Capítulo V
Sai se o vulto de meu corpo
Mas ei non.
Cá ós çocos vos fica morto
O coraçon.
Egas Moniz Coelho. (?)
... Si notre affection est traversée; si elle rencontre des obstacles, elle réagit, et cette réaction, impétueuse, convulsive, comme celle de tout ressort agitée et comprimée, nous porte á des mouvemens desordonnés, par conséquent accompagnés de souffrance. Notre affection, alors, devient passion. Et comme les obstacles qui l'irritent ne peuvent jamais être placés que par les intérêts d'autres personnes, elle nous anime d'une violente haine contre ces personnes si offensives, si importunes; elle change notre douceur en brusquerie, notre générosité en sentimens odieux.
Azais. (Précis du systême universel.)
Francisco Salter foi, naquele mesmo dia, ao Candal oferecer a Norberto de Meirelles os seus serviços em Lisboa, onde era chamado pressurosamente.
O negociante não tinha prática ou habilidade bastante para simular no rosto a surpresa ou o descontentamento da inesperada ausência do genro apalavrado. Manifestou, em toda a expressiva estupidez com que a providência dos grosseiros velhacos lhe dotara a fisionomia, a alegria danada que lhe não cabia no bojo do peito. Mendonça evidenciou as suas suspeitas, e arrependeu-se de não ter convertido em peçonha toda aquela alegria, aceitando a fuga de Carlota, horas antes.
—Desejava despedir-me das senhoras—disse Mendonça.
—Minha mulher—tartamudeou o negociante—foi à missa, e mais a menina, a uma capelinha à Bandeira, senão com todo o gosto...
Mendonça, quando entrara o portão da quinta, vira Carlota através de uma vidraça. Carlota, pé ante pé, viera, a ocultas da mãe, avizinhar-se da sala, com o sentido de, caso o pai a não chamasse, entrar na sala onde Mendonça estava, como de passagem para outra, e fingir-se surpreendida do encontro.
Foi o que ela fez ao tempo em que o negociante acabava de improvisar uma missa na capela da Bandeira.
—Ai!—exclamou ela—estavam aqui!...
—Acabava eu de pedir licença ao Sr. Meirelles—disse Mendonça, sorrindo ironicamente—para oferecer a v. s.ª e a sua mãe o meu préstimo em Lisboa, para onde parto hoje às quatro horas da tarde.
O arrozeiro, em pé, com os braços estendidos ao longo dos flancos abdominais, abria e fechava as mãos, como um idiota: não sabia fazer outra gesticulação mais parva, quando a sua inépcia fosse tal que se lhe fechassem todas as evasivas de uma posição falsa.
—O Sr. Norberto—prosseguiu Francisco Salter, cedendo ao prazer de afrontar a mentira do vilão diante da própria filha—disse-me que v. s.ª e sua mãe estavam na Bandeira ouvindo missa, e eu... retirava-me...
Carlota encarou o velho, e viu um tregeitar de olhos, que a obrigou a baixar os dela, por vergonha de si e de seu pai. Salter teve dó de ambos, e mudou de conversação.
—Não sei que motivos imprevistos me chamam a Lisboa; talvez as ameaças de uma nova invasão espanhola, ou bem pode ser que se tema um definitivo assalto da França...
—Pois virão cá esses herejes de Napoleão?!—exclamou o negociante, já transfigurado pelo susto dos franceses, mal incomparavelmente maior, que destruiu o vexame em que o deixou a aparição da filha.
—Pode ser que venham, Sr. Norberto, responder ao desafio que lhes mandamos pelos nossos soldados do Roussillon, quando a França liquidava as suas contas com a Espanha.
Norberto não o entendeu; mas redarguiu:
—Se eles cá vem, é contar que não deixam nada; diz que metem a saque tudo quanto topam, pois não metem?
—É possível; mas v. s.ª previna-se, escondendo o seu precioso aqui no Candal, por exemplo, onde de certo os franceses não virão. Aí está o inconveniente de ser rico. Já o Sr. Norberto está a sofrer com o medo de que o obriguem a uma contribuição...
—Se lhe parece.... o caso não é para menos: quem não tem nada, tanto se lhe dá como se lhe deu; mas quem lhe custou a ganhar o que tem, pouco ou muito, quer paz e sossego.
