Capítulo VI - Começa a dissecação do homem-massa A Rebelião das Massas - Tradução Literunico · Capítulo 6 de 20
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Capítulo VI - Começa a dissecação do homem-massa

# Capítulo VI - Começa a dissecação do homem-massa

Como é esse homem-massa que domina hoje a vida pública, a política e a não política? Por que é tal como é? Quero dizer: de que maneira se produziu?

Convém responder conjuntamente às duas questões, porque elas se esclarecem mutuamente. O homem que agora tenta pôr-se à frente da existência europeia é muito distinto daquele que dirigiu o século XIX, porém foi produzido e preparado no século XIX. Qualquer mente perspicaz de 1820, de 1850, de 1880, pôde, por um simples raciocínio a priori, prever a gravidade da situação histórica atual. E, com efeito, nada novo acontece que não tenha sido previsto há cem anos. "As massas avançam!", dizia Hegel, apocalíptico. "Sem um novo poder espiritual, nossa época, que é uma época revolucionária, produzirá uma catástrofe", anunciava Augusto Comte. "Vejo subir a preamar do niilismo!", gritava, de um rochedo da Engadina, o bigodudo Nietzsche.

É falso dizer que a história não é previsível. Inúmeras vezes foi profetizada. Se o porvir não oferecesse um flanco à profecia, tampouco poderia ser compreendido quando depois se cumpre e se faz passado. A ideia de que o historiador é um profeta às avessas resume toda a filosofia da história. Certamente só cabe antecipar a estrutura geral do futuro; mas isso mesmo é a única coisa que, em verdade, compreendemos do pretérito ou do presente. Por isso, se o senhor quer ver bem sua época, olhe-a de longe. A que distância? Muito simples: à distância justa que o impeça de ver o nariz de Cleópatra.

Que aspecto oferece a vida desse homem multitudinário que o século XIX vai engendrando com progressiva abundância? Por ora, um aspecto de facilidade material quase total. Nunca o homem médio pôde resolver com tanta folga seu problema econômico. Enquanto, em proporção, minguavam as grandes fortunas e se tornava mais dura a existência do operário industrial, o homem médio de qualquer classe social encontrava cada dia mais aberto seu horizonte econômico. Cada dia acrescentava um novo luxo ao repertório de seu padrão vital. Cada dia sua posição era mais segura e mais independente do arbítrio alheio. Aquilo que antes teria sido considerado um benefício da sorte, inspirando humilde gratidão diante do destino, converteu-se em um direito que não se agradece, exige-se.

Desde 1900, também o operário começa a ampliar e assegurar sua vida. Entretanto, tem de lutar para consegui-lo. Não encontra, como o homem médio, um bem-estar oferecido solicitamente a ele por uma sociedade e por um Estado que são um portento de organização.

A essa facilidade e segurança econômica acrescentem-se as físicas: o conforto e a ordem pública. A vida vai sobre trilhos cômodos, e não parece verossímil que nela intervenha algo violento e perigoso.

Situação de tal modo aberta e franca tinha por força de decantar, no estrato mais profundo dessas almas médias, uma impressão vital que poderia exprimir-se com a fórmula, tão graciosa e aguda, de nosso velho povo: "larga é Castela". Isto é, em todas essas ordens elementares e decisivas, a vida se apresentou ao homem novo isenta de impedimentos. A compreensão desse fato e de sua importância surge automaticamente quando se recorda que essa liberdade vital faltou por completo aos homens vulgares do passado. Para eles, ao contrário, a vida foi um destino penoso, no plano econômico e no físico. Sentiram o viver a nativitate como um acúmulo de impedimentos que era forçoso suportar, sem que coubesse outra solução além de adaptar-se a eles, alojar-se na estreiteza que deixavam.

Mas a contraposição de situações é ainda mais clara se passamos do material ao civil e moral. O homem médio, desde a segunda metade do século XIX, não encontra diante de si barreiras sociais algumas. Isto é, também nas formas da vida pública não encontra, ao nascer, travas e limitações. Nada o obriga a conter sua vida. Também aqui "larga é Castela". Não existem os "estados" nem as "castas". Não há ninguém civilmente privilegiado. O homem médio aprende que todos os homens são legalmente iguais.

Jamais em toda a história o homem fora posto em uma circunstância ou ambiente vital que se parecesse, sequer de longe, com o determinado por essas condições. Trata-se, com efeito, de uma inovação radical no destino humano, implantada pelo século XIX. Cria-se um novo cenário para a existência do homem, novo no físico e no social. Três princípios fizeram possível esse novo mundo: a democracia liberal, a experimentação científica e o industrialismo. Os dois últimos podem resumir-se em um: a técnica. Nenhum desses princípios foi inventado pelo século XIX; procedem das duas centúrias anteriores. A honra do século XIX não consiste em sua invenção; antes, em sua implantação. Ninguém desconhece isso. Contudo, não basta o reconhecimento abstrato; é preciso tomar consciência de suas consequências inexoráveis.

O século XIX foi essencialmente revolucionário. O que teve de revolucionário não deve ser buscado no espetáculo de suas barricadas, que, por si só, não constituem uma revolução; antes, no fato de haver colocado o homem médio, a grande massa social, em condições de vida radicalmente opostas às que sempre a haviam rodeado. Revirou pelo avesso a existência pública. A revolução não é a sublevação contra a ordem preexistente; é a implantação de uma nova ordem que transtorna a tradicional. Por isso não há exagero algum em dizer que o homem engendrado pelo século XIX é, para os efeitos da vida pública, um homem à parte de todos os demais homens.

