Capítulo IV Carlota Ângela · Capítulo 4 de 20
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Capítulo IV

Salada

¡Ai! ¡no me dejes nunca!

Aden

¿Yo dejarte?

¿Y para qué, y porque?! tu mi querida!

¿Ni como, aunc quisiera abandonarte

Juntos tu y yo lanzados en la vida?

Espronceda. (El diablo mundo.)

Fazia tristeza e saudade a formosa lua de uma noite de agosto naqueles olorosos jardins do Candal.

Era meia noite, e a viração do mar bafejava mansamente as copas dos arvoredos, que circuitavam a sombria casa de Norberto de Meirelles, o qual, a essa hora, resonava mais alto que todos os sêres vivos da natureza em roda.

De mansinho rodou a porta que abria para o jardim. Um vulto deslizou por entre os mirtos e japoneiras, até ganhar o mirante erguido num angulo do jardim.

—Esperaste muito?—disse ela a Francisco Salter, que lhe saíra de sob a ramagem sombria dos chorões debruçados no muro—Tem paciência, meu amigo. Minha mãe deitou-se há meia hora; não sei que ar de inquieta alegria ela tinha hoje, que lhe não chegava o sono...

—Seria tão viva a alegria dela, como é viva a amargura que me não deixara dormir a mim?

—Amargura! Que tens, Francisco?

—Não te falou por mim o meu bilhete desta tarde?

—O teu bilhete?... não... Dizias-me que era indispensável falares-me hoje... Não traduzi amargura nisto... Cuidei que era uma saudade feliz e serena como a minha...

—Oh! não, minha querida, é uma saudade que me despedaça... é a saudade que...

—Como?! que linguagem é essa, Francisco! Não me tens agora aqui?! não sou eu tua para sempre?!

—Sei que serás, Carlota, sei... mas eu preciso que chores comigo para me ser menos amarga a minha dor... É forçoso que nos separemos por alguns dias... meses... anos...

—Jesus! que nos separemos?! Onde vais tu?

—Sou chamado imediatamente a Lisboa.

—A Lisboa!... para que és tu chamado a Lisboa, Francisco?

—Não sei... é uma ordem terminante do ministro.

—Oh meu Deus!... que lembrança terrível!—exclamou com veemência Carlota—É impossível! é impossível!

—Impossível o que?

—Nem te quero dizer a horrível ideia que tive agora...

—Diz, Carlota... vejamos se se encontram duas ideias horríveis.

—Pois também suspeitas?... que te lembra, meu amigo?... diz, diz, se também julgas possível...

—Também suspeito que a ida de teu tio a Lisboa...

—Sim, sim, é isso que me lembrou; mas não creias, porque meu tio é um bom homem. Há muito que ele dizia que iria a Lisboa requerer um emprego. É ao que foi; mas... é verdade que...

—Não receies atormentar-me, Carlota; diz tudo que te faz desconfiar...

—É que hoje recebeu-se carta de meu tio, conheci a letra do sobrescrito, quis abri-la inocentemente, e meu pai tirou-me a carta da mão com grande sobresalto, dizendo que não era boa criação ler as cartas de outro. Eu disse-lhe que era uma curiosidade filha do desejo de saber como meu tio passava; e o pai voltou-me as costas, e eu bem vi que ele estava muito inquieto... mas...

—Dúvidas ainda, Carlota, que teu tio foi agenciar a minha saída do Porto! Dúvidas que não foi traiçoeiro o consentimento de teu pai, sem ao menos me perguntar que família ou haveres são os meus?

—Isso é horrível, meu amigo! não me convenças dessa traição, que me matas! Eles não podem separar-nos, não! O que a morte pode fazer não o farão eles. Juro-t'o pela minha alma e por tudo quanto há sagrado...

—Não jures, Carlota; eu sei o que és para mim; vale mais essa tua aflição, que todos os juramentos. Por quem és, não chores assim, meu querido anjo. Aqui o terrível mal que nos ameaça é a saudade, a incerteza não. Se a nossa ventura vier mais tarde do que esperavamos, resignemo-nos, vençamos a desgraça com a esperança. Teu pai porque será contra mim? porque eu sou pobre? pois bem, Carlota, irás pobre para a companhia de teu marido. O meu pão chega para ti, e bastará para mim a felicidade de to alcançar à custa de honrado trabalho. Não aceitaremos uma moeda de cobre dos cofres de teu pai... Bem basta que esse dinheiro tenha sido o nosso algoz para o não querermos conosco. Pobre é que eu te quero, e, se teu pai me não diz tão depressa que eras minha, ouviria da minha boca uma renuncia formal do teu grande dote... Coragem, minha amiga. Eu vou a Lisboa, conheço logo a causa da minha chamada, desfaço as intrigas, se elas lá me esperam, empenho em nosso favor amigos e parentes, que tenho alguns valiosos ao pé dos ministros. Voltarei para convencer teu pai de que eu reputei verdadeira a sua palavra, e me envergonhei por ele, supondo necessário chamar a lei em nossa ajuda. Entrarei em tua casa, e dir-te-ei: Vem ser minha esposa! E tu sairás, pois não, minha Carlota?

