Capítulo VII
Fiel é Deus, que não soffre termos mais peso do que aquelle com que podem os nossos, hombros. Delle se devem esperar os verdadeiros allivios, e nesta fé se acabam os quebrantos.
Fr. Antonio das Chagas. (Cartas.)
Carlota Ângela proferira o juramento, ajoelhada diante de uma cruz; foram, porém, daí levantá-la os braços de D. Rufina, que, acudindo ao soluçar dos gemidos, a encontrara esvaída.
Depois que a lançou à cama, a religiosa leu a carta, e disse a uma noviça que vinha entrando:
—Quando assim se amam duas criaturas, a vontade de Deus está nesse amor: tudo que os homens fizerem contra ele é um sacrilégio, é um atentado contra os desígnios do Altíssimo.
A noviça, depositária dos segredos de Carlota, leu também a carta, e foi sentar-se à cabeceira do leito, encostando ao seio a face desmaiada da sua amiga.
Os sentidos de Carlota restauraram-se espavoridos. Tremia toda, e fitava com espasmo e assombro o rosto lagrimoso de Dorothea.
—Chora, chora, Carlotinha—disse a noviça, dando-lhe o exemplo, e acariciando-a com beijos.
—Se eu pudesse chorar...—balbuciou Carlota, encolhendo-se em tremuras de frio entre os braços de Dorothea.
—E, se ele morresse, não sofrerias mais, menina?!
Carlota fitou-a espantada, e disse com voz rouca pela sufocação:
—Se ele morresse... quem?... pois sabes...
—Sei; li a carta, e tua tia também a leu, e chorou. Eu não acho razão bastante para sucumbires assim.
—Eu não sucumbo... se sucumbisse, estava morta... Ainda vivo; mas, Dorothea, eu creio que morro, e morro brevemente...
—Arrepende-te, alma de pouca fé!—disse a tia, mostrando a sua nobre fronte de cabelos brancos, coberta com o majestoso véu negro, por entre os cortinados do leito—Que falas aí em morrer, criança! Vida, muita vida, e muita confiança em Deus, e esperança em dias melhores, é o que te ensina esta carta, mulher sem ânimo. Vamos lê-la de novo: sou eu que a leio, e veremos se o coração de uma velha sabe melhor que a moça entender o coração de um mancebo.
D. Rufina, sorrindo com fagueira graça, abriu a carta, sentou-se na cama de Carlota, e acompanhou a leitura com suas glosas, não deixando sem elas a menor frase esperançosa.
A respiração profunda de Carlota, o convulsivo soluçar, o gemido indomável que lhe fugia em agudissimos ais, interromperam, muitas vezes, a leitora. Era então que as consoladoras anotações de Rufina, e o assentimento da noviça, redobravam de persuasiva eloquência, capaz de maravilhar as freiras, que supuseram sempre estranha à linguagem das paixões a austera religiosa.
Terminada a leitura, soror Rufina, descontente com o insensível resultado das suas consolações, apelou para o influxo sobrehumano da religião.
—Venham cá ambas,—disse ela—vamos todas três pedir de joelhos ao Senhor, que leve e traga a porto de salvamento o nosso Francisco.
—Sim, sim!—exclamou Carlota Ângela, saltando do leito, e seguindo-a com passos vacilantes.
Ajoelharam, e oraram afervoradamente. Seria difícil estremar entre as três qual era delas a que pedia a Deus o salvamento do amante: tal era a devoção de todas.
—Agora respiremos!—disse, terminada a reza, a freira—Hás de vê-lo, hás de ser sua esposa, minha Carlota.
Nas grandes agonias, qualquer esperança exalta a crença em agouros, em preságios, em superstições até. Carlota, pensando que sua tia recebera a suprema graça da revelação, exclamou com alegria e transporte:
—Que foi, minha tia? Disse-lh'o Deus?