—Não se aterre antes de tempo, Sr. Norberto,—replicou Mendonça, sorrindo a Carlota—quando os franceses invadissem Portugal, eu ajudaria a v. s.ª a defender o que é seu, não só como esposo de sua filha, mas também como seu amigo.
—Isso lá...—regougou o mercieiro—muito obrigado, não me despeço do favor: mas o senhor é militar, e quando isso for não lhe há de faltar por lá que fazer, na guerra do mar.
—Assim aconteceria—tornou Mendonça, enterrando lentamente o estilete observador—se eu não tencionasse pedir a minha baixa do serviço, para evitar que as revoluções perturbem a felicidade de minha mulher e a minha.
—Então que modo de vida queria o senhor ter, se casasse com a minha Carlota?
—Outro qualquer mais permanente, mais descansado; negociante, por exemplo.
—E que é dos fundos?
—Fundos?
—Sim, o casco do negócio?
—O casco!... a que chama v. s.ª casco?
—Casco é o cabedal para começar.
—Meu sogro dar-me-ia...
—Dinheiro?! meu amiguinho, está quase todo empregado em torrões; e eu, enquanto vivo, não dou nada.
—Mais uma razão—replicou Mendonça, condoído do vexame de Carlota, e seguro, mais que seguro, do vilão caráter do arrozeiro—mais uma razão para v. s.ª não recear a invasão dos franceses... Agora tem logar—prosseguiu ele, mudando de irônico para circumspecto e grave—uma observação que me esqueceu há dias, quando tive a ventura de pedir-lhe a Sr.ª D. Carlota. Eu, Sr. Norberto, pedi sua filha, simplesmente sua filha; não pedi dinheiro, nem pedirei jamais. Eu conto com recursos próprios para que ela não sinta falta de comodidades que deixou em casa de seus pais. O meu patrimônio é a patente que tenho e as bem fundadas esperanças de me aumentar nesta carreira. Não me julgue v. s.ª atido ao dote de sua filha, nem cuide que me afligi com a ameaça de nada lhe dar enquanto vivo. Pode o Sr. Norberto gastar, ou aumentar o que tem, que sua filha não esperará a morte do pai para poder comprar mais um vestido. Faça, portanto, justiça às minhas intenções, e conceda-me que eu dê liberdade a algumas ideias que me estão inquietando e magoando.
V. s.ª não procedeu lealmente comigo, quando me deu, sem reparo, sua filha. Rogo à Sr.ª D. Carlota me consinta este desabafo, porque a clareza, neste momento, é necessária a todos nós, e o amor e o decoro costumam, nas almas nobres, sofrer juntos, quando um deles é ofendido... e agora são ambos.
—Eu não entendo o que v. s.ª aí está a dizer—atalhou Norberto conscienciosamente.
—O Sr. Mendonça...—acudiu Carlota; mas o pejo embargou-lhe a voz.
—Eu queria dizer ao Sr. Norberto de Meirelles—tornou Mendonça—que fez v. s.ª mal em dar uma palavra de que se quer desquitar por meios menos honestos, e à custa talvez da minha liberdade. A ida de seu cunhado à capital, e a ordem de eu ir, sem perda de tempo, a Lisboa, escondem uma trama que eu espero desenredar em oito dias. Se o Sr. Norberto e seu cunhado julgaram que uma intriga basta para aniquilar um amor de dois anos, uma união de toda a vida já abençoada por Deus, que vê a pureza das minhas ambições, enganaram-se! Retardar não é destruir. Eu confio tanto no generoso coração da Sr.ª D. Carlota como em mim próprio; e só o muito amor me podia dar a mim esta franqueza com que falo, e a ela a indulgencia com que me ouve acusar o proceder injusto de seu pai.
—O senhor está a insultar-me!—exclamou Norberto—e demais a mais em minha casa!
—Eu não insulto, senhor, queixo-me de ter sido ultrajado, e reconheço, nesse desabrimento, que é certíssima a perfídia com que fui enganado. Retiro-me, para que v. s.ª não me ofenda terceira vez, dizendo-me que o insulto.
