, nem homem: és pai.

— Queres dizer que não sou honrado? — acudiu Domingos Leite.

— Não... mas há quem duvide que o sejas...

— Se o dúvidas tu, dize-o que eu a ti provarei que sou homem; e, se há covardes que façam de ti pelourinho de injúrias, que venham depois de ti ou junctamente.

— Os meus cinquenta anos perdoam os teus vinte e seis — disse serenamente Roque — Entretanto bom é que saibas, amigo Leite, que nenhum homem, antes de ti, me insultou assim, nem depois de ti receio que me insulte. Se não estivessemos sós, dar-me-hías uma satisfação. Assim... ninguém irá dizer que o matador do amante de certa dama ouviu tamanha vilta do marido de Maria Isabel. Estás perdoado, porque és fraco, fraco do coração onde tens muitas lágrimas e pouco sangue. Pagas mal a quem duas vezes expôs por ti a vida, e não se esquiva de a expor terceira vez.

— Não exporás, Roque. Não há para quê. O meu intento já sabes que não é matar o rei; é resgatar minha filha.

— E, se te descobrirem, se te agarrarem...

— Serei julgado como assassino, sentenciado à morte, e morrerei, sem denunciar que o matador foste tu.

— Mercês... A justiça sabe quem matou, provavelmente... A minha questão é outra, Domingos Leite. Eu preciso tanto como tu sair de Espanha. A nodoa de covardia tanto innegrece a tua reputação como a minha. Os enviados a matar D. João fomos dois: o covarde não pode ser só um. Se vais a Lisboa, irei contigo: dar-me-hás agazalho no teu escondedouro, e eu te ensinarei modo de passarmos a Holanda, com tua filha, sem tornarmos a Castella, onde o desprezo pode ter as consequências do ódio, e o veneno que estava para hervar a bala do duque de Bragança servir para nós. Se queres roubar a pequena à mãe, eu te ajudarei. Os estorvos que to empecerem, derrubal-os-hei. Se quiseres que eu estrangule os gritos no pescoço de Maria Isabel enquanto foges com tua filha, ninguém lhe ouvirá um soluço. Se nada quiseres de mim, ao menos dá-me em Lisboa um valhacoito de onde eu possa arranjar passagem para onde quer que seja. Que mal te faz que eu vá contigo?

— Vem, meu amigo, que eu estou tão longe de to impedir, que to agradeço — respondeu Domingos Leite abraçando-o extremosamente.

Acordaram na partida para 18 de julho.

Comunicou Roque à Junta dos fidalgos, que Domingos Leite resolvêra voltar a Lisboa e matar o rei, face a face, ou à traição, consoante se lhe ocasionasse o ensejo; mas tirou a partido que ninguém se intenderia com ele sobre tal determinação, porque a sua honra se queria desligada de compromissos políticos, visto que se desafrontava a si e não a Filipe IV nem aos fidalgos de sua parcialidade.

Riram da honra do plebeu nobilitado com a comenda de Castella; mas aceitaram a clausula como coisa de todo o ponto indiferente. A Juncta chamada da Inconfidencia deu dois mil cruzados ao interprete de Domingos Leite e renovou as ordens ao marquês de Molinguen. O pai de Ângela nem desta feita nem da outra soubera que Roque da Cunha recebera dinheiro; e, porque lho via em abundancia, supunha-lh'o de seus salários e liberalidades de D. Vicência.

No dia 18 de julho saíram de Madrid, caminho da fronteira.

Escutemos o chronista-mór do reino, fr. Francisco Brandão: «Há muito para reparar na força do destino que chamava Domingos Leite... Depois que saiu de Madrid entrou logo em desconfiança do companheiro, presumindo que o havia de entregar, como por vezes lhe disse no caminho, declarando que sonhára uma de aquelas noites que ele o entregava, e se via mandar fazer em quartos; e chegou a tanto a suspeita que tinha que, uma das vezes, se pôs de joelhos diante de Roque da Cunha, e, abraçando-o pelos pés, lhe rogou encarecidamente o não quisesse entregar à justiça. Estando em Badajoz na estalagem, entrou uma menina de pouca idade, e pondo os olhos em ambos, lhes disse: Uno de vos outros és traidor. E apontando em particular para o Cunha, disse: Tu tienes ojós de traidor!... Reparou logo o Leite, nas palavras, e com o anúncio dela renovou ao companheiro a presumpção que dele trazia, e continuou com a suplica de que lhe fosse fiel. Grande cegueira — prosegue Brandão — que, tendo as presumpções tão vivas, não melhorasse partido, sendo-lhe fácil!.. »[10]

