A fixação da crença Semiótica: escritos fundamentais · Capítulo 5 de 14
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A fixação da crença

I.

Poucas pessoas se interessam por estudar lógica, pois todos se julgam já suficientemente proficientes na arte de raciocinar. Observo, porém, que essa satisfação se limita ao próprio raciocínio e não se estende ao dos outros.

De todas as nossas faculdades, a capacidade de tirar inferências é a última de que chegamos a ter pleno domínio, pois ela é menos um dom natural do que uma arte longa e difícil. A história de sua prática daria um magnífico assunto para um livro. Os escolásticos medievais, seguindo os romanos, faziam da lógica o primeiro estudo de um menino depois da gramática, por considerá-la muito fácil. E assim era, tal como a entendiam. Seu princípio fundamental, segundo eles, era que todo conhecimento repousa na autoridade ou na razão; mas que tudo quanto se deduz pela razão depende, em última análise, de uma premissa derivada da autoridade. Assim, tão logo um menino dominasse perfeitamente o procedimento silogístico, considerava-se completo seu conjunto de instrumentos intelectuais.

Para Roger Bacon, aquele espírito notável que, em meados do século XIII, era quase um homem de ciência, a concepção escolástica do raciocínio parecia apenas um obstáculo à verdade. Ele percebeu que só a experiência ensina alguma coisa — proposição que nos parece fácil de compreender porque recebemos das gerações anteriores uma concepção distinta da experiência; e que também lhe parecia perfeitamente clara porque suas dificuldades ainda não se haviam revelado. De todas as espécies de experiência, a melhor, pensava ele, era a iluminação interior, que ensina muitas coisas acerca da natureza que os sentidos externos jamais poderiam descobrir, como a transubstanciação do pão.

Quatro séculos depois, o Bacon mais célebre, no primeiro livro de seu Novum Organum, apresentou sua clara descrição da experiência como algo que deve estar aberto à verificação e ao reexame. Mas, por superior que seja a concepção de lorde Bacon às noções anteriores, o que mais impressiona um leitor moderno que não se deixe intimidar por sua grandiloquência é a insuficiência de sua visão do procedimento científico. Que bastaria fazer alguns experimentos rudimentares, redigir resumos dos resultados em certos formulários, examiná-los segundo regras, riscando tudo o que fosse refutado e anotando as alternativas, e que assim, em poucos anos, a ciência física estaria concluída — que ideia! “Escreveu sobre a ciência como um lorde chanceler”, de fato.

Os primeiros cientistas, Copérnico, Tycho Brahe, Kepler, Galileu e Gilbert, tinham métodos mais semelhantes aos de seus colegas modernos. Kepler empreendeu traçar uma curva que passasse pelas posições de Marte;[^1] e seu maior serviço à ciência foi incutir nos homens a ideia de que era isso o que se devia fazer, caso desejassem aperfeiçoar a astronomia; que não deviam contentar-se em indagar se um sistema de epiciclos era melhor do que outro, mas debruçar-se sobre os números e descobrir qual era, de fato, a curva. Conseguiu-o graças à sua energia e coragem incomparáveis, avançando aos tropeços da maneira mais inconcebível para nós, de uma hipótese irracional a outra, até que, depois de experimentar vinte e duas delas, chegou, pelo mero esgotamento de sua inventividade, à órbita que uma mente bem provida das armas da lógica moderna teria experimentado quase desde o início.

Da mesma forma, toda obra científica suficientemente importante para ser lembrada por algumas gerações oferece algum exemplo do estado imperfeito da arte de raciocinar na época em que foi escrita; e cada grande avanço da ciência tem sido uma lição de lógica. Assim aconteceu quando Lavoisier e seus contemporâneos se dedicaram ao estudo da química. A máxima do antigo químico era: “Lege, lege, lege, labora, ora, et relege”. O método de Lavoisier não consistia em ler e rezar, em sonhar que algum processo químico longo e complicado produziria certo efeito, em pô-lo em prática com uma paciência obtusa, em sonhar, depois de seu inevitável fracasso, que, com alguma modificação, ele produziria outro resultado, e em terminar publicando o último sonho como um fato: seu modo de proceder era levar a mente para o laboratório e fazer de seus alambiques e cucúrbitas instrumentos de pensamento, oferecendo uma nova concepção do raciocínio como algo que se deve fazer de olhos abertos, manipulando coisas reais em lugar de palavras e fantasias.

A controvérsia darwiniana é, em grande parte, uma questão de lógica. O sr. Darwin propôs aplicar o método estatístico à biologia. O mesmo já havia sido feito num ramo muito diferente da ciência, a teoria dos gases. Embora não pudessem dizer quais seriam os movimentos de uma molécula particular de um gás sob determinada hipótese acerca da constituição dessa classe de corpos, Clausius e Maxwell puderam, pela aplicação da doutrina das probabilidades, prever que, a longo prazo, tal ou qual proporção das moléculas adquiriria, em determinadas circunstâncias, tais ou quais velocidades; que a cada segundo ocorreria tal ou qual número de colisões etc.; e, dessas proposições, puderam deduzir certas propriedades dos gases, sobretudo no que diz respeito às suas relações térmicas. De maneira semelhante, Darwin, embora não possa dizer qual será a operação da variação e da seleção natural em qualquer caso individual, demonstra que, a longo prazo, elas adaptarão os animais às suas circunstâncias. Se as formas animais existentes se devem ou não a essa ação, ou que posição a teoria deve ocupar, é o assunto de uma discussão na qual questões de fato e questões de lógica se entrelaçam curiosamente.