—Deus, filha, não fala a criaturas tão pecadoras e indignas como tua tia; mas consente que se possa contar com os efeitos da sua divina misericórdia. Tudo o que se pede ao Senhor, com humildade e justiça, consegue-se. E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltará, será teu marido, e tereis larga remuneração dos sofrimentos que oferecerdes a Deus em desconto dos contentamentos que sobejam aos felizes deste mundo.
Estas palavras soaram tocantes e solenes como o profetizar da que a comunidade reverenciava assistida de graça superior. Carlota sentia alargar-se a golilha de ferro que lhe entalava na garganta o respiro e a fala. As lágrimas, represadas no coração, rebentaram em torrentes: e o sangue, que se retivera suspenso, circulava de novo, rosando-lhe a lividez cadavérica do rosto.
Estava desoprimida; e fora a esposa de Jesus misericordioso que lhe insuflara alentos. Fora uma freira das que desafiavam o riso dos incrédulos com suas devoções, e austeras impertinencias; fora uma mulher, das que morreram para o mundo ou o mundo matara, das que se acolheram a Deus ou Deus tirara do seu inferno em vida, fora essa a que tirara da cruz, onde expirara o amantíssimo redemptor dos homens, remédio de vida, e esperança para a chaga de um coração de dezessete anos, ferido de desespero e morte.
Assim, pois, na cela da rígida religiosa se desafogavam e consolavam afetos dos que, fora dali, no mundo tolerante e vicioso, são julgados rebelião contra a vontade paternal, escândalo para filhas submissas, e pecadora cegueira do coração humano!
Quam inventiva não é a caridade! quam largas bracejam as vergônteas desse tronco evangélico, regado pelas lágrimas daquela a quem Jesus perdoara por ter amado muito!
A desvelada noviça não deixava sozinha Carlota, um instante. Ela e Rufina revezavam-se ao pé da pensativa menina, que parecia querer fugir-lhes, já não para se carpir, mas para orar; que, na oração sentia Carlota outro espírito em si, o murmúrio de outros lábios suplicantes, a fervorosa crença de Mendonça inflamar-lhe a fé.
A serenidade viera com a confiança no futuro: do sobresalto, da aflição, pouco e pouco sossegada, ficara a melancolia suave da paciência, essa que só Deus concede aos que à sua misericórdia recorreram na adversidade, e em sua vontade se louvaram.
D. Rosália visitava a filha miúdas vezes, o pai raras; e de breve demora, porque o silêncio de Carlota, que ele julgava desafeição, desanimava-o de a ver, e incomodava-o a sós com ela.
Dizia a mãe, nos primeiros tempos, que não havia tirar-lhe o sim para o casamento; mas que ainda era cedo para descorçoar. Dois meses depois, mostrou-se mais dócil a pertinácia, e já ele dizia que, na volta de Mendonça, tudo se faria pelo melhor: é que o ajudante do intendente geral da polícia, por ocasião de lhe pedir mais seis mil cruzados, explicara o saque, dizendo que esta quantia se fazia mister para criar novos embaraços ao regresso de Salter, logo que a Comissão, a que fora, estivesse cumprida.
Decorreram quatro meses. Os navios vindos do Rio, já com a nova da chegada do Amazonas, e cartas dos tripulantes, receberam a bordo uma visita da polícia, e entregaram a correspondência. Entre as cartas havia uma de grande volume, subscriptada a D. Carlota Ângela de Meirelles, residente no mosteiro de S. Bento da Ave Maria, no Porto.
O bacharel Sampayo deslacrou esta carta, leu oito folhas de papel, e lançou-as ao braseiro, aquecendo e esfregando as mãos à lavareda. O malvado queimara ali o traslado das mais tristes imagens, o desafogo da mais dorida saudade que ainda apertou coração de homem! O ímpio não se amiserara de tantos sinais de lágrimas em que a tinta se apagara! Que raptos de alegria, e suspiradas consolações aquela carta, que voejava no ar em faúlas, levaria a Carlota! Que esperanças tão belas o perverso queimou com a chama daquele papel!
