Capítulo III Carlota Ângela · Capítulo 3 de 20
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Capítulo III

Tu me matas, meu pae! Quem tal pensara?

Eu beijo a mão que o golpe me prepara.

Marqueza de Alorna.

A traça do bacharel Joaquim Antônio de Sampayo era afastar Mendonça de Portugal, repentinamente.

Aconselhara ele a mentira, para evitar o escândalo de um rapto, ou a saída judiciaria de Carlota.

Ausentar Mendonça para alguma das colonias, ou para os estados barbarescos, sob pretexto de guerra à pirataria, que infestava então o Mediterrâneo; e prolongar essa ausência até dissuadir Carlota, cortando-lhe os meios de se escreverem, era a trapaça do hábil jurisconsulto. Norberto, pasmado de tamanho ardil, fez tão estremado conceito do doutor que, no expandir-se da sua admiração, exclamou:

—Ó cunhado! você é homem de todos os diabos! Quem sabe, sabe!

—Mas, Norberto,—disse o doutor—sabe que sem dinheiro nada se faz?

—Saque o que quiser, cunhado!

—Eu tenho talvez de comprar muito caro o pretexto para a saída de Mendonça. Não sei se me verei a braços com os protetores e parentes dele na corte, e as nossas armas são o dinheiro.

—Pois é dizer o que quer. O doutor leva ordem franca; não poupe dinheiro, e ponha-me o homem fora da nação.

Assim armado com o invencível dinheiro, o tio de Carlota Ângela chegou a Lisboa, em fins de 1806, levando cartas de apresentação para o ministro da marinha, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, para D. Catarina Balsemão, e para o intendente geral da polícia, Diogo Ignácio de Pina Manique.

A matéria que então mais se discutia era a demência do príncipe regente, causada por sofrimentos dos que tornam ridículo um marido, ainda que o motivo seja mais para compaixão que riso. Falava-se na morte violenta de José Anastácio, em Mafra, empeçonhado por ter sido o espia e delator da conspiração urdida contra o príncipe, em Arroios, numa casa da condessa de Alorna, que emigrara para Inglaterra, descoberta a conjuração. Os rumores surdos contra os pedreiros-livres indicavam os indivíduos suspeitos, mormente depois que o escritor público Hippolyto da Costa fugira dos carceres da inquisição, que lhe foram abertos pelo braço poderoso da maçonaria. Hippolyto, autor, depois, do Correio Braziliense, devia a liberdade à embriaguez dos guardas e à astúcia dele; convinha, porém, ao governo simular-se assustado do poder da maçonaria para encruar contra os suspeitos a sanha da plebe. É, porém, certo que a maçonaria, em Portugal, entrara em 1797, com os emigrados franceses, e pudera a muito custo implantar-se numa pequena sociedade ou loja denominada Fortaleza, quase desconhecida e despercebida até 1806. Só depois que o ministro do reino entregou à inquisição um pedreiro-livre, e o ímpio fugiu do cárcere do Rossio, levando nos canos das botas os «Regimentos da Inquisição» reformados pelo marquês de Pombal, dos quais publicou, em ar de zombaria, curiosos extractos no jornal que, depois, redigiu em Londres—só depois desses néscios mêdos e estúpidas perseguições do governo, sempre providenciais para acordar os povos do letargo, é que a sociedade maçônica em Portugal se radicou, floresceu, e deu fructos bons e maus. (Os de hoje apodrecem todos antes de madurar.)

A questão dos pedreiros-livres revirou os projetos do bacharel portuense. Nova ideia lhe acudiu, quando principiava a mortificá-lo o receio de não poder suplantar um frade beneditino bem aparentado, que se dizia ser pai de Francisco Salter de Mendonça. Essa ideia era denunciar o tenente de marinha como encarregado de fundar no Porto uma loja maçônica, para o que tratava de intimidade com Jeronymo José Rodrigues, arcediago de Barroso, o primeiro liberal que teve a cidade eterna, antes de pregoar-se a liberdade em Portugal.

Francisco Salter de Mendonça conhecia o arcediago, era sua visita, simpatizava com as suas doutrinas políticas, e deixara-se eivar do espírito de vaga novidade que os princípios de liberalismo balbuciavam ainda então confusamente. Não era, todavia, pedreiro-livre, porque venerava o frade que o adiantara na carreira das armas, e queria cumprir o juramento que fizera, nas mãos do monge, de jamais se associar à seita dos inimigos de Deus, com quanto conhecesse a inépcia dos farisaicos amigos do altar.

O tio de Carlota apresentou-se a D. Catarina de Balsemão, ouviu-lhe dois sonetos, aplaudiu-lh'os até chorar de terno entusiasmo, e disse, depois, o fim a que ia. Pintou com negras cores o roer profundo do cancro da maçonaria no seio da sociedade; lastimou a inevitável queda dos foros e prerogativas da classe nobre, se a média se incorporasse para desarreigar a árvore de séculos; disse que a maçonaria fizera Silla, e Robespierre, e Bonaparte; ajuntou outras muitas tolices em linguagem garrafal, até incendiar a combustível D. Catarina, que logo ali lhe deu carta de mui especial recomendação para Manique.

