Capítulo XII
Nous en avons les preuves irrécusables sous nos propres yeux.
Volney. (Leçons d'Histoire.)
Eis-aqui como o diabo os leva para o inferno sem appellação nem aggravo.
S. S. da S. e Silva. (Governo do mundo em secco.)
Junot recebera do imperador a graça de duque de Abrantes. Felicitaram-o as corporações civis e militares, e muitos particulares da alta nobreza, mercancia que o francês fizera sem blandícias nem razões de Estado persuasivas. A consciência destes miseráveis transigira com o renegar tradições, nome, pátria, pudor, e honra, logo que as palavras «contribuição e confisco» os ameaçou de expiarem na dureza das nobres privações a repleção estomacal de séculos. O conde da Ega, Ayres de Saldanha, o bispo do Porto, o principal Miranda, e outros que mais avultam na veniaga torpe, são uma parcela no rebanho das ovelhas tinhosas, imoladas na sua dignidade aos pés do soldado aventureiro, que lhes cuspira na cara o preço das almas, e nas quinas portuguesas a afronta deles.
Enquanto estes, envilecidos como nunca fora nação usurpada, pediam a Napoleão um rei francês, e nomeadamente Junot I para a terra de D. João I e D. Manoel; enquanto os fidalgos de sangue fenício, cartaginês, suevo e godo, sem mescla do judaico, requeriam a Junot os empregos desamparados por outros fidalgos, que acompanharam o regente para o Brasil, aterrados de pavor, e, como ele, acocorados ao pé das velhas açafatas de D. Maria I; quem eram os portugueses de consciência e esforço nesta nação desmembrada, nesta metrópole de tamanha parte do mundo, oferecida pelos netos dos que a conquistaram a um soldado francês?
Alguns ergueram a fronte, sem o ferrete da venda, por entre a turba dos nobres, que a devassidão herdada enfraquecera e deixara cair no tremedal donde o historiador severo há de buscá-los para os inscrever no livro dos paroxismos vergonhosos da raça de piratas, que pouco tempo logrou o fruto dos seus flagícios.
Esses, que levantaram o rosto sem mancha, para saudar no trono reerguido o degenerado neto do Mestre da Aviz, eram uma classe menos tímida que a do vulgacho, a mais quieta na sua obscuridade, a que fora, nos dois últimos séculos, pouco e pouco espoliada dos seus antigos foros municipais, a classe média, emfim, cuja importância na cidade delimitava-se a engrossar a veia da tesouro.
Foram esses homens, robustos de seiva e espíritos nacionais, os únicos que se concatenaram em reação, surda e tenacissima na opressão, contra os tiranos; foram esses os tributários liberais de fazenda e sangue à restauração duvidosa do trono, que lhes pediu, depois, com que reparar o antigo fausto; foram, para tudo dizer de um traço, foram eles os que nunca esmoreceram no resgate da terra cativa do Encelado, que quisera abarcar o mundo entre as duas extremidades da sua espada invencível, salpicada com o sangue de nações poderosas.
O bacharel Joaquim Antônio de Sampayo (é de quem o leitor supercilioso quer que se lhe fale, e da melhor vontade me dispensa de reflexões impertinentes, que me manda pôr de conserva para quando escrever um livro sério, grave, e reflectido, que ninguém há de comprar): o bacharel Joaquim Antônio de Sampayo vestiu-se à corte, de chapéu armado, espadim, meia de seda, e fivelas de prata. Disseram que estas fivelas tinham pertencido a um santo da patriarcal: isto parece-nos calúnia. Folheamos, e esgaravatamos o agiologio europeu, e não deparamos santo contemporâneo das fivelas. O historiador verídico rejeita, como Tácito na biografia dos grandes scelerados de Roma, as toardas de fantasia para infamar caracteres onde sobejam crimes provados para a execração universal. Desculpem a intumecencia do estilo, que a matéria não é tanto de socó, como à primeira vista parece.
O duque de Abrantes recebeu afavelmente o bacharel, e, na presença dos fidalgos, que estendiam já a mão soberba ao ajudante do ex-intendente Manique, entregou-lhe a nomeação de juiz para um tribunal especial militar, criado no Porto por decreto de 9 de maio de 1808.
O fim ostensivo desta alçada era punir os perturbadores da segurança pública, nos variados delitos que a legislação do reino não previra.
A sentença deste tribunal era executada no prazo de vinte e quatro horas, sem revista ou apelação.
O bacharel agradecido caiu de joelhos aos pés do duque de Abrantes, que se dignou levantá-lo pela gola da casaca; os copos do faim, porém, travando-se na fivela do calção, rasgaram-lhe a meia na barriga da perna, abrindo fenda por onde regorgitou uma almofada suplementar à tíbia descarnada e cortante do atravancado palerma. Riu Junot, e os fidalgos riram também. Sampayo, ligeiramente corrido, arrancou o músculo de algodão, escorchou-o entre a mão nervuda, e pediu licença para ir remediar os estragos do espadim, que, no dizer mansinho do conde da Ega ao fidalgo imediato, só nas pernas postiças do seu dono faria tamanho estrago.
