Capítulo II - A elevação do nível histórico A Rebelião das Massas - Tradução Literunico · Capítulo 2 de 20
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Capítulo II - A elevação do nível histórico

# Capítulo II - A elevação do nível histórico

Este é o fato formidável de nosso tempo, descrito sem ocultar a brutalidade de sua aparência. É, além disso, de absoluta novidade na história de nossa civilização. Jamais, em todo o seu desenvolvimento, aconteceu algo parecido. Se tivéssemos de encontrar algo semelhante, teríamos de saltar para fora de nossa história e mergulhar em um orbe, em um elemento vital, completamente distinto do nosso; teríamos de insinuar-nos no mundo antigo e chegar à sua hora de declínio. A história do Império Romano é também a história da subversão, do império das massas, que absorvem e anulam as minorias dirigentes e se colocam em seu lugar. Então se produz também o fenômeno da aglomeração, do cheio. Por isso, segundo observou muito bem Spengler, foi preciso construir, à maneira de agora, enormes edifícios. A época das massas é a época do colossal.

Vivemos sob o brutal império das massas. Perfeitamente; já chamamos duas vezes "brutal" esse império, já pagamos nosso tributo ao deus dos lugares-comuns; agora, com o ingresso na mão, podemos alegremente entrar no tema e ver o espetáculo por dentro. Ou se acreditava que eu me contentaria com essa descrição, talvez exata, porém externa, que é apenas a face, a vertente sob a qual se apresenta o fato tremendo quando olhado a partir do passado? Se eu deixasse aqui este assunto e estrangulasse sem mais o presente ensaio, o leitor ficaria pensando, com toda justiça, que esse fabuloso advento das massas à superfície da história não me inspirava outra coisa além de algumas palavras displicentes, desdenhosas, um pouco de abominação e outro pouco de repugnância; a mim, de quem é notório que sustento uma interpretação da história radicalmente aristocrática.

Ela é radical porque nunca disse que a sociedade humana deva ser aristocrática; antes, algo muito maior que isso. Disse, e continuo acreditando, cada dia com convicção mais enérgica, que a sociedade humana é sempre aristocrática, queira ou não, por sua própria essência, até o ponto de ser sociedade na medida em que seja aristocrática, e de deixar de sê-lo na medida em que se desaristocratize. Bem entendido: falo da sociedade, não do Estado. Ninguém pode acreditar que, diante desse fabuloso encrespamento da massa, o aristocrático consista em contentar-se com fazer uma breve careta afetada, à maneira de um cavalheirinho de Versalhes.

Versalhes, entende-se esse Versalhes das caretas, não é aristocracia; é todo o contrário: é a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia. Por isso, de verdadeiramente aristocrático, só restava naqueles seres a graça digna com que sabiam receber no pescoço a visita da guilhotina: aceitavam-na como o tumor aceita o bisturi. Não; a quem sente a missão profunda das aristocracias, o espetáculo da massa incita e inflama como a presença do mármore virgem incita o escultor.

A aristocracia social em nada se parece com esse grupo reduzidíssimo que pretende assumir para si, inteiro, o nome de "sociedade", que chama a si mesmo de "a sociedade" e vive simplesmente de convidar-se ou de deixar de convidar-se. Como tudo no mundo tem sua virtude e sua missão, também as tem, dentro do vasto mundo, esse pequeno "mundo elegante"; porém sua missão é muito subalterna e incomparável com a tarefa hercúlea das aristocracias autênticas. Eu poderia falar sobre o sentido que possui essa vida elegante, em aparência tão sem sentido; nosso tema agora, entretanto, é outro, de maiores proporções.

Por certo, essa mesma "sociedade distinta" também vai com o tempo. Fez-me meditar muito certa senhorita em flor, toda juventude e atualidade, estrela de primeira grandeza no zodíaco da elegância madrilenha, porque me disse: "Eu não suporto um baile para o qual tenham sido convidadas menos de oitocentas pessoas". Por meio dessa frase vi que o estilo das massas triunfa hoje sobre toda a área da vida e se impõe até naqueles últimos recantos que pareciam reservados aos happy few.

Rejeito, pois, igualmente, toda interpretação de nosso tempo que não descubra a significação positiva oculta sob o atual império das massas, e também aquelas que o aceitam beatamente, sem estremecer de espanto. Todo destino é dramático e trágico em sua dimensão profunda. Quem não sentiu na mão palpitar o perigo do tempo não chegou à entranha do destino, apenas acariciou sua bochecha mórbida. No nosso, o ingrediente terrível é posto pela arrasadora e violenta sublevação moral das massas, imponente, indominável e equívoca como todo destino. Para onde nos leva? É um mal absoluto, ou um bem possível? Aí está, colossal, instalada sobre nosso tempo como um gigante, signo cósmico de interrogação, o qual tem sempre uma forma equívoca, com algo de guilhotina ou de forca, porém também com algo que gostaria de ser um arco triunfal.

