Capítulo XV Carlota Ângela · Capítulo 15 de 20
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Capítulo XV

Crescei, mágoas, crescei, e crescei, dores;

Quebrai o vagaroso e triste fio

Que alonga a cruel Parca...

Ferreira. (Eleg. 5.ª)

As freiras dispersas recolheram ao seu convento da Ave Maria, um mês depois da entrada do exército anglo-luso no Porto.

Carlota Ângela acompanhara sua tia, com quanto júbilo podia caber-lhe no âmbito da alma. Considerando a grandeza das penas que a flagelavam, só à religião deve conceder-se o mistico poder de alívios, e alegrias para a pobre, que tão infeliz era, e mais infeliz seria, se não tivesse a tábua da religião em naufrágio tão proceloso.

Apenas entrou no convento, quis ver seus pais, dizendo que talvez eles, na desgraça, precisassem de que lhes falasse a linguagem da paciência, e da esperança nas riquezas do céu. D. Rosália, foi chorar ao pé da filha, e retirou-se consolada. Norberto de Meirelles contou-lhe três vezes a horrível história do roubo, e chorou outras tantas lágrimas como punhos. Acudia Carlota com as unções piedosas da paciência, prometendo-lhe alcançar de Deus com orações e penitencias a prosperidade do negócio que seu pai recomeçara. O arrozeiro dava como impossível a restauração dos haveres perdidos, e afiançava que não viveria muito tempo, porque a paixão do seu pecúlio, adquirido com tanta honra e trabalho, o levaria à cova. No tocante ao auxílio que os santos podiam dar-lhe para repôr o seu comércio no antigo pé, Norberto era um iconoclasta requintado; não fiava nada dos santos, nem das jaculatórias, antifonas, e responsos de sua filha.

Teimoso e cabeçudo como um filosofo, argumentava contra a religião, alegando em favor da sua heratica parvidade que se houvesse céu e inferno não estava ele arrozeiro sem o seu pecúlio, porque tinha sido sempre bom cristão, e fora roubado por hereges.

Este argumento não é de certo o mais stolido que se tem envidado contra a religião cristã, por parte da filosofia; donde se conclui que detrás de qualquer balcão se pode erguer um Ario, um Lutero, um Calvino, um Voltaire de tamancos, e arrojar ao seio da sociedade uma bomba recheada de argumentos incendiários como aquele.

Assim como nós não sabemos que responder de repente ao ateísmo de Norberto de Meirelles, Carlota Ângela não se nos avantajava em prontidão de dialéctica teológica, do que resultou sair o pai duas ou três vezes, da grade incredulo como entrara.

Uma vez lhe disse ele que perdesse a esperança de ser freira, porque não tinha dote, nem pedia emprestados cinco mil cruzados para empatar num modo de vida que não rendia sequer o juro da lei.

Carlota sabia de mais as circunstâncias de seu pai, quando esta esperada revelação lhe foi feita. Serena e carinhosa, como sempre o fora, desde que a desgraça entrara em sua casa, respondeu-lhe que não tivesse ele cuidado com a sua profissão, porque a prelada a recebia pela prenda da música, em que ela estudava continuamente, e a tia Rufina lhe fazia as pequenas despesas necessárias para a profissão.

Estavam as coisas neste pé, quando Antônio José da Silva, mercador de panos que foi na rua das Flores, pessoa a todos os respeitos digna de larga crônica (como de feito a teve na Filha do arcediago) e um dos maiores credores de Norberto, se apresentou pedindo em casamento Carlota Ângela, estipulando as seguintes clausulas:

1.ª Pagaria todas as dívidas do sogro, e adiantaria dez contos de réis para casco de novo negócio, a juro de quatro e meio por cento.

2.ª Compraria a quinta do Candal, já traspassada para pagamento de dívidas, e daria o usofructo dela a seus sogros, reservando para si a hortaliça necessária ao consumo da casa, dois gigos de maçã camoeza, dez alqueires de feijão branco, e os pastios necessários para quatro cevados.

Item. Daria aos pais de Carlota paga e quitação das quantias que lhe estivessem devendo no ato de se lavrarem as escrituras de casamento.