Se prestamos mediana fé à perspicácia da mocinha de Badajoz que lia a traição nos olhos de Roque da Cunha, facilmente cremos que o traidor, a relanços, se temeu das suspeitas de Domingos Leite, em termos de velar as noites com medo do punhal e da cravina que o companheiro cuidadosamente aconchegava do leito.

Às vezes era Roque da Cunha quem se prostrava aos pés da vítima exorando-lhe que não suspeitasse de sua lealdade, ou então o repulsasse de si como ao mais abjecto celerado. «Grandes foram as cautelas de Cunha — confirma fr. Francisco Brandão — para assegurar bom animo ao companheiro, receando que lhe fugisse a preza, e não quisesse entrar em Portugal, ou depois de entrado, se voltasse para Castella sem passar a Lisboa; e não foram de menos consideração as cautelas que teve para se assegurar dele, receoso de que o matasse com as suspeitas. [11]

À quem de Badajoz saíram da estrada real; e por veredas desfrequentadas e conhecidas de Roque, venceram grande espaço, para se desencontrarem das tropas portuguezas, em um dia e noite. No termo da violenta jornada de oitenta e cinco léguas em dez dias, o cavalo de Domingos Leite abrira dos peitos, e na aldeia, onde se albergaram, não houve modo de alugar cavalgadura. Notou Roque da Cunha ao companheiro que o presistirem ali, sem esperanças de remédio, era perder tempo, e talvez perigoso; que ele iria adiante agenciar cavalo nos Pegoens, e lho enviaria, a não querer o seu amigo ir nessa diligencia, e enviar-lh'o.

— E para que vá mais leve, e menos sujeito a que me roubem, fica tu com os meus alforges, onde estão quatro mil cruzados... — ajuntou Roque.

— Oh! — exclamou Domingos Leite gracejando — Ninguém dirá que vais do desterro! Parece que chegas de governar a Índia! Quatro mil cruzados!...

— Aí t'os deixo como refens...

— Mal de mim se este dinheiro fosse o abono da tua lealdade, Roque! Se tens tenção de me atraiçoar, leva-o, e atraiçoa-me, para que me não taxem de ladrão quando me prenderem.

Roque fez um esgar de fingida magoa ou de terror de sua mesma ignomínia. Domingos Leite interpretou a primeira suposição, e emendou as palavras duras com tocar-lhe amoravelmente no rosto, dizendo-lhe:

— É brincadeira, meu homem! Vai, leva ou deixa o dinheiro, como quiseres; manda-me o cavalo, e espera por mim na Povoa de S. Martinho, daqui cinco léguas. Levas-me de avanço apenas algumas horas, se amanhã cedo me mandares o cavalo, e ele não for aleijado. Devo lá chegar por noite, se a estrada real estiver desembaraçada de tropa; senão terei de dar grandes voltas.

Roque abriu o alforge, contou cem mil reis e disse:

— Levo comigo este dinheiro, porque talvez tenha de comprar o teu cavalo, se mo não quiserem alugar; e quem sabe se o meu também vai a terra, que ontem já o não sentia entre os acicates...

— Não deixes o dinheiro! — instou Leite Pereira.

— Já te disse que receio ser roubado. Que me faz deixá-lo ou leval-o? Adeus, até amanhã.

Abraçaram-se. Domingos Leite olhou-o muito de fito, e disse-lhe:

— Não me vendas... visto que estás rico!

Roque saiu de arremesso, cavalgou, e esporeou a desapoderado galope, caminho dos Pegoens. «Não me vendas... » dissera o desgraçado. Assizadamente escrevia depois o frade: Há muito para reparar na força do destino que o chamava...

