Capítulo IX
Mon Dieu! comme il est difficile
De courre avec de l'argent!
Théophile de Veau.
Trocando com vontade pouco experta,
Por incerta fortuna esta mais certa.
C. Pereira de Castro. (Lisboa edificada.)
Francisco Salter de Mendonça, de Lisboa ao Rio de Janeiro escrevera um diário, em que mais se acusava a si de ingrato que aos seus cavilosos protetores de cruéis. A saudade era encruada pelo arrependimento.
Ao passo que o horizonte da pátria se perdia nas orlas do mar, o atribulado mancebo já não sentia da esperança o conforto que o alentava no instante da partida. Afigurava-se-lhe um sonho horroroso estar ele tão longe, cada vez mais longe, de Carlota Ângela. Ideiava e desfiava todas as consequências que podia trazer a sua formal rejeição do encargo e da patente.
«Se me prendessem,—escrevera ele no diário—que maior prova podia eu dar a Carlota de que a minha liberdade, longe dela, seria o meu supremo cativeiro?
«Preso debaixo do céu em que ela vive, teria a liberdade de escrever-lhe, de animá-la, de a ver talvez um dia chegar lacrimosa aos ferros do meu cárcere, e encher-m'o de quantas alegrias podem elevar uma alma nobre sobre astucias de miseráveis tiranos.
«Seria grande mágoa para ela a minha prisão, a minha baixa, a minha queda irremediável no princípio da vida? Oh! de certo era; mas essa dor desvanecê-la-ia a convicção de ser tão amada, tão preterida à glória, à honra e aos sorrisos da fortuna!
«Por que não lhe dei eu o nobre orgulho de me sacrificar, de me abater aos olhos de todo o mundo, com tanto que me engrandecesse aos olhos dela, dela, para quem eu queria honras, glórias, corôas, mundos, tudo grande, tudo sublime, e tudo pequeno em confronto do coração que lhe dei?!
«E, depois, a minha prisão seria de pouco tempo, porque os meus parentes são poderosos, e o dinheiro do pai de Carlota exhaurir-se-ia ao mesmo tempo que o coração de sua filha seria mil vezes multiplicado em apego, em gratidão, em ternura, e coragem para afrontar comigo os obstáculos.
«Mas nem talvez eu chegasse a ser preso. Julgar-me-ia o governo em demasia castigado com a baixa, com a desconsideração e com o desprezo. Toda a gente me olharia como se olha um homem pobre, e de mais a mais rebelde ao serviço da pátria. Que importava isso? Carlota Ângela seria o meu talisman; as riquezas brotariam de seu coração inesgotável; todos me invejariam ao pé dela; apontar-nos-iam como modelos de afeição, e de honra na afeição, que tão rara se encontra. Com o tempo, eu seria chamado a merecer o premio de calcar a intriga, e o nosso pão na opulência não seria mais doce que o pão da pobreza.
«Que fiz eu, homem vil, homem sem alma?
«Mascarei-me com as palavras «honra e dever», e estou desonrado perante Carlota! Impuz-lhe um juramento de morrer minha escrava, fiz que ela me adjudicasse a sua vida, apontei-lhe o claustro como seu eterno cárcere, e não tive valor para me deixar perseguir por amor dela!
«Ó coração duro, que assim te desonraste com tão baixo egoismo!
«Tu choravas, quando lhe escreveste um adeus, mas essas lágrimas pôde enxugá-las a razão, tão vilã como tu! Mentias nesse pranto, abjecto, avarento, que te sentiste sobresalteado de orgulho e alegria, quando as dragonas de major da armada te deslumbraram a duas mil léguas distantes de Carlota.
«Não sou digno de mais a ver, sem córar de vergonha, não! Se ela me não escrever, se rasgar e pizar e cuspir as minhas cartas, eu devo ter o cinismo de tragar a afronta, já que tive a vilania de a merecer.»
A estas páginas da consciência oprimida, sucediam-se outras de lagrimosa ternura. Nunca a saudade se exprimira com mais contrição de alma, com mais doridos afagos à imagem querida que os recebe chorosa, com devaneios de mais poesia amarga, dessa que só sabem desentranhar do coração os que sentem voluptuosa dor em despedaçá-lo.
Francisco Salter atravessara o Atlântico sem um amigo, sem um ouvido atento onde contasse, com atrição de penitente, as saudades e pungimentos que o laceravam.
