Capítulo XVI Carlota Ângela · Capítulo 16 de 20
Obra Menu

Capítulo XVI

Quem quizer saber quantos são ao todo os filhos de Adão, conte primeiro quantos são os afflictos e atribulados.

Bernardes. (Nova Floresta.)

A filha de Norberto de Meirelles esperava em vão que sua mãe com suplicas incessantes alcançasse do marido o dote para a profissão. O negociante poderia com algum sacrifício aceder às instâncias de D. Rosália; mas a pertinácia de Carlota em rejeitar a proposta de Antônio José da Silva irritou-o de tal modo, que não houve convencê-lo a aceitar, a título de empréstimo, a dadiva do patrimônio que os pais da noviça Dorothea queriam dar à intima amiga de sua filha. Ia mais por diante a brutalidade do arrozeiro, negando-lhe o consentimento. Ora, contra esta tirania nova, entre as tiranias de pais cruéis e bárbaros tutores, como se diz nos romances não menos bárbaros e cruéis, contra esta nova tirania trabalhavam na corte pessoas empenhadas a favor da noviça por intervenção de algumas freiras.

Obtida a licença regia, graças à pouca atividade de Norberto, e talvez à diversão em que o traziam os cuidados e aflições de pagar as letras do Sr. Antônio José da rua das Flores, Carlota Ângela soube que seria freira sem dote, freira de prenda, como se chamam as meninas que tocam ou cantam, e dão a sua habilidade como equivalente de patrimônio.

Foi um dia de júbilo no mosteiro de S. Bento da Ave Maria o da chegada da licença. A profissão de Carlota era uma festa, em que todas as freiras tomavam parte. Os fartos meios, que lhes sobejavam, permitiam solenizar com todas as galas e majestade o ato augusto, que a noviça ansiava, chorando de alegria, e esperando com susto, como se temesse algum imprevisto obstaculo à sua felicidade. Chegou o fausto dia.

Se entendem que não é impertinencia descriptiva debuxar à pressa os pormenores da profissão de uma religiosa beneditina, acompanharemos Carlota Ângela desde que a mestra, avisada pelo dobre do sino, a foi buscar da casa do noviciado para o coro. A noviça ajoelhou aos pés da prelada, proferindo as palavras do rito, que são uma suplica de misericórdia a Deus e à abadessa, que a interroga acerca do que pretende. Entre as mãos de Carlota estava a regra do patriarca S. Bento, e nessa postura devota e humilhada profere os votos. À grade do coro, onde se passa esta cena quase silenciosa, chega um sacerdote com a cruz processional entre dois candelabros, e após ele os paramentos.

A noviça cantou com a voz tremida a carta da sua profissão. As últimas palavras mais as dissereis gemidos desatados de uma sufocante angústia. Lida a carta, o som melancólico do órgão parecia chorar com ela, cuja voz, em terceto com a da cantora e da mestra de noviças, entoou, três vezes, o seguinte verso:

Suscipe, Domine, secundum eloquium tuum, et vivam, et non confundas me ab expectatione meã.

Carlota foi ajoelhar ante o altar da Virgem, e depôs no respaldo do altar a carta da profissão. O coro cantava, entretanto, um Glória de tristissima toada.

Dali, foi ao meio do coro a professante, e ajoelhou sobre uma alcatifa entre quatro candelabros; ajoelharam todos, e entoaram uma ladainha, acompanhada a órgão, e instrumental.

As freiras assistentes ergueram nos braços a noviça, enquanto se cantava o Veni, creator Spiritus, invocação de tanta religiosidade e compunção, que as lágrimas saltaram a um tempo de todos os olhos.

Carlota foi prostrar-se diante da abadessa, que a despiu, ao passo que a trança dos cabelos era deposta numa salva de prata. Cingiram-lhe depois a touca e o véu, que o celebrante aspergira e incensara, e ajoelharam com ela. «Recebe, donzela, o véu sagrado—disse a abadessa, impondo-lh'o na cabeça—para que chegues sem mácula ao tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual se dobram os joelhos no céu, na terra, e no inferno por toda a eternidade.» Sobre o ombro direito lhe colocaram em seguida umas disciplinas, acompanhando a ação com estas palavras: «Recebe, ó cara irmã, as armas da tua milícia».

