Capítulo VI Carlota Ângela · Capítulo 6 de 20
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Capítulo VI

Qui amans egens ingressus est princeps in amoris vias,

Superavit œrumnis is suis œrumnas Herculis.

Plauto. (Persa.)

O demonio da ambição...

A. Herculano. (Monge de Cister.)

Francisco Salter de Mendonça, logo que chegou a Lisboa, procurou o ministro da marinha, e encontrou-o, contra as suas presumpções, bem encarado e afável.

D. Rodrigo de Sousa Coutinho era um astuto político, sabia conhecer os parvos pavores do intendente geral da polícia, e amava bastante a pasta para contrariar as sugestões do príncipe regente, que tremia dos pedreiros-livres, quando não tremia das conspirações da filha de Carlos IV.

Ainda assim, o ministro, protetor afeiçoado de Salter de Mendonça, e particular amigo do frade progenitor, que valia muito com Mellos e Ficalhos, houve-se astutamente na recepção do oficial de marinha, mostrando-lhe a ordem do dia, em que era promovido a capitão-tenente, e dando-lhe os emboras da escolha acertada que o príncipe regente fizera dos seus talentos e energia, para, com mais dois oficiais, o enviar ao Brasil a correr com o apresto de uma esquadra, que as prevenções da guerra demandavam.

Este gracioso acolhimento desfez, ao primeiro intuito, as suspeitas de Mendonça. A intriga era incompatível com a mercê do posto, e a honraria do encargo. A reflexão, porém, sobreveio ao juízo da primeira impressão, e Salter, recordando o que se passara no Candal, creu de novo que o bacharel promovera o seu desterro, simulada com a mascara do favor.

A nova de ter sido adjunto ao intendente Manique o tio de Carlota Ângela revalidou a desconfiança.

Mendonça apresentou-se ao ministro, e pediu licença para tornar ao Porto, onde o chamavam compromissos, do coração em que a sua palavra de honra se achava empenhada. D. Rodrigo objetou com a necessidade urgente da partida no prazo fixo de quatro dias; discorreu profusamente acerca da primazia dos deveres de português em confronto com os particulares do coração; e encareceu o azedume com que sua alteza, o príncipe regente» veria posporem-se negócios do estado às alianças amorosas de um súbdito que lhe merecera tão relevante prova de real confiança.

Instava, por outra parte, o frade beneditino, e a parentela ilustre do frade, vaticinando ao capitão-tenente um almirantado em poucos anos de serviço.

Para estes profetas de glórias ensurdecera Mendonça.

O coração acusava-o de ingrato e vil, se a cabeça se deixava instantaneamente desvairar com as vanglorias da fama. A imagem chorosa de Carlota Ângela aparecia-lhe como um estimulo de honra, se o fraco espírito humano inclinava ouvidos aos embaimentos da consideração, do renome, e dos altos destinos a que o conduzia uma boa estrela.

Mendonça, quando as felicitações de amigos e invejosos pareciam já galardoá-lo das bizarrias previstas, meditava rejeitar não só o novo posto e a Comissão mais valiosa que ele, mas também a patente que já tinha. O tempo urgia, e os aprestos para a saída aceleravam-se com extraordinária diligência. O capitão da real brigada deliberou pedir a sua baixa, ou, caso lha negassem, dar parte de doente. Neste propósito estava, quando recebeu uma carta de Carlota Ângela, datada no convento de S. Bento da Ave Maria.

