Capítulo IV
Em alegre paz derivaram dois anos.
Ao fim do primeiro, deu ao amor de seu marido Maria Isabel uma menina.
Pouco depois, duplicou-se a riqueza do cazal com o falecimento do Traga-Malhas, e a entrada da viúva num Recolhimento da Terceira ordem de S. Francisco.
Não obstante, a felicidade do antigo aprendiz de boticário era dardejada pela inveja disfarçada no epigrama.
Quando Maria Isabel aparecia nas festividades de igreja, egualando-se nas pompas às mais ricas fidalgas, rumorejavam-se facecias que eram victoriadas com frouxos de riso.
A corrupção da época vestia-se de gala nas mulheres, Maria Isabel, porque sabia que as fidalgas a remoqueavam, de dia para dia dava novo pasto à sátira. Arrastava saias golpeadas de mosqueta; corpetes recamados de ouro; chapins estrelados de prata e perolas; fraldelhins agrinaldados de rubis. Saía em liteira sua, das mais adamascadas e pintadas, com lacaios bizarramente vestidos.
E, por sobre tudo isto, realçava como engodo ao despeito aquela esplendorosa beldade de Maria Isabel, a quem as senhoras dos palácios, arruinados como a honra própria, chamavam a Traga-malhas tanoeira.
neste em meio, Domingos Leite Pereira, advertido pelo marquês de Gouveia que posesse côbro ao luxo da mulher, respondeu que era bastantemente rico...
— E bastantemente inepto, sr. Leite — acudiu o mordomo-mor — Quando um marido assim arreia sua mulher para a exhibir nos adros das igrejas, os outros podem suspeitar que ele a veste, à guiza de moira da procissão, para a mostrar bem adubada e apetitosa à cupidez dos outros.
— Se o sr. marquês pensasse como esses vilãos que assim pensam, eu sairia da sua casa, com a mágoa de o não poder reptar ao baixo ponto em que está a honra dos plebeus — replicou Domingos Leite com altivez.
— Eu não penso assim — obviou o fidalgo — mas sei como os outros pensam.
— Quem são os outros? diz-mo V. Ex. ª?
— Não denuncio, sr. Leite; advirto-o e mais nada. Vossa mercê conhece os livros; mas desconhece os homens. Tem grandes espíritos; mas possui imperfeitissima rasão. Guarde isto que lhe digo; e oxalá que eu nunca lho recorde.
— Sr. marquês! — volveu o secretario com veemente arrebatamento — se minha mulher não é a honesta esposa que eu creio, diga-m'o; peço a V. Ex. ª pela sorte de suas filhas!
— Nada sei... — balbuciou o marquês, refreando a perturbação.
— V. Ex. ª está indeciso! — sobreveio Domingos Leite agitadissimo.
— Não seja louco! — objetou o velho, refazendo-se de aparente serenidade — Nada sei de sua mulher que o desdoure.
E, rematando o dialogo, o mordomo-mor disse que el-rei o esperava para o despacho.
Esta acerba palestra instilou peçonha no coração de Domingos Leite.
Havia um só homem e esse o mais indigno de todos com quem o marido de Maria Isabel desafogava a plenos pulmões: era Roque da Cunha, que, ao tempo, exercia um ofício dos mais grados entre os aguasis de uma das corregedorias criminais da corte, em recompensa de haver testemunhado em 1641 contra o general Matias de Albuquerque, por industria e compra dos inimigos daquele insigne cabo de guerra. E, bem que Matias de Albuquerque provasse sua inocência, D. João IV, tão presador dos denunciantes como dos bons e fieis generais, não retirou a Roque da Cunha a paga da aleivosia. Parece que antevira a urgente necessidade daquele homem...
Abriu sua alma Domingos Leite ao assassino de Pedro Barbosa, referindo-lhe o que passara com o marquês de Gouvêa, e terminando por lhe perguntar se ouvira qualquer calúnia contra a honestidade de sua mulher.
— Ouvi, respondeu friamente Roque.
— O que?! acudiu o outro sobresaltado e livido.
— Ouvi que antes de ser tua mulher tivera outros amores.
— Com quem? bradou arquejante Domingos Leite.
— Não perguntei. O calumniador disse a calúnia, e adormeceu na rua dos Romulares com dois bofetões puxados à sustância, que lhe dei nos indignos focinhos.
— Nunca mo disseste...
— Não sou echo de calumniadores, amigo Leite. Encarecer-te a minha amizade com a noticia dos bofetões, seria dar importância a bagatelas. Se eu estivesse em sitio onde pudesse arrancar-lhe a língua, mandava-t'a embrulhada em uma folha de alface com a mesma facilidade com que to digo.
— Mas conheces esse homem?
— Conheci há muitos anos: era parente de um oficial, ou quem quer que fosse de Miguel de Vasconcellos. Não lhe sei o nome, nem o tornei a ver desde há dois anos. Morreria ele?... Se o matei com o primeiro murro, era escusado pregar-lhe o segundo...
Esta revelação atribulou Domingos Leite por tanta maneira, que Roque da Cunha chacoteava a irracional aflição do seu amigo, chegando a dizer-lhe brutalmente:
— Homem! se este caso te faz tamanha mossa, parece que estás mais inclinado do que eu a acreditar a calúnia do tal que eu esmurracei! Em fim, tu lá sabes... concluiu faceiramente.
