Capítulo XIV Carlota Ângela · Capítulo 14 de 20
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Capítulo XIV

Que ansias, que deseos,

Que trabajos, conxogas, e sudores!...

P. Pedro de Salles. (Emblemas.)

Quando o corregedor Joaquim Antônio de Sampayo foi supliciado, o general Botelho mandou examinar os papéis do jacobino com a esperança de encontrar algum que justificasse a violenta morte do magistrado, no caso de lhe serem pedidas contas do estranho feito.

As leis militares não permitiam tal excesso, quando os réus não eram encontrados com armas na mão defendendo os invasores.

No quartel general de Botelho andava um ajudante de ordens que fora condiscípulo e amigo de Francisco Salter de Mendonça no colégio militar. Foi esse o encarregado de examinar os papéis.

Mal tinha revolvido alguns maços de cartas sem importância, e oficios de serviço público, uns assinados pelo governador do reino, outros pela junta governativa, louvando todos a energia e zelo do magistrado, quando reparou num rolo de papéis atados todos com uma guita, sendo a capa exterior um sobrescrito que dizia: Ao ill.mo Sr. Francisco Salter de Mendonça.—Rio de Janeiro.

O examinador, espantado de encontrar o nome do seu amigo entre papéis do defunto jacobino, receiou que algumas inteligências desgraçadas e desonrosas para Francisco Salter pudessem existir com os clubs revolucionários. Antes que alguém entrasse no escritório, o ajudante de ordens do general Botelho escondeu o masso de papéis, e ansioso de curiosidade, não tardou a examiná-los o mais escondidamente que pôde.

Viu uma, outra, e outra até vinte e tantas cartas assinadas por Carlota Ângela. Outras tantas, se mais não eram, assinadas por Francisco Salter. Quem era esta Carlota Ângela? interrogava-se o confuso leitor das lagrimosas cartas. Como viera esta correspondência dar à mão do corregedor de ***? Qual seria o valor oculto de uns papéis que tão estranhos pareciam ao funcionalismo do magistrado?

O ajudante de ordens, logo que o exército invasor desalojou do Porto, foi ao mosteiro de S. Bento da Ave Maria procurar Carlota Ângela para esquadrinhar o mistério da correspondência. Não encontrou alguém que o informasse: no mosteiro tinham apenas ficado uma freira demente, e duas criadas entrévadas, que apenas souberam dizer que a noviça Carlota Ângela fugira com sua tia para um convento da província.

Prosseguia em inúteis averiguações o curioso militar, quando a junta provisoria o nomeou para ir ao Rio de Janeiro dar parte das ocorrências da infausta invasão, e da derrota fabulosa que os franceses iam sofrendo na retirada.

O emissário aceitou da melhor vontade a enviatura, esperançoso de encontrar no Rio de Janeiro o seu amigo da mocidade Francisco Salter de Mendonça.

Apenas desembarcou, o primeiro oficial de marinha que lhe saiu ao encontro foi Salter. Logo ali se aprasaram para uma conferencia de alguma importância, depois de entregues ao governo as participações do reino.

—Que há de comum entre ti, e um tal Joaquim Antônio de Sampayo, que foi enforcado no Minho?

—Enforcado!

—Sim, garroteado por jacobino, traidor ao rei e à pátria e à santa religião, como lá se diz. Conheciá-lo?

—Perfeitamente. Esse homem era tio de uma mulher que me obriga a desertar amanhã, para ir procurá-la no Porto.

—Se o teu fim é saber onde ela está, posso dar-te algumas informações.

—Conheces Carlota Ângela?!—interrompeu alvorotado o capitão de marinha.

—Conheço pelas amarguradas cartas que te escrevia.

—Cartas! Quais?! Eu não recebi cartas algumas de Carlota.

—Se as não recebeste, podes lê-las agora, porque eu sou o portador de duas dúzias delas, que fazem chorar as pedras.

—Como te vieram essas cartas à mão? Dá-m'as.

—Lá vamos; mas primeiro quero que me expliques como estas cartas foram à mão do tal corregedor enforcado.