O fato que precisamos submeter à anatomia pode formular-se sob estas duas rubricas: primeira, as massas exercitam hoje um repertório vital que coincide em grande parte com aquele que antes parecia reservado exclusivamente às minorias; segunda, ao mesmo tempo, as massas se tornaram indóceis diante das minorias: não lhes obedecem, não as seguem, não as respeitam; ao contrário, põem-nas de lado e as suplantam.

Analisemos a primeira rubrica. Quero dizer com ela que as massas gozam dos prazeres e usam os utensílios inventados pelos grupos seletos, que antes só estes usufruíam. Sentem apetites e necessidades que antes eram qualificados de refinamentos porque eram patrimônio de poucos. Um exemplo trivial: em 1820 não haveria em Paris dez quartos de banho em casas particulares; vejam-se as Memórias da condessa de Boigne. Mais ainda: as massas conhecem e empregam hoje, com relativa suficiência, muitas das técnicas que antes eram manejadas apenas por indivíduos especializados.

E não só as técnicas materiais; também, o que é mais importante, as técnicas jurídicas e sociais. No século XVIII, certas minorias descobriram que todo indivíduo humano, pelo mero fato de nascer e sem necessidade de qualificação especial alguma, possuía certos direitos políticos fundamentais, os chamados direitos do homem e do cidadão, e que, a rigor, esses direitos comuns a todos são os únicos existentes. Todo outro direito ligado a dotes especiais ficava condenado como privilégio. Isso foi, primeiro, puro teorema e ideia de uns poucos; logo, esses poucos começaram a usar praticamente essa ideia, a impô-la e reclamá-la: as minorias melhores.

Entretanto, durante todo o século XIX, a massa, que ia entusiasmando-se com a ideia desses direitos como com um ideal, não os sentia em si, não os exercitava nem os fazia valer; de fato, sob as legislações democráticas, seguia vivendo, seguia sentindo-se a si mesma como no antigo regime. O "povo", segundo então se dizia, já sabia que era soberano; porém não o acreditava. Hoje aquele ideal converteu-se em realidade, não mais nas legislações, que são esquemas externos da vida pública; antes, no coração de todo indivíduo, quaisquer que sejam suas ideias, inclusive quando suas ideias são reacionárias; isto é, inclusive quando martela e tritura as instituições nas quais aqueles direitos são sancionados.

A meu juízo, quem não entende essa curiosa situação moral das massas não pode explicar nada do que hoje começa a acontecer no mundo. A soberania do indivíduo não qualificado, do indivíduo humano genérico e enquanto tal, passou de ideia ou ideal jurídico que era para ser um estado psicológico constitutivo do homem médio. E note-se bem: quando algo que foi ideal se torna ingrediente da realidade, inexoravelmente deixa de ser ideal. O prestígio e a magia autorizadora, que são atributos do ideal, que são seu efeito sobre o homem, volatilizam-se. Os direitos niveladores da generosa inspiração democrática converteram-se, de aspirações e ideais, em apetites e pressupostos inconscientes.

Ora: o sentido daqueles direitos era precisamente tirar as almas humanas de sua servidão interna e proclamar dentro delas certa consciência de senhorio e dignidade. Não se queria justamente isso? Que o homem médio se sentisse amo, dono, senhor de si mesmo e de sua vida? Isso já foi alcançado. Por que se queixam os liberais, os democratas, os progressistas de trinta anos atrás? Ou será que, como as crianças, querem uma coisa e recusam suas consequências? Quer-se que o homem médio seja senhor. Então não estranhe que atue por si e diante de si; que reclame todos os prazeres; que imponha, decidido, sua vontade; que se negue a toda servidão; que não siga docilmente ninguém; que cuide de sua pessoa e de seus ócios; que refine sua indumentária: são alguns dos atributos perenes que acompanham a consciência de senhorio. Hoje os encontramos residindo no homem médio, na massa.

Temos, pois, que a vida do homem médio está agora constituída pelo repertório vital que antes caracterizava apenas as minorias culminantes. Ora, o homem médio representa a área sobre a qual se move a história de cada época; ele é, na história, o que o nível do mar é na geografia. Se, portanto, o nível médio se encontra hoje onde antes só tocavam as aristocracias, isso quer dizer, pura e simplesmente, que o nível da história subiu de repente, após longas e subterrâneas preparações, porém em sua manifestação, de repente, de um salto, em uma geração. A vida humana, em totalidade, ascendeu. O soldado de hoje, diríamos, tem muito de capitão; o exército humano compõe-se já de capitães. Basta ver a energia, a resolução, a desenvoltura com que qualquer indivíduo se move hoje pela existência, agarra o prazer que passa, impõe sua decisão.