II.

O objetivo do raciocínio é descobrir, pela consideração daquilo que já sabemos, alguma outra coisa que não sabemos. Por conseguinte, o raciocínio é bom se é capaz de fornecer uma conclusão verdadeira a partir de premissas verdadeiras, e não de outro modo. Assim, a questão de sua validade é puramente uma questão de fato, e não de pensamento. Sendo A as premissas e B a conclusão, a questão é saber se esses fatos estão realmente relacionados de tal modo que, se A se verifica, B também se verifica. Se assim for, a inferência é válida; se não, não. Não se trata, de modo algum, de saber se, quando as premissas são aceitas pela mente, sentimos um impulso para aceitar também a conclusão. É verdade que, em geral, raciocinamos corretamente por natureza. Mas isso é um acidente; a conclusão verdadeira continuaria verdadeira se não tivéssemos impulso algum para aceitá-la; e a falsa continuaria falsa, ainda que não pudéssemos resistir à tendência de acreditar nela.

Somos, sem dúvida, animais em grande parte lógicos, mas não o somos perfeitamente. A maioria de nós, por exemplo, é naturalmente mais otimista e esperançosa do que a lógica justificaria. Parecemos constituídos de tal maneira que, na ausência de quaisquer fatos em que nos apoiar, ficamos felizes e satisfeitos conosco mesmos; de modo que o efeito da experiência é restringir continuamente nossas esperanças e aspirações. No entanto, uma vida inteira de aplicação desse corretivo não costuma erradicar nossa disposição otimista. Onde nenhuma experiência refreia a esperança, é provável que nosso otimismo seja extravagante. A logicidade em questões práticas é a qualidade mais útil que um animal pode possuir e poderia, portanto, resultar da ação da seleção natural; mas, fora dessas questões, provavelmente é mais vantajoso para o animal ter a mente repleta de visões agradáveis e encorajadoras, independentemente de sua verdade; e assim, em assuntos sem caráter prático, a seleção natural poderia ocasionar uma tendência falaciosa do pensamento.

O que nos determina, a partir de certas premissas, a tirar uma inferência em vez de outra é algum hábito da mente, seja ele próprio de nossa constituição ou adquirido. O hábito é bom ou não conforme produza ou não conclusões verdadeiras a partir de premissas verdadeiras; e uma inferência é considerada válida ou não sem referência específica à verdade ou à falsidade de sua conclusão, mas conforme o hábito que a determina seja ou não capaz de produzir conclusões verdadeiras em geral. O hábito particular da mente que governa esta ou aquela inferência pode ser formulado numa proposição cuja verdade depende da validade das inferências que o hábito determina; e tal fórmula recebe o nome de princípio condutor da inferência. Suponhamos, por exemplo, que observamos que um disco de cobre em rotação rapidamente para quando colocado entre os polos de um ímã, e inferimos que isso acontecerá com todo disco de cobre. O princípio condutor é que o que é verdadeiro de uma peça de cobre é verdadeiro de outra. Tal princípio condutor seria muito mais seguro a respeito do cobre do que a respeito de muitas outras substâncias — o latão, por exemplo.

Poder-se-ia escrever um livro para assinalar todos os mais importantes desses princípios condutores do raciocínio. Devemos admitir que ele provavelmente não teria utilidade alguma para uma pessoa cujo pensamento se dirigisse inteiramente a assuntos práticos e cuja atividade seguisse caminhos de todo conhecidos. Os problemas que se apresentam a tal mente são questões rotineiras com as quais ela aprendeu a lidar de uma vez por todas ao aprender seu ofício. Mas basta que um homem se aventure num campo desconhecido, ou num campo em que seus resultados não sejam continuamente verificados pela experiência, e toda a história mostra que o intelecto mais viril muitas vezes perderá a orientação e desperdiçará seus esforços em direções que não o aproximam de seu objetivo, ou que até o desviam inteiramente. Ele é como um navio em mar aberto sem ninguém a bordo que conheça as regras da navegação. E, em tal caso, algum estudo geral dos princípios condutores do raciocínio certamente se mostraria útil.