—Isso é uma história longa e atroz. Dá-me as cartas, que eu tudo te explicarei depois.

—Pois sim: aí vão as cartas da Carlotinha, mas tenho no outro bolso outras tantas escritas à tua dama.

—Por quem?

—Por um nosso condiscípulo do colégio militar, que, segundo se deprehende do ardor da linguagem, deve amá-la como um louco.

—Quem é ele?

—Um terrível paralta, que saiu da pátria deixando por lá nos mosteiros noviças apaixonadas.

—Quem? depressa... diz-me o nome desse homem.

—Francisco Salter de Mendonça é como ele assina as lamuriantes epístolas: ei-las aqui.

Tu me dirás agora se o corregedor era o teu alcaiote para a dolorida noviça.

Salter devorava as palavras da primeira carta de Carlota, sem entender as ideias. De uma passava a outra, examinando nem ele sabia o quê. O sangue subiu-lhe à flor do rosto, inflamando-lhe as pupilas irrequietas. Era uma dessas alegrias que chegam a doer em seu frenesi. Ao rubor sucedeu a palidez súbita, e o suor da vertigem. Não lhe cabia o coração no peito, nem bastava ao afogo dos pulmões o ar que aspirava a profundos haustos. Soltou uma exclamação puxada do íntimo da alma, um ai desafogado, vibrante, e das entranhas como se lhe desentalassem a garganta quando o laço o fazia já estrebuchar em arrancos de morte.

O condiscípulo estava pasmado deste conflito, e tanto se lhe afigurou respeitável o júbilo ou a agonia de Salter, que não ousou interromper a cena muda daquele lance. Salter lançou-se-lhe aos braços, chorando como uma criança, e proferindo afogadas exclamações, que pareciam os gemidos que faz soltar uma dor física incomportável.

—Então isto é muito mais valioso do que eu supunha!—disse o ajudante de ordens—Que feliz eu sou, se vim tirar-te de alguma dúvida tormentosa.

—Trouxeste-me a esperança, a vida, o céu. Estas cartas são dela, da minha esposa.

—Tua esposa? Pois Carlota Ângela não é uma noviça?

—Não; é apenas uma secular no mosteiro de S. Bento.

—Não foi isso o que me disseram no convento.

—Pois o que te disseram?!

—Procurei-a para ver se ela me aclarava o mistério dessas cartas. Disse-me uma criada que todas as religiosas tinham fugido aos franceses, e a noviça Carlota Ângela fugira com sua tia freira.

—A noviça! Isso é impossível!

—Será; mas foi isto o que se me repetiu fora do convento. Casualmente me encontrei numa casa onde se falava no grande roubo feito pelos franceses a um tal Meirelles, rico negociante do Porto, que ficara pobre. Alguém disse que esse Meirelles era o pai de uma noviça criança, que já tinha acabado o tempo do noviciado, e se chamava Carlota Ângela. Quis inquirir mais particularidades que me explicassem as tuas relações com a tal menina, e nada colhi. Propunha-me procurar diretamente informações do negociante, quando fui encarregado da Comissão que trouxe. Aqui tens o que sei, e o que não sei hás de tu sabê-lo explicar melhor do que eu.