XXI

Decorrêra o restante daquele dia 28 de julho, e parte do seguinte sem novas de Roque da Cunha. Cerca do meio dia, chegou um guia, portador de um bilhete para Domingos Leite. Dizia-lhe o fementido que, não encontrando cavalo que comprasse ou alugasse em Gaifões, passara a Rilvas, onde achara um sendeiro estropiado, que alugou para si, e lhe enviava a ele o cavalo para que a jornada lhe fosse menos enfadonha.

Domingos Leite sentiu-se cativo desta deferência; mas, apenas montou, conheceu que o cavalo estava por tanta maneira escalavrado que só muito a passo alcançaria vencer as seis léguas, que o distanciavam da Povoa de D. Martinho, até à noute do dia seguinte. O arrieiro que o guiava recomendou-lhe pouca espora, se queria chegar com o cavalo vivo à Povoa.

— Não havia em Rilvas uma besta que se vendesse? — perguntou Domingos Leite.

— Havia um cavalo de comer três léguas por hora, que se vendia por trinta cruzados.

— Porque o não disseste à pessoa que te mandou com este?

— Quem me mandou foi o estalajadeiro, e nada mais sei, nem falei com essa pessoa que vossemecê diz.

O cavalo elogiado pelo arrieiro comprara-o Roque da Cunha, e nele cavalgára caminho de Lisboa, deixando tractada com o estalajadeiro a remessa do seu e o bilhete à aldeia onde ficara o seu companheiro.

Dizendo Domingos Leite ao criado que talvez comprasse em Rilvas a cavalgadura, observou-lhe o arrieiro que tinha ordem de o guiar por fora dos povoados, sem saber a razão porquê.

— Andam soldados na estrada real? — perguntou Leite.

— Que eu saiba, não, senhor.

Reparou na precaução o cavaleiro; e não viu a voragem. Cada vez nos encostamos com melhor juízo ao dizer de fr. Francisco Brandão: Há muito para reparar na força do destino que o chamava.

Suggeriu-se-lhe de novo o pensamento da perfídia; quedou-se alguns segundos luctando com o palpite de retroceder; nada obstante, seguiu avante, dizendo entre si:

— Que pensaria de mim Roque da Cunha se está inocente nas minhas suspeitas, e eu me voltasse a Espanha com o seu dinheiro!...

Quando ele assim lidava em conjecturas que se destruiam, já Roque da Cunha estava em Lisboa, e no Paço da Ribeira. Pediu ao corregedor Pero Fernandes Monteiro, que saía da corte, o apresentasse a el-rei para negocio da maior urgência. D. João IV, ouvindo o nome do seu recente espia em Madrid, e recordando o recado de Roque da Cunha, transmitido pelo jesuíta, quanto a salvar-lhe a vida, teve grande alvoroço com a nova, e mandou-o entrar. Pôs-se em joelhos o delactor, começando por implorar o perdão de seus delictos, e confessando que tivera parte em uma tentativa contra a vida de sua majestade; porém, acrescentava que se el-rei, seu senhor, lhe não perdoasse, morreria contente, levando a Deus sua alma purificada de remorsos.

Sorriu D. João IV dos remorsos de Roque da Cunha, e disse gravemente:

— Estás perdoado. Dize o que tens a dizer, e levanta-te.

Referiu Roque a tentativa de regicídio em 20 de junho, com os pormenores sabidos do leitor, e agravou o crime de Domingos Leite com a reincidencia no intento que o trazia a Portugal.

Escutou-o D. João com torvo aspecto. Turturava-o a situação de Maria Isabel. Passou-lhe talvez no espirito o pensamento de encarregar o infame delactor de matar, em segredo, Domingos Leite, e salvar assim a viúva e a filha da ignomínia que do alto da forca baixaria sobre elas. Mas não era Roque o homem amoldado à observância do mistério que tal ato requeria.

Mandou recolher o espia a um quarto baixo do paço, e ordenou que viessem à sua presença o fidalgo mais possante de sua corte, Luiz da Silva Telles, e outro não menos destemido D. Francisco de Faro e Noronha, conde de Odemira. Contou-lhes o que passara com Roque da Cunha, e enviou-os a prender Domingos Leite Pereira onde o denunciante os conduzisse.

