Capítulo X Carlota Ângela · Capítulo 10 de 20
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Capítulo X

Não ha coração sem amor; ou seja a Deus ou seja ao mundo, ha de amar quem tem coração.

Fr. Antonio das Chagas. (Obras espirituaes.)

Vêde agora se ainda persistis em vossa pretenção, porque, se este modo de viver vos não contentar, tendes liberdade para ficardes no estado em que até agora vivestes.

(Ceremonial da congregação dos monges negros.)

E Carlota Ângela?

Não dorme ainda o suspirado sono da morte sob a lagem humilde do claustro. Vive a vida que faz compaixão, e, nas pessoas que amam, excita o piedoso desejo de a verem alar-se para um mundo melhor.

Creram-a moribunda em frequentes acessos: Rufina, Dorothea, e todas as religiosas de S. Bento lhe deram o beijo da despedida, na face cadavérica, muitas vezes. Se, por instantes, tíbio clarão de vida lhe retingia o rosto, é que a labareda da febre aí vinha emprestar-lhe uma reanimação convulsa, à qual sucedia o esvaîmento, com o suor frio do traspasse.

As orações eram contínuas. A comunidade ia do quarto de Carlota para o coro, e do coro tornava ao quarto em ânsias e esperanças que o fervor da oração lhe dera.

De uma vez, encontraram-a tranquila, risonha e desoprimida. Uma a uma, Carlota chamou-as à beira do leito, apertando-lhes a mão, e murmurando uma palavra ininteligível.

Às que choravam pedia que a não lastimassem, porque ela estava consolada com a esperança de descansar. Às mais idosas, e veneraveis por sua santa vida, suplicava que a protegessem com os seus merecimentos, pedindo ao Senhor que lhe descontasse nas da outra as penas desta vida.

Perguntava pela mãe, mas, se lhe falavam do pai, se lhe diziam que ele vinha todos os dias saber dela, Carlota franzia a testa, e dava sustos de crescimento febril.

Soror Rufina esperava que ela lhe falasse de Francisco Salter; Dorothea, a carinhosa noviça, aventurava algumas palavras alusivas; Carlota, porém, nunca permitiu à primeira, com o seu silêncio, proferir tal nome; e à segunda, debulhando-se em lágrimas, fazia com a mão um sinal de não poder ouvi-la.

Uma tarde, as duas meninas passeavam no pomar: era a primeira vez que a filha de Norberto de Meirelles saía do seu quarto.

—Quando professas tu, menina?—disse Carlota.

—Daqui a três meses.

—Já? Vens a ser freira, mais velha do que eu nove meses; mas ainda temos três meses de companheiras de noviciado.

—Pois queres professar, Carlota?!

—Quero, Dorothea, quero; se me não valesse essa esperança, estava morta. Já agora, o que me resta neste mundo é o bem de me julgar perto de outro: daqui até lá, quero estar vestida com a minha mortalha, pedindo ao Senhor que... dê o céu...

Carlota, entalada por súbitos soluços, não prosseguiu.

—Diz, minha amiga... tu não me dizes tudo—acudiu Dorothea, abraçando-a com estremecido amor—ias falar nele?... por que foges de me dizer que ainda o amas no céu?!

—Fugia de to dizer, Dorothea, porque o teu coração não pode avaliar que amor era este que perdoa a um ingrato, e daria a vida para o restituir ao amor de outra infeliz que o amou e o perdeu como eu o amei e perdi. Mais desgraçada que eu há uma só pessoa: é a mulher que o adorava; e mais desgraçado que ela e que eu, é ele, o infeliz, a quem tão pouco tempo o Senhor deixou gozar a mulher que o mereceu mais digna do que eu fui, e não teria, talvez, um pai que a aviltasse aos olhos dele.

—Como o teu coração é bom, Carlota!

—Bom? quem sabe! desgraçado, sim, ou diz antes, Dorothea, que já não é coração; só sinto a minha alma, só sinto este desejo do céu; recordo quanto amei, quanto sofri, e tudo aceito, e o mais que sofrer, com o contentamento de uma penitente.