O assunto, porém, dificilmente poderia ser tratado sem antes ser delimitado, pois quase qualquer fato pode servir de princípio condutor. Acontece, contudo, que há uma divisão entre os fatos, de tal modo que numa classe estão todos os que são absolutamente essenciais como princípios condutores, enquanto nas outras estão todos os que têm qualquer outro interesse como objetos de pesquisa. Essa divisão separa aqueles que necessariamente se pressupõem ao perguntar se certa conclusão decorre de certas premissas daqueles que não estão implícitos nessa pergunta. Um instante de reflexão mostrará que diversos fatos já são pressupostos quando a questão lógica é formulada pela primeira vez. Está implícito, por exemplo, que existem estados da mente como a dúvida e a crença; que é possível passar de um ao outro, permanecendo o mesmo o objeto do pensamento; e que essa transição está sujeita a algumas regras às quais todas as mentes estão igualmente submetidas. Como esses são fatos que já devemos conhecer antes de podermos ter qualquer concepção clara do raciocínio, não se pode supor que ainda tenha muito interesse investigar sua verdade ou falsidade. Por outro lado, é fácil acreditar que as regras do raciocínio deduzidas da própria ideia do processo sejam as mais essenciais; e, de fato, que, enquanto se conformar a elas, ele ao menos não conduzirá a conclusões falsas a partir de premissas verdadeiras. Na verdade, a importância do que se pode deduzir dos pressupostos envolvidos na questão lógica revela-se maior do que se poderia supor, por razões difíceis de expor desde o início. A única que mencionarei aqui é que concepções que são, na realidade, produtos da reflexão lógica, embora não se reconheçam facilmente como tais, misturam-se aos nossos pensamentos comuns e são frequentemente causas de grande confusão. É o caso, por exemplo, da concepção de qualidade. Uma qualidade como tal nunca é objeto de observação. Podemos ver que uma coisa é azul ou verde, mas a qualidade de ser azul e a qualidade de ser verde não são coisas que vemos; são produtos da reflexão lógica. A verdade é que o senso comum, ou o pensamento tal como primeiro emerge acima do nível estritamente prático, está profundamente impregnado daquela má qualidade lógica à qual se aplica comumente o epíteto metafísica; e nada pode esclarecê-lo senão um rigoroso curso de lógica.

III.

Em geral, sabemos quando desejamos fazer uma pergunta e quando desejamos pronunciar um juízo, pois há uma diferença entre a sensação de duvidar e a de crer.

Mas isso não é tudo o que distingue a dúvida da crença. Há uma diferença prática. Nossas crenças orientam nossos desejos e moldam nossas ações. Os Assassinos, ou seguidores do Velho da Montanha, costumavam precipitar-se para a morte à sua menor ordem, porque acreditavam que a obediência a ele lhes asseguraria a felicidade eterna. Se tivessem duvidado disso, não teriam agido como agiram. Assim acontece com toda crença, segundo seu grau. O sentimento de crer é um indício mais ou menos seguro de que se estabeleceu em nossa natureza algum hábito que determinará nossas ações. A dúvida nunca tem tal efeito.

Tampouco devemos deixar de observar um terceiro ponto de diferença. A dúvida é um estado de inquietação e insatisfação do qual lutamos por nos libertar e passar ao estado de crença; este, por sua vez, é um estado calmo e satisfatório que não desejamos evitar nem trocar pela crença em qualquer outra coisa.[^2] Ao contrário, apegamo-nos tenazmente não apenas a crer, mas a crer precisamente naquilo em que cremos.

Assim, tanto a dúvida quanto a crença produzem efeitos efetivos sobre nós, embora muito diferentes. A crença não nos faz agir de imediato, mas nos põe numa condição tal que nos comportaremos de certa maneira quando surgir a ocasião. A dúvida não tem o menor efeito dessa espécie, mas nos estimula à ação até ser destruída. Isso nos lembra a irritação de um nervo e a ação reflexa por ela produzida; quanto ao análogo da crença no sistema nervoso, devemos procurá-lo no que se chama de associações nervosas — por exemplo, naquele hábito dos nervos em consequência do qual o cheiro de um pêssego nos faz salivar.

IV.

A irritação da dúvida provoca uma luta para alcançar um estado de crença. Chamarei essa luta de investigação, embora se deva admitir que, às vezes, essa designação não é muito apropriada.

A irritação da dúvida é o único motivo imediato da luta para alcançar a crença. É certamente melhor para nós que nossas crenças sejam tais que possam efetivamente orientar nossas ações de modo a satisfazer nossos desejos; e essa reflexão nos fará rejeitar qualquer crença que não pareça ter sido formada de maneira a assegurar esse resultado. Mas só o fará criando uma dúvida no lugar daquela crença. Com a dúvida, portanto, a luta começa, e com a cessação da dúvida ela termina. Daí que o único objetivo da investigação seja a fixação da opinião. Podemos imaginar que isso não nos basta e que buscamos não apenas uma opinião, mas uma opinião verdadeira. Ponhamos, porém, essa suposição à prova, e ela se mostrará infundada; pois, assim que alcançamos uma crença firme, ficamos inteiramente satisfeitos, seja a crença verdadeira ou falsa. E é claro que nada fora da esfera de nosso conhecimento pode ser nosso objetivo, pois nada que não afete a mente pode ser o motivo de um esforço mental. O máximo que se pode sustentar é que buscamos uma crença que julgaremos verdadeira. Mas julgamos verdadeira cada uma de nossas crenças e, de fato, dizê-lo é mera tautologia.