Ao mesmo tempo, ordenava a Antônio Cavide que sem perda de tempo fizesse entrar em uma caleça Maria Isabel e sua filha, e ele mesmo as conduzisse a um mosteiro de Trás-os-Montes, à escolha do seu secretario; que nem palavra lhes dissesse a respeito de Domingos Leite, e se desculpasse com a ignorância dos motivos que el-rei tivera para dar semelhante ordem.

Maria Isabel e Ângela colhiam, ao empardecer do dia, nos canteiros do seu jardim de Alcântara, um ramilhete de flores, quando o escudeiro anunciou a chegada do secretario de estado, e a recomendação de se apressar S. Senhoria a recebel-o.

Assustou-se a dama. Sempre que este homem a procurava soavam-lhe rebates de medo no inquieto coração. Tinham-lhe dito que Cavide lisongeava o rei, alcofando-lhe novas amantes quando o sentia fatigado das antigas. Esta seria a causa da repugnância. Ângela, essa então odiava-o de instinto, sem saber precisar aquele rancor tão desnatural em sua idade.

O estranho aspeito de Cavide incutia maior temor em Maria Isabel.

— Minha senhora — disse ele entre melancólico e solene — ordena el-rei, meu amo e senhor, que vossa senhoria e sua filha se aprestem activamente para ao romper da manhã saírem de Lisboa...

— Para onde?! — interrompeu Maria Isabel.

— Para um mosteiro na província de Traz-os-Montes.

— Mosteiro!...

— Sim, senhora minha.

— Não quero! — bradou a dama.

Sorriu-se o fidalgo, e disse:

— Quer el-rei, nosso senhor.

— Mas que fiz eu? porque me manda el-rei para um convento?

— Ignoro. Segredos de sua majestade. Não discutamos inutilmente: é sacrilégio duvidar da prudencia de sua majestade nas ordens que se dignou transmitir-lhe. Senhora D. Maria Isabel, às três horas da manhã está o meu coche à porta de vossa senhoria, e fora de portas estará a caleça que nos há de levar onde el-rei ordena. Não posso deter-me, salvo se tem ordens a dar-me...

A esposa de Domingos Leite abraçou-se na filha em pranto desfeito, ao passo que o secretario se retirava a passo majestoso, dignando-se saudar de entre o reposteiro a senhora que não o via.

Quando ela às onze horas daquela noite de 30 de julho enfardelava com as lacrimosas criadas os seus fatos e de sua filha nos baús, entrava Domingos Leite Pereira na Povoa de S. Martinho, aquém do Tejo, três léguas distante de Lisboa.

Conforme a senha concertada, deu três pancadas na porta da estalagem com a coronha da cravina. Desceu Roque da Cunha embrulhado em um gibão e em menores, affectando sair da cama. Abriu a porta mansamente, e disse:

— Eu já não te esperava...

— Também eu cuidei que não chegaria hoje... O teu cavalo vai fazer companhia ao meu na imortalidade das cavalgaduras heroicas e pôdres... Quem está por aqui na locanda?

— Ninguém afora um ou dois vilões desconhecidos. Dá cá as rédeas, que eu recolho o cavalo.

E dizendo, tirou pela besta, afim de distancear o coldre das pistolas do alcance de Domingos Leite, e servir-se delas em conjuntura apertada.

Seguia Domingos Leite o cavalo; e, no momento de entrar na cavalariça, frouxamente alumiada, sentiu-se agarrado de sobresalto. Eram os braços de ferro de Luiz Telles que o cingiam do peito às costas, enquanto o conde de Odemira lhe arrancava das mãos a caravina.

Leite nem levemente escabujou nas garras dos dois fidalgos. Cravou os olhos no rosto de Roque da Cunha, e disse:

— Agradeço-te esta morte, ó infame. Todo o infeliz que chegou a conhecer neste mundo um homem como tu, deve desejar morrer. Podem largar-me, que eu não lhes fujo nem lhes resisto, sr. Luiz Telles e sr. conde.

daí a momentos, à porta da estalagem chegava uma escolta de paisanos armados. Domingos Leite foi conduzido ao centro da escolta pelo conde de Odemira, que, voltado ao preso, disse:

— Se tentar fugir, sr. Leite, é espingardeado.