—Pois verás que ainda havemos de ter dias de alegria, Carlota! Adopta-me como tua irmã; viveremos tão queridas e juntas, falaremos tanto do que sentirmos triste ou agradável, que chegaremos a gozar a existência...

—Não penses isso, minha amiga... Eu não quero dar-te quinhão das minhas amarguras. O meu curto viver há de ser muito opressivo para as pessoas que me estimarem. Muitas vezes te fugirei, porque o chorar de uma infeliz, como eu, precisa ser desafogado, sozinho, e aos pés de Deus. Alegria? jamais, jamais, Dorothea... Bendito seja o Senhor, que me dá esta casa para acostumar a minha alma a adorá-lo, e me deu aqui exemplos de virtude, sem os quais, fora do convento, tinha-me tirado a vida num daqueles frenesis de que tremo com a lembrança.

Estas palavras foram ditas com serena melancolia; porém decorrido breve intervalo de silêncio, Carlota rompeu em gemidos, lançando-se ao seio de Dorothea.

—Que tens, Carlota? Ainda agora estavas tão sossegada!...

—O que em cinco meses se tem passado!—soluçou ela—Morto! é possível que ele já não viva!... que eu esteja aqui, eu, meu Deus, eu que o adorava até à perdição! e pôde ele abandonar-me, esquecer-se da pobre Carlota! Isto não pode ser, Dorothea!... eu nunca o vi morto nos meus delírios, nunca, nunca o vi senão como na última vez que lhe falei, jurando-me um amor eterno... Será isto uma falsidade? Será meu pai que prefere matar-me!? Diz, Dorothea, não te parece muito possível esta crueldade!

—Pode ser, Carlota!... quem sabe?! Olha, filha, tudo se há de saber com o tempo... Tem esperança, sim?

—Nenhuma!—replicou ela, caindo da instantânea exaltação—não tenho esperança nenhuma! Se ele vivesse escrevia-me. É certo, é horrivelmente certo que não vive, que me desamparou, que foi castigado com a morte por ter assassinado uma amiga que se perderia por ele... Está tudo acabado, tudo, meu Deus, menos este peso de vida com que já não posso...

Carlota Ângela recolheu-se taciturna ao seu quarto, e escreveu a sua mãe uma breve carta, em que lhe pedia o consentimento de seus pais, e as licenças necessárias para entrar no noviciado.

D. Rosália quis procurar Carlota; Norberto de Meirelles, receando que sua mulher deixasse escapar algum ligeiro indicio de viver Francisco Salter, encarregou-se da resposta. Estas suspeitas fundavam-se nas querelas continuadas em que andavam, por causa de Carlota. D. Rosália, algumas vezes, reprovara o zelo de seu irmão, e dureza do marido, mormente depois que a freira lhe vaticinara a morte de Carlota. Norberto, escarnecendo, com lerdo desdém, o prognostico, impunha grosseiramente a D. Rosália o calar-se, até ver em que paravam os tais fanicos da rapariga.

Depois, porém, que a viu convalescer, o arrozeiro chasqueava os vaticínios da cunhada, e aceitava de melhor vontade a proposta da filha, na esperança de a curar da loucura, durante o ano do noviciado, com os recursos que o cunhado doutor prometia espiritar-lhe, consoante o andamento do tempo, bom para tudo.

Antes, porém, de diligenciar o contrato do noviciado para a filha, Norberto de Meirelles mandou-a chamar, e Carlota, admoestada brandamente por soror Rufina, obedeceu.

—Vamos a ver, menina, que mania é essa de seres freira?—disse ele.

—Isto não é mania, meu pai, é aceitar com reconhecimento a consolação única, e a melhor que Deus me dá neste mundo, com esperanças de outro melhor.

—Beatices que te meteu na cabeça tua tia... Deixa-te disso, Carlota; o convento é para quem é. Nunca te vi inclinação para este modo de vida...

—A religião não é modo de vida, meu pai, é regra de vida.

