Capítulo XVIII Carlota Ângela · Capítulo 18 de 20
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Capítulo XVIII

Venite ad me omnes qui laboratis, et onerati estis, et ego reficiam vos.

Jesus Christo.

Soror Rufina compreendeu mal a exaltação de Carlota. No conceito da ingenua religiosa, sua sobrinha, posto que tentada pelo espírito das trevas a dar um passo de desesperada, um passo do altar para o abismo, do limbo de esperanças celestiais para o inferno das eternas dores, não chegaria a deixar-se vencer, caíria contrita aos pés da cruz antes de infamar-se e infamar o mosteiro com a fuga.

Carlota, por sua parte, não desmentiu a conjetura da freira, por isso que, por espaço de dois dias, esteve reclusa na sua cela, orando e chorando, quase sempre sozinha, porque tanto a Cecília como a Rufina pedia que a deixassem desafogar a sua angústia a sós com a imagem do Senhor, sua consolação extrema e única.

Não podemos, porém, asseverar que as lágrimas e orações fossem o constante exercício da freira beneditina. Duas ou três cartas, que Francisco Salter de Mendonça recebeu, foram de certo escritas em intervalos pouco edificantes desses dois dias, se devemos, do que aconteceu ao terceiro dia, avaliar o conteúdo delas.

Às três horas da madrugada desse terceiro dia, que era o sétimo do mês de setembro de 1811, Francisco Salter de Mendonça estava já desde a meia noite, encostado ao muro da cerca do mosteiro, naquele angulo que confina com a última casa da rua do Loureiro, hoje bem conhecida pela «Estalagem do Cantinho». Não averiguamos como ele conseguiu do locatário dessa casa, que devia ser um sujeito de maus costumes, licença para engatinhar através do telhado, até alcançar o muro na parte onde é fácil o salto para a cerca.

Ao dar das três horas no campanário do mosteiro, branquejou rente com o angulo do muro, que forma a espécie de fortim de ameias sobranceira à Porta de Carros, um vulto que desceu ao pomar, e aí se sumiu por alguns minutos à vista do ansiado Francisco Salter.

Era Carlota Ângela, a professa beneditina, que fugira do talamo do divino esposo, e a cada passo que dava comprimia no peito o coração que o fantasma do seu crime apavorava. Os minutos que se demorou no pomar, cerrado, por cuja copa o clarão da lua, já desmaiado pelos alvores matutinos, se coava, traçando sombras movediças, foram uma demora causada por uma sincope.

Francisco Salter, suspeitando isto mesmo, ou receando o arrependimento, saltou o muro, deixando içada a escada de corda por onde Carlota devia subir, e foi direito ao pomar. A freira soltou um grito de terror quando viu ao pé de si um vulto. Salter proferiu o nome dela com amorosa angústia.

Mendonça tremia.

Não há coragem de homem que vença a comoção destes lances. O silêncio religioso que reinava ali; os trajos da religiosa, ainda os mesmos com que horas antes assistira à sua última oração em comunidade, exceto a touca e o escapulário; esse íntimo abalo com que a Providência se denuncia nos corações mais endurecidos pela negação da falsa consciência do irreligioso; e, sobretudo, a luta de todos esses sentimentos com a paixão imperiosa, e o plano irrevogável desses dois infelizes, fora, talvez, a causa do quebranto, e quase desfalecimento de espírito em que ficou Mendonça ao apertar nos braços, pela primeira vez, Carlota Ângela.

—Não posso!—exclamou ela—não posso dar um passo... Começo a sentir o castigo do céu... Receio morrer aqui.

—Não morrerás, Carlota...—acudiu Mendonça, apertando-a ao seio com veemente ternura misturada de supersticioso sobresalto—Deus só castiga o crime das que abjuram os votos que faz o coração. Vem, Carlota, mais alguns passos, pouco nos falta já; daqui a momentos verás fugir esse terror, que me está oprimindo também a mim. Vem, amiga da minha alma...

—Não posso, Francisco... não posso...—tornou ela, soluçando, pendurando-se-lhe dos ombros com aflitivo modo, e olhando em redor com a vista assombrada de visões medonhas—Vai tu, que eu torno para o meu suplicio... Vai, meu amigo, que não pode haver felicidade sem Deus. Não queiras ser cúmplice do meu crime, porque o hás de expiar comigo. O melhor, na minha desgraça, é morrer, Francisco; morrer mártir, morrer digna de pedir ao Senhor por ti...

Francisco Salter balbuciava apenas monossílabos. As palavras da freira calaram-lhe na alma um espasmo atribulado. Carlota sentia-o tremer como ela, ou mais ainda: o seu terror aumentava, com o silêncio de Mendonça, com aquela espécie de assentimento que ele dava aos preságios dela.

