Quanto ao pacifismo A Rebelião das Massas - Tradução Literunico · Capítulo 17 de 20
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Quanto ao pacifismo

# Quanto ao pacifismo

Há vinte anos, a Inglaterra, por meio de seu Governo e de sua opinião pública, embarcou no pacifismo. Cometemos o erro de designar com esse único nome atitudes muito diferentes, tão diferentes que, na prática, resultam com frequência antagônicas. Há, de fato, muitas formas de pacifismo. A única coisa comum entre elas é algo muito vago: a crença de que a guerra é um mal e a aspiração de eliminá-la como meio de trato entre os homens. Os pacifistas, porém, começam a divergir tão logo dão o passo imediato e perguntam até que ponto é possível, em absoluto, o desaparecimento das guerras. Enfim, a divergência se torna superlativa quando se põem a pensar nos meios exigidos pela instauração da paz sobre este globo terrestre tão combativo. Talvez fosse bem mais útil do que se suspeita um estudo completo das diversas formas do pacifismo. Dele surgiria bastante clareza. É evidente, contudo, que não me cabe, agora nem aqui, fazer um estudo no qual ficaria definido com certa precisão o peculiar pacifismo em que a Inglaterra, por meio de seu Governo e de sua opinião pública, embarcou há vinte anos.

Por outro lado, a realidade atual infelizmente nos facilita o assunto. É fato demasiado notório que esse pacifismo inglês fracassou. Isso significa que esse pacifismo foi um erro. O fracasso foi tão grande, tão cabal, que alguém teria direito de rever radicalmente a questão e perguntar se todo pacifismo não seria erro. Prefiro, porém, adaptar-me agora quanto possa ao ponto de vista inglês e vou supor que sua aspiração à paz do mundo era uma excelente aspiração. Isso ressalta ainda mais o que houve de erro no restante, a saber, na apreciação das possibilidades de paz que o mundo atual oferecia e na determinação da conduta que deve seguir quem pretenda ser de verdade pacifista. Ao dizer isto, não sugiro nada que possa levar ao desânimo. Antes o contrário. Por que desanimar? Talvez as duas únicas coisas a que o homem não tem direito sejam a petulância e seu oposto, o desânimo. Nunca há razão suficiente nem para uma nem para outro. Basta advertir o estranho mistério da condição humana, que consiste em uma situação tão negativa e derrotada quanto a de haver cometido um erro converter-se magicamente em nova vitória para o homem, bastando que o tenha reconhecido. O reconhecimento de um erro é por si mesmo uma nova verdade, uma espécie de luz que se acende dentro dele.

Ao contrário do que creem os que só lamentam, todo erro é uma propriedade que aumenta nosso patrimônio. Em vez de chorar sobre ele, convém apressar-se em explorá-lo. Para isso é preciso que nos resolvamos a estudá-lo a fundo, a descobrir sem piedade suas raízes e a elaborar energicamente a nova concepção das coisas que ele nos proporciona. Suponho que os ingleses já se disponham, serenamente, mas decididamente, a retificar o enorme erro que durante vinte anos foi seu peculiar pacifismo e a substituí-lo por outro pacifismo, mais perspicaz e mais eficiente.

Como quase sempre acontece, o maior defeito do pacifismo inglês, e em geral dos que se apresentam como porta-vozes do pacifismo, foi subestimar o inimigo. Essa subestima lhes inspirou um diagnóstico falso. O pacifista vê na guerra um dano, um crime ou um vício. Esquece, porém, que, antes disso e acima disso, a guerra é um esforço enorme que os homens fazem para resolver certos conflitos. A guerra é invenção, não instinto. Os animais a desconhecem, e ela é pura instituição humana, como a ciência ou a administração. Ela levou a uma das maiores descobertas, base de toda civilização: a descoberta da disciplina. Todas as demais formas de disciplina procedem da forma originária, que foi a disciplina militar. O pacifismo está perdido e se converte em beatice vazia se não tem presente que a guerra é uma técnica genial e formidável de vida e para a vida.

