Capítulo IV - O crescimento da vida A Rebelião das Massas - Tradução Literunico · Capítulo 4 de 20
Obra Menu

Capítulo IV - O crescimento da vida

# Capítulo IV - O crescimento da vida

O império das massas e a elevação do nível, a altitude do tempo que ele anuncia, são, por sua vez, apenas sintomas de um fato mais completo e geral. Esse fato é quase grotesco e inacreditável em sua mesma e simples evidência. É, simplesmente, que o mundo, de repente, cresceu, e com ele e nele a vida. Por ora, esta se mundializou efetivamente; quero dizer que o conteúdo da vida no homem de tipo médio é hoje todo o planeta; que cada indivíduo vive habitualmente em todo o mundo. Há pouco mais de um ano, os sevilhanos acompanhavam hora por hora, em seus jornais populares, o que estava acontecendo a alguns homens junto ao Polo, isto é, sobre o fundo ardente da campina bética passavam blocos de gelo à deriva. Cada pedaço de terra já não está recluso em seu lugar geométrico; para muitos efeitos visuais, atua nos demais pontos do planeta. Segundo o princípio físico de que as coisas estão ali onde atuam, reconheceremos hoje a qualquer ponto do globo a mais efetiva ubiquidade. Essa proximidade do distante, essa presença do ausente, aumentou em proporção fabulosa o horizonte de cada vida.

E o mundo cresceu também temporalmente. A pré-história e a arqueologia descobriram âmbitos históricos de extensão quimérica. Civilizações inteiras e impérios dos quais há pouco nem o nome se suspeitava foram anexados à nossa memória como novos continentes. O jornal ilustrado e a tela do cinema trouxeram todos esses remotíssimos pedaços do mundo à visão imediata do vulgo.

Mas esse aumento espaciotemporal do mundo não significaria por si nada. O espaço e o tempo físicos são o absolutamente estúpido do universo. Por isso é mais justificado do que costuma crer-se o culto à pura velocidade que nossos contemporâneos exercitam transitoriamente. A velocidade feita de espaço e tempo é tão estúpida quanto seus ingredientes; serve, contudo, para anulá-los. Uma estupidez só pode ser dominada por outra. Era para o homem questão de honra triunfar do espaço e do tempo cósmicos, que carecem por completo de sentido, e não há razão para estranhar que nos produza um prazer pueril fazer funcionar a velocidade vazia, com a qual matamos espaço e jugulamos tempo. Ao anulá-los, vivificamo-los, tornamos possível seu aproveitamento vital, podemos estar em mais lugares que antes, gozar de mais idas e vindas, consumir em menos tempo vital mais tempo cósmico.

Mas, em definitivo, o crescimento substantivo do mundo não consiste em suas maiores dimensões; antes, em incluir mais coisas. Cada coisa, tome-se a palavra em seu sentido mais amplo, é algo que se pode desejar, tentar, fazer, desfazer, encontrar, gozar ou repelir; nomes todos que significam atividades vitais.

Tome-se uma qualquer de nossas atividades; por exemplo, comprar. Imaginem-se dois homens, um do presente e outro do século XVIII, que possuam fortuna igual, proporcionalmente ao valor do dinheiro em ambas as épocas, e compare-se o repertório de coisas à venda que se oferece a um e a outro. A diferença é quase fabulosa. A quantidade de possibilidades que se abrem diante do comprador atual chega a ser praticamente ilimitada. Não é fácil imaginar, pelo desejo, um objeto que não exista no mercado, e vice-versa: não é possível que um homem imagine e deseje tudo quanto se encontra à venda. Dir-me-ão que, com fortuna proporcionalmente igual, o homem de hoje não poderá comprar mais coisas que o do século XVIII. O fato é falso. Hoje se podem comprar muitas mais, porque a indústria barateou quase todos os artigos. No fim das contas, porém, não me importaria que o fato fosse certo; antes, sublinharia ainda mais aquilo que tento dizer.

A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto; mas, por isso mesmo, é antes uma escolha, e a escolha começa por tomar consciência das possibilidades que o mercado oferece. Daí resulta que a vida, em seu modo "comprar", consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra enquanto tais. Quando se fala de nossa vida, costuma esquecer-se isto, que me parece essencialíssimo: nossa vida é, em todo instante e antes de tudo, consciência do que nos é possível. Se em cada momento não tivéssemos diante de nós senão uma única possibilidade, careceria de sentido chamá-la assim. Seria antes pura necessidade.