Item. Sua mulher iria viver na rua das Flores, e não tornaria a ir aos balancés por onde costumava andar em solteira, nem trajaria vestidos como as fidalgas, nem andaria de corpo bem feito sem mantilha, quando fosse à missa, ou desse, aos domingos de tarde, um passeio até Campanhã, ou Valbom.

Estes artigos depôl-os sobre a mesa Antônio José da Silva, em seguida à proposta de casamento, a que Norberto, embrutecido pela fortuna de semelhante proposta, respondeu logo que o negócio se havia de arranjar.

E sem perda de tempo, entrou o arrozeiro no pátio de S. Bento com uma cara tão festiva e gozosa, que deu nos olhos à madre porteira.

Mandou chamar a filha, e rompeu assim o diálogo, com assomos de boçal jucundidade:

—Estamos outra vez ricos, rapariga!

—Ricos?!

—Sim, ricos! alegra-te, Carlota.

—Pois que foi, meu pai? Apareceu-lhe o seu dinheiro?

—Quem dera isso! É cá outra coisa, menina! Estamos ricos, porque tu vais ser muito rica.

—Eu!? De que maneira?

—O Antônio da rua das Flores pediu-te em casamento.

Carlota engasgou-se, quando soltava uma palavra ou exclamação imperceptível.

—Não conheces o Antônio José da Silva? Aquele rapaz que está podre de rico? aquele que herdou a casa do patrão, aqui há três anos? Ora essa! não conheces?!

—Não conheço, nem quero conhecer, meu pai.

—Tu que dizes, Carlota!? Pois tu não queres casar com ele?!

—Não, senhor.

—Ó pobretaina de uma figa! pois tu vês que não tens nada, que teus pais estão pobres como Job, e não queres valer aos autores de teus dias?

—Não, meu pai, eu dou a minha vida aos autores dela, se a quiserem; mas o coração, que já dei a Deus, não pode ser de mais alguém. O pai não é tão inocente como parece. Devia supôr que a minha resposta era esta. Quando entrei nesta casa, disse-lhe francamente as minhas tenções. Como elas não estavam dependentes dos tesouros de meu pai, a perda desses tesouros não as alterou na miníma coisa. Sou a mesma que era, e brevemente serei o que já não posso deixar de ser: uma freira pobre sem precisão de ser rica, com muito mais do que me é necessário para ir amparando a minha curta vida no serviço de Deus, e na penitência dos meus pecados, e dos pecados alheios.

—Não quero sermões, com mil diabos! vociferou o arrozeiro, batendo um retumbante punhado sobre a banqueta—Não venho ouvir prédicas! És minha filha, e hás de fazer o que eu quiser. Não te dou o consentimento para seres freira!

—Paciência: sê-lo-ei na intenção; mas não sairei do convento.

—Hás de sair por justiça.

—Morta, pode ser.

—Viva, e muito viva, eu to juro por esta luz que nos alumia!

—Não jure, pai, que se engana. Ninguém será capaz de me arrancar com vida para fora desta casa. Quando eu não tiver forças com que me agarrar a estes ferros, nada se me dá que me levem para fora, porque a minha alma já terá subido daqui à presença de Deus.

—Conta-me lônas, que eu te ensinarei. Filha maldita, que viste teu pai pobre e desgraçado, e não lhe valeste! Filha cruel, eu te amaldiçôo em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.

—Meu Deus!—exclamou Carlota—Ó meu pai, não profira semelhantes palavras! Não augmente a triste vida que eu tenho. Eu lhe prometo de trabalhar toda a minha vida para que em sua casa nunca haja a menor privação. Pedirei esmolas às senhoras religiosas ricas, para lhe mandar, meu pai. Não me amaldiçôe, que eu não lhe mereço esse castigo, nem é possível que Deus consinta que a sua maldição seja valiosa. Pelas chagas de Cristo, arrependa-se dessas amargas palavras que disse...

A pobre menina, banhada em lágrimas, suplicava ainda de joelhos, quando Norberto de Meirelles saiu da grade esbaforido, resfolegando vapores do interior vulcânico do peito.

Ao passar por Antônio José da Silva, que o esperava à porta da loja, na rua das Flores, disse-lhe:

—Nada feito.

