Capítulo V - Um dado estatístico
# Capítulo V - Um dado estatístico
Este ensaio gostaria de vislumbrar o diagnóstico de nosso tempo, de nossa vida atual. A primeira parte dele já foi enunciada, e pode resumir-se assim: nossa vida, como repertório de possibilidades, é magnífica, exuberante, superior a todas as historicamente conhecidas. Justamente porque seu formato é maior, transbordou todos os leitos, os princípios, as normas e os ideais legados pela tradição. É mais vida que todas as vidas e, por isso mesmo, mais problemática. Não pode orientar-se no pretérito. Tem de inventar o próprio destino.
Mas agora é preciso completar o diagnóstico. A vida, que é antes de tudo aquilo que podemos ser, vida possível, é também, por isso mesmo, decidir entre as possibilidades aquilo que efetivamente vamos ser. Circunstância e decisão são os dois elementos radicais de que a vida se compõe. A circunstância, as possibilidades, é aquilo que de nossa vida nos é dado e imposto. Ela constitui aquilo que chamamos mundo. A vida não escolhe seu mundo; viver é encontrar-se de saída em um mundo determinado e inalterável: este de agora.
Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas essa fatalidade vital não se parece com a mecânica. Não somos disparados sobre a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória está absolutamente predeterminada. A fatalidade em que caímos ao cair neste mundo, e o mundo é sempre este, este de agora, consiste em todo o contrário. Em vez de nos impor uma trajetória, impõe-nos várias e, consequentemente, força-nos a escolher. Surpreendente condição a de nossa vida! Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercer a liberdade, a decidir aquilo que vamos ser neste mundo. Nem um único instante se deixa descansar nossa atividade de decisão. Mesmo quando, desesperados, nos abandonamos ao que queira vir, decidimos não decidir.
É, pois, falso dizer que na vida "decidem as circunstâncias". Ao contrário: as circunstâncias são o dilema, sempre novo, diante do qual temos de decidir-nos. Quem decide, porém, é nosso caráter.
Tudo isso vale também para a vida coletiva. Também nela há, primeiro, um horizonte de possibilidades e, depois, uma resolução que escolhe e decide o modo efetivo da existência coletiva. Essa resolução emana do caráter que a sociedade tenha, ou, o que é o mesmo, do tipo de homem dominante nela. Em nosso tempo domina o homem-massa; é ele quem decide. Não se diga que isso era o que já acontecia na época da democracia, do sufrágio universal. No sufrágio universal as massas não decidem; seu papel consistiu em aderir à decisão de uma ou outra minoria. Estas apresentavam seus "programas", excelente vocábulo. Os programas eram, com efeito, programas de vida coletiva. Neles se convidava a massa a aceitar um projeto de decisão.
Hoje acontece uma coisa muito diferente. Se se observa a vida pública dos países onde o triunfo das massas avançou mais, os países mediterrâneos, surpreende notar que neles se vive politicamente ao dia. O fenômeno é sobremaneira estranho. O poder público acha-se nas mãos de um representante de massas. Estas são tão poderosas que aniquilaram toda oposição possível. São donas do poder público em forma tão incontrastável e superlativa que seria difícil encontrar na história situações de governo tão preponderante quanto estas. E, contudo, o poder público, o governo, vive ao dia; não se apresenta como um porvir franco, nem significa um anúncio claro de futuro, não aparece como começo de algo cujo desenvolvimento ou evolução resulte imaginável. Em suma, vive sem programa de vida, sem projeto. Não sabe para onde vai porque, a rigor, não vai, não tem caminho prefixado, trajetória antecipada.
Quando esse poder público tenta justificar-se, não alude de modo algum ao futuro; ao contrário, fechado no presente, diz com perfeita sinceridade: "sou um modo anormal de governo imposto pelas circunstâncias". Isto é, pela urgência do presente, não por cálculos do futuro. Daí que sua atuação se reduza a esquivar o conflito de cada hora; não a resolvê-lo; antes, a escapar dele por ora, empregando os meios que sejam, ainda à custa de acumular, com esse emprego, conflitos maiores sobre a hora próxima. Assim foi sempre o poder público quando exercido diretamente pelas massas: onipotente e efêmero. O homem-massa é o homem cuja vida carece de projetos e vai à deriva. Por isso não constrói nada, ainda que suas possibilidades, seus poderes, sejam enormes.
E esse tipo de homem decide em nosso tempo. Convém, pois, que analisemos seu caráter.
A chave para essa análise se encontra quando, retrocedendo ao começo deste ensaio, perguntamos: de onde vieram todas essas multidões que agora enchem e transbordam o cenário histórico?