Carlota contava-lhe miudamente os sucessos que a levaram ao convento; o patrocínio que encontrara em sua tia, as esperanças que esta lhe dava de docilisar a pertinácia do pai; o contentamento que ela sentia em esperar no remanso daquele santo asilo o esposo querido; a liberdade que estava gozando ali de pensar no seu anjo, ali, onde ninguém tentava desvanecer-lh'o do coração; em resumo, Carlota dizia-lhe que estava prevenida contra todas as borrascas, assegurando-o de que só sairia do mosteiro para ser esposa do predileto da sua alma. Não ajuntaremos ao conciso extracto da longa carta as meiguices de amorosa unção, os enternecidos delíquios da saudade, os azedumes e dulcidão desse agrodoce espinho, que rasga o seio ao mesmo tempo que o bálsamo da esperança alivia a dor, cicatrizando a chaga. Essa carta era o que devia ser uma carta de Carlota Ângela: a alma inteira, no que a alma numa virgem tem de comunicativo ao coração estranho, se estranho pode dizer-se o coração amigo que se sente e escuta dentro do nosso.

Francisco Salter era formado deste barro humano, contra o qual se tem vociferado e estampado muita sátira.

A mais suave maledicência, querendo poupar a natureza humana às querelas e libelos da filosofia rixosa, diz que o homem é um mistério.

A teologia cristã, para desencarregar o supremo artífice do desaire da sua obra, diz que o homem é um ente degenerado da sua primitiva puridade.

Em boa paz com teólogos e filósofos, a mim se me afigura que o homem é um composto de grandeza e pequenez, uma dualidade de gigante e pigmeu.

Mendonça tinha uma única mácula na sua excelente natureza: era a imperfeição, era a falha do grande brilhante, que o leitor, de ânimo frio e vista clara, vai ver comigo.

A carta de Carlota Ângela tranquilizou-o; não disse tudo—alegrou-o, deu-lhe um ar radioso de confiança e certeza na dedicação, que momentos antes lhe incutia o receio da mudança.

O homem é assim.

Parece que o amor sem a desconfiança, a esperança sem a dúvida, lhe dá um sossego de espírito que não quadra à sua natureza irrequieta. O pungir de constante espinho é-lhe um necessário estimulo de vida. Se ele sai do coração, é forçoso que fira o órgão de outras paixões. Se o amor prevalece à ambição de glória ou de riquezas, satisfaça-se o amor, e a outra paixão resultará com toda a impetuosidade do arco retezado... Não se tirem já contra Francisco Salter conclusões que o vago daquelas premissas não auctorisa.

A carta não baixou a temperatura, mas mitigou o rescaldo do amor, a ânsia da incerteza, afrontamento das conjeturas que ele formava acerca do destino que o irritado Norberto daria a Carlota, depois da arrojada ameaça do Candal.

Se a levariam fora do reino:

Se a casariam violentamente com outro:

Se a encerrariam num convento, incomunicável:

Se a despersuadiriam com razões das que vencem o vulgar das mulheres, quando o amante as não anima com a sua presença:

Se Carlota seria uma mulher vulgar, suscetível de sucumbir às contrariedades.

Tudo isto eram hipóteses atormentadoras; mas a carta respondia a todas. Carlota estava a salvo da perseguição; sozinha com o seu amor, que ninguém lhe impugnava; nutrindo-o com saudades na solidão do claustro. Este convencimento aplacou a vertigem de Mendonça.

A ideia de pedir a baixa pareceu-lhe desnecessária. O espaçar-se o casamento para mais tarde afigurou-se-lhe racional e necessário aos seus deveres de militar, e ao cumprimento dos encargos com que o príncipe regente o honorificava.

E, depois, dizia nele o ente pensante:

«Não será bem decoroso para mim voltar do Brasil com uma posição tão acrescida em honras, que ninguém possa notar desigualdade entre mim e a filha do opulento comerciante?

«Como homem brioso, não deverei eu querer que a própria Carlota me considere um homem disputado por herdeiras iguais, ou ainda superiores a ela?

«Os pais de Carlota, quando eu voltar habilitado para entrar no valimento dos mais poderosos, e igualar-me a eles, não terão pejo, vendo-me entrar em sua casa a castigá-los com pedir-lhes, segunda vez, a filha, sem dote?»