Que a fixação da opinião seja o único fim da investigação é uma proposição muito importante. Ela elimina de uma só vez diversas concepções vagas e errôneas acerca da prova. Algumas delas podem ser mencionadas aqui.

Alguns filósofos imaginaram que, para iniciar uma investigação, bastaria formular uma pergunta ou escrevê-la no papel, e chegaram a recomendar que começássemos nossos estudos questionando tudo! Mas o mero ato de pôr uma proposição na forma interrogativa não estimula a mente a nenhuma luta pela crença. É preciso haver uma dúvida real e viva; sem isso, toda discussão é ociosa.

É muito comum a ideia de que uma demonstração deve repousar em certas proposições últimas e absolutamente indubitáveis. Estas, segundo uma escola, são primeiros princípios de caráter geral; segundo outra, são primeiras sensações. Mas, na realidade, uma investigação, para alcançar aquele resultado inteiramente satisfatório chamado demonstração, só precisa partir de proposições perfeitamente livres de toda dúvida efetiva. Se as premissas de fato não são postas em dúvida de modo algum, não podem ser mais satisfatórias do que já são.

Algumas pessoas parecem gostar de discutir um ponto depois que todos já estão plenamente convencidos dele. Mas nenhum avanço adicional pode ser feito. Quando a dúvida cessa, a atividade mental sobre o assunto chega ao fim; e, se prosseguisse, não teria propósito.

V.

Se a fixação da opinião é o único objetivo da investigação, e se a crença tem a natureza de um hábito, por que não alcançaríamos o fim desejado escolhendo para uma pergunta qualquer resposta que nos agrade, reiterando-a constantemente para nós mesmos, detendo-nos em tudo o que possa favorecer essa crença e aprendendo a nos afastar, com desprezo e ódio, de tudo o que possa perturbá-la? Esse método simples e direto é realmente seguido por muitos homens. Lembro-me de certa vez me terem rogado que não lesse determinado jornal, receando que ele pudesse mudar minha opinião sobre o livre-comércio. “Para que eu não fosse enredado por suas falácias e afirmações inexatas” foi a expressão usada. “Você não é”, disse meu amigo, “um estudioso especializado em economia política. Poderia, portanto, ser facilmente enganado por argumentos falaciosos sobre o assunto. Se lesse esse jornal, poderia então ser levado a acreditar no protecionismo. Mas você admite que o livre-comércio é a doutrina verdadeira; e não deseja acreditar no que não é verdadeiro.” Muitas vezes vi esse sistema ser adotado deliberadamente. Mais frequentemente ainda, a aversão instintiva a um estado de indecisão mental, exagerada até se tornar um vago temor da dúvida, faz com que os homens se agarrem convulsivamente às opiniões que já têm. O homem sente que, se apenas se mantiver fiel à sua crença sem vacilar, ela será inteiramente satisfatória. Tampouco se pode negar que uma fé constante e inabalável proporciona grande paz de espírito. Ela pode, de fato, dar origem a inconvenientes, como no caso de um homem que continuasse resolutamente a acreditar que o fogo não o queimaria, ou que seria condenado eternamente se recebesse seus alimentos de outro modo que não por uma bomba gástrica. Mas o homem que adota esse método não admitirá que seus inconvenientes sejam maiores do que suas vantagens. Dirá: “Apego-me firmemente à verdade, e a verdade é sempre salutar”. E, em muitos casos, pode muito bem acontecer que o prazer que extrai de sua fé tranquila supere quaisquer inconvenientes decorrentes do caráter ilusório dela. Assim, se for verdade que a morte é aniquilação, então o homem que acredita que certamente irá direto para o céu ao morrer, desde que tenha cumprido certas observâncias simples nesta vida, desfruta de um prazer barato que não será seguido pela menor decepção. Uma consideração semelhante parece ter peso para muitas pessoas em assuntos religiosos, pois frequentemente ouvimos dizer: “Ah, eu não poderia acreditar em tal coisa, porque seria infeliz se acreditasse”. Quando um avestruz enterra a cabeça na areia ao se aproximar o perigo, é muito provável que escolha o caminho mais feliz. Oculta o perigo e então diz, calmamente, que não há perigo; e, se está perfeitamente seguro de que não há, por que levantaria a cabeça para olhar? Um homem pode atravessar a vida mantendo sistematicamente fora de vista tudo o que poderia provocar uma mudança em suas opiniões; e, se apenas conseguir fazê-lo — baseando seu método, como faz, em duas leis psicológicas fundamentais —, não vejo o que se possa dizer contra esse procedimento. Seria uma impertinência egoísta objetar que seu procedimento é irracional, pois isso equivale apenas a dizer que seu método de fixar a crença não é o nosso. Ele não se propõe a ser racional e, de fato, muitas vezes falará com desprezo da razão fraca e ilusória do homem. Deixemos, pois, que pense como lhe aprouver.

