Capítulo XI
Pois ainda não ouvistes de seu valor o maior encomio.
José de Sousa (o cego). (Obras posthumas.)
Vereis amor da patria... etc.
Camões. (Lusiadas.)
Junot, a marchas forçadas, esperançoso ainda de obstar à saída da família real, ia sobre Lisboa. A regência desnorteou com a imbecilidade rara de que era dotada; a classe média, presumindo a tirania próxima, ainda quis debalde opôr um dique à invasão; mas a populaça, sedenta de anarquia, onde sevar temporariamente os vis instintos, remoinhava, alegre e entusiástica, rugindo como o tigre que fareja o sangue.
Joaquim Antônio de Sampayo foi, nessa época, a preexistencia dos grandes homens, das sumidades estadistas dos últimos vinte anos. Avaliando quanto difícil seria acertar com o caminho seguro na encruzilhada das perspectivas políticas, não preferiu algum, e aceitou-os todos como conducentes à prosperidade, quando a fortuna, filha da velhacaria, vem, de puro namorada, emendar as asneiras do seu predileto.
Sampayo lamentava com Manique o desamparo em que ficara o reino pela impolítica e precipitada fuga do príncipe regente. Incriminava com os fidalgos a cobardia de semelhante desaire para o país dos Pachecos e Albuquerques. Ouvia com aquiescência os murmúrios da nobreza contra a dinastia bragantina, murmúrios tímidos, que mais tarde se formularam numa vilipendiosa petição, requerendo ao usurpador um rei da sua escolha, e nomeadamente o general Junot, que comprara consciências tão degeneradas como a do conde da Ega, e do bispo do Porto, Antônio.
Com a classe média, Sampayo bociferava contra os franceses, e prometia sacrificar nas hecatombas da pátria a sua última pinga de nobre, generoso e patriótico sangue. Todavia, exhausto o fôlego das imprecações retumbantes, e acendida a flama do heroísmo nos peitos burguezes que se apinhavam nas praças, Sampayo, passando da iracúndia ao reflectido exame das circunstâncias, dizia que a sublevação popular seria um desatino sem proveito, um sacrifício de vidas e fazendas intempestivo e inglório para as quinas lusitanas. Sobre isto, vinham os conselhos de homem que privava no segredo dos destinos de Portugal, conselhos de paciência, de resignação, e, mais que tudo, de máxima prudência na entrada de Junot.
Relacionado com a plebe, em razão do seu ministério na intendência geral da polícia, o antigo advogado da rua de Santa Catarina insinuava-se nos grupos desordeiros e respondia com impertigamento de oráculo às perguntas desconchavadas que lhe faziam. Napoleão, dizia ele que não era o ímpio que se dizia. Napoleão, e os seus generais, não saqueavam as igrejas, nem arrombavam as portas dos conventos de freiras, nem violentavam a virtude das donzelas, nem atentavam contra a liberdade do povo. Pelo contrário—continuava ele, baixando cada vez mais a voz, e relanceando o olho observador por sobre as fisionomias suspeitas que chegavam de novo—pelo contrário, Napoleão queria mudar a face das coisas em favor das classes oprimidas, chamando o povo à partilha dos regalos e direitos que a classe nobre lhes viera usurpando pouco e pouco através dos séculos. Dito isto, o povo rompia em vivas a Napoleão, e aclamava general o doutor Sampayo, que se esgueirava surrateiramente pela primeira brecha que a agitação lhe proporcionasse.
Dali, ia à intendência dizer a Manique o fermento que azedava os rasteiros instintos da canalha. Alvitrava o emprego da força armada para dispersar os bandos, com prudência; e, compungido de patriótica lástima, deplorava o indiscreto arbítrio dos palacianos que aconselharam ao príncipe uma fuga tão calamitosa no instante em que o prestígio da nacionalidade estava na presença do soberano.
Fora nomeada uma deputação para cumprimentar Junot. Além dos expressamente enviados pela regência, Joaquim Antônio de Sampayo associou-se na deputação com alguns particulares, que se davam pressa em depôr aos pés do invasor a porção infame do país que eles representavam.