O celebrante entoou uma oração, durante a qual as lágrimas da professante manavam copiosamente sobre as mãos de soror Rufina, que lhe amparava o rosto.

A prelada proferia as últimas palavras da benção final, o órgão acompanhava Benedictio Dei Patris, esse hino de ação de graças, que os anjos parecia sublimarem em acordes de celestial melodia, quando entrou na igreja um mancebo com tal ímpeto, que se fez reparado às pessoas por entre as quais rompeu com precipitada veemência.

—Já professou?—perguntou o individuo maquinalmente a um rosto conhecido que proferira o seu nome,

—Agora mesmo.

—Professa!—exclamou Francisco Salter de Mendonça, correndo para as grades do coro—Professa! Tudo perdido, tudo perdido!

Encostado aos ferros do coro, com a fronte banhada de suor frio, e a luz dos olhos turvada, Francisco Salter estava já amparado entre os braços das pessoas que o reconheceram.

Fez-se um grande reboliço na igreja. A multidão agglomerava-se em redor do oficial de marinha, sem poder averiguar a causa dos gemidos que se ouviam no coro.

Não eram de Carlota Ângela esses gemidos. A infeliz dirieis que adivinhou a entrada de Salter na igreja, porque, erguendo-se de repente, antes que a prelada pronunciasse as últimas palavras da benção final, correu à grade, soltou um ai sufocado, como se outro não pudesse já soltar do coração expirante, e caiu desmaiada nos braços de algumas freiras, que lhe tinham seguido o movimento arrebatado.

Soror Carlota foi transportada à sua cela, sem sentidos. Francisco Salter de Mendonça recobrou alento e razão, quando se viu espetáculo de tanta gente, e pediu licença para sair.

A serenidade que de repente lhe assomou ao rosto causava novo espanto aos amigos ou conhecidos que se empenhavam em o levar dali. Entre esses havia um que tinha o segredo daquela grande desventura, e lhe pediu mui encarecidamente que o acompanhasse para sua casa. Mendonça rejeitou com tranquila urbanidade os oferecimentos, e parecia surdo às consolações. O sorriso contrafeito, com que desmentia as lágrimas que lhe aguavam os olhos, presagiava alguma grande desgraça. Um suicídio foi o receio das pessoas a quem o misterioso acontecimento foi de boca em boca revelado.

Por fim, Mendonça desoprimido do concurso que o rodeava ainda no adro da igreja, entrou no pátio do mosteiro, foi com sereno aspeto à portaria, e pediu à madre porteira o favor de o anunciar à senhora religiosa que acabava de professar. Concorreram algumas freiras a ouvir este recado, e todas à uma balbuciaram não sabemos que palavras de consolação religiosa que Francisco Salter parecia não ouvir.

Imóvel permanecia ele, esperando a aparição de Carlota, quando lhe indicaram a grade onde ele devia esperar que lhe falassem.

—É a Sr.ª D. Carlota Ângela que eu procuro—disse ele com imperturbável firmeza.

—Pois suba para a grade, que o estão lá esperando.

—Mas quem é que me espera, senhoras?

—Alguém é...—responderam as freiras.

—Quem eu procuro, e com quem preciso falar, é a senhora que professou há pouco. Não conheço mais alguém nesta casa.

—Pois queira subir...—disse o padre capelão do mosteiro, que neste momento viera colocar-se ao pé de Francisco Salter—Eu acompanho v. s.ª à grade onde o esperam—continuou o padre, dando-lhe o braço, e guiando-o automaticamente para a grade, onde o estavam esperando.

Mendonça encontrou na grade uma freira desconhecida: era soror Rufina.

—Creio que não lhe será desagradável—disse ela—encontrar uma tia de Carlota.

—Quisera antes, minha senhora, encontrar sua sobrinha.

—É impossível; minha sobrinha não dá acordo de si, nem dará tão cedo. V. s.ª devia presumir isto mesmo, antes que lho dissessem.

—Por que, minha senhora?!