Assim falava o orgulho do espírito; o coração, porém, patrocinando o anjo puro, a quem semelhantes conjeturas injuriavam, tinha arrebatamentos de tão sentida queixa, ou clamava com tamanha ternura à consciência incorrupta do mancebo, que, mais de uma vez, o amor saiu victorioso, e o projeto de pedir a baixa readquiriu novos estímulos.

E os sonhos de glória?

E os respeitos do mundo, que não eram, como hoje, restrictos ao dinheiro?

E o cortar uma carreira, quando a aurora do seu brilhante dia raiava tão sem nuvens?

E uma longa vida a viver só das comoções de um amor satisfeito?

E o emparelhar com os mais nobres, quando se tem um nascimento obscuro, ou se não pode, sem desdouro, proferir o nome do pai, que inverga, não a farda do general, mas o hábito dos monges negros?

Replicava assim o orgulho reagente; e o amor suplicante exorava de novo; a imagem melancólica de Carlota Ângela espelhava-se no coração do moço; resurgia ovante em toda a sua nobreza e isenção a amorosa alma, e a tenção de não partir reacendia-se mais cálida e inabalável.

Assim, pois, chegou Mendonça a submeter o seu requerimento ao despacho do ministro.

Maior seria o pasmo de D. Rodrigo, se não julgasse o capitão da real brigada de marinha comprometido na maçonaria, onde se pactuara que a desobediência implicaria pena de morte, a ferro ou a veneno como a de José Anastácio de Figueiredo, em Mafra, à sombra das telhas reais.

O ministro chamou o requerente a uma audiência secreta, e disse-lhe que não só lhe negava a baixa, mas até lhe exigia o cumprimento das ordens regias; que seria mal visto de sua alteza o súbdito que tão mal correspondesse ao régio conceito: que seria degenerado português o que, no solene momento de pôr peito em defesa da pátria e à remuneração de patrióticos feitos, se furtasse aos trabalhos e às glórias: que seria irrisório não justificar o requerimento de baixa com mais motivos para tamanho desconcerto que um pueril amor, que não devia passar de um incidente de terceira ordem na vida de um homem inteligente, e fadado para estrondosos destinos: que, finalmente, o valimento se converteria em castigo, se ele requerente persistisse na disparatada baixa, cuja concessão lhe grangearia o riso de uns, o odioso de outros, suspeitas perigosas de muitos, e, mais que tudo, a mal-querença de sua alteza, que tencionava nomeá-lo major da armada, logo que servisse três meses no Brasil.

O remate da alocução era a douradura da pilula. Major da armada! a aspiração mais vantajosa de tantos, que a não realisavam na velhice! Voltar, depois de alguns meses, a Portugal, major da armada, condecorado, enobrecido, chamado aos conselhos do soberano, e talvez ao ministério!

Mas deixar Carlota no convento, a carinhosa Carlota, amada dois anos, amada para sempre, votada aos sacrifícios, aos desprezos, às injúrias, a tudo, para lhe merecer a ele a renuncia de glórias que retardavam um enlace tão suspirado!

Mendonça, na véspera da saída para o Rio de Janeiro, escreveu esta carta:

«Vê, minha Carlota, que eu choro. A aflição não me deixa outro desafogo. Quando receberes esta carta, separam-nos centenares de léguas. Eu parto amanhã para o Brasil, obrigado pela minha condição de servo agaloado. Deram-me o comando de um navio, e mandam-me cumprir serviços de que eu cobraria esperanças para grandes honras, se a minha glória única não fosses tu, esposa da minha alma. Quis dar a minha baixa, requeri, instei, negaram-m'a, e impozeram-me as leis militares. Quis dizer-te um adeus por algum tempo; não me consentiram delongas, porque a corveta Amazona esperava-me quase aprestada para se fazer à vela.