Mas esse método de fixar a crença, que podemos chamar de método da tenacidade, não conseguirá sustentar-se na prática. O impulso social se opõe a ele. O homem que o adota descobrirá que outros homens pensam de maneira diferente da sua, e é provável que, em algum momento de maior lucidez, lhe ocorra que as opiniões deles são tão boas quanto as suas; e isso abalará sua confiança na própria crença. Essa concepção de que o pensamento ou sentimento de outro homem pode equivaler ao nosso é um passo nitidamente novo e de grande importância. Ela nasce de um impulso forte demais no homem para ser suprimido sem o risco de destruir a espécie humana. A menos que nos tornemos eremitas, necessariamente influenciaremos as opiniões uns dos outros; de modo que o problema passa a ser como fixar a crença não apenas no indivíduo, mas na comunidade.

Que atue, então, a vontade do Estado em lugar da vontade do indivíduo. Que se crie uma instituição cujo objetivo seja manter as doutrinas corretas diante da atenção do povo, reiterá-las perpetuamente e ensiná-las aos jovens; que ela tenha, ao mesmo tempo, o poder de impedir que doutrinas contrárias sejam ensinadas, defendidas ou expressas. Que se afastem da percepção dos homens todas as possíveis causas de mudança de opinião. Que sejam mantidos na ignorância, para que não venham a conhecer alguma razão para pensar de maneira diferente da que pensam. Que suas paixões sejam mobilizadas, de modo que encarem com ódio e horror as opiniões particulares e incomuns. Que todos os homens que rejeitem a crença estabelecida sejam então aterrorizados até se calarem. Que o povo saia às ruas e cubra esses homens de alcatrão e penas; ou que se façam inquisições sobre a maneira de pensar de pessoas suspeitas e, quando forem consideradas culpadas de crenças proibidas, sejam submetidas a algum castigo exemplar. Quando não se podia alcançar de outro modo um acordo completo, um massacre geral de todos os que não pensavam de certa maneira mostrou-se um meio muito eficaz de fixar a opinião num país. Se faltar o poder para fazer isso, que se elabore uma lista de opiniões às quais nenhum homem com a menor independência de pensamento possa assentir, e que se exija dos fiéis a aceitação de todas essas proposições, a fim de segregá-los o mais radicalmente possível da influência do restante do mundo.

Desde os tempos mais remotos, esse método tem sido um dos principais meios de sustentar doutrinas teológicas e políticas corretas e de preservar seu caráter universal ou católico. Em Roma, especialmente, ele tem sido praticado desde os dias de Numa Pompílio até os de Pio IX. Esse é o exemplo mais perfeito da história; mas, onde quer que haja um sacerdócio — e nenhuma religião deixou de tê-lo —, esse método tem sido mais ou menos empregado. Onde quer que haja uma aristocracia, uma corporação de ofício ou qualquer associação de uma classe de homens cujos interesses dependam, ou se suponha que dependam, de certas proposições, encontrar-se-ão inevitavelmente alguns vestígios desse produto natural do sentimento social. As crueldades sempre acompanham esse sistema; e, quando ele é levado a cabo de modo coerente, elas se tornam atrocidades da espécie mais horrível aos olhos de qualquer homem racional. Isso tampouco deve causar surpresa, pois o representante de uma sociedade não se julga autorizado a sacrificar os interesses dessa sociedade por misericórdia, como poderia fazer com seus próprios interesses particulares. É natural, portanto, que a simpatia e o companheirismo produzam assim um poder implacável.

Ao julgar esse método de fixar a crença, que pode ser chamado de método da autoridade, devemos, em primeiro lugar, reconhecer sua imensurável superioridade mental e moral sobre o método da tenacidade. Seu êxito é proporcionalmente maior; e, de fato, ele tem produzido repetidas vezes os resultados mais majestosos. As simples construções de pedra que fez erguer — no Sião, por exemplo, no Egito e na Europa — possuem, muitas delas, uma sublimidade que as maiores obras da natureza pouco mais fazem do que igualar. E, excetuadas as épocas geológicas, não há períodos de tempo tão vastos quanto os medidos por algumas dessas crenças organizadas. Se examinarmos o assunto de perto, veremos que nenhum de seus credos permaneceu sempre o mesmo; contudo, a mudança é tão lenta que se torna imperceptível durante a vida de uma pessoa, de modo que a crença individual permanece sensivelmente fixa. Para a massa da humanidade, portanto, talvez não haja método melhor do que esse. Se seu impulso mais elevado é ser escrava intelectual, então deve permanecer escrava.