—Venha cá, Sr. Norberto, conte lá isso. Com que então não é o mel pra boca do asno; aqui calha melhor dizer da asna, digo bem, Sr. Norberto?

—V. m. é pouco cortez, Sr. Antônio. Se vamos a pôr as coisas no direito, ninguém pode ser asno sem sua licença. Lá por que a minha filha me desobedece não dou ousio a v. m. de lhe chamar nomes, que é o mesmo que chamarm'os a mim. Se é rico, Sr. Antônio, eu também já o fui, e não tratava ninguém de asno, porque aprendi a cortesia com as pessoas de bem com quem sempre tratei.

—Não se enfade, homem,—replicou o irmão da Sr.ª Angelica (honrosamente mencionada na Filha do arcediago) pondo-lhe as mãos vermelhas, como dois mólhos de rábanos, sobre os ombros—não vá a Vallongo por tão pouco, Sr. Norberto. Isto que eu lhe disse foi assim um modo de falar, sem aquela de injuriar a sua filha, nem a v. m., que tem os fígados, como lá diz o ditado, muito ao pé da boca. Entre cá, sente-se, desabafe, e veja se quer tomar um copo do da instituição da Companhia, e uma cavaca de Arouca pare lhe dar ânimo.

—Obrigado; não quero nada; passe v. m. muito bem, e rasgue quando quiser o tal papelucho das condições que me deu... Aqui o tem. Enquanto ao que lhe devo, se v. m. não quiser esperar que eu lhe possa pagar, mande tomar conta do que eu tiver, e fica daqui já arrumada esta pendencia.

—Espere, homem, que ainda não chegaram as coisas a esse ponto. Eu quero falar com a sua filha, e mau é se ela me não dá o sim. Uma coisa é ir, outra mandar.

—Não faz nada, Sr. Antônio, digo-lho eu. A rapariga não fala como nós, e tem lá na cabeça um Palavreado da breca, que não sei onde ela o foi aprender. Dizia-me o meu cunhado doutor (Deus lhe fale na alma), que a cabeça de Carlota era um vulcão. V. m. sabe o que é um vulcão?

—Vulcão, pelos modos, é... é o mesmo que balcão...

—Bem no digo eu! Vulcão é uma coisa de lume que sai debaixo da terra.

—Ah!—interrompeu o Sr. Antônio, abrindo a boca como em testemunho da sua admiração—Já entendo... Quer dizer que ela tem grandes fumaças de ser bonita!... Olha o milagre! bonita é, mas há-as por aí tão bonitas como ela, que tomaram que eu as quisesse. Emfim, eu sempre lá quero ir, dê no que der. Assim como assim, nada se perde. O que for soará. Apareça por aqui amanhã, Sr. Norberto.

Afoutado por tão estúpida esperança, Antônio José da Silva teve a audácia de procurar Carlota Ângela. Vai ler-se o texto desta visita, porque foi ela uma das maiores afrontas que a desgraça fez à pobre menina. Todas as outras, confrontadas com esta, eram favores da fortuna.

O Sr. Antônio ignorava a prática dos conventos, ao tocante a locutórios. Quando o introduziram, pela primeira vez de sua vida, em uma grade, o alapuzado moço achou-se afrontado com a vista dos ferros. Carlota apareceu com sua tia, meia hora depois que a esperavam. Esse espaço de tempo fora necessário à freira para convencer a sobrinha de que não era civil nem bonito deixar de receber a visita, qualquer que fosse a intenção da pessoa que a visitava.

—Bons dias, minhas senhoras—disse Antônio, avançando e recuando, três vezes, uma assaralhopada cortesia.—Não me conhecem?

—Já soubemos que era o Sr. Antônio José da Silva que procurava minha sobrinha—disse soror Rufina.

—Já sabem ao que vim, pelos modos.

—Ignoramos.

—Venho a troco do que se passou com o Sr. Norberto.

—Parece impossível!—acudiu Carlota—Eu creio que disse claramente a meu pai o que é escusado repetir ao Sr. Silva.

—A menina há de fazer favor de me ouvir um bocadinho, se não tem muito que fazer.

—Pois não! queira falar—disse Rufina.