—Pois o melhor é isso—redarguiu Norberto.—O senhor pensava que me levava à valentona? Eu também tenho amigos, e sei o que hei de fazer!...
—Que há de fazer o pai?—disse Carlota com altivez—O pai não pode fazer nada.
—Que dizes tu, Carlota?!—trovejou Norberto.
—Digo que não há forças humanas que me privem de casar com este senhor. O pai governa no seu dinheiro, e nós nada lhe pedimos. O Sr. Mendonça, se quisesse ser menos generoso com meu pai, estaria já casado comigo, porque eu o auctorisei a tirar-me de casa por justiça.
Norberto, como todas as índoles abjetas, caira no miserável da sua atonia, sob a fulminante coragem de Carlota. Francisco Salter aproximou-se dela, tomou-lhe a mão, como se estivessem sós, e murmurou:
—A virtude, que Carlota chamou generosidade, contínua. Vou a Lisboa, porque sou militar, e transgrido a honra e dever não me apresentando.
Mendonça despediu-se de Carlota Ângela, que chorava, e de Norberto de Meirelles, que limpava com o canhão da japona de cotim o suor da brunida testa.
D. Rosália faltara a este conflito, porque, atarefada na cozinha com a liquidação dos legumes vendidos na manhã daquele dia, não dera fé de entrar Mendonça.
Carlota Ângela, apenas sozinha com seu pai, voltou-lhes as costas, e saiu da sala.
Norberto ficara de tal modo aturdido com o desembaraço da filha, que parecia temê-la. Procurou a mulher, e contou-lhe, como ele podia, o sucedido. D. Rosália benzeu-se três vezes, e três vezes levou os braços em arco à altura da cabeça, ação favorita da grossa matrona, quando queria exprimir o supremo espanto.
Animando-se mutuamente, entraram no quarto de Carlota, e gritaram ambos ao mesmo tempo:
—Filha ingrata! nós te amaldiçoamos!
—Para sempre!—disse a solo o Sr. Norberto.
—Para sempre!—repetiu D. Rosália.
—Amaldiçoada!—bradaram em dueto.
—E por que me amaldiçoam?—disse Carlota—que crimes são os meus?
—Ainda perguntas?!—respondeu Norberto, opilando olhos, bochechas, nariz, e tudo o mais suscetível de opilação na sua elástica fisionomia—Pois não tiveste o atrevimento de me dizer ainda agora que eu não podia fazer nada?
—Disse, sim, senhor; disse, porque há só um meio de me proibir o casamento com a pessoa a quem o pai me deu: é matarem-me.
—Isso diz-se a teu pai, rapariga?—-bradou a mãe.
—A verdade diz-se aos pais; mentir-lhes é que é crime. Para que hei de eu dizer que faço a vontade a meu pai, se não sou capaz de cumprir a minha palavra? Logo que Mendonça voltar de Lisboa, se ele me não procurar, procuro-o eu. Se ele me quisesse com a mira no dote, faria todas as diligências por que me dotassem, ou morreria de paixão por me não dotarem; felizmente, o homem que Deus me destina é a mim que me ama, e não ao dinheiro de meus pais; para ser sua mulher basta-me o coração; pois bem, fique o dinheiro a meu pai, e seja o coração para o homem que não exige de mim outros tesouros.
Norberto olhava Rosália, Rosália olhava Norberto, grotescamente pasmados. Estranha era para eles a linguagem, o entusiasmo, a altiveza, as atitudes de Carlota. Queriam contradictá-la com os argumentos triviais de um casamento rico; mas a migalha de bom senso que tinham ambos, bastava a convencê-los da inutilidade de semelhantes razões. Queriam levá-la pelo terror; mas com tanto mimo a tinham deixado emancipar-se desde criança, que não sabiam agora com que gestos, com que palavras, exprimir o agastamento, a admoestação irada, a soberania paternal.
O coração de Rosália era bom, e seria ela a protetora do casamento, se a não tolhessem os prejuízos de classe. A mulher de Norberto cuidava, em boa consciência, que sua filha não podia ser feliz, casando sem o precedente de escrituras de doação, sem a concorrência de doadores bem ricos e bem estúpidos por parte do noivo. Por mais que ela quisesse descobrir no oficial de marinha os encantos que seduziram sua filha, a tapada criatura o que encontrava era motivo para pasmar cada vez mais.