Como toda forma histórica, a guerra tem dois aspectos: o da hora de sua invenção e o da hora de sua superação. Na hora de sua invenção, significou progresso incalculável. Hoje, quando se aspira a superá-la, vemos dela apenas o dorso sujo, seu horror, sua rudeza, sua insuficiência. Do mesmo modo, costumamos, sem maior reflexão, maldizer a escravidão, sem advertir o avanço maravilhoso que representou quando foi inventada. Antes dela, o que se fazia era matar todos os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que concebeu, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu trabalho. Augusto Comte, que tinha um grande sentido humano, isto é, histórico, já viu desse modo a instituição da escravidão, libertando-se das tolices que Rousseau diz a respeito dela, e a nós cabe generalizar sua advertência, aprendendo a olhar todas as coisas humanas sob essa dupla perspectiva, a saber: o aspecto que têm ao chegar e o aspecto que têm ao partir. Os romanos, muito finamente, encarregaram duas divindades de consagrar esses dois instantes: Adeona e Abeona, a deusa da chegada e a deusa da partida.

Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que, para eliminar a guerra, bastava não fazê-la ou, no máximo, trabalhar para que não fosse feita. Ao ver nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, acreditou que bastava extirpá-la e que não era preciso substituí-la. O enorme esforço que é a guerra só pode ser evitado se por paz se entende um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro caminho é puro erro. Ele interpreta a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que, se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que é preciso fazer, que é preciso fabricar, mobilizando todas as potências humanas. A paz não "está aí", simplesmente, pronta, sem mais, para que o homem a desfrute. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é dado de graça ao homem; antes, cabe a ele fazê-lo, construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser *homo faber*.

Atendendo-se a tudo isso, parece surpreendente a crença mantida pela Inglaterra de que o máximo que podia fazer em prol da paz era desarmar, um fazer que tanto se parece com simples omissão. Essa crença resulta incompreensível se não se percebe o erro de diagnóstico que lhe serve de base, a saber: a ideia de que a guerra procede simplesmente das paixões dos homens, e de que, reprimido o apaixonamento, o belicismo ficará asfixiado. Para ver com clareza a questão, façamos o que fazia lorde Kelvin para resolver seus problemas de física: construamos para nós um modelo imaginário. Imaginemos, com efeito, que em certo momento todos os homens renunciassem à guerra, tal como a Inglaterra, por sua parte, tentou fazer. Acredita-se que isso basta e, ainda mais, que com isso teria sido dado o mais breve passo eficiente no sentido da paz? Grande erro!

A guerra, repitamos, era um meio que os homens haviam inventado para resolver certos conflitos. A renúncia à guerra não suprime esses conflitos. Pelo contrário, deixa-os mais intactos e menos resolvidos que nunca. A ausência de paixões, a vontade pacífica de todos os homens, resultariam completamente ineficazes, porque os conflitos reclamariam solução, e enquanto não se inventasse outro meio a guerra reapareceria inexoravelmente nesse planeta imaginário habitado apenas por pacifistas.

O que importa, em última instância, no pacifismo, portanto, não é a vontade de paz. É preciso que essa palavra deixe de significar uma boa intenção e represente um sistema de novos meios de trato entre os homens. Nada fértil se deve esperar nessa ordem enquanto o pacifismo, em vez de ser um desejo gratuito e cômodo, não passar a ser um difícil conjunto de novas técnicas.

O enorme dano que aquele pacifismo trouxe à causa da paz consistiu em nos impedir de ver a falta das técnicas mais elementares, cujo exercício concreto e preciso constitui aquilo que, com nome vago, chamamos paz.

A paz, por exemplo, é o direito como forma de trato entre os povos. Pois bem: o pacifismo usual tomava por certo que esse direito existia, que estava ali à disposição dos homens, e que apenas as paixões deles e seus instintos de violência os induziam a ignorá-lo. Ora, isso se opõe gravemente à verdade.