«Mas eu não parto, Carlota. Contigo fico, anjo. O meu coração aí fica, aí está pulsando no teu. As lágrimas de saudade que choras, choram-as também os meus olhos. Entre nós, nesta longa distância que nos separa, prende-nos a mesma cadeia de dores, de aflições, de terríveis pressentimentos. Quando te doer no coração o preságio da minha morte, senti-lo-ei também eu lá, e chamarei por ti no silêncio da minha alma, neste grito surdo da saudade, que é um despedaçar de todos os ligamentos da vida.

«Por que choramos nós, Carlota? Invoquemos a razão desvairada pela angústia; supliquemos a essa filha de Deus, senão remédio, ao menos conforto às nossas dores. Deveremos nós chorar como choram amantes infelizes? Eu creio que não, minha cara esposa. Se hoje nos dissessem: «a vossa união há de realizar-se passados seis meses, ou ainda um ano», teriamos justo motivo para nos rebelarmos contra o destino, contra a Providência que nos aproximou tão dignos um do outro?

«Não, Carlota, porque o nosso amor não está ameaçado de alguma sinistra casualidade que o aniquile ou arrefeça. As distancias são impossíveis entre duas almas identificadas. Para ti no claustro, para mim na amplidão dos mares haverá sempre o mesmo santuário de fervente amor, a mesma ação de graças a Deus, que não quer o infortúnio dos que o confessam e chamam nas suas agonias. As nossas lágrimas há de a esperança enxugá-las. A esperança nos acordará dos sonhos tristes. A saudade, que desalenta e cansa, irá ao futuro pedir sorrisos às risonhas imagens da nossa ventura de esposos. Oh! nós não temos razão para chorar uma separação de alguns meses, quando nos separamos tão confiados, como se acabassemos de receber a benção no altar, como se, no derradeiro abraço, sentissemos entre nossas faces o rosto de um filho.

«Que ridente imagem esta, ó Carlota! que estranho palpitar de coração eu sinto agora! que delícias nos aguardam para o dia imorredouro da nossa felicidade!

«Ânimo, minha adorada esposa! Eu careço de imaginar que tens coração para aceitar, sem fraqueza, esta dor. Preciso alentar-me da tua coragem, para que o auxílio da razão não esmoreça. Animei-te; mas as lágrimas não me deixam escrever, nem a ti te deixarão entender estas palavras. Agora se me cerra em indizivel tortura o coração. Largo a pena, desafógo em gemidos este aperto de alma, semelhante ao impossível de comparar-se. Não me venço. Já creio que te perdi. Acuso-me de ingrato por que não deserto, e calco as leis, e fujo para ti, e te roubo a todo o mundo, para mendigar contigo uma esmola em país estrangeiro. Eu sou vil, sou indigno de ti, e rasgarei esta carta, ou ler-t'a-hei de joelhos, para que tu me perdôes tamanho crime.

«Que digo eu, meu Deus! que penso eu, e que farei da minha vida! Impossível, Carlota, impossível deixar de seguir o meu destino! Agora mesmo sou chamado à secretaria para receber as últimas ordens. Este cálix irremediável há de ser tragado, ou a desonra, a perseguição, e o perder-te... Que horrível palavra!

«Um juramento, Carlota! Faz-me um juramento, ajoelhada diante de um crucifixo. Eu não o tenho aqui, mas invoco o testemunho de Deus, porque o meu coração, quando tu proferires estas palavras, há de ouvir-t'as, e recolhê-las. Jura que só sairás do claustro para ser minha esposa; e, se a morte me colher longe de ti, acabarás aí teus dias, e nenhum ente sobre a terra roubará à minha alma a melhor parte que lhe fica no mundo, esperando que Deus a chame para a acolher ao infinito amor da bem-aventurança.

«Juraste, Carlota? Agora crê que o meu espírito te pediria contas desse juramento, se a perfídia denegrisse a tua alma imaculada.

«Pérfida!... tu!... Perdoa-me, anjo do céu, pelas lágrimas que choro, pelas que tu choras, mais puras, mais angustiosas que as minhas!

«Adeus.....................»

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