Eram belas as noites, era de magia o céu estrelado, as luas-cheias no mar parece que recolhem de mais perto, naquela vasta solidão, as confidencias do amante, dando-se como espelho, para que, a milhares de léguas, a contemplativa amada veja nela os olhos do que a pranteia.
Mendonça, porém, angustiava-se mais com esse espetáculo, só donoso de êxtase, e dulcíssimo de espirituais colóquios para amantes felizes.
E escreveu assim:
«O desgraçado não suporta as alegrias dos homens, nem as da natureza. Se a sua alma está de luto, cubra-se de negro tudo que o cerca. Se sulca os mares, refervam as vagas batidas pelo látego da tormenta; forre-se de nuvens torvas o céu, rebôem em turbilhões, prenhes de coriscos; rua o último mastro lascado pelo raio, e espumem contra a derradeira tábua do naufragado as fauces do dragão que abre um abismo em cada resfôlego.
«O amanhecer não tem cantares, nem a tarde murmúrios, nem a solidão arroubamentos para esse que a natureza repeliu de si, como leproso, chagado no coração, contagioso de pestilencial desesperança.
«Eu subi há pouco à tolda, e vi a lua, que oito dias antes me vira no Candal, ao pé de Carlota. Não pude fitá-la. Os meus olhos caíram sobre o dorso do mar, bem perto do navio, onde não chegava a refulgência da lua. Ali estive fascinado, naquele ponto negro. Similhava-se-me a um túmulo, e o fremir da onda quebrada na quilha soava-me como um gemido de mulher que eu lançasse àquele abismo...
«E fugi, meu Deus, fugi, porque me não déstes um raio de esperança.
«Ó Carlota, Carlota, matar-te-ia eu?!»
Este fragmento de uma página, transcripto ao acaso, sirva para avaliar que aflitivo tranzito lhe foram os cinquenta dias de viagem.
No desembarque, Francisco Salter de Mendonça sentiu vergar o corpo às comoções da alma. Adoeceu, e, na ardor da febre, escreveu a Carlota essa longa carta com que o bacharel Sampayo espertou o lume do seu fogão. Eram estas as últimas linhas da carta:
«Se eu morrer, minha querida Carlota, ouso daqui já pedir-te o meu perdão. A memória de um morto é sagrada. Todas as ingratidões e vilanias desaparecem com o miserável corpo que os vermes desfazem. Fica a alma no seio de Deus, ou fora do céu. Se Deus acolher a minha, de lá te chamarei; se me repelir este espírito, purificado no fogo da saudade, errarei em torno de ti, pedindo-te perdão, porque tu és a única pessoa que eu ofendi neste mundo. A ofensa, minha amiga, está expiada. Tenho sofrido penas sobrenaturais. Achei doçura e suavidade no suplicio, enquanto me considerei algoz da tua felicidade, infame vendilhão que te troquei por alguns punhados de ouro. Depois, porém, que expeli em lágrimas a peçonha do coração, ouso dizer a Deus que este flagelo é de mais... esta queda na sepultura, aberta no caminho de palmas que eu de lá vira, é um ato da Providência que assimilha um escárnio. Não tenho forças nem vista para mais, Carlota. Compaixão, anjo do céu! Amor... não to mereço: seria duplicada infâmia pedi-lo agora. Adeus.»
Após uma longa enfermidade, Mendonça esperava alvoroçado o paquebote que fazia regulares viagens entre Portugal e o Brasil.
O coração afiançava-lhe uma carta, muitas cartas de Carlota; umas acusando-o, outras absolvendo-o.
O paquebote chegou. Salter teve muitas cartas. Examinou os sobrescriptos, primeiro com o rosto incendido pelo giro alvorotado do sangue; depois, à maneira que estremava as cartas, sobreveio o desmaio, a palidez do susto; e finalmente o turvamento, a prostração, o cair alquebrado sobre uma cadeira, com os dedos recurvados na fronte, que revia suores frios.
Aquietada a angústia, depois de enfurecidos ímpetos, Salter quis escrever, arrojou a pena, e levou as mãos à fronte, como a segurar uma ideia consoladora.
—Vou a Portugal!—murmurou ele—fujo, deserto, perco-me, mas vou a Portugal. Carlota está morta, ou atraiçoou-me!