O homem do século XVIII se diferencia, claro está, do dominante no XVII, e este daquele que caracteriza o XVI; mas todos eles resultam parentes, similares e até idênticos no essencial, quando confrontados com esse homem novo. Para o "vulgo" de todas as épocas, "vida" significara antes de tudo limitação, obrigação, dependência; em uma palavra, pressão. Se se quiser, diga-se opressão, desde que por ela não se entenda apenas a jurídica e social, esquecendo a cósmica. Porque esta última é a que nunca faltou até há cem anos, data em que começa a expansão da técnica científica, física e administrativa, praticamente ilimitada. Antes, mesmo para o rico e poderoso, o mundo era um âmbito de pobreza, dificuldade e perigo.

O mundo que rodeia o homem novo desde o nascimento não o move a limitar-se em nenhum sentido, não lhe apresenta veto nem contenção alguma; ao contrário, atiça seus apetites, que, em princípio, podem crescer indefinidamente. Pois acontece, e isto é muito importante, que esse mundo do século XIX e dos começos do XX não só tem as perfeições e amplitudes que de fato possui, como ainda sugere a seus habitantes uma segurança radical de que amanhã será ainda mais rico, mais perfeito e mais amplo, dando a impressão de possuir um crescimento espontâneo e inesgotável.

Ainda hoje, apesar de alguns sinais que iniciam uma pequena brecha nessa fé rotunda, ainda hoje muito poucos homens duvidam de que os automóveis serão dentro de cinco anos mais confortáveis e mais baratos que os de hoje. Acredita-se nisso do mesmo modo que na próxima saída do sol. O símile é formal. Porque, com efeito, o homem vulgar, ao encontrar esse mundo técnica e socialmente tão perfeito, acredita que a natureza o produziu, e nunca pensa nos esforços geniais de indivíduos excelentes que sua criação supõe. Menos ainda admitirá a ideia de que todas essas facilidades continuam apoiadas em certas virtudes difíceis dos homens, cuja menor falha volatilizaria rapidamente a magnífica construção.

Isso nos leva a apontar, no diagrama psicológico do homem-massa atual, dois primeiros traços: a livre expansão de seus desejos vitais, portanto, de sua pessoa, e a radical ingratidão diante de tudo quanto tornou possível a facilidade de sua existência. Um e outro traço compõem a conhecida psicologia da criança mimada. E, com efeito, não erraria quem utilizasse essa psicologia como uma grade para observar através dela a alma das massas atuais.

Herdeiro de um passado longuíssimo e genial, genial em inspirações e em esforços, o novo vulgo foi mimado pelo mundo ao redor. Mimar é não limitar os desejos, dar a um ser a impressão de que tudo lhe é permitido e de que a nada está obrigado. A criatura submetida a esse regime não tem a experiência dos próprios limites. À força de evitar-lhe toda pressão em redor, todo choque com outros seres, chega a acreditar efetivamente que só ela existe e se acostuma a não contar com os demais, sobretudo a não contar com ninguém como superior a ela. Essa sensação da superioridade alheia só poderia ser-lhe proporcionada por quem, mais forte que ela, a tivesse obrigado a renunciar a um desejo, a limitar-se, a conter-se.

Assim teria aprendido esta disciplina essencial: "Aí termino eu e começa outro que pode mais que eu. No mundo, pelo visto, há dois: eu e outro superior a mim". O mundo ensinava cotidianamente essa sabedoria elementar ao homem médio de outras épocas, porque era um mundo tão toscamente organizado que as catástrofes eram frequentes e nele nada havia de seguro, abundante ou estável. As novas massas, porém, encontram uma paisagem cheia de possibilidades e, além disso, segura; e tudo isso pronto, à sua disposição, sem depender do esforço prévio delas, como encontramos o sol no alto sem tê-lo subido nós ao ombro.

Nenhum ser humano agradece a outro o ar que respira, porque o ar não foi fabricado por ninguém: pertence ao conjunto do que "está aí", daquilo que dizemos ser "natural", porque não falta. Essas massas mimadas são pouco inteligentes a ponto de acreditar que essa organização material e social, posta à sua disposição como o ar, é da mesma origem que ele, já que tampouco falha, ao que parece, e é quase tão perfeita quanto a natural.

Minha tese é, pois, esta: a própria perfeição com que o século XIX deu organização a certas ordens da vida faz com que as massas beneficiárias não a considerem organização, e sim natureza. Assim se explica e se define o absurdo estado de ânimo que essas massas revelam: preocupam-se apenas com seu bem-estar e, ao mesmo tempo, são insolidárias das causas desse bem-estar. Como não veem nas vantagens da civilização uma invenção e construção prodigiosas, que só com grandes esforços e cautelas podem ser sustentadas, creem que seu papel se reduz a exigi-las peremptoriamente, à maneira de direitos nativos.

Nos motins provocados pela escassez, as massas populares costumam procurar pão, e o meio que empregam costuma ser destruir as padarias. Isso pode servir como símbolo do comportamento que, em proporções mais vastas e sutis, adotam as massas atuais diante da civilização que as nutre.

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