—Eu simpatizo com a Sr.ª D. Carlotinha desde que a vi nas endoenças da Misericórdia faz agora cinco anos. Já então me deu na venêta de a pedir ao Sr. seu pai; mas rosnava-se por aí que a menina não gostava de rapazes do negócio, e tinha lá suas tendencias para a farda. Meti a fala no bucho, e esperei até ver no que paravam as coisas. Depois aconteceu em sua casa a desgraça daquele grande roubo, o Sr. Norberto ficou mal arranjado de fortuna, e eu, como o outro que diz, fiquei sendo o mesmo homem a respeito da menina. Fui pedi-la a seu pai em casamento, e ele ficou a pular de contente, porque, a falar-lhe a verdade, não é por me gabar, mas seu pai não endireita mais a cabeça se eu não casar com a menina. Em primeiro logar, rasgo as letras que se vencem contra o Sr. Norberto no mês que vem, depois empresto-lhe quase sem juro o capital necessário para ele montar o negócio no pé em que estava antes da quebra; depois, arremato a quinta do Candal em nome da Sr.ª D. Carlotinha, porque já ouvi dizer que a menina gosta muito da aldeia, e eu também não desgosto, porque lá cômo muito melhor, e as águas são mais leves. Pois é verdade: eu venho para este fim. Agora veja lá a menina o que decide. Se quer ser minha esposa, trato de arranjar os papéis, botam-se os banhos, e vamos a isto. Então que diz?

—Já respondi a meu pai—disse, com mal disfarçada cólera, Carlota Ângela.—Não me queixo do Sr. por aqui vir com semelhante fim; creio que meu pai, por delicadeza, lhe não diria sem rebuço a minha resposta. Eu não caso com o Sr. Silva, nem com alguém. Resolvi ser religiosa. O meu tempo de noviciado acabou. Estou esperando a licença regia para professar.

—Deixe-se de asneiras—atalhou Antônio José, soltando um boçal frouxo de riso que indignou Rufina e enojou Carlota—Pois a menina quer-se vir aqui meter nesta espelunca, podendo ser rica e viver regaladamente como pouca gente! Tenha juízo, creaturinha! Isto de convento é bom para quem não tem, como o outro que diz, um marido que lhe dê tudo o que for necessário para o aumento da sua pessoa, e que a traga nas pontinhas.

Carlota erguera-se para sair. Rufina seguira o exemplo da sobrinha. Antônio José da Silva permanecera refestelado na cadeira, até que se ergueu, forçado pela silenciosa mesura das duas senhoras, exclamando:

—Então que diz?!

—Minha sobrinha já respondeu ao Sr. Antônio—disse a freira afavelmente.

—Com que então, nada feito?—redarguiu o lêrdo aspirante ao matrimônio, que, dez anos depois, lhe empeçonhou a existência, segundo reza a crônica já citada, da qual entendemos que a leitora deve prover-se, se a zanga que lhe faz o bronco mercador de panos requer uma vingança superior ao delito—Pois sabe que mais, Sr.ª D. Carlota?—prosseguiu, erguendo-se, com modos coléricos, e brutalmente canhotos—Eu entendo o que isso é, e bem sei por que a menina anda a fingir que quer ser freira pra dar tempo a que ele volte lá do Brasil.

—Ele! quem?!—exclamou Carlota com assomos de indignação, que o só olhar da tia sofreou.

—Faça-se de novas! pois não sabe quem?! o da marinha, aquele que lhe caiu lá no gôto, porque trazia a cintura arrochada no fardalhão, que sabe Deus a quem ele o ficou devendo, quando foi para Lisboa...

Carlota Ângela saiu precipitadamente da grade; soror Rufina ficou para explicar ao sandeu a descortesia da sobrinha; aconteceu, porém, que ele não se julgou afrontado pelo ímpeto da saída.

—Sr. Antônio—disse a freira—v. m. está aí falando numa pessoa que morreu. Minha sobrinha não espera alguém.

—Eu não sabia que ele morreu! Isso agora é outro caso... Acho que fiz uma asneira em lembrá-lo à pobre moça! Faça favor de lhe dizer que me desculpe. Ora olhem quem havia de dizer que o tal rapaz dera à casca lá no Brasil! Pois eu cuidava que ela estava, como diz lá o outro, encantada por ele, como a doninha com o sapo. Ainda bem que ela lhe não caiu nas mãos, porque pelos modos o homem era jacobino, e melhor foi assim, não lhe parece, senhora Madre?