O juiz do tribunal militar partiu, no dia imediato, para o Porto, onde era preciso refrear os ânimos indomados dos portuenses.
Norberto de Meirelles contou de novo a seu cunhado o já dito em longa carta, que Sampayo não lera, acerca do noviciado de Carlota.
—Tudo se há de remediar, que temos muito tempo—disse o bacharel.—Em último caso, nunca ela há de alcançar licença regia para a profissão. Agora, do que se trata, é de me pôres a bom recado estes dois caixões de prata, que me foram confiados por um meu amigo que emigrou com o príncipe para o Brasil. Cuidado com isso, que estão aí alguns contos de réis, e eu fiz responsável a minha honra à entrega destes caixões, logo que o meu amigo volte com o favor de uma amnistia, que trato de lhe alcançar do meu particularissimo amigo duque de Abrantes.
—E que me diz o doutor a respeito do Sr. Junot?—disse Norberto de Meirelles—Pelos modos, ouvi dizer que ele já está despachado rei de Portugal!
—Isso tem seus fundamentos, cunhado. Eu e os meus amigos conde da Ega e Ayres de Saldanha trabalhamos para a sua aclamação.
—Então o cunhado é amigo desses governos lá da corte? Com efeito sempre lhe digo que o que o doutor não fizer, não o faz o deanho. Aquela de fazer ir o pintalegrete pela barra fora, custou carita, mas fez-se... Andou por oito mil cruzados que eu lhe mandei, doutor!
—E acha muito? Não foi o seu dinheiro que fez o milagre, foi a minha influencia. Não sei se sabe que Francisco Salter de Mendonça mexia na corte os pausinhos, e esteve por um triz a passar por cima do seu dinheiro e da minha influencia, e vir ao Porto tirar Carlota judicialmente!...
—Eu o arrenego! Se o berzabum morresse por lá, grande coisa era! Estou a recear que ele volte antes dela professar.
—Não receie, Norberto. O príncipe não volta mais a Portugal, e o tal marinha cá estou eu para lhe tolher o desembarque. Cartas dele, está tudo prevenido para que não chegue alguma às mãos de Carlota, e a esta hora está ele convencido de que ela casou.
—Homem, essa!... ó doutor, dou-lhe a minha palavra que estou pasmado da sua agencia! O cunhado é capaz de fazer com que ela esqueça o homem, e torne para a minha companhia! Faça isso, que lhe dou uma mula arreiada de novo para o cunhado dar os seus passeios ao Candal.
—Nada de susto, mano. Você não sabe o que são mulheres. A rapariga tem venêtas e caprichos; o acertado é deixá-la barafustar, e ela virá cá ter ao caminho das outras. De paixão ninguém morre; e, no convento, isso então digo-lhe eu que nunca se viu. Mulheres juntas dão tanto aos taramelos em coisas de amor, que lançam o amor pela boca fora, em logar dos fígados. Deixe-a lá estar à vontade, e dê-lhe a entender que o seu maior gosto neste mundo é vê-la freira. Nada de contradizê-la. Mulheres e crianças amuadas é deixá-las renhir. Se vocês começam a carpi-la, então não fico pelo resto.
—Então o doutor não vai lá tirar-lhe a tolice do miolo?!
—Não, senhor, não vou, é escusado lá ir, e se for é para lhe dizer que muito me agrada a sua resolução, e, ao mesmo tempo, elogiar com finura a liberdade do mundo, e pintar-lhe com cores tristes o jugo do convento. Assim é que se levam as mulheres, Sr. Norberto, e, se elas têm a soberba de Carlota, então nada de disputar. A astúcia manda dizer com elas, até as fazer passar à contradicção, porque a harmonia é impossível em índoles orgulhosas.
—Oh doutor! o senhor tem uma lábia que revira a gente! Homem, eu estou a dar-lhe razão! Parece-me que o melhor é isso! Está dito! deixemô-la lá com a mania, e diga-se-lhe que faz muito bem. Vou dizer tudo isso à minha Rosália; mas, antes que me esqueça, cunhado, esta coisa de governo está segura?
—Segurissima.
—É que eu tenho alguns valores, que queria acautelar para o que desse e viesse.