— Deixa-me... Olha que me estás fazendo perder a razão! atalhou o desvairado moço. Vê se me encontras esse homem, Roque! Pede-t'o a minha honra! dou-te por esse homem metade do que tenho! Se o tu não achares, ninguém o achará... Olha que me salvas, se mo trazes! salvas o teu maior amigo!
— Irei procurá-lo no inferno, se o não achar cá em cimo. Confia nos quadrilheiros de todos os bairros de Lisboa. Saibamos: que queres tu do homem?
— O nome do amante que teve Maria Isabel antes de ser minha mulher.
— Então é coisa averiguada que teve? interpelou despejada, mas rasoavelmente o cínico.
— Perguntas-m'o!... balbuciou Leite Pereira.
— Não to pergunto: és tu que mo dizes, homem! Seja como for. Aparecendo vivo o sujeito, queres interrogal-o, ou fias de mim desembuchar-lhe tudo que ele souber?
— Fio de ti a minha honra, que há de sair limpa dessa prova, ou hei de lavar o ferrete com o sangue de alguém.
— Até mais ver, Domingos Leite. Dá-me três dias e três noutes. daqui até lá não tujas palavra que possa espantar a caça, percebes? Olha que as mulheres tem faro de três narizes, quando não podem apresentar folha corrida ao almotacé do bairro da virtude.
Nos dias subsequentes, o secretario do marquês de Gouvêa, pretextando extraordinarios trabalhos, apenas pernoitava em casa; e, apesar de esforçada dissimulação, denunciou a Maria Isabel torvado animo e sobresaltos no dormitar. Interrogava-o ela amorosamente e com uns abalos de susto. Ele atribuía o seu dessocego a receios da causa da pátria, visto que o exercito do Alemtejo sofria numerosas deserções, e perigava à míngua de generais. No entanto, a esposa decifrara desgraça eminente em umas lágrimas que lhe vira toldar os olhos fitos no rosto angélico da filhinha adormecida. E perguntando-lhe então porque chorava, ele respondera que chorava em nome da criança a desventura de ter nascido.
Devoravam-no entretanto impaciencias de ouvir Roque da Cunha.
Chegou o mensageiro ao escritório de Domingos Leite, no palácio do conselheiro de estado, terminado o prazo prescripto, e começou dizendo, com solemnidade e tristeza, coisas singulares e raras no seu caráter:
— Achei-o. Morava em Alfama, e tem loja de mercearia.
— Bem! exclamou Leite Pereira com um trejeito de fictícia alegria que poderia egualmente significar a angustia de uma noticia dilacerante. — Que diz ele?
— Vamos de passo. Indaguei primeiro quem tinham sido os oficiais da escrivaninha de Miguel de Vasconcellos. Nomearam-m'os todos; e eu, logo que ouvi o nome de um, recordei-me de que o homem em quem eu dera os cachações era parente do tal. Ora este tal, que foi muito da confiança do ministro, conhecia-o eu como as minhas mãos. Fui ter com ele, e sem detença soube que o seu parente era tendeiro. Isto no primeiro dia. No segundo, mandei-o chamar por um quadrilheiro à corregedoria. Carreguei a sêlha, e perguntei-o sobre o que havia dito a respeito da mulher do escrivão do cível, Domingos Leite Pereira, no ano de 1643, na praça dos Romulares. Como ele fingisse estar esquecido, lembrei-lhe os dois murros, e ajudei-lhe a memoria, prometendo-lhe mandal-o para o Limoeiro até se lembrar. Confessou então que, estando em um jantar de anos, onde o vinho sobejava e minguava o juízo, ouvira dizer a um dos do banquete, falando-se no teu casamento, que ele conhecia um sujeito que, se não tivesse coroa rapada, a Maria Traga-Malhas e os dez mil cruzados não seriam para ti. E que mais? perguntei ao homem que engulira o principal. Não sei mais nada, respondeu ele. Chamei um aguazil e disse-lhe que levasse aquele esquecidiço ao Limoeiro, e o trouxesse quando ele tivesse mais miúdas lembranças do que ouviu num tal jantar. Deixou-se levar, e foi posto no segredo, e prohibido de falar ou escrever a alguém. Segundo dia. Agora o terceiro, que é hoje. Às duas da tarde pediu que o trouxessem à corregedoria. Recuperara a memoria. O homem que tinha coroa rapada, e se gabava de te disputar a noiva e os dez mil cruzados, era propriamente o primo dele, que eu conhecera oficial de Miguel de Vasconcellos.
— Como se chamava? atalhou Domingos Leite com os olhos abraseados e a respiração a trancos.
— Chamava-se o padre Luiz da Silveira.
— O que?... dize! Luiz da Silveira?! Esse padre foi o mestre de Maria Isabel... Basta!... Disseste tudo... — rugia Domingos Leite, regirando como fera prêza, de um lado a outro da saleta, e tomando o chapêo, apertou as mãos do informador, rugindo-lhe como em segredo: — Se eu precisar de ti, não me desampares... Bem sabes que eu só chamo amigo a quem me matar ou me restituir a honra nesta horrível conjuntura. Olha, escuta-me, Roque... Maria Isabel, antes de ser minha mulher, foi... Oh! como é atroz esta certeza!...
E, batendo com os punhos nas fontes, ringia os dentes, e istriavam-se-lhe os olhos de filamentos sanguinosos.
neste comenos, ouviram-se os passos mesurados do marquês mordomo-mor no salão contíguo. Os dois amigos evadiram-se pressurosos escada abaixo.