Há alguns anos, o grande economista Werner Sombart destacava um dado simplicíssimo, que é estranho não constar em toda cabeça preocupada com os assuntos contemporâneos. Esse dado muito simples basta por si só para esclarecer nossa visão da Europa atual e, se não basta, põe-nos na pista de todo esclarecimento. O dado é o seguinte: desde que a história europeia começa no século VI até 1800, portanto, em toda a extensão de doze séculos, a Europa não consegue chegar a outra cifra de população senão a de 180 milhões de habitantes. Pois bem: de 1800 a 1914, portanto, em pouco mais de um século, a população europeia sobe de 180 para 460 milhões. Presumo que o contraste dessas cifras não deixa lugar a dúvida quanto aos dotes prolíficos da última centúria. Em três gerações, ela produziu gigantescamente pasta humana que, lançada como uma torrente sobre a área histórica, a inundou. Bastaria, repito, esse dado para compreender o triunfo das massas e quanto nele se reflete e se anuncia. Por outro lado, deve ser acrescentado como a parcela mais concreta ao crescimento da vida que antes fiz constar.
Mas esse dado mostra, ao mesmo tempo, que é infundada a admiração com que sublinhamos o crescimento de países novos como os Estados Unidos da América. Maravilha-nos seu crescimento, que em um século chegou a cem milhões de homens, quando o maravilhoso é a proliferação da Europa. Eis outra razão para corrigir a miragem que supõe uma americanização da Europa. Nem sequer o traço que poderia parecer mais evidente para caracterizar a América, a velocidade de aumento de sua população, lhe é peculiar. A Europa cresceu no século passado muito mais que a América. A América foi feita com o excedente da Europa.
Mas, embora o dado calculado por Werner Sombart não seja tão conhecido quanto deveria, era de sobra notório o fato confuso de haver aumentado consideravelmente a população europeia para que insistamos nele. Portanto, não é o aumento de população que me interessa nas cifras transcritas; antes, que, graças a seu contraste, elas põem em relevo o caráter vertiginoso do crescimento. Esta é a que agora nos importa. Porque esse ritmo vertiginoso significa que foram projetadas aos borbotões sobre a história levas e levas de homens em ritmo tão acelerado que era difícil impregná-los de cultura tradicional.
E, com efeito, o tipo médio do atual homem europeu possui uma alma mais sadia e mais forte que a do século passado, porém muito mais simples. Daí que às vezes produza a impressão de um homem primitivo surgido inesperadamente em meio a uma civilização velhíssima. Nas escolas, que tanto envaideciam o século passado, não pôde fazer-se outra coisa senão ensinar às massas as técnicas da vida moderna; não se conseguiu educá-las. Deram-lhes instrumentos para viver intensamente, porém não sensibilidade para os grandes deveres históricos; inocularam-lhes atropeladamente o orgulho e o poder dos meios modernos, porém não o espírito. Por isso não querem saber do espírito, e as novas gerações se dispõem a tomar o comando do mundo tratando-o como um paraíso sem vestígios antigos, sem problemas tradicionais e complexos.
Corresponde, pois, ao século passado a glória e a responsabilidade de ter soltado sobre a superfície da história as grandes multidões. Por isso mesmo, esse fato oferece a perspectiva mais adequada para julgar com equidade aquela centúria. Algo extraordinário, incomparável, devia haver nela quando em sua atmosfera se produzem tais colheitas de fruto humano. É frívola e ridícula toda preferência pelos princípios que inspiraram qualquer outra idade pretérita se antes não demonstra ter levado em conta esse fato magnífico e tentado digeri-lo. A história inteira aparece como um gigantesco laboratório onde se fizeram todos os ensaios imagináveis para obter uma fórmula de vida pública que favorecesse a planta "homem". E, para além de toda sofisticação possível, encontramos a experiência de que, ao submeter a semente humana ao tratamento desses dois princípios, democracia liberal e técnica, em um só século a espécie europeia se triplica.
Fato tão exuberante força-nos, se não preferimos ser dementes, a tirar estas consequências: primeira, que a democracia liberal fundada na criação técnica é o tipo superior de vida pública até agora conhecido; segunda, que esse tipo de vida não será o melhor imaginável, porém aquele que imaginemos melhor terá de conservar o essencial daqueles princípios; terceira, que é suicida todo retorno a formas de vida inferiores à do século XIX.
Uma vez reconhecido isso com toda a clareza exigida pela clareza do próprio fato, é preciso voltar-se contra o século XIX. Se é evidente que havia nele algo extraordinário e incomparável, não é menos evidente que devia padecer certos vícios radicais, certas insuficiências constitutivas, quando engendrou uma casta de homens, os homens-massa rebeldes, que põem em perigo iminente os próprios princípios a que deveram a vida. Se esse tipo humano continuar dono da Europa e for, definitivamente, quem decide, bastarão trinta anos para que nosso continente retroceda à barbárie. As técnicas jurídicas e materiais se volatilizarão com a mesma facilidade com que tantas vezes se perderam segredos de fabricação. A vida inteira se contrairá. A atual abundância de possibilidades se converterá em efetiva diminuição, escassez, impotência angustiosa; em verdadeira decadência. Porque a rebelião das massas é da mesma natureza daquilo que Rathenau chamava "a invasão vertical dos bárbaros".
Importa, pois, muito conhecer a fundo esse homem-massa, que é pura potência do maior bem e do maior mal.