Mas aí está: este estranhíssimo fato de nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra diante de si várias saídas, que por serem várias adquirem o caráter de possibilidades entre as quais temos de decidir. Tanto vale dizer que vivemos quanto dizer que nos encontramos em um ambiente de possibilidades determinadas. A esse âmbito costuma chamar-se "as circunstâncias". Toda vida é achar-se dentro da "circunstância" ou mundo. Porque este é o sentido originário da ideia "mundo". Mundo é o repertório de nossas possibilidades vitais. Não é, pois, algo separado e alheio à nossa vida; é sua autêntica periferia. Representa aquilo que podemos ser; portanto, nossa potencialidade vital. Esta precisa concretar-se para realizar-se, ou, dito de outra maneira, chegamos a ser apenas uma parte mínima daquilo que podemos ser. Daí que o mundo nos pareça uma coisa tão enorme, e nós, dentro dele, uma coisa tão pequena. O mundo, ou nossa vida possível, é sempre maior que nosso destino ou vida efetiva.

Mas agora me importa somente fazer notar como cresceu a vida do homem na dimensão da potencialidade. Ele conta com um âmbito de possibilidades fabulosamente maior que nunca. Na ordem intelectual, encontra mais caminhos de possível ideação, mais problemas, mais dados, mais ciências, mais pontos de vista. Enquanto os ofícios ou carreiras na vida primitiva se enumeram quase com os dedos de uma mão, pastor, caçador, guerreiro, mago, o programa de misteres possíveis hoje é superlativamente grande. Nos prazeres acontece coisa parecida, embora o fenômeno, com gravidade maior do que se supõe, não apresente um elenco tão exuberante quanto nos demais aspectos da vida. No entanto, para o homem de vida média que habita as urbes, e as urbes são a representação da existência atual, as possibilidades de gozar aumentaram, no que vai do século, de maneira fantástica.

Mas o crescimento da potencialidade vital não se reduz ao que foi dito até aqui. Aumentou também em um sentido mais imediato e misterioso. É fato constante e notório que no esforço físico e esportivo alcançam-se hoje marcas que superam enormemente todas as conhecidas no passado. Não basta admirar cada uma delas e reconhecer o recorde que superam; é preciso advertir a impressão que sua frequência deixa no ânimo, convencendo-nos de que o organismo humano possui em nossos tempos capacidades superiores às que jamais teve.

Porque coisa similar acontece na ciência. Em um par de lustros, nada mais, ela alargou inverossimilmente seu horizonte cósmico. A física de Einstein move-se em espaços tão vastos que a antiga física de Newton ocupa neles apenas um sótão. E esse crescimento extensivo deve-se a um crescimento intensivo na previsão científica. A física de Einstein foi construída atendendo às mínimas diferenças que antes se desprezavam e não eram levadas em conta por parecerem sem importância. O átomo, enfim, limite ontem do mundo, resulta que hoje se expandiu até converter-se em todo um sistema planetário. E em tudo isso não me refiro ao que possa significar como perfeição da cultura, pois isso não me interessa agora; antes, ao crescimento das potências subjetivas que tudo isso supõe. Não sublinho que a física de Einstein seja mais exata que a de Newton; antes, que o homem Einstein seja capaz de maior exatidão e liberdade de espírito que o homem Newton; do mesmo modo que o campeão de boxe dá hoje golpes de calibre maior que os que jamais foram dados.

Assim como o cinematógrafo e a ilustração põem diante dos olhos do homem médio os lugares mais remotos do planeta, os jornais e as conversas lhe fazem chegar a notícia dessas realizações intelectuais, que os aparelhos técnicos recém-inventados confirmam nas vitrines. Tudo isso decanta em sua mente a impressão de fabulosa prepotência.

Não quero dizer, com o que ficou dito, que a vida humana seja hoje melhor que em outros tempos. Não falei da qualidade da vida presente, apenas de seu crescimento, de seu avanço quantitativo ou potencial. Creio, com isso, descrever vigorosamente a consciência do homem atual, seu tom vital, que consiste em sentir-se com maior potencialidade que nunca e em parecer-lhe todo o pretérito afetado de nanismo.

Era necessária essa descrição para evitar as lucubrações sobre decadência, e em especial sobre decadência ocidental, que pulularam no ar da última década. Recorde-se o raciocínio que eu fazia, e que me parece tão simples quanto evidente. Não vale falar de decadência sem precisar o que decai. Refere-se o vocábulo pessimista à cultura? Há uma decadência da cultura europeia? Há antes apenas uma decadência das organizações nacionais europeias? Suponhamos que sim. Bastaria isso para falar da decadência ocidental? De modo algum. Porque essas decadências são diminuições parciais, relativas a elementos secundários da história, cultura e nações. Só há uma decadência absoluta: a que consiste em vitalidade minguante; e esta só existe quando se sente.