Para que o direito, ou um ramo dele, exista, é preciso: primeiro, que alguns homens, especialmente inspirados, descubram certas ideias ou princípios de direito; segundo, que haja propaganda e expansão dessas ideias de direito sobre a coletividade em questão, em nosso caso ao menos a coletividade formada pelos povos europeus e americanos, incluindo os domínios ingleses da Oceania; terceiro, que essa expansão chegue a predominar de tal modo que aquelas ideias de direito se consolidem em forma de opinião pública. Então, e só então, podemos falar, na plenitude do termo, em direito, isto é, em norma vigente. Pouco importa que não haja legislador; pouco importa que não haja juízes. Se aquelas ideias dominam de fato as almas, atuarão inevitavelmente como instâncias às quais a conduta pode recorrer. Esta é a verdadeira substância do direito.

Pois bem: continua inexistente um direito referente às matérias que originam inevitavelmente as guerras. Essa inexistência aparece tanto no sentido de que ainda não alcançou vigência, isto é, de que ainda não se consolidou como norma firme na opinião pública, quanto no sentido de que nem sequer existe como ideia, como puro teorema, incubado na mente de algum pensador. Faltando tudo isso, faltando até em teoria um direito dos povos, pretende-se que desapareçam as guerras entre eles? Permita-se que eu qualifique semelhante pretensão de frívola, de imoral. Porque é imoral pretender que uma coisa desejada se realize magicamente, simplesmente porque a desejamos. Só é moral o desejo acompanhado pela severa vontade de preparar os meios de sua execução.

Desconhecemos quais são os direitos subjetivos das nações e nem sequer temos indícios da forma que teria o direito objetivo capaz de regular seus movimentos. A proliferação de tribunais internacionais, de órgãos de arbitragem entre Estados, presenciada nos últimos cinquenta anos, contribui para nos ocultar a pobreza de verdadeiro direito internacional que sofremos. Não subestimo, nem de longe, a importância dessas magistraturas. Sempre é importante para o progresso de uma função moral que ela apareça materializada em um órgão especial, claramente visível. Contudo, a importância desses tribunais internacionais se reduziu a isso até hoje. O direito que administram é, no essencial, o mesmo que já existia antes de seu estabelecimento. Com efeito, ao passar revista às matérias julgadas por esses tribunais, nota-se que são as mesmas resolvidas desde antigo pela diplomacia. Não significaram progresso importante algum no essencial: a criação de um direito para essa realidade peculiar que são as nações.

Tampouco era lícito esperar maior fertilidade nessa ordem de uma etapa iniciada com o tratado de Versalhes e com a instituição da Sociedade das Nações, para nos referirmos apenas aos dois maiores e mais recentes cadáveres. Repugna-me atrair a atenção do leitor para coisas falidas, maltratadas ou em ruínas. Contudo, é indispensável fazê-lo para contribuir um pouco com o despertar do interesse por novas grandes empresas, por novas tarefas construtivas e salutares. É preciso evitar que se volte a cometer um erro como foi a criação da Sociedade das Nações, entendendo-se por isso aquilo que concretamente foi e significou essa instituição na hora de seu nascimento. Longe de erro qualquer, como os habituais na difícil tarefa da política, foi um erro que reclama o atributo de profundo. Foi um profundo erro histórico. O espírito que impulsionou aquela criação, o sistema de ideias filosóficas, históricas, sociológicas e jurídicas de que emanaram seu projeto e sua figura, já estava historicamente morto naquela data. Pertencia ao passado e, longe de antecipar o futuro, já era arcaico. E que ninguém diga que é fácil proclamar isso agora. Houve homens na Europa que já então denunciaram seu inevitável fracasso. Mais uma vez aconteceu aquilo que é quase normal na história, a saber, que o fato foi predito. Mais uma vez também os políticos não deram ouvidos a esses homens. Evito precisar a que grupo pertenciam os profetas. Basta dizer que, na fauna humana, representam a espécie mais oposta ao político. Sempre será este quem deve governar, e não o profeta; contudo, importa muito aos destinos humanos que o político ouça sempre aquilo que o profeta grita ou insinua. Todas as grandes épocas da história nasceram da colaboração sutil entre esses dois tipos de homem. Talvez uma das causas profundas da atual desorientação seja que, há duas gerações, os políticos se declararam independentes e cancelaram essa colaboração. Graças a isso produziu-se o fenômeno vergonhoso de que, a estas alturas da história e da civilização, o mundo navegue mais à deriva que nunca, entregue a uma mecânica cega. Cada vez é menos possível uma política sã sem longa antecipação histórica, sem profecia. Talvez as catástrofes presentes reabram os olhos dos políticos para o fato evidente de que há homens que, pelos temas de que habitualmente se ocupam, ou por possuírem almas sensíveis como finos registradores sísmicos, recebem antes dos demais a visita do porvir.