Mas nenhuma instituição pode encarregar-se de regular as opiniões sobre todos os assuntos. Só se pode cuidar das mais importantes; quanto às demais, as mentes dos homens devem ser deixadas à ação de causas naturais. Essa imperfeição não será fonte de fraqueza enquanto os homens estiverem num estado de cultura em que uma opinião não influencie outra — isto é, enquanto não conseguirem juntar dois e dois. Mas, mesmo nos Estados mais dominados pelo clero, encontrar-se-ão alguns indivíduos que se elevam acima dessa condição. Esses homens possuem uma espécie mais ampla de sentimento social; veem que homens de outros países e de outras épocas aderiram a doutrinas muito diferentes daquelas em que eles próprios foram educados a acreditar; e não podem deixar de perceber que foi o mero acaso de terem sido ensinados como foram e de terem vivido cercados pelos costumes e pelas relações que tiveram que os levou a crer como creem, e não de maneira muito diferente. E sua sinceridade não pode resistir à reflexão de que não há razão para atribuir maior valor às suas próprias opiniões do que às de outras nações e de outros séculos; e isso faz nascer dúvidas em suas mentes.

Perceberão ainda que dúvidas como essas devem existir em suas mentes a respeito de toda crença que pareça determinada pelo capricho deles próprios ou daqueles que deram origem às opiniões populares. A adesão obstinada a uma crença e sua imposição arbitrária aos outros devem, portanto, ser ambas abandonadas, e deve-se adotar um novo método de fixar opiniões, que não apenas produza um impulso para crer, mas também decida qual é a proposição em que se deve crer. Que a ação das preferências naturais se exerça, então, sem impedimentos, e que, sob sua influência, os homens, conversando entre si e considerando as questões sob diferentes perspectivas, desenvolvam gradualmente crenças em harmonia com causas naturais. Esse método se assemelha àquele pelo qual as concepções da arte chegaram à maturidade. Seu exemplo mais perfeito encontra-se na história da filosofia metafísica. Sistemas dessa espécie geralmente não repousaram em quaisquer fatos observados, ao menos não em grande medida. Foram adotados sobretudo porque suas proposições fundamentais pareciam “agradáveis à razão”. Essa é uma expressão apropriada; não significa o que concorda com a experiência, mas aquilo em que nos sentimos inclinados a acreditar. Platão, por exemplo, considera agradável à razão que as distâncias entre as esferas celestes sejam proporcionais aos diferentes comprimentos das cordas que produzem acordes harmoniosos. Muitos filósofos foram levados às suas principais conclusões por considerações como essa; mas essa é a forma mais baixa e menos desenvolvida que o método assume, pois é claro que outro homem poderia considerar mais agradável à sua razão a teoria de Kepler segundo a qual as esferas celestes são proporcionais às esferas inscritas e circunscritas nos diferentes sólidos regulares. Mas o choque das opiniões logo levará os homens a apoiar-se em preferências de caráter muito mais universal. Tomemos, por exemplo, a doutrina de que o homem só age egoisticamente — isto é, pela consideração de que agir de uma maneira lhe proporcionará mais prazer do que agir de outra. Ela não se apoia em fato algum do mundo, mas tem sido amplamente aceita como a única teoria razoável.

Esse método é muito mais intelectual e respeitável, do ponto de vista da razão, do que qualquer um dos outros que examinamos. Mas seu fracasso tem sido o mais manifesto. Ele faz da investigação algo semelhante ao desenvolvimento do gosto; o gosto, porém, infelizmente é sempre mais ou menos uma questão de moda e, por isso, os metafísicos nunca chegaram a qualquer acordo fixo, mas o pêndulo tem oscilado entre uma filosofia mais material e outra mais espiritual, desde os tempos mais remotos até os mais recentes. E assim somos levados daquilo que se chamou de método a priori àquilo que lorde Bacon denominou uma verdadeira indução. Examinamos esse método a priori como algo que prometia libertar nossas opiniões de seu elemento acidental e caprichoso. Mas o desenvolvimento, embora seja um processo que elimina o efeito de algumas circunstâncias casuais, apenas amplia o de outras. Esse método, portanto, não difere de maneira muito essencial do método da autoridade. O governo pode não ter movido um dedo para influenciar minhas convicções; posso ter sido deixado, exteriormente, inteiramente livre para escolher, digamos, entre a monogamia e a poligamia e, apelando apenas à minha consciência, posso ter concluído que esta última prática é, em si mesma, licenciosa. Mas, quando percebo que o principal obstáculo à difusão do cristianismo entre um povo de cultura tão elevada quanto a dos hindus tem sido a convicção de que nossa maneira de tratar as mulheres é imoral, não posso deixar de ver que, embora os governos não interfiram, os sentimentos, em seu desenvolvimento, serão em grande medida determinados por causas acidentais. Ora, há algumas pessoas, entre as quais devo supor que se encontra meu leitor, que, ao perceberem que alguma de suas crenças é determinada por qualquer circunstância alheia aos fatos, a partir desse momento não apenas admitirão verbalmente que tal crença é duvidosa, mas experimentarão uma dúvida real a seu respeito, de modo que ela deixará de ser uma crença.