E com grande silencio o levaram a Lisboa, diz o manuscrito.

Silencio comprehensivel! Os dois fidalgos que, por ordem de el-rei, o apertaram nas roscas de aço dos seus músculos, sabiam que a mulher daquele homem, inevitavelmente levado ao patíbulo, era amante de D. João IV. A sua abjecta mensagem de esbirros ainda lhes consentia que sentissem o opróbrio dela. Roque, na saga da escolta, não podemos, não poderá ninguém esgaravatar que herpes lhe mordiam a consciência. Homens assim nem o Criador sabe decifrar o enigma que eles são. Querem que Deus deva saber o que fez. Saberá.

Domingos Leite era o único do préstito sinistro que levava o rosto nobremente erguido, e parecia olhar para o céu pedindo às estrelas a luz da fé, para que na morte lhe não faltasse a esperança de outra existência.

Entrou em Lisboa na madrugada de 31 de julho. Levaram-no ao palácio do conde de Odemira, onde respondeu ao primeiro interrogatório com a altivez nunca vista em réu. Confessou tudo, sem nunca balbuciar o nome da mulher. Matava el-rei, disse ele, em desagravo da sua honra.

Nem um instante de quebranto, de pavor ou de suplica! Entrou na casa do conde de Odemira, diz o doutor fr. Francisco Brandão no opusculo referido, _com um desafogo tal que parecia mais alvitrista dos contrabandos de el-rei D. João que cúmplice dos maiores servidores do rei de Castella. Com esta mesma segurança de animo se portou em todos os mais lanços em que foi examinado; tendo só de bem confirmar sempre na confissão com o companheiro que o deu à prisão, e com a primeira confissão que uma vez lhe ouviram; de maneira que correndo por todo o exame e rigor das interrogações que o direito dispõe não faltou nunca na mesma rectificação de quanto sem as maiores violências havia confessado; imperfeita virtude no maior defeito! _

Em um desses interrogatórios, sem as maiores violências (quer dizer que a tortura não foi das mais requintadas) fizeram-lhe esta pergunta:

— Porque não atiraste a el-rei, tendo a escupeta apontada sobre o sagrado corpo de sua majestade?

— Porque tive uma visão santissima: foi a mão de um anjo do céu, que me levou para si os olhos e a alma.

desta resposta formaram os fantasistas da história uma parvoiçada de aureolas luzentissimas que esconderam aos olhos do regicida o etherio corpo de D. João de Bragança.

Transferido da casa do conde para o segredo do Limoeiro, divulgou-se em Lisboa a noticia.

As turbas correram à porta do carcere pedindo que lhe entregassem Domingos Leite Pereira para o espedaçarem. Acudiram os ministros, clamando ao povo que o prezo era apenas réu de morte na pessoa do padre Luiz da Silveira, e conseguiram debandar a chusma dos carrascos voluntários, ébrios de civismo.

Bernardo, quando soube da captura de seu amo, abordou-se ao cajado de peregrino, e foi caminho de Guimarães dizer a Antônio Leite que seu filho morria em desafronta de sua honra.

Ao fim de 16 dias de prisão, Domingos Leite foi sentenciado.

Eis a sentença integralmente trasladada da original, e publicada em 1833 pelo desembargador Gouvêa Pinto: [12]

SENTENÇA

Que se proferiu contra Domingos Leite Pereira Escrivão da Correição do Cível da Corte, por querer atreçoadamente matar a El-Rei o Senhor D. João o IV.

Acordam em Relação etc. Visto estes Autos, que pela calidade, e detestação do caso, prova dele se fizeram sumários.