—Sim, sim, sairei; e por que não há de ser já?!

—Já?!

—Sim, leva-me contigo; não me deixes entregue a esta gente que me quer matar. Começo a odiá-los, e não poderei mais vê-los sem rancor. Leva-me, Francisco... Aceita-me assim pobre, e verás que te levo a maior riqueza deste mundo, um coração onde eu tenho o segredo de fazer a nossa felicidade na pobreza. Não me respondes?

—Queria responder-te de joelhos, Carlota! Tu és um anjo, és um bem que eu não mereço a Deus, e receio desagradar-lhe se faço sofrer teus pais, que, de certo, te devem amar muito, e cuidam que te fazem bem, separando-te de mim. Eu se fosse pai, e pai de uma filha assim, dá-la-ia ao primeiro que ma viesse pedir, sem me mostrar virtudes dignas dela? Não diria a esse homem perfidamente que sim, para depois praticar a vilania de o afastar, matando-lhe o coração a punhaladas traiçoeiras... não mostraria ao amante de minha filha o céu, para depois o despenhar no inferno; mas... custar-me-ia muito a dizer-lhe: Aí te dou o tesouro que tive no coração dezessete anos, que guardei para me dar alegria nas amarguras da velhice... leva-o, e deixa-me só com a minha saudade irremediável!... Não, Carlota, é cedo ainda para dares a teus pais esse desgosto. O teu amor ensina-me a ser nobre. Há um amor que faz tiranos e cruéis; mas esse amor não é o meu. Sou generoso para todo o mundo, e para os teus mais que para outrem. Ninguém dirá que calculei com os cem mil cruzados de teu pai, quando eu tiver uma casa que te ofereça, à hora do dia, na presença de quantos quiserem ver como um homem pobre serve um pobre jantar a sua mulher. Fica, minha querida Carlota, fica em tua casa. Nós exageramos o infortúnio. É próprio do muito amor que nos temos; mas saibamos empregar as armas da razão para vencer uma desgraça imaginária. Vou a Lisboa, ouço o que me querem, volto com licença aqui, apresento-me a teu pai no dia dos teus anos, e no seguinte venho pedir-lhe o cumprimento da sua palavra. À palavra não, encontro-te ao meu lado... e depois, venham todas as potencias do inferno contra nós.

—Francisco!—murmurou Carlota, despeitada—tu não me amas... porque não receias perder-me.

—Perdoo-te a injustiça, Carlota... Diz o que te não vem do coração, diz, minha amiga, que eu até das injúrias, se de ti me vierem, tirarei provas de que me amas muito, e crês que te amo. Há dois anos a amar-te assim! Há dois anos a respeitar-te como irmã, acarinhando-te como esposa! Há dois anos a viver de uma esperança, que só às tuas palavras se afoutou a dizer que existia! O homem que assim pensou não podia hoje aceitar a tua fuga, sem tu me dizeres que é preciso roubar-te para te merecer. Oh! isso nunca tu mo dirás, anjo do céu, porque então pouco apreço daria eu à alma que não tem a intrepidez de dizer «sou livre».

Carlota soluçava com a face apoiada na pilastra da varanda, e os olhos fitos no céu. O aperto de coração que a sufocava era mais que o exprimível e imaginável. Essas angústias sofrem-se; mas não deixam reminiscências aos que as devoraram. São como as agonias do naufragado, que não preenchera ainda a conta dos seus dias, e quis em vão contar aos que o salvaram a suprema aflição do afogamento. Para as torturas de um adeus, entre duas almas animadas por um só espiráculo de vida, sei eu que há na língua humana uma palavra, uma só: INFERNO. Isso é pior que o morrer, porque na morte há o esquecer graduado por cada estalar de fio que nos atava aos poucos bens deste mundo: há o extremo dom do árbitro das vidas—a resignação sem luta, o luzir da estrela esperançosa que se ergue detrás do túmulo, o recordar-se dos anseios para Deus, quando as brilhantes ilusões da terra se convertiam num como tênue vapor de incenso que nos prendia aos olhos lagrimosos até o vermos entrar no céu.

Mas o adeus de Carlota Ângela a Francisco de Mendonça!... Essas derradeiras palavras, que já não eram mais que um longo gemido, convulso, sufocado, a cada ímpeto dos dois corações que rasgavam os peitos para se juntarem!........................................

Linda expirava a noite. Raiava a aurora, empalidecendo as estrelas. Uma auréola de frouxa luz cintava os horizontes. Na extrema orla do mar enrubesciam-se as águas, e calava-se o rumorejar da vaga, como para ouvir o hino matinal dos madrugadores alados.

Era um formoso amanhecer aquele! Tão donoso, tão alegre, tão radiante tudo, só tu, Carlota, com os olhos na colina onde viste o derradeiro adeus do amante, e a mão no seio como a suster a vida que te foge, perguntas à tua razão se tamanha angústia não é um sonho! Acorda, mártir, que o teu dia de desgraça amanheceu, e será longo!

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