Epílogo para ingleses
# Epílogo para ingleses
Logo se completa um ano desde que, em uma paisagem holandesa para onde o destino me havia centrifugado, escrevi o "Prólogo para franceses" anteposto à primeira edição popular deste livro. Naquela data começava para a Inglaterra uma das etapas mais problemáticas de sua história, e havia muito poucas pessoas na Europa que confiassem em suas virtudes latentes. Nos últimos tempos falharam tantas coisas que, por inércia mental, tende-se a duvidar de tudo, até da Inglaterra. Dizia-se que era um povo em decadência. Ainda assim, e mesmo enfrentando certos riscos de que agora não quero falar, eu assinalava com fé robusta a missão europeia do povo inglês, aquela que teve durante dois séculos e que hoje era chamado a exercer em forma superlativa. O que eu então não imaginava era que tão rapidamente viessem os fatos confirmar meu prognóstico e incorporar minha esperança. Muito menos que se comprazessem com tal precisão em ajustar-se ao papel determinadíssimo que eu, usando uma comparação humorística, atribuía à Inglaterra diante do continente. A manobra de saneamento histórico que a Inglaterra tenta, por enquanto, em seu interior, é portentosa. Em meio à mais atroz tormenta, o navio inglês muda todas as velas, vira dois quadrantes, cinge-se ao vento e o aceno de seu leme modifica o destino do mundo. Tudo isso sem gesticulação e além de todas as frases, inclusive das que acabo de proferir. É evidente que há muitas maneiras de fazer história, quase tantas quantas de desfazê-la.
Há vários séculos acontece periodicamente que os continentais despertam uma manhã e, coçando a cabeça, exclamam: "Esta Inglaterra...!" É uma expressão que significa surpresa, assombro e a consciência de ter diante de si algo admirável, porém incompreensível. O povo inglês é, com efeito, o fato mais estranho que há no planeta. Refiro-me ao corpo social, à coletividade dos ingleses, e não ao inglês individual. O estranho, o maravilhoso, pertence pois à ordem sociológica, e não à ordem psicológica. E, como a sociologia é uma das disciplinas sobre as quais as pessoas têm em toda parte menos ideias claras, seria impossível, sem muitas preparações, dizer por que a Inglaterra é estranha e por que é maravilhosa. Muito menos tentar a explicação de como chegou a ser essa coisa estranha que é. Enquanto se creia que um povo possui um "caráter" prévio e que sua história é uma emanação desse caráter, não haverá maneira sequer de iniciar a conversa. O "caráter nacional", como tudo o que é humano, não é dom inato; é fabricação. O caráter nacional vai se fazendo, desfazendo e refazendo na história. Apesar da etimologia, desta vez, a nação não nasce: faz-se. É uma empresa que sai bem ou mal, que se inicia após um período de ensaios, que se desenvolve, que se corrige, que "perde o fio" uma ou várias vezes e tem de voltar a começar ou, ao menos, retomar-se. O interessante seria precisar quais são os atributos surpreendentes, por insólitos, da vida inglesa nos últimos cem anos. Depois viria a tentativa de mostrar como a Inglaterra adquiriu essas qualidades sociológicas. Insisto em empregar esta palavra, apesar de seu tom pedante, porque atrás dela está o verdadeiramente essencial e fértil. É preciso extirpar da história o psicologismo, que já foi afastado de outros saberes. O excepcional da Inglaterra não reside no tipo de indivíduo humano que soube criar. É sobremaneira discutível que o inglês individual valha mais que outras formas de individualidade aparecidas no Oriente e no Ocidente. Mesmo aquele que estime o modo de ser dos homens ingleses acima de todos os demais reduz o assunto a uma questão de mais ou de menos. Eu sustento, em contrapartida, que o excepcional, que a originalidade extrema do povo inglês, reside em sua maneira de assumir o lado social ou coletivo da vida humana, no modo como sabe ser uma sociedade. Nisso sim se contrapõe a todos os demais povos, e já não é questão de mais ou de menos. Talvez no tempo próximo se me ofereça ocasião para fazer ver tudo o que quero dizer com isto.