Este projeto foi-lhe um desafogo naquele dia. Nenhum estorvo se lhe avultava insuperável. O governador chamara-o para lhe comunicar as ordens que recebera do governo e entregar-lhe oficios do almirantado. Dava-se pressa do reino ao capitão da real brigada em executar os trabalhos cometidos, visto que Portugal ia ser compelido a reunir-se com Napoleão na causa do continente. Era um prognostico da indecorosa subserviência com que, alguns meses depois, a corte portuguesa rompeu com Inglaterra, para, decorridos poucos dias, lhe pedir auxílio na vilipendiosa e impolítica fuga.
Não invejamos a glória do historiador português desse tempo, pelas náuseas e vergonhas que lhe há de custar a narração exata do envilecimento a que descera a terra do marquês de Pombal. Se não fosse o receio de enjoar o leitor, que lê um romance, cansado de ler livros com ideias, escrevia agora aqui uns trenos plangentes sobre a pátria de D. João I e D. Manoel. Ainda me tolhe outro medo, e vem a ser o de me ver a braços com dificuldades na resposta aos que me perguntarem se a pátria de D. Fernando I e Afonso VI valia mais em dignidade, primor, e independência que a do marido de D. Carlota Joaquina. Questões são estas que desentoam afonicamente da índole desta escritura, mais que todas sujeita a fazer-se ridícula, se dá ares de ser obra de quem sorve uma conspícua pitada, para julgar depois os reis e os povos.
O que se quer é saber no que pararam os projetos de Francisco Salter de Mendonça; se desertou, se morreu, ou transigiu com a desgraça.
Nenhuma das hipóteses.
No dia seguinte ao da intencionada fuga, o amante de Carlota Ângela foi visitado por um individuo, que disse ser natural do Porto, e ir liquidar uma herança no Rio de Janeiro.
Mendonça acolheu-o com alegria, supondo-o portador de carta de Carlota. Disse o portuense que viera ali dar-lhe uma nova, talvez desagradável ao princípio, mas estimável, quando a reflexão desvanecesse os efeitos da má notícia.
—Que é?—atalhou Mendonça—Estou preparado para o que for.
—Eu conheço Norberto de Meirelles, sou negociante como ele, e sei todos os passos da sua vida. Soube que v. s.ª lhe pedira a filha em casamento; soube que lha prometeu, para evitar que ela saísse judicialmente; e também soube que ele roeu a corda, como costuma em muitos outros contratos, quando o doutor Sampayo lhe participou de Lisboa que v. s.ª era mandado para aqui. É isto verdade, ou não?
—É, pelo menos assim o creio; mas antes de mais nada, queira responder-me a uma pergunta, para eu o ouvir com sossego: D. Carlota vive?
—Vive, e vive feliz, pois não vive!
—Feliz!... diz o senhor...
—Eu que o digo é porque o sei... Mulheres, meu amigo, mulheres! V. s.ª espanta-se? Bem se vê que está ainda muito verde, e não conhece o mundo... Longe da vista, longe do coração. As raparigas de agora são como as ventoinhas. Palavreado, e mais Palavreado; novelas e mais novelas; crendices e papagaíces; e de tino e juízo nem para mandar cantar um cego.
—Eu não entendo essa mistura de anexins com que o senhor está retardando a nova que me traz. Tem a bondade de se explicar com a possível clareza?
—Lá vou, Sr. Francisco Salter de Mendonça, lá vou; mas será bom que se previna, se ainda me não adivinhou... A filha do tal Sr. Norberto confirma o ditado de que de ruim árvore, nunca bom fruto.
—Quer dizer que...—interrompeu, coriscando fogo dos olhos, o impetuoso mancebo.
—O senhor vejo que se enfada... Estou arrependido de cá vir com semelhante...
—Com semelhante Comissão?!—concluiu Mendonça, erguendo-se em atitude ameaçadora.
—Comissão!—gaguejou o interlocutor com sensíveis sinais de surpreendido.
—Sim!... diga o resto, quero ouvir o resto; mas depressa.
—V. s.ª está fora de si!—tornou o atrapalhado homem, lançando a mão ao chapéu e à bengala—Eu não vim aqui ofendê-lo, e v. s.ª recebe-me de um modo que eu não mereço... Nesse caso retiro-me.
Mendonça, sofreando a cólera, tomou-lhe da mão urbanamente o chapéu, e obrigou-o com branda coação a sentar-se.