A Sociedade das Nações foi um gigantesco aparelho jurídico criado para um direito inexistente. Seu vazio de justiça foi fraudulentamente preenchido pela sempiterna diplomacia, que, ao se disfarçar de direito, contribuiu para a desmoralização universal.

Formule o leitor qualquer dos grandes conflitos hoje apresentados entre as nações e diga a si mesmo se encontra em sua mente uma possível norma jurídica que permita, sequer teoricamente, resolvê-los. Quais são, por exemplo, os direitos de um povo que ontem tinha vinte milhões de homens e hoje tem quarenta ou oitenta? Quem tem direito ao espaço desabitado do mundo? Esses exemplos, os mais toscos e elementares que se podem apresentar, põem bem à vista o caráter ilusório de todo pacifismo que não comece por ser uma nova técnica jurídica. Sem dúvida, o direito que aqui se postula é uma invenção muito difícil. Se fosse fácil, existiria há muito tempo. É difícil, exatamente tão difícil quanto a paz, com a qual coincide. Uma época que assistiu à invenção das geometrias não euclidianas, de uma física de quatro dimensões e de uma mecânica do descontínuo pode, sem espanto, contemplar essa empresa e decidir-se a empreendê-la. Em certo modo, o problema do novo direito internacional pertence ao mesmo estilo desses recentes progressos doutrinais. Também aqui se trataria de libertar uma atividade humana, o direito, de certa limitação radical que sempre sofreu. O direito, com efeito, é estático, e não em vão seu órgão principal se chama Estado. O homem ainda não conseguiu elaborar uma forma de justiça que não esteja circunscrita na cláusula *rebus sic stantibus*. Acontece, porém, que as coisas humanas não são *res stantes*; são todo o contrário, coisas históricas, isto é, puro movimento, mutação perpétua. O direito tradicional é apenas regulamento para uma realidade paralítica. E, como a realidade histórica muda periodicamente de modo radical, choca inevitavelmente com a estabilidade do direito, que se converte em uma camisa de força. Uma camisa de força posta em um homem são tem a virtude de torná-lo louco furioso. Daí, dizia eu recentemente, esse estranho aspecto patológico que a história tem e que a faz aparecer como uma luta sempiterna entre os paralíticos e os epilépticos. Dentro do povo produzem-se as revoluções, e entre os povos estouram as guerras. O bem que o direito pretende ser converte-se em um mal, como já nos ensina a Bíblia: "Por que tornastes o direito em fel e o fruto da justiça em absinto" (Oseias, 6, 12).

No direito internacional, essa incongruência entre a estabilidade da justiça e a mobilidade da realidade que o pacifista quer submeter àquela chega à sua máxima potência. Considerada no que importa ao direito, a história é, antes de tudo, a mudança na repartição do poder sobre a terra. E, enquanto não existirem princípios de justiça que, sequer em teoria, regulem satisfatoriamente essas mudanças do poderio, todo pacifismo é empenho amoroso perdido. Porque, se a realidade histórica é isso antes de tudo, parecerá evidente que a injúria máxima seja o *statu quo*. Não estranhe, pois, o fracasso da Sociedade das Nações, gigantesco aparelho construído para administrar o *statu quo*.