Tal respeito pela Inglaterra não nos exime da irritação diante de seus defeitos. Todo povo, olhado a partir de outro, resulta insuportável. E por esse lado talvez sejam os ingleses, em grau especial, exasperantes. É que as virtudes de um povo, como as de um homem, vão montadas e, de certa maneira, consolidadas sobre seus defeitos e limitações. Quando chegamos a esse povo, a primeira coisa que vemos são suas fronteiras, que, tanto no moral quanto no físico, são seus limites. A nervosidade dos últimos meses fez com que quase todas as nações vivessem empoleiradas em suas fronteiras; isto é, dando um espetáculo exagerado de seus defeitos mais congênitos. Se a isso se acrescenta que um dos principais temas de disputa foi a Espanha, compreender-se-á até que ponto sofri com quanto na Inglaterra, na França, na América do Norte representa deficiência, torpeza, vício e falha. O que mais me surpreendeu foi a decidida vontade, existente na opinião pública desses países, de não se inteirar bem das coisas; e aquilo de que mais senti falta, com respeito à Espanha, foi algum gesto de graça generosa, que é, a meu juízo, o mais estimável que há no mundo. No anglo-saxão, não nos seus governos, e sim nos países, deixou-se correr a intriga, a frivolidade, a obtusidade, o preconceito arcaico e a hipocrisia nova sem pôr-lhes freio. Escutaram-se a sério as maiores estupidezes, contanto que fossem indígenas, e, em contrapartida, houve a decisão radical de não querer ouvir nenhuma voz espanhola capaz de esclarecer as coisas, ou de ouvi-la apenas depois de deformá-la.
Isto me levou, ainda convencido de que forçava um pouco a ocasião, a aproveitar o primeiro pretexto para falar sobre a Espanha e, já que a suspicácia do público inglês não tolerava outra coisa, falar sem parecer que falava dela nas páginas intituladas "Quanto ao pacifismo...", agregadas a seguir. Se é benévolo, o leitor não esquecerá o destinatário. Dirigidas a ingleses, representam um esforço de acomodação a seus usos. Renunciou-se nelas a todo "brilho" e foram escritas em estilo bastante pickwickiano, composto de cautelas e eufemismos.
Tenha-se presente que a Inglaterra é povo de comerciantes, engenheiros e homens piedosos, antes que de escritores. Por isso soube forjar para si uma língua e uma elocução em que se trata principalmente de não dizer o que se diz, de insinuá-lo antes e quase eludi-lo. O inglês não veio ao mundo para dizer-se; veio, ao contrário, para silenciar-se. Com faces impassíveis, postados atrás de seus cachimbos, os ingleses velavam alerta sobre os próprios segredos para que nenhum escapasse. Isto é uma força magnífica, e importa sobremaneira à espécie humana que se conservem intactos esse tesouro e essa energia de taciturnidade. Ao mesmo tempo, dificultam enormemente o entendimento com outros povos, sobretudo com os nossos. O homem do Sul propende a ser gárrulo. A Grécia, que nos educou, soltou-nos as línguas e nos fez indiscretos a nativitate. O aticismo havia triunfado sobre o laconismo, e para o ateniense viver era falar, dizer, esgoelar-se lançando ao vento, em formas claras e eufônicas, a intimidade mais arcana. Por isso divinizaram o dizer, o logos, ao qual atribuíam potência mágica, e a retórica acabou sendo para a civilização antiga o que a física foi para nós nestes últimos séculos. Sob essa disciplina, os povos românicos forjaram línguas complicadas, porém deliciosas, de uma sonoridade, uma plasticidade e um garbo incomparáveis; línguas feitas à força de conversas sem fim, na ágora e na pracinha, no estrado, na taberna e na tertúlia. Daí que nos sintamos assombrados quando, aproximando-nos desses esplêndidos ingleses, os ouvimos emitir a série de leves miados displicentes em que consiste seu idioma.