—Porque minha pobre sobrinha o julgava morto, todas nós as amigas da infeliz o julgavamos como ela: eu mesmo agradeço a Deus as forças que me dispensa para poder vir a esta grade rogar de mãos erguidas ao Sr. Mendonça que não diga à desgraçada uma palavra que a pode matar; não lhe lance em rosto a falta de palavra, que seria affrontá-la e dar-lhe o último empurrão para a sepultura.

—E disse eu já que vinha lançar em rosto a Carlota alguma falta? Não venho, minha senhora, não. Eu vim a querer enxugar-lhe as lágrimas que a minha aparição lhe fez chorar.

—Carlota por ora não pode chorar, Sr. Mendonça. Para tamanha dor não há tal desafogo por enquanto, e Deus sabe se alguma vez o haverá... Eu não conto já com a vida de minha sobrinha. Vamos ser neste convento testemunhas de uma agonia muito atribulada. Deus lha dê curta, ou me leve a mim primeiro, por misericórdia. Duas horas antes, Sr. Mendonça, tê-la-ia talvez matado de alegria com a sua presença. Assim, matou-a, há de matá-la de pena, de desespero, de dores infernais, que não hão de obedecer aos confortos da religião.

—Que são confortos da religião?!—interrompeu Mendonça, carregando o sobrolho com a turvação da blasfêmia.

—Aterra-me essa pergunta, Sr. Mendonça!

—Não se aterre, minha senhora: responda-me antes a uma pergunta: o Deus que há de consolar Carlota é o mesmo que viu impassível até este momento a minha desgraça e a dela?

—Altos juízos do Senhor! Por quem é não lhe fale essa linguagem à pobre Carlota! Ajude-a a suportar o peso da sua dor, com os olhos postos no céu. A impiedade não serve de nada, Sr. Mendonça. A respiração da blasfêmia traz para o interior do coração o fogo do desespero. Se a vir sucumbida, dê-lhe ânimo para a paciência, venha aqui todos os dias, dê-lhe a felicidade que a religião dos infelizes não condena; amigo, seja o irmão extremoso da minha pobre sobrinha. Prometa-me isto, que eu vou preveni-la pouco e pouco, até que ela possa encará-lo com firmeza e confiança. Se a acusar de inconstante, Sr. Mendonça, olhe que a calúnia cruelmente. Há de saber da boca de Carlota que dois anos de martírio ela tem amargurado neste convento.

—Sei, senhora.

—Que desenganos, que torturas, que repetidas luctas com a desesperação, e que ferventes suplicas ela fazia a Deus para que a levasse, desde que lhe deram como certa a sua morte!

—Tudo sei, minha senhora. Já vê que a não posso condenar. Eu venho pedir-lhe consolações, venho aprender a paciência, venho pedir-lhe coragem para não tentar contra a minha vida.

—Peça, peça, e verá que a minha santa sobrinha lhe ensina a consolação do sofrimento, o bálsamo divino da paciência, e o segredo de achar a alegria na vida que tão desgraçada lhe parece. Hoje não, Sr. Mendonça; Carlota a esta hora precisa de que a animem, se é que Deus não quer que este golpe seja o último no débil fio da sua existência. Eu vou para junto dela, parece-me que a estou ouvindo pronunciar o seu nome, e eu corro a dizer-lhe que encontrei no Sr. Mendonça o irmão, o amigo carinhoso da nossa Carlota. Deixa-me dizer-lhe isto, Sr. Mendonça?

—Diga, diga, que é preciso salvarmô-la, ainda mesmo que ela me não torne a ver.