Para resolver nossas dúvidas, portanto, é necessário encontrar um método pelo qual nossas crenças sejam causadas não por algo humano, mas por alguma permanência externa — por algo sobre o qual nosso pensamento não tenha efeito. Alguns místicos imaginam possuir tal método numa inspiração particular vinda do alto. Mas essa é apenas uma forma do método da tenacidade, na qual ainda não se desenvolveu a concepção da verdade como algo público. Nossa permanência externa não seria externa, no sentido que damos ao termo, se sua influência se restringisse a um só indivíduo. Ela deve ser algo que afete, ou possa afetar, todo homem. E, embora essas afecções sejam necessariamente tão diversas quanto as condições individuais, o método deve ser tal que a conclusão última de cada homem seja a mesma. Esse é o método da ciência. Sua hipótese fundamental, reformulada numa linguagem mais familiar, é a seguinte: existem coisas reais cujas características são inteiramente independentes de nossas opiniões a seu respeito; essas realidades afetam nossos sentidos segundo leis regulares e, embora nossas sensações sejam tão diferentes quanto nossas relações com os objetos, ainda assim, valendo-nos das leis da percepção, podemos averiguar pelo raciocínio como as coisas realmente são; e qualquer homem, se tiver experiência suficiente e raciocinar o bastante sobre ela, será levado à única conclusão verdadeira. A nova concepção aqui envolvida é a de realidade. Pode-se perguntar como sei que existem quaisquer realidades. Se essa hipótese é o único fundamento de meu método de investigação, meu método de investigação não deve ser usado para sustentar minha hipótese. A resposta é esta: 1. Se a investigação não pode ser considerada uma prova de que existem coisas reais, ao menos não conduz a uma conclusão contrária; mas o método e a concepção em que se apoia permanecem sempre em harmonia. Nenhuma dúvida acerca do método surge, portanto, necessariamente de sua prática, como acontece com todos os outros. 2. O sentimento que dá origem a qualquer método de fixar a crença é uma insatisfação diante de duas proposições incompatíveis. Mas já existe aqui uma vaga admissão de que há uma coisa à qual uma proposição deve conformar-se. Ninguém, portanto, pode realmente duvidar de que existem realidades; ou, se duvidasse, a dúvida não seria uma fonte de insatisfação. A hipótese, portanto, é admitida por toda mente. Assim, o impulso social não me leva a duvidar dela. 3. Todos usam o método científico a respeito de muitas coisas e só deixam de usá-lo quando não sabem como aplicá-lo. 4. A experiência do método não me levou a duvidar dele; ao contrário, a investigação científica obteve os mais admiráveis triunfos na fixação da opinião. Esses triunfos explicam por que não duvido do método nem da hipótese que ele pressupõe; e, não tendo dúvida alguma, nem acreditando que a tenha qualquer outra pessoa sobre a qual eu pudesse exercer influência, seria puro palavrório dizer mais a respeito. Se houver alguém com uma dúvida viva sobre o assunto, que o considere.

Descrever o método da investigação científica é o objetivo desta série de artigos. Por ora, só tenho espaço para indicar alguns pontos de contraste entre ele e outros métodos de fixar a crença.

Esse é o único dos quatro métodos que apresenta alguma distinção entre uma maneira certa e uma errada. Se adoto o método da tenacidade e me fecho a todas as influências, tudo o que considero necessário para fazer isso é necessário segundo esse método. O mesmo ocorre com o método da autoridade: o Estado pode tentar reprimir a heresia por meios que, de um ponto de vista científico, pareçam muito mal calculados para alcançar seus propósitos; mas o único critério nesse método é o que o Estado pensa, de modo que ele não pode seguir o método de maneira errada. O mesmo ocorre com o método a priori. Sua própria essência é pensar como se está inclinado a pensar. Todos os metafísicos certamente o farão, por mais inclinados que estejam a julgar que os demais se obstinam no erro. O sistema hegeliano reconhece como lógica toda tendência natural do pensamento, embora seja certo que ela será abolida por tendências contrárias. Hegel pensa que há um sistema regular na sucessão dessas tendências, em consequência do qual, depois de oscilar por muito tempo numa direção e noutra, a opinião acabará por acertar. E é verdade que os metafísicos acabam por chegar às ideias corretas; o sistema da natureza de Hegel representa razoavelmente a ciência de seu tempo; e pode-se estar certo de que tudo o que a investigação científica tenha posto fora de dúvida em breve receberá uma demonstração a priori por parte dos metafísicos. Mas com o método científico o caso é diferente. Posso partir de fatos conhecidos e observados para avançar em direção ao desconhecido; e, no entanto, as regras que sigo ao fazê-lo podem não ser tais que a investigação as aprovasse. O teste de que estou realmente seguindo o método não consiste num apelo imediato aos meus sentimentos e propósitos, mas, ao contrário, envolve ele próprio a aplicação do método. Daí ser possível tanto o mau quanto o bom raciocínio; e esse fato é o fundamento do lado prático da lógica.