A freira não pôde deixar de sorrir ao título de Madre que pela primeira vez lhe fora dado.

—An?—tornou ele—está-se a rir?! então que quer dizer lá essa risadita?! Isto parece-me casa de doudos, por mais que me digam.

—Não deve aqui voltar, Sr. Antônio,—replicou a freira com muita brandura e graça—porque seria pena que o seu juízo perigasse nesta casa de doudos.

—E olhe que a falar a verdade já me lembrou isso, e essa coisa que a senhora Madre acaba de propôr não me cai em cesto roto. Isso leva água no bico. A senhora Madre lá lhe parece que a sua sobrinha é capaz de me fazer dar volta ó miôlo? Não tenha pena do rapaz, que eu também a não tenho! (O Sr. Antônio José da Silva tinha por esse tempo os seus quarenta anos.) Quem chegou à idade adultera (emende adulta) sem dar com as ventas no sedeiro, também já não cai na arriola de se apaixonar por quem lhe não sabe agradecer os afetos do seu peito; é como lhe digo, senhora Madre, e pode dizê-lo tal e qual à sua sobrinha, que não vá ela cuidar que eu perco a vontade de comer. De tolas como ela está cheio o Porto. Tomara eu boa vontade de casar, que mulheres andam-se-me a meter pelos olhos com um palmo de cara sofrível, e bons dotes... cuida que não, senhora freira!?

—Cuido que sim, Sr. Antônio,—disse com a mais cômica paciência soror Rufina—cuido que v. m. merece uma menina de merecimentos muito superiores aos da minha pobre sobrinha. Se ela o não sabe avaliar ao justo, é porque está inclinada para a religião, onde nem todas as pessoas são doudas, Sr. Antônio. Vá v. m. na graça de Deus, escolha entre tantas meninas que se lhe oferecem a melhor, e seja muito feliz. As minhas obrigações não consentem que eu me demore.

—Sempre lhe quero dizer mais uma palavra, se está para isso, Sr.ª Madre.

—Com tanto que seja breve...

—Olhe lá... A senhora quer fazer um contrato comigo?

—Um contrato! Nós as religiosas não podemos fazer contratos, nem suponho que gênero de contrato possamos fazer.

—Eu lhe digo. Se a senhora fizer com que sua sobrinha queira casar comigo, eu obrigo-me a dar à senhora cem mil réis cada ano enquanto a Sr.ª Madre for viva...

—Enquanto eu for viva?—atalhou a freira, sustendo com dificuldade o ímpeto do riso.

—Sim, senhora—tem cem mil réis em metal, pagos no princípio do ano, enquanto a senhora for viva.

—Não aceito.

—Então quanto quer? diga lá, que me pilha em boa maré!

—Se me dá os cem mil réis por mais alguns anos...

—Que é? não entendo isso.

—V. m. diz que me dá cem mil réis anuais; mas tira a condição de mos não dar logo que eu morra, não é assim?

—Pudera não! Dou-lh'os enquanto a Sr.ª Madre for viva.

—Pois eu quero que mós continue a pagar por mais alguns anos.

—A senhora por mais que me digam está a mangar comigo! Então é douda ou não é?! E o caso é que já pegou à moça a toleima...

Soror Rufina arquejava em gargalhadas indômitas, quando o lorpa lhe dirigia os últimos insultos.

Não podendo mais sustentar-se na grade, a freira deixou o mercador a resmungar, e lançou-se a rir nos braços de Carlota, que a esperava chorando.

Acabou-se o ignóbil episódio de Antônio José da Silva.

Aos que não conhecem esta raça inextinguivel no Porto, aos que reputam desnaturada a linguagem que o romancista sacou da língua deste Antônio, emprasamos para que estudem, e observem, hoje, neste ano de 1858, já passado quase meio século, os Antônios existentes, se é possível encontrar-se um Antônio assim que não seja um lustre da nobreza coeva do gaz e do telegrafo eléctrico.

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