Entretanto, Carlota, que contara os dias, e calculara, mil vezes, com Dorothea, o primeiro em que devia receber novas de Mendonça, mandava todos os dias de estafeta uma servente para a porta do correio, esperando a lista, ou interrogando o carteiro. Sempre, em vão! A antiga dor renascia em cada correio; redobrava a aflição a cada esperança frustrada.
Conspiravam em consolá-la Rufina e a noviça, esta com razões mais carinhosas que persuasivas, aquela confirmando o vaticínio da felicidade prometida. Os alívios da primeira eram sempre profícuos e desejados; os da segunda faziam-a proromper em gemidos, que também eram desabafo.
Decorreram três meses de aflitivas esperanças, sempre enganadoras para todas. Nem uma carta, nem duas linhas escritas no leito da morte!
Carlota Ângela tremia de pronunciar uma desconfiança acerba que lhe trazia o coração em agonias. Soror Rufina rogava incessantemente à bondade divina que afastasse da sobrinha o temor que a sobresaltava a ela. Dorothea segredava à freira os seus receios, e esta pedia-lhe muito encarecidamente que não proferisse uma palavra sobre tal desconfiança.
Acontecia, porém, que todas suspeitavam o mesmo; a morte de Francisco Salter.
Carlota receava que as suas amigas julgassem possível ter ele morrido; assentimento tal seria para ela uma espécie de evidência, porque tão pouco basta para certificar suspeitas entranhadas num espírito que a desgraça fez supersticioso. As outras calavam o presentimento funesto, cuidando que a matariam.
Neste conflito, correu no Porto a notícia da morte de Francisco Salter de Mendonça. Ninguém sabia dizer por onde a notícia viera; os amigos, porém, do honesto e talentoso oficial de marinha contavam-se que ele morrera no Rio de Janeiro, quando a glória o vinha buscar por uma carreira esperançosa de grandes destinos.
A notícia chegou ao convento. Souberam-a todas, exceto Carlota Ângela.
Rufina caiu doente, e Dorothea denunciava-se à infeliz menina, evitando-a, quando mais ansiosa de compaixão e carinho se sentia impelida para ela.
As freiras olhavam a pobrezinha com mais piedade que nunca; animavam-a como se quisessem ter parte em seu coração para a salvarem pela amizade, quando houvessem de revelar-lhe a mortal notícia. Carlota estranhava os melancólicos olhares, os beijos e carícias de todas, a condolência terna com que, as mais afastadas da sua convivência, a vinham espairecer ao seu quarto.
Norberto de Meirelles procurara sua filha, nesses dias em que a notícia vogava. Soror Rufina estava de cama; recebera primeiro o recado do pai de Carlota. Esta preparava-se para ir à grade, quando a ansiada tia lhe disse:
—Vou-te aconselhar a desobediência, minha sobrinha, e Deus me perdoe por sua imensa bondade. Não vás à grade. Eu tomo sobre mim a responsabilidade de mais um pecado.
E, voltando-se para a criada, mandou dizer a Norberto que sua filha não podia falar-lhe; mas esperasse alguns minutos, que alguém iria em logar dela.
—E por que é isso, minha tia?!—perguntou a sobrinha admirada.
—Porque sim, minha filha. Receio que ele te venha falar...—continuou balbuciante—em coisas desagradaveis.
E, sentando-se no leito, a febricitante religiosa, ajudada de Carlota, vestiu-se, e foi à grade encostada a Dorothea.
—Então a pequena que tem?—perguntou Norberto.
—Está doente.
—Já lhe chegou a notícia! Que tenha paciência. Deus tudo faz pelo melhor...
—Também digo o mesmo—atalhou Rufina.—E o mano agora que lhe quer? Consolá-la?
—Quero dizer-lhe que é preciso mudar de rumo, e tirar o sentido do homem que morreu.
—Isso há de dizer-se-lhe por outras palavras menos terminantes.
—Isso lá é bom p'rá mana; eu cá digo as coisas como sei.
—Pois sim; mas consinta que eu a disponha para o golpe, e depois tudo se lhe dirá com prudência e caridade.
—Pois ela ainda não sabe que morreu o homem?!