O ajudante do intendente arremedava a língua francesa, e fazia-se entender melhor que o deputado da regência, o tenente-general Martinho de Sousa e Albuquerque.
Junot, em Sacavem, chamou Sampayo a uma conferencia particular, e informou-se de coisas que a deputação não elucidava por astúcia, ou por ignorância da língua. O certo é que o general francês, maravilhado do bonapartista, ou da torpeza do informador, julgou-o necessário, agradeceu-lhe com um aperto de mão os serviços prestados ao reformador da Europa, e prometeu-lhe acrescentá-lo, quanto em si coubesse, em honras e fazenda.
Chegados a Lisboa, as proclamações que circulavam entre a populaça eram de Sampayo. Nelas se aquietava o espírito público, dizendo-se que o excelentíssimo senhor Andoche Junot, herói de Toulon e de Nazaré, era o emissário da paz, da ordem, e da prosperidade portuguesa; que a propriedade era sagrada para o exército do imperador da França; que a virtude das virgens, e das menos suspeitas desse respeitável estado, era inviolável; que ninguém fugisse de suas casas, nem viesse para a rua fazer assuadas, algazarras, ou outras que tais manifestações de desordem e descontentamento.
O bacharel Sampayo ajudara, na véspera do embarque da família real, a encaixotar as pratas da patriarcal, que deviam acompanhar os reais emigrados. A celeridade, porém, do embarque, fez que os quatorze carros de preciosos objetos ficassem no cais de Belém, e voltassem, com grande júbilo do cabido, a serem armazenados na sacristia da igreja. Sampayo, enquanto se encaixavam as riquissimas bandejas, castiçais, corôas, lâmpadas, etc., resistira heroicamente aos assaltos da ladroíce, que lhe estavam segredando o modo de empalmar algumas peças miúdas de preciosíssimo trabalho. Pôde sopear a tentação; mas não via, sem grande mágoa, confiar-se aos caprichos do oceano uma carga tão valiosa. Um tal ou qual alívio o desoprimiu da sua pena, quando viu ficarem em terra os carros, e voltarem depois a despejarem a prata sob o teto protetor da sua igreja. Sampayo, a propósito disso, asseverou às freiras de Santa Ana, onde almoçava todos os dias, que andava ali milagre naquela reconducção! Não acreditava ele, porém, que o milagre fosse perfeito e averiguado, enquanto um bom quinhão daquela prata não entrasse em casa dele. Convencido do «trabalha, que eu te ajudarei», o bacharel concorreu quanto em si cabia para que o milagre se completasse.
O processo não deixa de ser engenhoso: «engenho» é a palavra com que a civilização, ainda então embrionaria, substituiu a palavra «ladroeira» dos costumes, das biografias, e das ações humanas, que, por força do progresso, hão de ir perdendo a nomenclatura áspera e ilógica que lhe davam os góticos moralistas de carcomida memória.
O engenhoso Sampayo (diga-se assim de um homem que merece o respeito que se presta aos contemporâneos, apesar do seu atrazo de meio século), o engenhoso bacharel pediu uma audiência particular a Junot, e denunciou-lhe a existência de quarenta caixões de prata na igreja patriarcal.
Junot chamou seu cunhado, que por sinal se chamava Jufre, e cometeu-lhe o encargo de sequestrar a prata, associado ao serviçal e benemérito denunciante.
Os dois, com alguns operários de confiança de Sampayo, entraram na igreja, fecharam-se cautelosamente, e arrombaram os caixões, exceto dois, que não foram inventariados, ou o denunciante se encarregou de os inventariar em sua casa, para onde foram transportados, ao escurecer.
Completou-se desta arte o milagre, que Sampayo, em beatifico extasi, agradeceu toda a noite, contemplando uma a uma as formosas e corpulentas peças que tencionava fundir em baixela de seu serviço, quando melhores dias de ordem e tranquilidade fossem concedidos ao desgraçado Portugal, que ele continuava a prantear com as freirinhas de Santa Ana.