—Não me dês sentenças, menina. Eu bem sei o que digo. Olha que isto aqui é para sempre. Se professares, não tens remédio, ainda que te arrependas; é daqui pra Cristo.

—Pois daqui para Cristo é que eu quero ir, meu pai. Saiba que é inútil contradizer-me. A força que eu sinto em mim para ser freira é invencível. Não me tolha a alegria, se é alegria este santo desejo de vestir o hábito. Os obstáculos podem mortificar-me, mas não mudam o meu propósito. É escusado embaraçar-me. Ofereci-me ao Senhor, quando cuidei de morrer de dor, pedindo-lhe alívios; senti-os, o Senhor apiedou-se de mim; é que a misericórdia divina me aceita do modo que eu mais digna me posso fazer de morrer em paz.

—Isto passa-te, Carlota. Como tens de ser noviça um ano, veremos como se te reviram as ideias.

—Pois sim, meu pai; se eu me não achar com forças de servir a Deus, dir-lh'o-hei, e sairei do convento.

—É o mais certo, e verás como te há de parecer bom isto cá de fora. Tu és bonita, és rica, és prendada, podes casar...

—Meu pai! por quem é não continue...

—Então que tem isso? Já cá te disseram que o casar é crime? Boa vai ela! Ainda há seis meses que estavas em outras ideias...

—Se o pai faz gosto em atormentar-me, diga o que lhe parecer, que eu escuto-o; mas se me tornar a procurar, eu não venho aqui...

—Isso é modo de falar a teu pai, Carlota! Cá dentro ensina-se a dizer isso a quem te criou, e trabalha para ti há trinta anos? Cuidadinho comigo, menina! Eu tanto tenho de bom como de mau. Se tua tia cuida que eu sou um mono de palha, engana-se...

—Que mal lhe fez minha tia?

—Que me fez?! Encheu-te essa cabeça de teias de aranha, lá com as suas arengas do beatério, e deu-te auso a responderes com poderio a teu pai!

—Eu não o ofendi...—atalhou ela, chorando—Pedi-lhe que não fizesse sangrar uma ferida de que estive à morte... Quem for meu amigo, há de querer que eu ache alívio em alguma coisa; se a religião mo dá, deixem-me ser freira, e não me falem em casamentos impossíveis. Ora aqui está o que eu suplico a meu pai; se isto o ofende, perdoe-me; e se é ofendê-lo não vir à grade para ouvir palavras que me amarguram, virei todas as vezes que o pai quiser.

—Está bom; basta de chorar. Vai-se tratar dos arranjos para o teu noviciado. Deus lhe ponha a virtude, e te guie para o que for melhor. Eu ainda espero ter-te comigo, alegre e folgazã como eras antes de conhecer esse homem que...

—Meu pai!

Carlota Ângela erguera-se sobresaltada, e Norberto estacou, sopeando a ira que lhe espertara a veemência, um pouco soberba, da filha. A ira degenerou em um sorriso, cuja versão não acho no meu elucidário de sorrisos sandios.

O arrozeiro, receoso de esbarrondar-se, como ele depois dizia a D. Rosália, saiu da grade, onde a filha permaneceu longo tempo enxugando as lágrimas, para simular sossegado o semblante.

Um mês depois, entrava Carlota Ângela, com a mestra de noviças e a cantora, no coro, onde se reunira a comunidade.

A dona abadessa empunhando o bago, insignia majestosa da prelazia, estava no topo das duas alas de religiosas, solenes e magníficas com suas roçagantes cogúlas. O clarão tremente dos círios banhava o recinto de baço esplendor e sombras magestosas.

A três passos distantes da prelada, que lhe sorria com maternal caricia, Carlota prostrou-se com a face em; terra.

A humildade com que fizera a reverencia, o súbito rompimento das lágrimas, que a noviça não pudera represar, a voz compungida da prelada, proferindo o quid petis, e o soluço tremido de Carlota, respondendo misericordiam... «a misericórdia de Deus e a vossa», a terrível majestade do silêncio, durante as genuflexões da noviça; todos estes atos, impressivos de religiosa melancolia, tocaram o coração das religiosas a ponto de correrem lágrimas por todas as faces, no momento em que a prelada, comovida como todas, disse a Carlota, ainda ajoelhada ante si: Surge, «levanta-te».