—Não, mano; se a notícia fosse alegre, tinha-se-lhe dito; mas eu não acho necessário dar-se-lhe uma nova que a pode matar.
—Qual matar, nem meio matar!—replicou o brutal arrozeiro, tregeitando com os beiços carnudos um gesto de incredulidade—Pobre de quem morre, diz o ditado. Ainda é de bom tempo, cunhada. Isto de raparigas namoradas, são como as viúvas: choramigam oito dias, e ficam frescas como se não fosse nada com elas.
—Está enganado. Pergunte a minha irmã, que tem coração de esposa e de mãe, se isso assim é. Estou bem convencida que ela fará um diverso juízo do sofrimento de Carlota. Emfim, mano, eu ergui-me da cama para vir aqui, e estou a tremer de frio e febre. Conceda que eu me retire, pedindo-lhe pelo divino amor de Deus que deixe ao meu cuidado revelar a notícia à desgraçada Carlota. O mais dificultoso é curar depois a ferida, se o golpe não for de morte: confio em Maria Santíssima que não será.
—Pois então adeus—tornou Norberto, puxando para as orelhas a gola do capote de quartos.—Arranje cá isso do melhor modo, e diga-lhe que venha cá pra fora, a ver se ela se tenta com algum de três noivos, o qual melhor, que eu trago na mira. Se eu a quisesse casar com um morgado da província, fidalgo, e senhor de casa com capela, já me falaram para isso; mas, a falar a verdade, o que eu quero é homem de negócio, ou filho de negociante com dote à vista; não faço bem, cunhada?
—O mano lá sabe o que lhe convém; mas nunca faça cálculos sem contar com a vontade de Carlota. Parece-me que lhe posso asseverar que ela não sairá mais deste convento. Perdeu um esposo; mas o esposo verdadeiro, o esposo das almas angustiadas está cá dentro; é Jesus Cristo, o único bem que há de entrar no coração espedaçado de Carlota, e curá-lo com a esperança de encontrar na bem-aventurança o primeiro que perdeu.
—Pois Carlota há de ser freira?!—interrompeu com impetuosa grita Norberto, derrubando a gola do capote, que era de mais na cara afogueada pela ingrata nova.
—O mano faz um espanto—redarguiu mansamente Rufina—como se eu lhe dissesse que sua filha havia de praticar um crime!...
—É que eu não quero!...—redarguiu ele, batendo um troante murro na banqueta.
—O mano não quer; mas a sua vontade agora vai encontrar outra vontade sem comparação mais poderosa: é a vontade omnipotente do Senhor, que move os mundos e os corações. Não me disse, há pouco, que Deus tudo fazia pelo melhor? Pois bem, pode ser que a divina vontade quisesse para as suas eternas nupcias a que havia de ser esposa de outro, que Deus chamou a si.
—Veremos como isso há de ser. Em todo o caso eu quero minha filha cá para fora. Não a creei para freira, tenho muito que lhe deixar.
—Tudo o que o mano tem pode varrê-lo um ligeiro sôpro da desgraça. Modere a sua soberba, que não o castigue Deus, que abate os soberbos, e exalta os humildes. E, demais, a casa do Senhor não se abre só para as meninas pobres. Eu deixei um grande patrimônio quando aqui entrei, e vim achar uma riqueza incomparavelmente maior do que a que deixei: foi o esquecimento do mundo, e o amor sempre crescente de outro melhor. Ora, bem pode ser que sua filha se deixe namorar dos anjos, e rompa com os amores tranzitorios desta vida. Em suma, o que eu lhe digo, meu cunhado, é que minha sobrinha só pode ser salva pela religião; e eu, se Deus me achar digna, hei de estender-lhe a mão ao abismo onde a lançaram, e encaminhá-la por onde eu vir que ela é menos infeliz. Não posso mais, estou fatigada e angustiada, adeus.
Norberto de Meirelles enfiou de novo a cara oleosa na pelúcia da gola, sobraçou a enorme bengala encastoada de prata, e saiu do átrio do mosteiro com as ventas fumegantes.