Por um momento se afigurou ao amante da religiosa que a desgraça era inevitável. Calara-se o coração. Era o espírito religioso que sobrepujava o ânimo robusto do capitão de marinha. Tinham-o, talvez, debilitado os infortúnios. Fizera-o, talvez, supersticioso a desgraça, se não quereis que possa chamar-se influxo providencial este medo. Por que não dizemos antes que a desgraça o fizera crente? Por que não estaria entre ambos o anjo do Senhor, o anjo Custódio que pedira ao Altíssimo um raio da sua divina graça com que alumiar, a dois corações que se despenhavam, a profundeza do abismo?

Carlota parecia banhada desse raio celestial, quando se lançou aos pés de Mendonça de mãos erguidas, orando, pode dizer-se, orando assim:

—Não me leves daqui, meu amigo. Não me queiras fora do amparo divino que me deu esperanças de te encontrar no céu. Guardemos para lá os nossos amores felizes, amores bem-aventurados por uma eternidade. Temos merecido tanto com os nossos martírios, Francisco... deviamos de ser tão caros à piedade de Deus... não sejamos agora indignos da sua misericórdia, e cruéis para conosco... A minha vida será curta no convento, e fora do convento. Deixa-me morrer aqui; serás menos infeliz. Eu não me importa a desonra do mundo: a infamação não poderia matar-me; mas, lá fora, espera-me uma dor maior que todas, a do remorso, a da contrição impossível sem a emenda.

Carlota prosseguiu soluçando no seio do amante palavras inarticuladas, às quais responderam por fim as lágrimas copiosas de Mendonça, as primeiras que ele chorava doces e suavíssimas, quais se o Senhor lhas desse como prelibação aprazível das alegrias que sua alma teria em galardão do sacrifício.

Era já quase dia claro, quando a freira beneditina, encostada ao braço de Mendonça, foi sentar-se no degrau da porta por onde uma hora antes saíra com a resolução de não mais entrar. Aí, desse abraço derradeiro que se deram silenciosos, arquejantes, convulsivos, não saberemos dizer qual fosse a infinita angústia.

É certo que Francisco Salter, ao desapertá-la dos braços estremecidos em que ela proferia num gemido o último adeus, cruzou os braços e disse:

—Vai, Carlota, que eu não posso disputar-te a Deus. Vai, filha da minha alma, que eu alimentei com lágrimas, que eu mereci a preço dos tormentos que nenhum homem suportou, para finalmente te ceder a um fantasma que me diz que não podes ser minha. Recorda-te... olha para mim, Carlota, e assombra-te da grandeza da minha angústia e da minha paciência. O homem que tanto padeceu para merecer-te, vai, sem ti, procurar a morte do corpo onde Deus quer que ela o espere depois da morte da alma, do assassínio lento de um coração que se teria salvado se há três anos te arrancasse aos braços de teu pai. Fui demasiadamente honrado para este mundo e para esta sociedade. Não quis respirar este ar corrompido em que vivem os felizes... devia morrer. Por fim, devias ser tu a que me apontasses o teu remorso como estorvo a pertenceres-me. Fica, minha amiga, com a tranquilidade do teu espírito. Por ti sofri muito; mas não era o teu sofrimento o premio que eu vinha pedir-te agora. Quis dar-te a felicidade, e cuidei que ta dava. Quis levar-te comigo aos pés do representante do Eterno na terra, para lhe suplicarmos que houvesse de Deus perdão para ti, que não poderas ser o que a desgraça te aconselhara que fosses. Diz-te o coração que o teu crime não pode ter reparação: é Deus que to segreda, Carlota, e eu não ouso argumentar contra as inspirações que te baixam do céu. Vai, pois, esposa de Cristo, vai para o teu santuário, e chora-me aí, chora-me enquanto eu viver; depois, ora por mim, porque a minha alma só as tuas orações podem purificá-la, e erguê-la à presença do divino Juiz. Adeus, Carlota.

A freira, do limiar da porta estendera ainda os braços para Mendonça, exclamando:

—Vem cá, Francisco, vem cá... escuta-me, por piedade!

—Carlota! Carlota!—disse uma voz, que os fizera estremecer a ambos.

Era soror Rufina, que surgira no angulo do muro, entre as ameias que cercam o terraço por onde a freira conseguira evadir-se.

Francisco Salter de Mendonça, admirável de dignidade, retrocedeu, aproximou-se de Rufina, baixou ligeiramente a cabeça, e tomando Carlota pela mão, disse:

—Deus sabe que ela é cada vez mais digna dele. Assista com piedade às agonias deste anjo. Sua sobrinha, senhora, veio aqui buscar coragem para a morte, e ensinar-me a morrer com honra. A vida honrada já ela ma tinha ensinado: faltava-me a morte, que devia ser de desesperança impia, se esta santa me ensinasse o segredo de expirar abençoando a desgraça.

Foram as últimas palavras de Salter, palavras que a jovem freira já não ouvira, porque os braços de sua tia lhe estavam sendo amparo na perda dos sentidos.

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