—Não tenha susto; mas tanto faz ter o seu dinheiro na burra, como debaixo da terra. Sabe o que há de fazer? Pegue no seu dinheiro, e nos meus caixões de prata, e vá enterrá-los na adega do Candal. Eu tenho mais medo à canalha nacional que aos soldados de Napoleão. Quando correu na capital que s. exc.ª o Sr. governador ia dar a Lisboa a saque, saíram para as praças as turbas da gentalha portuguesa, esperando a hora do assalto. Destes é que eu tenho medo, e por isso sou de parecer que se acautele o nosso precioso, com suma prudência. O Candal é bom sítio, porque fica arredado da estrada. Ponto está que o mano encarregue o serviço de enterrar os caixões a pessoa fiel, que não denuncie o escondedouro.
—Não me fio em ninguém, cunhado. Quem há de enterrar esse todo-nada de dinheiro que por aí está, e mais os caixotes de prata, hei de ser eu, se Deus quiser.
Assentiram nisto, e, logo no dia imediato, Norberto de Meirelles pôs mãos à obra, com o auxílio de sua mulher e cunhado. Fez-se o transporte para o Candal com disfarce. Os caixões saíram de noite, e os conductores, depondo-os no quinteirão da quinta, não poderiam malsinar o local do enterro, se alguma vez, feitos com os salteadores, tentassem esquadrinhá-lo.
Norberto de Meirelles, auxiliado por D. Rosália e o proprietário das pratas da patriarcal, enterrou os caixotes debaixo da dorna do lagar, e ficou assim desafrontado dos sustos que lhe traziam o ânimo oprimido, desde que Francisco Salter de Mendonça lhe presagiara um possível assalto ao seu dinheiro.
Sampayo, atarefado com o julgamento dos réus processados no tribunal de que ele era juiz inconfidente, só teve ensejo de visitar Carlota, um mês depois da sua chegada. Encontrou-a na grade com a mãe, que de propósito preparara este encontro, porque sua filha houvera mostrado repugnância em receber a visita do tio.
O bacharel, conforme com os seus ardis, expostos ao cunhado, começou por louvar e abençoar a acertada resolução de sua sobrinha, exaltando os merecimentos de uma boa religiosa, e aconselhando-a com sãs doutrinas preventivas contra as tentações do demônio, acérrimo inimigo dos votos claustrais.
Carlota ouviu-o com aprazimento, e D. Rosália com enfado. A boa senhora não comprehendia a esperteza de seu irmão, e confrontando-a com a estupidez de seu marido, dava tanto pela bondade de um como pela do outro. Foi-lhe à mão com as suas razões cem vezes repetidas à filha. Chorou copiosamente, pedindo ao irmão que desvanecesse a tenção de Carlota; e a esta, com ternas suplicas, implorava que saísse do convento, se não queria cedo ficar sem mãe.
Carlota respondeu que a perda de sua mãe lhe seria muito sensível; mas que estava deliberada a aceitar todas as mortificações que o Senhor lhe mandasse, com tanto que pudesse oferecer o coração espedaçado ajoelhada no altar, onde jurara votos de eterno sacrifício.
Joaquim Antônio de Sampayo, piscando o olho à irmã, louvava de novo a devoção de Carlota, e citava-lhe, como para acorçoá-la, quatro exemplos de santidade no convento de Santa Ana de Lisboa, onde ele almoçava, e contava os milagres da prata da patriarcal, salvo o último.
Carlota, saíndo da grade, foi pedir a Deus perdão do ódio que tinha a seu tio. Soror Rufina, confidente desta ruim paixão, orou com ela, e penitenciou-a com o preceito duro de escrever a seu tio uma carta, em que lhe agradecesse, com humildade e amor, os paternais conselhos que lhe dera, e o aplauso com que a ajudava a defender-se das instâncias de seus pais.
O bacharel, maravilhado desta carta, modificou a sua opinião a respeito da sobrinha, e planisou uma nova traça para despersuadi-la. Qual ela fosse, não sabemos nós, porque não houve tempo para executá-la.
Sampayo exerceu as funções do juizado quatro meses, e foi despachado juiz de fora para uma pingue comarca do Minho. A causa desta mudança, ingrata ao despachado, explicou-a ele como grandemente honrosa para si, dizendo que a moderação das suas sentenças desagradara ao governo. O governo, porém, dizia que o venal juiz riscava das denuncias os nomes que representavam réus dinheirosos, de quem recebia, com maior ou menor recato, avultosas quantias.
Partiu para a sua comarca o juiz de fora, recomendando ao cunhado que vigiasse os caixotes da prata, cujo descaminho viria a ser causa da sua desonra. Por essa ocasião, entregou-lhe um caixãosinho suplementar aos outros, que constava de uma duzia ou pouco mais de contos de réis, de seus ordenados e propinas, e mercês dos benefícios que fizera caridosamente aos réus absolvidos no terrível tribunal.