—Por que não há dela tornar a vê-lo?! Então quer que a infeliz morra atormentada? Tenha compaixão de nós, Sr. Mendonça! Outra freira desta casa talvez lhe pedisse que não voltasse aqui mais. Eu, pelo contrário, lhe rogo que venha todos os dias, que seja testemunha de todas as lágrimas salvadoras que ela chorar, que lhe prometa uma afeição pura sem manchar a santidade das obrigações religiosas de Carlota. Pois a amizade imaculada não é o reflexo do amor divino? O Altíssimo não condena o coração de minha sobrinha, cheio de um amor que há de entrar com a alma na bem-aventurança. Eu tenho presenciado nesta casa afeições de muitos anos, de longas vidas dedicadas ao amor do coração, sem contudo macularem a religiosidade dos deveres. Todo o mundo tem obrigação de respeitar o amor de minha sobrinha ao homem que ela chorou dois anos, chorava ainda no instante em que lhe apareceu. Venha, Sr. Mendonça, venha aqui todos os dias, e verá como o tempo amacia os espinhos que o mortificam. Há de chegar a esquecer-se das dores que sofre neste momento, e a sentir as lágrimas de uma amizade santa e pura.

O diálogo foi cortado por uma pressurosa chamada a soror Rufina. Carlota recuperando os sentidos, chamava Francisco Salter de Mendonça, e forcejava por evadir-se dos braços que a sustinham. Algumas religiosas estavam passadas de religioso terror, vendo-a, ainda vestida com os hábitos da profissão, invocar tão aflita e descomposta o nome profano de um homem que, no entender das servas de Deus, devia considerar-se de direito morto, quando o não estivesse de fato. Algumas escrupulisaram de assistirem ao debate da professa nos braços das mais novas, e congregaram-se na cela da escrivã para decidirem que o demônio entrara no corpo de Carlota. O voto da mais auctorisada era que se chamasse o capelão para exorcismar a energúmena. Outra acrescentava que, no caso infausto de contumácia diabólica, seria útil e piedoso dar parte do sucesso ao bispo, para que este obrigasse Francisco Salter a sair do Porto, como perturbador daquela casa.

Entretanto, soror Rufina, chamada da grade, onde deixara Mendonça esperando saber o estado de Carlota, pedira às amigas menos escrupulosas de sua sobrinha que a deixassem só com ela.

—Francisco desejava ver-te—disse Rufina.—Logo que tenhas força e vontade irás ver o que é um amigo do coração, um anjo de paz que Deus te envia, assegurando-te que a felicidade do espírito não destrói a felicidade do claustro, que a esposa do Senhor pode ser a irmã estremosa do homem a quem amou.

Carlota cravava os seus grandes olhos no rosto risonho da tia, como se não compreendesse. A freira continuou:

—Esperavas que Mendonça te viesse lançar em rosto a tua impersistencia, minha filha? Não, Carlota. Mendonça sabe tudo. Diz que vem procurar as tuas consolações, a fim de não tentar contra a própria vida. Vês tu, menina, que sublime encargo Deus te confia no momento em que as tuas angústias tocam o extremo? Tens de amparar a vida do nobre moço, de lhe dares consolações...

—Eu, meu Deus! eu consolá-lo!—exclamou Carlota, arrancando impetuosamente o véu—Há uma só consolação possível para nós. Anulem-me os votos que fiz. Não posso ser freira, não quero ser freira. Deus sabe que fui atraiçoada, que professei, porque me mentiram, e eu não minto a Deus. Minha querida tia, eu sou agora mais desgraçada que nunca. Morro impenitente, se me não dizem que é possível anular um juramento falso que me obrigaram a dar.

—Carlota! tu não compreendes a felicidade neste mundo sem o crime?

—Crime! qual foi o meu crime? que fiz eu para merecer este castigo? Onde está Deus, que me não amparou antes deste desgraçado passo que dei hoje, e me não mata agora, se não posso remediá-lo?

—Isso é uma blasfêmia, filha! o demônio da tentação não quer deixar-te gozar as alegrias puras que Deus te permite.

—Alegrias, minha tia! Pois cuida que se engana assim a aflição? Alegrias para mim, que estou condemnada a um cárcere perpétuo, que hei de ver sempre entre mim e o esposo da minha alma uma barreira de ferro, que nem posso sequer esperar que ele venha recolher o meu último suspiro?! Vê-lo todos os dias... oh! esse é o mais horrível de quantos padecimentos podia antever a minha imaginação! Antes acabar no desespero, sem vê-lo! Antes morrer aqui abafada sem que ele seja a desgraçada testemunha das minhas agonias! Que hei de eu dizer-lhe, ou que há dele dizer-me a mim? Se ele me pedir contas dos meus juramentos, se me lançar na rosto a minha falta de fé, se me perguntar como pude eu sobreviver à certeza de que ele tinha morrido, que hei de eu responder?