O homem necessita de um direito dinâmico, um direito plástico e em movimento, capaz de acompanhar a história em sua metamorfose. A demanda não é exorbitante nem utópica, nem sequer nova. Há mais de setenta anos, o direito, tanto civil quanto político, evolui nesse sentido. Por exemplo, quase todas as constituições contemporâneas procuram ser "abertas". Embora o expediente seja um pouco ingênuo, convém recordá-lo, porque nele se declara a aspiração a um direito móvel. A meu juízo, contudo, o mais fértil seria analisar a fundo e tentar definir com precisão, isto é, extrair a teoria que nele permanece muda, o fenômeno jurídico mais avançado produzido até hoje no planeta: a *British Commonwealth of Nations*. Dir-se-me-á que isto é impossível, porque precisamente esse estranho fenômeno jurídico foi forjado mediante estes dois princípios: um, o formulado por Balfour em 1926 com suas famosas palavras: "Nas questões do Império é preciso evitar o *refining, discussing or defining*." Outro, o princípio "da margem e da elasticidade", enunciado por sir Austen Chamberlain em seu histórico discurso de 12 de setembro de 1925: "Vejam-se as relações entre as diferentes seções do Império britânico; a unidade do Império britânico não está feita sobre uma constituição lógica. Não está sequer baseada em uma constituição. Porque queremos conservar a todo custo uma margem e uma elasticidade."

Seria um erro ver nessas duas fórmulas apenas emanações de oportunismo político. Longe disso, expressam muito adequadamente a formidável realidade que é a *British Commonwealth of Nations*, e a designam precisamente sob seu aspecto jurídico. O que elas não fazem é defini-la, porque um político não veio ao mundo para isso, e, se o político é inglês, sente que definir algo é quase cometer uma traição. É evidente, porém, que há outros homens cuja missão é fazer o que ao político, e especialmente ao inglês, está proibido: definir as coisas, ainda quando estas se apresentem com a pretensão de ser essencialmente vagas. Em princípio, o triângulo não é mais nem menos difícil que a névoa. Importaria muito reduzir a conceitos claros essa situação efetiva de direito que consiste em puras "margens" e puras "elasticidades". Porque a elasticidade é a condição que permite a um direito ser plástico, e, quando se lhe atribui uma margem, é porque se prevê seu movimento. Se, em vez de entender esses dois caracteres como meras elusões e insuficiências de um direito, os tomamos como qualidades positivas, é possível que se abram diante de nós as perspectivas mais férteis. Provavelmente a constituição do Império britânico se parece muito com o "molusco de referência" de que falou Einstein, uma ideia que no princípio foi julgada ininteligível e que hoje é base da nova mecânica.

A capacidade para descobrir a nova técnica de justiça que aqui se postula está pré-formada em toda a tradição jurídica da Inglaterra, mais intensamente que na de qualquer outro país. E isso, certamente, não por acaso. A maneira inglesa de ver o direito é um caso particular do estilo geral que caracteriza o pensamento britânico, no qual adquire sua expressão mais extrema e depurada aquilo que talvez seja o destino intelectual do Ocidente, a saber: interpretar todo o inerte e material como puro dinamismo, substituir aquilo que parece ser "coisa" jazente, quieta e fixa, por forças, movimentos e funções. A Inglaterra foi, em todas as ordens da vida, newtoniana. Não creio necessário deter-me neste ponto. Suponho que cem vezes se terá feito constar e terá sido demonstrado com suficiente detalhe. Permita-se-me apenas que, como leitor inveterado, manifeste meu desiderato de ler um livro cujo tema seja este: o newtoniano inglês fora da física; portanto, em todas as demais ordens da vida.