O tema do ensaio que segue é a incompreensão mútua em que caíram os povos do Ocidente; isto é, povos que convivem desde a infância. O fato é estupefaciente. Porque a Europa foi sempre como uma casa de vizinhança, onde as famílias nunca vivem separadas, antes misturam a toda hora sua existência doméstica. Esses povos que agora se ignoram tão gravemente brincaram juntos quando eram crianças nos corredores da grande mansão comum. Como puderam chegar a mal-entender-se tão radicalmente? A gênese de tão feia situação é longa e complexa. Para enunciar apenas um dos mil fios que se atam naquele fato, advirta-se que o hábito de uns povos se converterem em juízes dos outros, de desprezá-los e denegri-los porque são diferentes, enfim, de as nações hoje poderosas se permitirem crer que o estilo ou o "caráter" de um povo menor é absurdo porque este é bélica ou economicamente débil, são fenômenos que, se não erro, jamais se haviam produzido até os últimos cinquenta anos. Ao enciclopedista francês do século XVIII, apesar de sua petulância e de sua escassa ductilidade intelectual, apesar de crer-se em posse da verdade absoluta, não ocorria desdenhar um povo "inculto" e depauperado como a Espanha. Quando alguém o fazia, o escândalo que provocava era prova de que o homem normal de então não via, como um arrivista, nas diferenças de poderio uma diferença de categoria humana. Ao contrário: é o século das viagens cheias de curiosidade amável e prazerosa pela divergência do próximo.
Este foi o sentido do cosmopolitismo que se consolida rumo a seu último terço. O cosmopolitismo de Fergusson, Herder, Goethe é o contrário do atual "internacionalismo". Nutre-se do entusiasmo pelas diferenças nacionais, e não de sua exclusão. Busca a pluralidade de formas vitais com vistas a sua integração, não a sua anulação. Seu lema foram estas palavras de Goethe: "Só todos os homens vivem o humano." O romantismo que lhe sucedeu é apenas sua exaltação. O romântico se enamorava dos outros povos precisamente porque eram outros, e no uso mais exótico e incompreensível suspeitava mistérios de grande sabedoria. E o caso é que, em princípio, tinha razão. É, por exemplo, indubitável que o inglês de hoje, hermetizado pela consciência de seu poder político, é pouco capaz de ver o que há de cultura refinada, sutilíssima e de alta estirpe nessa ocupação, que a ele parece exemplar desocupação, de "tomar sol", à qual o espanhol castiço costuma dedicar-se conscienciosamente. Ele talvez creia que o unicamente civilizado é pôr uns bombachos e dar golpes em uma bolinha com uma vara, operação que costuma dignificar-se chamando-a "golfe".
O assunto é, pois, de enorme alcance, e as páginas que seguem não fazem senão tomá-lo pelo lado mais urgente. Esse mútuo desconhecimento tornou possível que o povo inglês, tão parco em erros históricos graves, cometesse o gigantesco erro de seu pacifismo. De todas as causas que geraram as amarguras atuais do mundo, a que talvez possa concretizar-se melhor é o desarmamento da Inglaterra. Seu gênio político lhe permitiu, nestes meses, corrigir com um esforço incrível de self-control o mais extremo do mal. Talvez. Contribuiu para que adotasse esta resolução a consciência da responsabilidade contraída.
Sobre tudo isto se raciocina tranquilamente nas páginas imediatas, sem excessiva presunção, porém com o profundo desejo de colaborar com a reconstituição da Europa. Devo advertir ao leitor que todas as notas foram acrescentadas agora e suas alusões cronológicas devem ser referidas ao mês corrente.
Paris, abril de 1938.