—Desculpe-me este desatino. O senhor, se alguma vez amou, deve passar-me por esta escandecência própria de um rapaz ardente, com o coração ainda intacto dessas punhaladas que, muito repetidas, chegam a matar a sensibilidade. Estou de ânimo frio para escutá-lo. Queira v. s.ª continuar.
—Eu...—disse o portuense, disfarçando ineptamente o sobresalto—eu... se aqui vim, foi para o desenganar... e mais nada...
—Pois muito lhe agradecerei o desengano, quando o senhor me disser o engano.
—Pois não adivinhou ainda? O senhor é esperto, segundo ouvi dizer, e já há muito que devia entender que a tal menina não o amava.
—Entendi agora—disse serenamente Mendonça com hábil artificio.—Mas, como prova v. s.ª isso?
—Como provo?
—Sim, como prova? Eu creio tanto no amor de Carlota Ângela, quanto reputo v. s.ª um calumniador enquanto me não provar essa espantosa novidade.
—As provas, neste caso...
—São difíceis, bem o sei; mas o senhor há de poder dizer-me: Carlota não o ama, porque deu esta ou aquela prova de o não amar.
—A prova acho eu que é bastante dizer-lhe que ela, a esta hora, está casada com outro.
—Essa é realmente a suprema das provas possíveis; mas, se lhe não custa, conte-me os pormenores desse casamento. Quem se diz tão intimamente informado da vida de Norberto de Meirelles deve elucidar melhor as coisas. Quem é o noivo de Carlota?
—O noivo...—tartamudeou o homem, enfiando de novo.
—É do Porto?
—Sim, senhor, é do Porto.
—Como se chama?
—Chama-se... esquece-me agora... v. s.ª de certo não conhece, ainda que eu lho diga... é um rapaz do comércio, que mora....
—Sim, onde mora? Diga-me a rua, que eu o auxiliarei na recordação do nome, porque sei os nomes de todos os pretendentes de Carlota. Mora na rua de?...
—Na rua... de... ora que cabeça esta!... O senhor atrapalhou-me de tal modo que me fez perder...
—Até a memória das ruas! é original essa perda! Diga-me mais, entretanto que lhe não lembra: Onde estava Carlota, quando o senhor saiu do Porto?
—Onde havia de estar?... Estava em casa... e tinha estado no convento...
—No convento de...
—No convento, sim, no convento de...
—Também perdeu a memória dos conventos! Descanse, senhor portuense, tome fôlego, e tranquilize-se, porque receio daqui a pouco, que nem do Porto se lembre. Falemos de outro assunto. Como está Norberto de Meirelles?
—Está bom, não há mal que lhe chegue...
—Aquele homem é rijo, sendo tão magro!
—Isso é verdade!
—E sempre tão pálido!
—Parece um defunto.
—Vejo que o senhor até perdeu a memória do seu amigo Norberto! Conhece-lhe os íntimos segredos domésticos; mas não se recorda que ele é gordo e vermelho! Estou maravilhado do muito que me conta! E D. Rosália contínua a cantar com aquela angelica voz que nós lhe conhecemos?
O noticiador estava tolhido de medo. A esta última pergunta fez uma cara de apiedar as feras. Salter cruzara os braços sobre o peito, cravara os olhos nos olhos esgazeados do infeliz agente do bacharel Sampayo, e mandara-o sentar. À segunda vez, a oferta da cadeira era pouco urbana: Mendonça pusera-lhe a mão no ombro direito, carregando com força bastante para aterrar o ensoado hóspede, que se julgara em perigo. Este susto converteu-se em convicção de pancadaria certa, quando Salter correu a lingueta da chave.
—O senhor treme como todos os miseráveis alugados para uma ação infame. Não trema—disse Mendonça—que eu não lhe faço mal. Se o não fiz saltar por aquela janela, quando proferiu com menos respeito o nome de D. Carlota Ângela, agora de certo o acompanharei até à porta da rua.
Mas conte-me a sua vida. Essa presença é inculcadora. O seu trajar é limpo, e a natureza deu-lhe cara de homem de bem. Que ofício tem o senhor? Vive destas empresas?
Responda com desabafo. Quem o mandou aqui trazer a notícia desse casamento?
—V. s.ª... eu... obrigado pela necessidade...
—Diga; desengasgue-se desse nó de vergonha que tem na garganta. O senhor está entalado! Ora vamos: dizia o senhor—forçado pela necessidade...
—Deixei-me seduzir por um homem, que me mandou... aqui...