Mostra-se que o Réu Domingos Leite Pereira, sendo natural deste Reino, e Proprietário do Ofício de Escrevão do Cível da Corte, se passou dele para o de Castella no ano passado, a titulo de um seu homezio, e estando em Madrid, foi nele despachado com o Habito de Cristo, e outras mercêz, e de ali com ordem de certos Ministros de El-Rei de Castella foi mandado a este Reino para matar a El-Rei Nosso Senhor, dando-lhe para este efeito quatrocentos escudos e uma espingarda com quartos, e um pelouro e dois vasos de peçonha para os poder ervar, e Cartas do mesmo Rei de Castella para o Marquês de Molenguem, Governador das Armas da Cidade de Badajoz, o deixar passar livremente.

Mostra-se que vindo o Réu com animo de efectuar o sobredito, chegou a esta Cidade com outro companheiro em seis do Mês de Maio do ano prezente aonde andou escondido té os vinte dias do Mês de Junho, dia da Procissão geral do Corpo de Deus, em que determinava dar à execução o seu damnado, e abominado intento, para cujo efeito, por meio do dito seu companheiro alugou três moradas de casas no principio da Rua dos Torneiros, por onde havia de passar a dita Procissão, e nela acompanhando o dito Senhor, na forma do costumado pelos Senhores Reis deste Reino, com tal apercebimento que uma das ditas casas ficassem com a dita porta para outra rua diferente por onde facilmente, depois do caso feito pudesse escapar sem ser tomado, rompendo com uma alavanca de ferro as ditas três moradas de casas, para mais fácil expedição da sua fugida.

Mostra-se, que no dito dia da Procissão ao tempo que o dito Senhor chegou à dita rua, e casas, e o Réu com a mesma rezolução, e deliberação do animo, o estava esperando em um buraco, que para o mesmo efeito abriu nas ditas casas, com a dita espingarda nas mãos carregada dos ditos doze quartos, e um pelouro ervado com a dita peçonha, e tanto que a Real Pessoa do dito Senhor, ele mesmo confessa, que se lhe representou uma Superior Majestade do Céu, que lhe fez cair das mãos a dita espingarda sem poder executar o intento, que de antes tinha, e no mesmo dia se saiu desfarçado das ditas casas, deixando em elas a dita espingarda, e alavanca, e vazos de peçonha; e se foi ao postigo de Nossa Senhora da Graça aonde o dito seu companheiro o estava aguardando com dois cavalos, que já ali tinha preparados para sua fugida, e em eles se tornaram ambos para Madrid.

Mostra-se, que aí se tornou o Réu a ver com os mesmos Ministros de Castella, que o haviam mandado dando-lhe outras desculpas de não effectuar o prometido por sua parte, e eles aceitando-lhas o tornaram a mandar ao mesmo efeito, com os mesmos passaportes, e promessas de aventejadas mercêz, dando-lhe mais dois mil cruzados em dinheiro; e partindo o Réu com o mesmo intento, e deliberação, e o dito seu companheiro, o mandou diante a esta Cidade a buscar casas aonde se pudessem agazalhar, e que o fosse esperar ao Lugar da Povoa de D. Martinho, para que ambos pudessem entrar mais escondidos na Cidade.

Mostra-se, que o companheiro do dito Réu, uzando de melhor concelho revelou tudo aos sobreditos Ministros da Justiça, do dito Senhor em os trinta e um dias do Mês de Julho, em que o Réu chegou ao dito logar da Povoa, o entregou nela à prizão, e o Réu no mesmo dia fez inteira e plenária confissão do seu damnado e deliberado intento, contestando em tudo o acima referido; e que fazendo-se diligencia, e visturia nas ditas casas se acharam furadas, na forma referida, e em elas os dois vasos de peçonha, escondidos no próprio lugar, que o Réu declarou, um deles ainda cheio, outro já diminuto, pelo que ele havia tirado, para ervar os ditos quartos e pelouro.

Não mostra o Réu por sua parte descarga alguma em sua defesa, sendo-lhe dado vista, e Procurador para alegar de sua justiça e direito.