—Diz-lhe que vestiste o hábito de eterna viuvez, que escolheste a vida mais pura, para que as orações por alma dele fossem mais gratas ao Senhor. Diz-lhe antes que escolheste o mais longo paroxismo de uma morte atribulada; que podeste acreditar que ele violara o seu juramento; conta-lhe tudo quanto a traição inventou em teu damno; diz-lhe que ainda convencida de que ele morrera, depois de atraiçoar-te, lhe perdoaste, e caíste de joelhos aos pés da cruz, pedindo à misericórdia infinita que lhe perdoasse o perjúrio. Que mulher houve neste mundo tão forte da sua inocência como tu para poder apresentar-se com o rosto imaculado na presença do homem que lhe vem pedir contas? Qual é o teu crime, infeliz? Não te disseram a ti que Francisco esposara outra mulher no Rio de Janeiro? Não te afirmaram que ele morrera depois? O silêncio de dois anos não estava sempre confirmando o cruel desengano das tuas esperanças? Quem te há de acusar, Carlota?

—Ele, minha tia. Eu tinha obrigação de não acreditar a calúnia! Eu fui mais vil e miserável que os infames que urdiram a minha desgraça! Não tenho ânimo de lhe aparecer, não sei como possa defender-se a minha fraqueza, nem quero defender-me, porque sou eu a que me acuso de indigna do perdão deste homem, que eu fiz tão infeliz... Há um só remédio, minha tia... Se mo não dão, nem quero mais vê-lo, nem prometo respeitar a religião que nos manda suportar com paciência o peso da vida... e que vida, meu Deus!... que vida de inferno me seria esta, se eu não pudesse arrancar do coração esta brasa viva que me está atormentando!

—Pois que queres tu, Carlota! Valha-me a Virgem Santíssima! que se há de fazer, infeliz criatura?

—Anulem-me os votos, deixem-me ir lançar aos pés de quem pode restituir-me a minha liberdade. Não posso ser freira, declaro bem alto para que todos me ouçam nesta casa, e me desculpem do mal que eu fizer; não posso ser freira, sem dar grandes escândalos, sem insultar a virtude das pessoas que me rodeiam, sem amaldiçoar a hora em que professei, e a religião que me manda morrer sem desabafo.

—Carlota! pelo amor de Deus!—exclamou soror Rufina, tapando-lhe a boca, e abraçando-a com convulsivo terror. Teme o castigo do céu, minha filha. Arrepende-te dessas blasfêmias, e Deus não permitirá que tu comeces a expiá-las neste mundo com a desonra... Tu não sabes o que disseste, Carlota. Foi a desesperação que a fez assim falar, minha Mãe Santíssima; não consintais que ela seja castigada! Alcançai de vosso Filho um bocadinho de refrigério para esta desgraçada que a dor enlouqueceu.

A freira continuou uma suplica assim aflitiva diante da imagem da Mãe de Deus. Carlota Ângela correra impetuosamente para o mais escuro da casa, e lá prorompera, sozinha, em prantos, que não eram de contrição, nem sequer de desafogo à sua grande angústia. Apertavam-a ainda os frenesis da desesperação enraivecida e impia. Rebatia com gestos furiosos as tímidas consolações da tia e da meiga Dorothea, cujas palavras mais suavemente lhe deviam falar ao coração, se a quase demência a não tivesse assaltado com vertigens de quarto em quarto de hora.

Francisco Salter recebeu, ainda na grade, a triste informação do estado de Carlota. Perguntou ele a soror Rufina, se teria dúvida em entregar-lhe uma carta. A freira hesitou enquanto Mendonça lhe não disse que a carta seria um lenitivo para Carlota, e talvez um bálsamo de completa cura.

Qual deva ser a eficacia desse bálsamo infere-se da carta que se copia textualmente no capítulo imediato.

1/1
Menu

Fazer anotação