Dera-se, entretanto, o costumado reviramento na opinião da plebe.
Junot não sabia, não podia, nem devia esconder as suas intenções usurpadoras.
A bandeira francesa fora arvorada no Castelo de S. Jorge. As armas reais do arsenal foram picadas. Do parapeito do seu camarote abaixo, Junot desenrolara as águias vencedoras. As costas populares, numa desordem do Terreiro do Paço, tinham sido apalpadas pelas cronhas francesas. Nove portugueses tinham sido espingardeados nas Caldas.
Dissolvida, em suma, a regência, fora inaugurado o governo de Napoleão.
A populaça, portanto, bramia, e sobretudo, porque a sua força era nula, o seu poder desprezado, a sua fome e sede cada vez mais insaciável pela careza dos gêneros. Havia um só meio de entreter-lhe as sanhas, ou captar-lhe as simpatias: era quebrar os poucos esteios da ordem, defendidos ainda pelas armas francesas, era facilitar o saque por meio da anarquia.
A plebe, quando lobrigava Sampayo, cercava-o, pedindo-lhe conta das promessas que ele fizera. O expedito bacharel desfazia-se dos importunos, recomendando-lhes paciência, e esperança nos serenos dias que se haviam de seguir à crise indispensável numa instituição de princípios novos, criada expressamente para o bem geral.
O povo ouvia-o com escárnio, e apupava-o, quando ele abria com os ombros passagem para escapar-se.
Uma vez, porém, passava o bacharel na rua da Amendoeira, onde, por esses tempos, se arruava a escoria das meretrizes, e se abandoavam os condignos hospedes. Conheceram-o, e fizeram-lhe assuada.
Um gaiato de maus fígados, instigado pela celeuma, saltou ao costado do bacharel, e enterrou-lhe, com retumbante penantada, o chapéu até aos queixos. A gargalhada pública victoriou o garoto, incitando-o a maiores empresas, e aguçando o estimulo dos emulos. Outro gaiato, cioso dos aplausos, capeava-o pela frente com um lenço vermelho de uma meretriz, enquanto um terceiro, um quarto e um quinto lhe achatavam o chapéu, que já não podia restaurar o antigo prumo. Uma alcouceira lançava-lhe ao tiracolo uma restea esbrugada de alhos, enquanto outra lhe metia na portinhola da casaca, uma couve lombarda. Esta por um tubo de lata lhe assoprava feijões à cara, enquanto outra lhe pendurava um rabo-leva de papel na casaca, ou lhe esguichava fétidas aspersões com a seringa carnavalesca.
Sampayo gritava por socorro. Alguns soldados portugueses e espanhóis, que por ali estanciavam, mantinham a neutralidade, ou riam à socapa do infeliz gêbo. O bacharel, vendo passar uma guarda de soldados franceses, bradou ao comandante, dizendo-lhe em francês que era vítima da canalha, porque adorava Napoleão.
O francês varejou com a espada as costas dos gaiatos; porém, as rameiras, o povo, os gaiatos, animados pelos soldados portugueses e espanhóis, fizeram menção de apedrejar os franceses. Travou-se uma sanguinolenta desordem, à qual Sampayo deveu a evasiva.
A cólera não lhe deu respiro, até entrar no palácio de Junot. Queixou-se amargamente, dizendo que os amigos da França eram as primeiras vítimas dos inimigos do imperador, num país de que Junot brevemente seria o monarcha.
O governador de Portugal enviou Sampayo ao intendente geral da polícia Lagarde, com especial recomendação, e poderes discricionários.
Dos soldados portugueses, alguns foram lançados na enxovia, outros deportados, e as meretrizes da rua da Amendoeira, rua Suja, e imediatas, depois de rapadas à navalha, e vergastadas no pátio da intendência, foram desterradas para o Alentejo.
Parece-nos oportuna neste logar essa página ridícula da biografia de um homem, que merecia ter mais ampla crônica, em vista do trágico desfecho que no próximo capítulo se dirá.