—Esse homem é Joaquim Antônio de Sampayo.
—O mesmo é verdade, é esse...
—Designadamente para o fim de me avisar que a Sr.ª D. Carlota casava?
—Sim, senhor.
—E não o ensaiou para representar melhor o seu papel?... O senhor executou miseravelmente a Comissão do seu mandatário, e precisa de uma leve correção, para que ninguém mais se fie na sua destreza. O senhor tem aqui papel e tinteiro. Escreva aí, com clareza e verdade, o programa que lhe deu o bacharel Joaquim Antônio de Sampayo.
—V. s.ª quer-me perder!... eu sou empregado na intendência...
—E receia perder o emprego? Homens do seu quilate não se deslocam por tão pouco. O senhor é um homem necessário ao Estado, e hoje mais que nunca ao ajudante da intendência, porque é depositário de um segredo que o infamaria muito. Ora ande lá; escreva. Como se chama? deixe-me ver o visto do seu passaporte.
O miserando biltre tirou do bolso uma carteira, e estendeu o braço tremulo a Mendonça, que prosseguiu, relanceando um olhar ao passaporte, e outro furtivo ao hóspede:
—Escreva lá: Declaro eu Luís José Godinho...
A pena não escreve?!
O pálido Godinho é que não escrevia; e, se picara o papel muitas vezes com o bico da pena, fora o tremor do pulso.
O silêncio de Mendonça, esperando a tarda resposta, dera tempo a Godinho para meditar um lance dos que a desesperação suscitam, quando há a optar entre dois perigos certos.
Francisco Salter, senhor de si, e ainda mais do cobarde ânimo do homem, não se receava do impetuoso salto que ele deu fora da cadeira, lançando mão da grossa bengala.
—Deixe-me sair, quando não, atravesso-o com este estoque!—exclamou o transfigurado Godinho, desembainhando o longo ferro, e apontando-o ao ventre de Mendonça.
O que susteve o oficial de marinha firme no seu posto, foi mais o espanto que a bravura.
—Então?—bradou o amanuense da polícia, livido e tartamudo como se fosse ele o ameaçado—Abre-me a porta, ou não abre? Olhe que eu passo-o de um lado ao outro!
Francisco Salter afastara-se; Godinho correra à porta, vendo desaparecer o adversário; rodara a chave com feliz exito; galgava o corredor que o devia levar à escada; mas na extremidade desse corredor havia uma porta que se abriu: Godinho estacou um momento diante de Mendonça, recuou o braço armado para impelir uma estocada porém a ponta de um faim a duas polegadas do peito, restaurou-lhe o juízo prudencial, que perdera, um instante. Restava-lhe um expediente, talvez o mais legal e propicio de quantos tinha: gritou aqui de el-rei que o matavam, a berros de possesso, três vezes, sem tomar fôlego.
—Cala-te, miserável, que ninguém te mata!—disse Mendonça.
A força acumulara-se-lhe nos pulmões: era um gritar de homem que estrebuxa quase esganado.
—Vai escrever o que me disseste, canalha, e depois retira-te em paz.
—Aqui de el-rei que me matam!
—Então salta daquela janela abaixo, e diz ao bacharel Sampayo que te recompense a fractura das pernas!
—Aqui de el-rei que me matam!
Mendonça, repuxando-o pela gola da casaca, arrojou-o para a escada, e assentou-lhe com o salto da bota um rijo impulso no costado. Godinho galgou oito degraus com destreza de funambulo, mas do oitavo para baixo faltou-lhe o equilíbrio, e resvalou de costas até ao patamar. Aí, quis erguer-se; mas os músculos intercostais desobedeceram à velocidade do espírito. O primeiro amanuense da intendência sofrera desagradável reforma na disposição das costelas: sem embargo, Azais notaria aí uma nova compensação: as cordas vocais aumentaram de rigidez; os aqui de el-reis eram cada vez mais estridentes.
Os vizinhos e passageiros acudiram em tropel. Godinho pedia que o levantassem e conduzissem a casa do conde dos Arcos, de quem era hóspede.
Hóspede do capitão-general!
Isto inquietou Mendonça e desenvolveu a inergia caridosa dos circunstantes. Qual deles mais carinhoso e diligente em saber a ofensa para depôr contra o ofensor, porfiavam em conduzi-lo nos braços. Godinho dizia apenas, comprimindo as costelas, rebeldes ao arquejar doloroso do diafragma, que puxava por elas:
—Sejam muito boas testemunhas que o Sr. Francisco Salter de Mendonça me quis matar, em sua própria casa!