—Um engarilho de bigode como um chibo...—dizia ela a Carlota, depois que Norberto se retirara com medo de ceder à indignação, que o enfurecia—um pechibeque que não tem terra, nem leira, nem ramo de figueira, ó rapariga, que feitiço te fez aquele patavina? Há por aí tanto rapaz bem azado, com negócio estabelecido, e créditos... se querias casar, por que o não tinhas dito, que já se tinha escolhido a flor dos rapazes do Porto? Está aí o filho do Antônio José da Silva, e do Joaquim José Guimarães, que por entre os dentes deram a entender a teu pai que te queriam, e ainda estão solteiros, não tens mais que falar... Ó mulher! isso foi enguirimanço do demônio! Por que não casas tu com um dos outros?
—Perde o tempo, minha mãe—disse Carlota com firmeza.—Esses homens aborreço-os; o mundo tem para mim um só homem; não vejo, nem quero ver outro: é Francisco de Mendonça, porque sou dele, considero-me já sua mulher, e...
—Tu que dizes, Carlota!?—bradou apavorada D. Rosália—És já mulher dele? Pois tu... Credo! tu estás aí a dizer blasfêmias... Ó desgraçada, pois tu...
—Eu quê! o que está aí a mãe a fazer uns espantos que não sei a que vem? Se me julgou culpada de alguma ação indigna de mim, é mais uma injustiça que faz ao homem que amo. Tenha a segurança de que Mendonça não me humilha; pelo contrário, eleva-me, ama-me bastante, e é bastante virtuoso para não querer que a minha consciência me acuse de alguma fraqueza.
Oh! ninguém sabe compreender, como quem ama, uma nobre alma! Tenho eu, e ele também tem a infelicidade de sermos avaliados por pessoas que adoram o dinheiro sobre todas as coisas, e creem que fora do dinheiro não há virtudes nem contentamentos. Ó minha mãe, foi uma desgraça darem-me uma educação diferente da que receberam meus pais. Eu vejo as coisas e as pessoas de um modo diverso. Olho para a riqueza como para um obstaculo à minha ventura, e não posso deixar de aborrecê-la...
Bem vejo que minha mãe se admira desta linguagem, creia que não é falta de respeito, nem confiança nas minhas fracas forças; é ânimo que me dá um amor puro, e digno de mim; é uma força de que eu preciso para convencer meus pais de que privar-me de casar com Mendonça é o mesmo que matar-me!
Minha mãe não quer que eu morra, e há de proteger-me, há de amolecer o duro coração de meu pai, há de lembrar-lhe que o consentimento dado não pode ser negado sem desonra para ele, e grandes torturas para mim. Seja por mim, minha querida mãe, seja boa como tem sido sempre. Tenha dó da sua filha única, da filha que nunca lhe desobedeceu, e, se hoje desobedece, deve ser muito dolorosa a violência que lhe querem fazer...
Carlota Ângela soluçava no seio de D. Rosália, cujos vasos lacrimais se romperam copiosamente.
Eram de bom agouro as lágrimas da enternecida mãe.
As dificuldades, que ela opunha, eram vencidas por novas suplicas de Carlota. D. Rosália acabara por prometer, com o seu silêncio, vencer a resistência do marido.
Norberto saíra entretanto para o Porto, e fora ao paço do bispo prevenir a magistratura eclesiástica contra as diligências de Francisco Salter de Mendonça. Alguém o aconselhou que fizesse entrar sua filha num convento, para obviar ao rapto, visto que, dado o passo da fuga, o mais airoso e honesto era remediar a desonra irreparável sem o casamento.
D. Rosália Sampayo tinha uma irmã freira beneditina, no Porto, senhora muito reformada, muito rezadeira, e havida em conta de predestinada, lá dentro, e de religiosa ilustrada entre as pessoas das suas relações.
Carlota Ângela visitava-a miúdas vezes, e entretinha-se longas horas na grade, e até alguns dias dentro do mosteiro, onde sua tia lhe ensinava muitas devoções mirificamente salutares, com as quais Carlota saía convencida de que, fazendo-as um mês, ganharia indulgencias bastantes para remir das penas do purgatório toda a cristandade.