A noviça voltou-se com as duas religiosas para o altar-mor, enxugou as lágrimas enquanto fazia as reverencias do ceremonial, ajoelhou de novo aos pés da prelada, que proferiu uma breve prática acerca das gravissimas obrigações que a noviça contrahia com o prometido esposo. Carlota ouviu-a com as mãos erguidas, sem levantar os olhos para o rosto venerando da abadessa, onde a graça, ternura e o sorriso da bondade eram um como suave encarecimento às virtudes que aconselhava, e estimulo para merecer no céu o galardão de as praticar.

Carlota lançou de si o sumptuoso vestido, e os enfeites da cabeça. Longa e farta trança de cabelos negros se desenrolou até à cintura. Uma freira tomou a tesoura, e de dois golpes lhe cerceou a trança, que depôs em uma bandeja. A mestra de noviças cingiu-lhe a touca branca, e a prelada lançou-lhe aos ombros o hábito ou mantilha. Carlota, durante este ato, parecia não sentir, não perceber a profunda e dolorosissima significação que ele deve ter para a mulher expulsa dos prazeres do mundo, onde todas as suas esperanças foram cruelmente desmentidas.

Estavam de joelhos todas as religiosas, ela, entre a mestra e a prelada. As cantoras entoaram o hino: Veni, creator spiritus. Era um canto melancólico acompanhado a órgão; um mistico e lagrimoso ofertório da alma atribulada ao supremo consolador das angústias. Cantada a primeira estrofe, ergueram-se todas, exceto a noviça. Seguiram-se os versículos e orações entoadas no coro e no altar-mor. A mestra de noviciado dissera a Carlota que se levantasse, terminada a cerimônia; a noviça, porém, continuava ajoelhada com as mãos entrelaçadas sobre o peito. Recomendaram-lhe de novo que se erguesse, vendo que ela estremecia, como se já não pudesse sustentar a violência da posição. Carlota não se erguia, até que lhe deram a mão, e encontraram frias de neve as dela. Fizeram vão esforço para levantá-la, algumas freiras que a rodearam. Carlota não respondia, apenas respirava; quis obedecer ao impulso que lhe davam para erguer-se, mas à palidez, ao turvamento da vista, seguiu-se o desmaio.

Soror Rufina, Dorothea, e as outras ergueram o alarido do susto. Na igreja estava a mãe de Carlota, escondida na sua mantilha, chorando, recitando Padre-nossos maquinalmente, e prometendo a Deus confessar-se da sua culpa, se era culpa ter ocultado a sua filha o engano que o tio doutor lhe urdira, arranjado com o pai.

Quando, porém, os ais do coro chegaram aos seus ouvidos, com as exclamações aflitas de Rufina, D. Rosália saiu da teia de um altar, veio às grades do coro de baixo, e rompeu em brados desentoados, chamando a filha. O capelão-mór, vestido de sobrepeliz, estola e pluvial, veio lembrar à lamuriante senhora, que a sua gritaria não era própria da casa de Deus. D. Rosália replicou, menos comedida, que queria cá fora sua filha, viva ou morta. E nesta altercação estiveram ela e os capelães, recreando uns e fazendo chorar outros dos circunstantes, até que soror Rufina e outras freiras vieram à grade do coro aquietar a mãe de Carlota, dizendo-lhe que o incomodo fora um passageiro desmaio.

E assim fora, felizmente.

Carlota voltou a si, quando a mãe gritava. Os brados fizeram-a sair do coro vacilante e alvoroçada. Quiseram encaminhá-la à cela; mas Carlota sabia que era costume ir a noviça, finalisada a cerimônia, visitar as doentes.

Foi; e às mais enfermas pedia que, se o Senhor as chamasse brevemente, rogassem a Deus que a levasse para si.

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