Por essa razão me detive a considerar um fenômeno que costuma ser desatendido: a consciência ou sensação que toda época tem de sua altitude vital. Isso nos levou a falar da "plenitude" que alguns séculos sentiram diante de outros que, inversamente, se viam a si mesmos como decaídos de maiores alturas, de antigas e resplandecentes idades de ouro. E eu concluía fazendo notar o fato evidentíssimo de que nosso tempo se caracteriza por uma estranha presunção de ser mais que todo outro tempo passado; mais ainda: por desentender-se de todo pretérito, não reconhecer épocas clássicas e normativas, e ver-se a si mesmo como uma vida nova, superior a todas as antigas e irredutível a elas.

Duvido que, sem firmar-se bem nessa advertência, se possa entender nosso tempo. Porque esse é precisamente seu problema. Se se sentisse decaído, veria outras épocas como superiores a ele, e isso seria uma mesma coisa com estimá-las, admirá-las e venerar os princípios que as informaram. Nosso tempo teria ideais claros e firmes, ainda que fosse incapaz de realizá-los. Mas a verdade é estritamente o contrário: vivemos em um tempo que se sente fabulosamente capaz de realizar, mas não sabe o que realizar. Domina todas as coisas, porém não é dono de si mesmo. Sente-se perdido em sua própria abundância. Com mais meios, mais saber, mais técnicas que nunca, resulta que o mundo atual segue como o mais desditoso que já houve: puramente à deriva.

Daí essa estranha dualidade de prepotência e insegurança que se aninha na alma contemporânea. Acontece-lhe o que se dizia do Regente durante a infância de Luís XV: que tinha todos os talentos, exceto o talento para usá-los. Muitas coisas pareciam já impossíveis ao século XIX, firme em sua fé progressista. Hoje, de tanto parecer-nos tudo possível, pressentimos que também é possível o pior: o retrocesso, a barbárie, a decadência. Por si mesmo isso não seria mau sintoma: significaria que voltamos a tomar contato com a insegurança essencial a todo viver, com a inquietude, ao mesmo tempo dolorosa e deliciosa, que se encerra em cada minuto, se soubermos vivê-lo até seu centro, até sua pequena víscera palpitante e crua.

De ordinário, fugimos de palpar essa pulsação pavorosa que faz de cada instante sincero um diminuto coração transeunte; esforçamo-nos por obter segurança e insensibilizar-nos diante do dramatismo radical de nosso destino, vertendo sobre ele o costume, o uso, o lugar-comum, todos os clorofórmios. É, pois, benéfico que pela primeira vez depois de quase três séculos nos surpreendamos com a consciência de não saber o que acontecerá amanhã.

Todo aquele que se coloque diante da existência em uma atitude séria e se faça plenamente responsável por ela sentirá certo gênero de insegurança que o incita a permanecer alerta. O gesto que o regulamento romano impunha ao sentinela da legião era manter o dedo indicador sobre os lábios para evitar a sonolência e conservar-se atento. Não é mau esse gesto, que parece impor silêncio ainda maior ao silêncio noturno, para poder ouvir a secreta germinação do futuro.

A segurança das épocas de plenitude, assim na última centúria, é uma ilusão óptica que leva a despreocupar-se do porvir, encarregando de sua direção a mecânica do universo. Tanto o liberalismo progressista quanto o socialismo de Marx supõem que aquilo que desejam como futuro ótimo se realizará inexoravelmente, com necessidade semelhante à astronômica. Protegidos diante da própria consciência por essa ideia, soltaram o leme da história, deixaram de estar alerta, perderam a agilidade e a eficácia. Assim, a vida lhes escapou das mãos, tornou-se por completo insubmissa e hoje anda solta, sem rumo conhecido.

Sob sua máscara de generoso futurismo, o progressista não se preocupa com o futuro: convencido de que este não tem surpresas nem segredos, peripécias nem inovações essenciais; seguro de que o mundo já irá por via reta, sem desvios nem retrocessos, retira sua inquietude do porvir e instala-se em um definitivo presente. Não poderá estranhar que hoje o mundo pareça esvaziado de projetos, antecipações e ideais. Ninguém se preocupou em antecipá-los. Tal foi a deserção das minorias diretoras, que se encontra sempre no reverso da rebelião das massas.

Mas já é tempo de voltarmos a falar dela. Depois de haver insistido no aspecto favorável que apresenta o triunfo das massas, convém que deslizemos por sua outra encosta, mais perigosa.

1/1
Menu

Fazer anotação