A madre Rufina, sem desagradar ao seu diretor espiritual, frade carmelita de poucas letras e muitas virtudes, era uma tolerante senhora, a quem Carlota confessara a sua inclinação ao oficial de marinha, resultando-lhe daí ter de rezar, por conselho da tia, mais algumas devoções para que a Virgem lhe inspirasse o melhor destino neste mundo.
Carlota dizia-lhe que o seu apaixonado era pobre. Madre Rufina replicava que pobre era quem não tinha a graça de Deus. Carlota redarguiu que talvez os pais não a dessem a um rapaz sem dote. A beneditina apelava para a vontade do Altíssimo, que fazia tudo pelo melhor. Ora, Carlota Ângela, melhor ou pior avisada, entendia que Deus, na máxima parte dos atos humanos, e nomeadamente nos casamentos, não punha nem dispunha. Isto será menos ortodoxo; mas é necessário impor à responsabilidade do homem, ou do diabo, coisas que por aí há que não parecem de Deus.
Norberto de Meirelles foi do paço do bispo ao convento de S. Bento da Ave Maria, e fez chamar sua cunhada. Contou a desordem em que se achava sua casa, foi eloquente no seu gênero, desafogou a ira abafada em presença da filha, e terminou dizendo que, o mais tardar no dia seguinte, Carlota havia de entrar no convento, onde estaria até se lhe varrer a mania de casar com o tal Pedro-malas-artes.
A madre Rufina respondeu que na casa do Senhor não se recebia ninguém introduzido à força; que sua sobrinha não estava no caso de aceitar com prazer o recolher-se a um convento, quando o seu coração propendia e ligava a outros amores. E concluiu, aconselhando a seu cunhado prudência e caridade com as inclinações de Carlota, que, se não eram convenientes aos olhos do mundo, também não eram pecadoras aos olhos de Deus.
E, em resposta às impertinentes réplicas de Norberto de Meirelles, a digna esposa do Senhor prometeu chamar sua sobrinha, relatar-lhe as mágoas de seu pai, tentar demovê-la do seu propósito, e pedir muito, primeiro, a Maria Santíssima que tocasse o coração de Carlota com a resolução mais conducente ao caminho da virtude neste mundo, que é o da salvação no outro.
Norberto saiu pouco contrito, e notou que sua cunhada gozava uma reputação usurpada. O homem achava aqueles princípios irreconciliaveis com a santidade de que D. Rosália fazia o panegirico, todos os dias. Não obstante, a irritação moderou-se-lhe, na esperança de que, em último refugio, seu cunhado doutor faria em Lisboa, com o dinheiro, o que a violência não conseguisse cá.
A freira pediu ao capelão do mosteiro que lhe acompanhasse sua sobrinha; e teve com ela o seguinte diálogo, quase textual dos apontamentos de Carlota Ângela, que devemos à confidência de uma sua amiga, de quem logo falaremos:
—Teu pai, menina, esteve aqui ontem, e fez-me pena. Pediu-me que te despersuadisse do amor a...
—Pediu-lhe um impossível, minha tia—interrompeu Carlota.
—Nada é impossível a Deus, minha sobrinha.
—Deus escuta-se na consciência, e a consciência não me condena o coração.
—Mas que te diz ela sobre os deveres de uma filha?
—Diz que tenho satisfeito a todos aqueles em que correspondo aos deveres de pai.
—Não sejas tão absoluta nas tuas respostas, Carlota. A desobediência é um crime.
—E o suicídio, minha tia?
—O suicídio é o maior dos crimes, porque é o desprezo do divino remédio nas dores passageiras desta vida.
—Pois creia que obedecer é morrer; se obedeço, se retiro o meu amor... retirar, meu Deus! eu disse uma loucura! eu não posso retirar o meu amor a Francisco; o mais que posso é mentir; mas essa mentira custa-me a morte... é o suicídio, e mais ainda... é um assassínio, porque eu mato o homem que me é tudo nesta vida...
Carlota rompeu num alto soluçar de lágrimas, que fez chorar a religiosa.