Não se deve supor que os três primeiros métodos de fixar a opinião não apresentem vantagem alguma sobre o método científico. Ao contrário, cada um tem uma conveniência peculiar. O método a priori se distingue por suas conclusões confortáveis. É da natureza do processo adotar qualquer crença à qual nos sintamos inclinados, e há certas lisonjas à vaidade humana nas quais todos acreditamos por natureza, até que alguns fatos duros nos despertem de nosso sonho agradável. O método da autoridade sempre governará a massa da humanidade; e aqueles que exercem as diversas formas de força organizada no Estado nunca se convencerão de que o raciocínio perigoso não deva ser reprimido de alguma maneira. Se a liberdade de expressão tiver de ficar livre das formas mais grosseiras de coerção, então a uniformidade da opinião será assegurada por um terrorismo moral ao qual a respeitabilidade da sociedade dará sua plena aprovação. Seguir o método da autoridade é o caminho da paz. Certas discordâncias são permitidas; outras, consideradas perigosas, são proibidas. Elas variam de país para país e de época para época; mas, onde quer que você esteja, deixe que se saiba que sustenta seriamente uma crença proibida e poderá ter absoluta certeza de ser tratado com uma crueldade menos brutal, porém mais refinada, do que a de ser caçado como um lobo. Assim, os maiores benfeitores intelectuais da humanidade nunca ousaram, e ainda não ousam, exprimir a totalidade de seu pensamento; e assim uma sombra de dúvida prima facie recai sobre toda proposição considerada essencial à segurança da sociedade. Curiosamente, a perseguição não vem toda de fora; um homem atormenta a si mesmo e muitas vezes fica profundamente angustiado ao descobrir que acredita em proposições que foi educado a encarar com aversão. O homem pacífico e compassivo terá, portanto, dificuldade em resistir à tentação de submeter suas opiniões à autoridade. Mas, acima de tudo, admiro o método da tenacidade por sua força, simplicidade e maneira direta de proceder. Os homens que o seguem se distinguem pela firmeza de caráter, que se torna muito fácil com tal regra mental. Não perdem tempo tentando decidir o que querem; agarram-se, com a rapidez de um raio, à primeira alternativa que aparece e a ela se mantêm fiéis até o fim, aconteça o que acontecer, sem um instante de irresolução. Essa é uma das qualidades esplêndidas que geralmente acompanham um êxito brilhante e passageiro. É impossível não invejar o homem que pode dispensar a razão, embora saibamos como tudo deverá terminar.

Tais são as vantagens que os outros métodos de fixar a opinião têm sobre a investigação científica. Um homem deve ponderá-las cuidadosamente; depois, deve considerar que, afinal, deseja que suas opiniões coincidam com o fato e que não há razão alguma para que os resultados desses três métodos o façam. Produzir esse efeito é a prerrogativa do método da ciência. Com base nessas considerações, ele tem de fazer sua escolha — uma escolha que é muito mais do que a adoção de qualquer opinião intelectual, que é uma das decisões que governam sua vida e à qual, uma vez tomada, está obrigado a permanecer fiel. A força do hábito às vezes levará um homem a apegar-se a crenças antigas depois de já estar em condições de perceber que elas não têm fundamento sólido. Mas a reflexão sobre o estado da questão vencerá esses hábitos, e ele deve dar à reflexão todo o seu peso. Às vezes as pessoas recuam diante disso, por julgarem salutares crenças que não podem deixar de sentir que não se apoiam em nada. Mas que essas pessoas imaginem um caso análogo, embora diferente do seu. Que se perguntem o que diriam de um muçulmano reformado que hesitasse em abandonar suas velhas noções acerca das relações entre os sexos; ou de um católico reformado que ainda recuasse diante da leitura da Bíblia. Não diriam que essas pessoas deveriam considerar o assunto plenamente, compreender com clareza a nova doutrina e então abraçá-la em sua totalidade? Mas, acima de tudo, considere-se que mais salutar do que qualquer crença particular é a integridade da crença; e que evitar examinar o fundamento de uma crença, por medo de que ele se revele podre, é tão imoral quanto desvantajoso. A pessoa que reconhece que existe algo como a verdade, distinguindo-se da falsidade simplesmente por nos levar, quando agimos segundo ela, ao ponto a que visamos, sem nos desviar, e que, apesar de convencida disso, não ousa conhecer a verdade e procura evitá-la, está de fato num estado de espírito lamentável.

Sim, os outros métodos também têm seus méritos: uma consciência lógica limpa tem seu preço — assim como toda virtude, assim como tudo o que prezamos, nos custa caro. Mas não deveríamos desejar que fosse de outro modo. O gênio do método lógico de um homem deve ser amado e reverenciado como sua noiva, a quem escolheu no mundo inteiro. Não precisa desprezar as outras; ao contrário, pode honrá-las profundamente e, ao fazê-lo, só honra ainda mais a ela. Mas ela é aquela que ele escolheu, e ele sabe que acertou na escolha. E, tendo-a feito, trabalhará e lutará por ela e não se queixará dos golpes que tiver de receber, esperando que haja tantos outros, e tão fortes, para dar; e se esforçará por ser seu digno cavaleiro e defensor, extraindo do fulgor de seus esplendores sua inspiração e sua coragem.

Notas do autor

[^1]: Não exatamente, mas tão aproximadamente quanto se pode dizer em poucas palavras.

[^2]: Não estou falando de efeitos secundários ocasionalmente produzidos pela interferência de outros impulsos.

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