O intendente ouviu com atenção e medo o bacharel. Soube que Francisco Salter de Mendonça, mancomunado com o arcediago de Barroso e outros, tratava de fundar uma loja maçônica no Porto, convencendo os tímidos «com a sua eloquência revolucionaria, e prometendo aos ilusos a restauração dos direitos dos povos, victimados que fossem os reis e os grandes. Acrescentava o bacharel que Salter de Mendonça traduzia e espalhava os escritos mais incendiários dos revolucionários franceses em 1791, e propalava que Portugal não podia ser feliz sem mandar um rei de companhia a Luís XVI.

Manique estava tranzido! O orador, electrisado com o pasmo do ouvinte, entrara na sua hora feliz. As imagens mais ensanguentadas, as metáforas mais patibulares, os tropos mais coriscantes acudiam-lhe com trovejante iracúndia. Digna de melhor destino, a fúria oratória do letrado do Porto conseguira mais que o desejado. Manique susteve-lhe a torrente, prometendo providencias prontas, e acabou por lhe pedir que ficasse na intendência exercendo o logar do ajudante, assassinado em Mafra, José Anastácio.

Aqui é que o bacharel se achou superior a si mesmo, e deu um mental adeus ao safado tostão dos conselhos, que raros clientes lhe levavam, no Porto, ao seu obscuro escritório da rua de Santa Catarina.

Confiado na sua estrela, o nomeado ajudante do intendente geral da polícia perguntou ao chefe o que tencionava s. exc.ª fazer a Francisco Salter. Manique respondeu que o faria conduzir preso a Lisboa, e do Limoeiro passaria para a inquisição.

—Se v. exc.ª me permite uma reflexão...—disse o bacharel.

—Diga lá, que eu respeito muito o seu parecer.

—Com o devido respeito e humildade que se deve aos atilados juízos de v. exc.ª, peço licença para observar que convém obrar com mansidão e parcimônia, para impedir que uma seita perseguida faça prosélitos. Eu vou, com o maior respeito, lembrar a v. exc.ª trinta e tantos casos da história, dos quais se vê quão imprudente e perigoso é empregar o cauterio à borbulha que muitas vezes resolve sem medicamento, e quase sempre lavra quando a fazem sangrar. Começarei primeiro pela seita luterana, a qual seita luterana...

—Tem a bondade de não exemplificar...—atalhou o intendente, que detestava cordialmente as novidades tanto em política como em história—Que entende o senhor que se deve fazer? Desprezar? Deixar rebentar o volcão? Então de que me servem as tristes novas que me trouxe?!

—Desprezar, não, exc.mo Sr.! Que faz o hábil agricultor ao galho seco da sua árvore? Corta-o, separa-o das vergônteas vivazes, mas não o lança à estrada, para que o passageiro o leve como coisa sem dono, nem o desfaz com o machado como objecto sem utilidade. Leva-o para casa, lança-o na lareira, e aquece-se a ele. Façamos a aplicação: Francisco Salter é o membro contaminado e damninho: cumpre decepá-lo, para que não empeçonhe os outros; cumpre aproveitá-lo, a fim de que os inimigos da ordem se não aproveitem dele; cumpre empregá-lo em serviço da pátria; mas seja onde as suas tendencias revolucionarias não catechisem incautos. Mendonça é tenente; promova-se a capitão, e (permita-me v. exc.ª o arrojo de dar o meu parecer com a franqueza própria de um português, homem de bem) seja sem perda de tempo enviado como comandante do primeiro vaso que sair para o Brasil, dispondo de modo a sua expedição, que ele só volte à metrópole passados anos. Esta é a minha humilde opinião.

O bacharel concluiu, dobrando o pescoço até bater com a barba no peito. Manique redarguiu debilmente em oposição aos princípios fabianos do bacharel. Sampayo replicou, pedindo sempre mil perdões da audácia, e alfim superou o chefe, fortalecendo-se com a dificuldade de provar a denuncia, visto que as testemunhas presenciais das arengas revolucionarias de Mendonça não jurariam contra ele.

Nesse dia expediu-se ordem para recolher a Lisboa o tenente da corveta Audaz, Francisco Salter de Mendonça, no prazo de oito dias. Aprestou-se um brigue, que devia, dois dias depois da chegada do oficial, fazer-se à vela para o Rio de Janeiro, capitaneado por Salter, promovido a capitão.

O ajudante do intendente geral da polícia, escrevendo a seu cunhado Norberto de Meirelles, dizia:

«Tenho luctado com enormes dificuldades. Saquei seis mil cruzados, e venci as primeiras; as outras hão de vencer-se... etc.»

Donde se infere que o agente de Norberto de Meirelles estimara em seis mil cruzados as duas arripiadas arengas à célebre poetiza e ao intendente geral da polícia.

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