—Sei tudo!—exclamou com força e precipitação Mendonça—Sei tudo... Amanhã vou para Portugal. Já pedi licença, e não ma deram. Não importa. Deserto. Julguem-me como quiserem; condemnem-me, arcabuzem-me, mas que eu veja Carlota antes de morrer. Esta mulher é tudo quanto eu tenho na vida. Se eu não morrer por ela, se me não sacrificar na honra, em tudo quanto há mais sagrado na vida, sou um infame sem reabilitação perante Deus e a minha consciência. Se ela está morta, fui eu que a matei, não foi o malvado que me roubou estas cartas, e privou a desgraçada Carlota de ver as minhas. Já compreendes o segredo destas cartas? Esse homem que mataram, solicitou o meu desterro, para obstar ao meu casamento com a sobrinha. Interceptou a nossa correspondência com o fim de matar nela o amor com a certeza da ingratidão. Foi ele quem me enviou aqui um homem com a notícia de que ela se tinha casado. Eu esforço-me há seis meses em vão para conseguir licença de ir a Portugal salvar este anjo, e curar-me da desesperação que me tem levado ao extremo do suicídio muitas vezes. Agora creio que perdi Carlota. Quando chegar ao Porto estará ela já professa. Não importa. Quero vê-la, quero que ela me veja morrer braçado aos ferros que a separam de mim para sempre. Esta minha agonia não tem igual neste mundo, meu amigo. Separam-me duas mil léguas da mulher que eu poderia salvar, se a visse neste momento. Por que a não procuraste tu? por que lhe não mostraste estas cartas, que nos salvariam ambos? Podias ter-nos feito um bem, que eu te agradeceria de joelhos, e ela endoudeceria de júbilo... Paciência... já agora devorarei todas as torturas da dúvida com menos angústia. Ainda tenho uma esperança... Disseste-me que o pai de Carlota estava pobre. Talvez que não possa dar-lhe o dote para a profissão, talvez que uma doença retarde esse terrível acontecimento. Talvez que Deus se compadeça de nós ambos, e lhe inspire a esperança de tornar-me a ver. Nunca tive tanta confiança na misericórdia divina. É impossível que Deus veja com indiferença o terrível resultado da profissão. Eu vou arrancá-la do altar, vou disputá-la a Deus, vou amaldiçoar a religião cruenta que receber uma mulher que me pertence por um juramento mais sagrado que todos os votos do claustro.

Não cansou ainda aqui o fôlego da estirada declamação. Salter falou horas, e o amigo escutou-o com admirável paciência, até que pôde admoestá-lo que não fugisse, nem saísse do Brasil sem licença. Nem ao menos conseguiu com as mais atiladas razões retardar um dia a deserção. Já o amigo se oferecia para pedir ao príncipe regente a licença, trocando por ela a comenda da torre e espada com que sua majestade o agraciara, ao ouvir-lhe as novidades prósperas do reino. Salter rejeitava conselhos e favores. O brigue saía no dia imediato, e não estava ainda marcada a saída de outro navio. Negarem-lhe a licença era já um capricho, senão antes uma desconfiança fomentada pelo bacharel Sampayo. Ao lado do ministro havia alguém que lhe insinuava a suspeita de ser Mendonça um forçado vassalo do príncipe, e um jacobino que Manique soubera desterrar a tempo.

O governo não dera ao capitão de marinha satisfação alguma pelos arbítrios do capitão-general, durante o tempo que estivera preso. O mais que fez foi dar-lhe liberdade, reprehendendo-o por ter feito justiça com suas próprias mãos, sobre um homem que viera ao Rio em Comissão de confiança.

Salter tragou em silêncio o novo vilipêndio, e protestou, não só desertar, mas alistar-se no exército francês, e atirar-se como desesperado aos braços da morte, na primeira batalha que lhe deparasse a sua negra fortuna.

Eram, pois, baldadas todas as reflexões do ajudante de ordens.

A bordo do brigue inglês havia ordem para receber um marinheiro português, e um preto marinheiro também. Ao anoitecer desse dia Francisco Salter de Mendonça, e o escravo que lhe assistiu durante a prisão, vestidos de marinheiros, foram recebidos no brigue. Na manhã do dia imediato, quando o ajudante de ordens, ansioso de alegria, procurava Salter para lhe entregar a licença que o príncipe assignara, contra as sugestões do ministro, o vaso inglês já tinha saído.

O solicitador da licença foi dizer ao príncipe que o capitão da armada não poderá vir beijar a mão de sua majestade antes de sair, porque o brigue já tinha levantado ancora, quando a licença chegou.

Este expediente fez que Francisco Salter não fosse julgado desertor, posto que as averiguações feitas pelo ministro contrariassem o depoimento do generoso amigo, que ficara destruindo a intriga.

O romance deixa de ser impertinente e aborrecido. Vamos entrar nas cenas tristes e sombrias.

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