—É escusado—disse esta, após um longo intervalo de silêncio, cortado de suspiros—é escusado combater a tua paixão. Eu pedi tanto ao Senhor, em comunidade, com algumas santinhas desta casa, que te mudasse a tenção, que já agora não posso duvidar que o céu abençôa a tua união com esse mancebo. Já não te reprehendo, nem dissuado, minha sobrinha. Faremos com tua mãe o que não podermos fazer com o espírito teimoso de teu pai. Enternece-a com as tuas lágrimas, menina; esperta-lhe a compaixão de que está cheio um coração maternal.
—Já o consegui; minha mãe chorou comigo, e prometeu alcançar de meu pai o consentimento que ele já tinha dado.
—Já tinha dado?! a quem?
—A Francisco Salter, quando me foi pedir.
—E depois? desdisse-se!...
—Quando consentiu, foi para dar tempo a meu tio de nos urdir uma traição. Francisco partiu ontem para Lisboa, chamado a toda a pressa. O plano é talvez demorá-lo lá; mas de que serve a má fé de meu pai, e as astucias de meu tio? Cá está o meu coração para vencer tudo. Cedo ou tarde, Francisco voltará, e depois... e depois, se tanto for necessário, fujo de casa.
—Santo nome de Jesus! não digas tal desatino, que ofendes a Deus. O teu amor, se tal fizesses, deixaria de ser um sentimento honesto, minha sobrinha. Há nódoas que nunca se lavam, e intenções boas que deixam sempre uma face má voltada para os juízos severos do mundo. Já agora, filha, esgota todo o teu cálix de fel para que se não diga que achaste doçura no crime. Eu entrei de vinte e dois anos nesta casa, estou cá há vinte e seis, e ainda me recordo do que era o mundo lá de fora, e o que lá não aprendi ensinaram-me cá pessoas que entraram para aqui sangrando ainda das chagas que receberam lá.
Carlota, eu hoje não te falo a linguagem que me ouviste até aos quatorze anos. Conheço o teu coração, e acompanhei-lhe o desenvolvimento mais de perto que teus pais. Tua mãe não te podia entender, porque tua mãe saiu aos quinze anos da companhia de um tio abade para casar com um homem capaz de lhe abafar a inteligência, se ela a tivesse. Teu pai é um honrado comerciante, tem sabido aumentar os seus haveres com a mira de te deixar muito rica, e não entende nada de coração.
Já vês, minha querida sobrinha, que teus pais ignoram a sua culpa, e não fazem mais do que julgam ser o melhor para a tua felicidade. Não os desgostes enquanto for compatível a obediência com os afetos invencíveis da tua alma. Teu pai quer que te recolhas a este convento. Se vieres, se quiseres vir para a minha companhia, não preciso dizer-te que as tuas ações hão de ser aferidas pelos deveres de uma menina recolhida nesta casa. Daqui diligenciaremos o teu casamento com esse sujeito; mas as nossas diligências hão de cooperar todas sobre o ânimo de teu pai, até obtermos o consentimento, esquecendo-nos de que ele procedeu mal, negando o que uma vez tinha concedido. Agora, pensa, Carlota.
—Tenho pensado.
—Queres, ou não queres entrar no convento?
—Quero sim, minha tia; hoje mesmo, se é possível.
—É, que eu tenho ainda licença para tu poderes entrar; mas é preciso que teu pai o saiba.
Carlota Ângela desceu aceleradamente as escadas que conduziam da grade para a portaria. Ia banhada de lágrimas. Ao abrir-se a porta, com o seu tristonho ranger nos gonzos, Carlota estremeceu, e apoiou a face, como esvaîda, no cunhal do muro.
—Vem, menina,—disse do interior a madre Rufina.
Carlota Ângela pôs o pé no limiar, e exclamou, estendendo os braços para a madre porteira:
—Disse-me agora o coração que era para sempre!... Que é isto que eu sinto, meu Deus!
—Se é Deus que to faz sentir, minha sobrinha, louvemô-lo todas pelo belo preságio que te inspirou.
A porta fechou-se. Carlota, rodeada de freiras, e nos braços de todas, soltou um ai que parecia um grito desentranhado do coração.