O que tudo Visto, e o mais dos Autos, disposição de direito em tal caso, declaram ao dito Réu, por traidor aleivoso, parrecida, assassino, e haver incorrido no detestável crime de Leza Majestade de primeira cabeça, e como a tal o condenam, e mandam, que com baraço, e pregão pelas ruas publicas, e costumadas seja levado à rasto à forca, aonde sendo-lhe primeiro decepadas as mãos no Pelourinho morra enforcado de morte cruel, e o seu corpo seja posto em uma fugueira e nela feito em pó, e em cinza, para que dele não fique memoria; e o condenam outro sim em perdimento de seus bens para o Fisco, e Câmara Real, e que seus descendentes hájam as penas, que por direito lhes são impostas: e esta Sentença se não publicará sem primeiro se dar conta ao dito Senhor, na forma de suas ordens: e pague o R. os Autos. Lisboa 12 de Agosto de 1647. — Marcham, Monteiro, Beja, Marz. º, Stacio, Porto.

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Ao alvorejar da manhã de 21 de Agosto de 1647, saiu o regicida do oratório, onde permaneceu tranquilo, já orando, já conversando afetuosa e cristãmente com o sacerdote. Se algumas vezes orava com fervor de lágrimas, e o padre lhe asseverava que nosso Senhor Jesus Cristo, pai de misericórdias, lhe perdoava, o padecente respondia que estava pedindo a Deus lhe tirasse deste mundo uma filha que tinha, e cá ficava sob o peso da ignomínia de seu pai.

Apontava o sol, quando os algozes entravam no recinto a tosquiar-lhe a cabeça, a vestir-lhe a alva, e enroscar-lhe no pescoço e cintura a corda por onde haviam arrastal-o. Levado, à beira do padre, até ao átrio do Limoeiro, aí mandaram-o estender-se sobre um esteirão, ao qual aprezilharam as cordas da garganta e da cinta, de jeito que, ao repuxal-as, o não molestassem de modo que a vida perigasse.

As ruas desbordavam de povo que ululava gritos de cólera, e premia os flancos da escolta.

Chegado ao Pelourinho, mandaram-no erguer, conduziram-no pela corda a um patamar de taboado, no centro do qual estava um cepo de madeira escura pintalgado ainda do sangue dos conjurados de 1641 e de Francisco de Lucena. Domingos Leite estendeu os braços no cepo, e o carrasco decepou-lhe as mãos de dois golpes. A forca da Ribeira hasteava-se a distancia de duzentos passos. Do Pelourinho ao patíbulo o supliciado revelou enormes dores nos estorcimentos dos braços que jorravam sangue em jactos fumegantes. O frade da agonia, lavado em lágrimas, murmurava-lhe tudo que o homem pode dizer em honra de Deus e esperanças do céu.

Chegou o instante da piedade humana: o carrasco, balouçando-se-lhe nas espaduas, quando o corpo se inteiriçava pendente do triangulo, fez um gesto significativo de ter cumprido a justiça de el-rei D. João IV.

Faltava ainda o complemento da sentença.

O verdugo cortou a corda. O cadáver baqueou no tablado. E logo dois ajudantes do executor o esquartejaram em quatro partes que encravaram com cavilhas de ferro em uns altos postes arvorados em quatro pontos da cidade, os quais aí estiveram expostos até que a podridão aconselhou o queimal-os, e arrojal-os ao Tejo.

Assim acabou Domingos Leite Pereira, o mancebo ardente que se devotára ao duque de Bragança com patriótico desprezo da vida, e o marido brioso, que respeitára em si o esposo trahido, e odiára no rei o adultero infamador de sua honra.

CONCLUSÃO

Pelo que é de Domingos Leite Pereira está tudo concluído.

Mas a narrativa não pode parar aqui.

Ficam-lhe no mundo a filha, a esposa, o pai... e o traidor.

Oh! Roque da Cunha viu aquela tragedia, viu a cabeça esquálida no poste da rua dos Torneiros, e ficou debaixo do céu, para onde o frade apontava com o Cristo, quando o padecente tiritava nas horrentes dores da mutilação!..

Vamos rastrear os destinos de Ângela, visto que a Providência a não levou desta vida, quando o padecente lho rogava no oratório. E, se no rastro escuro ou luminoso da amada e inocente criatura, resvalarmos aos lodaçais, pode ser que lá topemos os personagens repugnantes de cujo destino o leitor nos pede conta.

O livro há de chamar-se A FILHA DO REGICIDA. (Nota final. )

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