Todo o bem, todo o mal do presente e do futuro imediato têm nesse ascenso geral do nível histórico sua causa e sua raiz.

Mas agora nos ocorre uma advertência imprevista. Que o nível médio da vida seja o das antigas minorias é um fato novo na Europa; mas era o fato nativo, constitucional, da América. Pense o leitor, para ver clara minha intenção, na consciência de igualdade jurídica. Esse estado psicológico de sentir-se amo e senhor de si, igual a qualquer outro indivíduo, que na Europa só os grupos sobressalentes conseguiam adquirir, é o que desde o século XVIII, praticamente desde sempre, acontecia na América.

E nova coincidência, ainda mais curiosa! Ao aparecer na Europa esse estado psicológico do homem médio, ao subir o nível de sua existência integral, o tom e as maneiras da vida europeia em todas as ordens adquirem de repente uma fisionomia que fez muitos dizerem: "A Europa está se americanizando". Os que diziam isso não davam ao fenômeno maior importância; acreditavam tratar-se de uma leve mudança nos costumes, de uma moda, e, desorientados pela semelhança externa, atribuíam-na a uma influência indefinida da América sobre a Europa. Com isso, a meu juízo, trivializou-se a questão, que é muito mais sutil, surpreendente e profunda.

A galanteria tenta agora subornar-me para que eu diga aos homens de ultramar que, com efeito, a Europa se americanizou, e que isso se deve a uma influência da América sobre a Europa. Mas não: a verdade entra agora em colisão com a galanteria e deve triunfar. A Europa não se americanizou. Ainda não recebeu grande influência da América. Uma e outra coisa, quando muito, começam neste momento; não se produziram, porém, no passado recente, do qual o presente brota. Há aqui um cúmulo desesperante de ideias falsas que nos estorvam a visão, a uns e a outros, americanos e europeus.

O triunfo das massas e a consequente magnífica ascensão do nível vital aconteceram na Europa por razões internas, depois de dois séculos de educação progressista das multidões e de um paralelo enriquecimento econômico da sociedade. O resultado, todavia, coincide com o traço mais decisivo da existência americana: e por isso, porque coincide a situação moral do homem médio europeu com a do americano, aconteceu que pela primeira vez o europeu entende a vida americana, que antes lhe era um enigma e um mistério. Não se trata, pois, de uma influência, que seria algo estranha, quase uma influência de retorno; trata-se, antes, do que menos se suspeita: uma nivelação.

Desde sempre os europeus entreviam obscuramente que o nível médio da vida era mais alto na América que no velho continente. A intuição, pouco analítica, porém evidente, desse fato deu origem à ideia, sempre aceita, nunca posta em dúvida, de que a América era o porvir. Compreender-se-á que ideia tão ampla e tão arraigada não podia vir do vento, como dizem que as orquídeas se criam no ar, sem raízes. O fundamento era aquela visão de um nível mais elevado na vida média de ultramar, que contrastava com o nível inferior das melhores minorias da América quando comparadas com as europeias. Mas a história, como a agricultura, nutre-se dos vales e não dos cumes, da altitude média social e não das eminências.

Vivemos em estação de nivelações: nivelam-se as fortunas, nivela-se a cultura entre as distintas classes sociais, nivelam-se os sexos. Pois bem: nivelam-se também os continentes. E como o europeu se achava vitalmente mais baixo, nessa nivelação só fez ganhar. Portanto, vista por esse ângulo, a subversão das massas significa um fabuloso aumento de vitalidade e possibilidades; todo o contrário, pois, daquilo que ouvimos com tanta frequência sobre a decadência da Europa. Frase confusa e tosca, na qual não se sabe bem de que se fala, se dos Estados europeus, da cultura europeia, ou daquilo que está sob tudo isso e importa infinitamente mais que tudo isso, a saber: a vitalidade europeia. Dos Estados e da cultura europeus diremos algumas palavras mais adiante, e talvez a frase já citada valha para eles; mas, quanto à vitalidade, convém registrar desde já que se trata de erro crasso.

Dita de outra maneira, talvez minha afirmação pareça mais convincente ou menos inverossímil; digo, pois, que hoje um italiano médio, um espanhol médio, um alemão médio diferem menos, em tom vital, de um ianque ou de um argentino do que diferiam há trinta anos. E este é um dado que os americanos não devem esquecer.

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