Dispensam-nos de boa vontade a história sabida dos decorridos sucessos que expulsaram os franceses do território português. É certo que o juiz de fora de ***, Joaquim Antônio de Sampayo, ingrata criatura de Junot, pôs luminárias quando soube que o exército francês recuava ao exército aliado. Proclamou aos povos comarcãos, chamando às armas, e incitando os frades a que prégassem o ódio contra Napoleão, e prometessem indulgencia plenária, e salvação segura a todos os que morressem na defesa do seu legítimo príncipe, e dos augustos foros da religião católica-apostólica-romana.
O bispo do Porto, presidente da junta, e renegado como ele, simpatizou com as manhas do juiz de fora, e nomeou-o, provisoriamente, corregedor da comarca onde estava servindo.
Entra, porém, o general Soult as mal defezas raias do reino, e chega a Braga a artilheria de Laborde. Sampayo medita seriamente na sua situação, e, apasiguando os ânimos das turbas com discursos acerca da inutilidade da resistência, resolve ir ao encontro do general Lorge, que marchava contra a vila onde ele exercia a suprema autoridade.
Diz-lhe que íntimas relações o prenderam a Junot e Lagarde, exulta com a volta dos franceses, e faz acender o resto das torcidas das luminárias à entrada do general francês. As guerrilhas, porém, queriam resistir, e os chefes emprasavam o corregedor para lhes dar conta da sua apostasia, mais tarde. Sampayo, receando-se daqueles caudilhos, denunciou os principais ao seu hóspede Lorge, e fez que dois fossem espingardeados diante da sua aposentadoria, simulando, ao mesmo tempo, amargo pesar de acontecimento tão funesto.
Retirou o general para ocupar outro ponto; mas a pedido do corregedor, deixou uma numerosa guarnição à terra.
O general Botelho estanciava nas imediações da vila, e investiu com o presidio, que fugira rechaçado e mal ferido do encontro. Sampayo queria fugir com ele, sobre o Porto, para onde convergiam os diferentes chefes do exército invasor. Demorou-se, porém, um quarto de hora, carregando os baús da sua bagagem, onde avultavam preciosidades que soubera esbulhar à comarca sob os mil pretextos fáceis ao seu engenho.
Esta demora foi-lhe fatal. Era tarde para fugir. Refletiu um instante, em lance tão apertado, e saiu a lume com uma ideia, da qual esperava a sua salvação.
Mandou tocar imediatamente os sinos das igrejas, foi ele próprio, bradando vivas ao príncipe, espertar o ânimo perplexo dos moradores da terra, e recrutar garotos para repicarem os sinos.
Este expediente era já um destino da desesperação, uma loucura, que devia ter o resultado que teve. Joaquim Antônio de Sampayo viu-se rodeado de povo, e este povo pedia a cabeça do corregedor, sobrelevando à vozeria os gritos da parentela dos caudilhos que tinham sido espingardeados à ordem do general Lorge.
O chefe das forças portuguesas ocorreu neste momento aflitivo. O corregedor ajoelhou de mãos erguidas, pedindo-lhe a salvação.
Um do povo, que parecia ser o mais auctorisado, contrariou as suplicas do corregedor, contando ao general as façanhas. Botelho ouviu com atenção, e exclamou com serenidade:
—Enforquem-o já, que é o mais seguro.
Mais de um leitor maior de sessenta anos está recordando, neste momento, a cabeça de comarca, na província do Minho, onde foi enforcado um corregedor.
Se se lembra, saiba que o fatal triangulo foi erguido para Joaquim Antônio de Sampayo. Aí perneou esse homem de grandes espíritos, que veio cedo de mais para morrer ministro de Estado.
Rezemos-lhe por alma, mas duvide-se do aproveitamento dos sufrágios. É de fé que o taumaturgo das pratas da patriarcal caiu da forca ao inferno, onde o tortura a desesperação de ver como cá em cima andam nédios e honrados alguns que o sobrepujaram em amor da pátria, amor do próximo, e abnegação do alheio.
Joaquim Antônio de Sampayo nascera em 5 de janeiro de 1752. Trapaceara o direito e a justiça por espaço de trinta anos, nos auditórios do Porto. Entrara com fortuna próspera na carreira das honras aos cinquenta e seis anos.
Revelara, ainda que tardio, um espírito sobre-excelente para engrandecer-se, e refletir na sua família as honras merecidas à custa de infâmias necessárias para se ser alguma coisa numa terra, onde Duarte Pacheco e Camões tiveram fome. Mal tinha dado os primeiros passos propícios, atalhou-o uma morte feia aos 23 de março de 1809.
Piamente cremos que os santos da patriarcal de Lisboa, esbulhados de seus adornos, lhe urdiram este afrontoso traspasse.
Como quer que seja, homens tais, diz uma epigrafe deste capítulo, que os leva o diabo. Levará, não duvido; mas, se lanço os olhos em redor de mim, afigura-se-me que o diabo leva uns, e traz outros.