Conduziram-o uns, e ficaram outros, em grupo, à porta de Mendonça, e defronte das janelas, contando aos que passavam a tentativa de assassínio perpetrada pelo oficial de marinha.
Luís José Godinho trouxera da intendência carta de apresentação ao conde dos Arcos, e outras confidenciais, sobre negócios do Estado. O governador hospedara-o com distinção, julgando-o digno da hospedagem pela confiança que aparentava merecer a Manique, e conhecimento, que tinha, da causa misteriosa por que Francisco Salter devia, a todo o custo, ser retido no Rio de Janeiro, sob qualquer pretexto.
Uma hora depois deste sucesso, cujas consequências não surprenderam o imprudente moço, o capitão da real brigada foi chamado à presença do governador, e interrogado acerca dos motivos que lhe dera Luís José Godinho para tamanha ferocidade, em sua própria casa, que deve ser asilo sagrado até para inimigos, quando se é cavalheiro. Mendonça, enfadado pelo ar supercilioso do interrogatório, respondeu que fosse inquirido em sua presença o ofendido, que era essa a praxe da lei.
O governador espinhou-se, e mandou recolher à cadeia o oficial, para ser entregue aos juízes do crime.
Francisco Salter de Mendonça não grangeara amigos nem protetores no Rio de Janeiro. O seu viver fora íntimo e só, fora do serviço. Entretinha-o, na soledade, a amargura.
A justiça ouviu com sobrecenho a defesa do jovem oficial, e achou a justificação inferior ao delito. Godinho negava ter confessado o embuste para que viera comissionado pelo ajudante do intendente geral da polícia. Os magistrados, porém, convictos de que o ofendido era pessoa bemquista de Manique, patrono de alguns, e amigo de outros, negaram ao preso, em último recurso, o direito de se defender de um estoque.
Mendonça escreveu para o reino; mas Godinho voltara, são e correcto das costelas, no paquebote em que vinham as cartas: quem as viu e queimou foi o bacharel Sampayo.
A situação do amante de Carlota Ângela era extremamente infeliz.
Ao cabo de quatro meses de cárcere, sem novas do reino, nem absolvição da culpa, perdera o ânimo e a esperança.
Já lhe não era lenitivo o escrever no seu diário, porque a dor, ao encadeiar-se na desesperação, seu derradeiro elo, quebrou no coração as cordas onde soava o gemido.
Depois veio a fúria, que contorce e despedaça, o impotente raivar contra os homens e contra Deus, a tentação do suicídio, combatida pela imagem de Carlota, mas de novo irritada, a cada navio que chegava, sem uma nova dela.
Mendonça tinha um amigo. Era um escravo alugado que o servia, um negro que lhe passava os alimentos, e chorava encostado aos ferros, porque não sabia consolá-lo.
Era o preto quem lhe trazia as cartas dos amigos do reino, ignorantes da sua prisão, e implorava aos juízes a liberdade do preso; alcançando apenas para si repelões desprezadores e, muitas vezes vergoadas de chibata sobre as lágrimas.
O escravo oferecera-se a Mendonça para vir a Portugal com cartas. Esta vinda seria uma fuga, porque o dono do preto, sem um deposito equivalente ao valor da coisa, não consentiria a sua saída, e Mendonça, desprovido de meios para a sua subsistência, não podia garantir com dinheiro a volta do escravo...
Conspirava tudo contra o desamparado moço. O proprietário do negro, receoso de perder o aluguer, visto que Mendonça lhe não pagara um mês, chamou a si o escravo. Francisco vendeu o que podia merecer o preço mensal do seu único amigo, e continuou a ver, perto de si, aqueles olhos reluzentes de lágrimas, lágrimas que lhe faziam bem ao coração, porque o mais desgraçado dos homens é o que não tem sequer por si o olhar compadecido de um cão.
Entretanto o escravo ideiara o arrojo de vir a Portugal, fugindo.
Trabalhava na difícil execução dessa traça, quando a escuna Guerra-voador chegou ao Rio de Janeiro com a nova de que o príncipe regente saíra de Portugal para estabelecer a corte naquele porto.
Foi o escravo quem primeiro levou esta nova ao cárcere.
Francisco Salter apertou a mão do negro e disse:
—Seremos ambos livres, meu amigo.