Se resumo agora meu raciocínio, ele parecerá, creio eu, constituído por uma linha simples e clara.

Está bem que o homem pacífico se ocupe diretamente em evitar esta ou aquela guerra; o pacifismo, porém, não consiste nisso. Consiste antes em construir a outra forma de convivência humana que é a paz. Isso significa a invenção e o exercício de toda uma série de novas técnicas. A primeira delas é uma nova técnica jurídica, que comece por descobrir princípios de equidade referentes às mudanças na distribuição do poder sobre a terra.

Mas a ideia de um novo direito ainda não é um direito. Não esqueçamos que o direito se compõe de muitas coisas além de uma ideia: por exemplo, fazem parte dele os bíceps dos gendarmes e seus sucedâneos. A técnica do puro pensamento jurídico precisa vir acompanhada de muitas outras técnicas ainda mais complicadas.

Desgraçadamente, o próprio nome direito internacional estorva uma visão clara do que seria, em sua plena realidade, um direito das nações. Porque o direito nos pareceria ser um fenômeno que acontece dentro das sociedades, e o chamado "internacional" nos convida, ao contrário, a imaginar um direito que acontece entre elas, isto é, em um vazio social. Nesse vazio social as nações se reuniriam e, mediante um pacto, criariam uma sociedade nova, que seria, por virtude mágica das palavras, a Sociedade das Nações. Mas isso tem todo o ar de um jogo de palavras. Uma sociedade constituída mediante um pacto social só é sociedade no sentido que esse vocábulo tem para o direito civil, isto é, uma associação. Ora, uma associação não pode existir como realidade jurídica se não surge sobre uma área onde previamente vigora certo direito civil. O resto são puras fantasmagorias. Essa área onde surge a sociedade pactuada é outra sociedade preexistente: não nasceu de pacto algum; resulta de uma convivência inveterada. Essa sociedade autêntica, e não associação, só se parece com a outra no nome. Daí o jogo de palavras.

Sem que eu pretenda resolver agora, com gesto dogmático, de passagem e de voo, as questões mais intrincadas da filosofia, do direito e da sociologia, atrevo-me a insinuar que caminhará seguro quem exigir, quando alguém lhe falar de um direito jurídico, que lhe indique a sociedade portadora desse direito e prévia a ele. No vazio social não há direito, nem direito nasce. Ele requer como substrato uma unidade de convivência humana, o mesmo que o uso e o costume, dos quais o direito é irmão menor, porém mais enérgico. A tal ponto é assim que não existe sintoma mais seguro para descobrir a existência de uma sociedade autêntica que a existência de um fato jurídico. Turva a evidência disso a confusão habitual que padecemos ao crer que toda sociedade autêntica tem necessariamente de possuir um Estado autêntico. Mas é bem claro que o aparelho estatal não se produz dentro de uma sociedade senão em estado muito avançado de sua evolução. Talvez o Estado proporcione ao direito certas perfeições; diante de leitores ingleses, porém, é desnecessário enunciar que o direito existe sem o Estado e sem sua atividade estatutária.

Quando falamos das nações, tendemos a representá-las como sociedades separadas e fechadas para dentro de si mesmas. Mas isso é uma abstração que deixa fora o mais importante da realidade. Sem dúvida, a convivência ou trato dos ingleses entre si é muito mais intensa que, por exemplo, a convivência entre os homens da Inglaterra e os homens da Alemanha ou da França. Mas é evidente que existe uma convivência geral dos europeus entre si e, portanto, que a Europa é uma sociedade velha de muitos séculos, com história própria, tal como cada nação particular pode tê-la. Essa sociedade geral europeia possui um grau ou índice de socialização menos elevado que aquele alcançado, desde o século XVI, pelas sociedades particulares chamadas nações europeias. Diga-se, pois, que a Europa é uma sociedade mais tênue que a Inglaterra ou a França; não se desconheça, porém, seu efetivo caráter de sociedade. A coisa importa superlativamente, porque as únicas possibilidades de paz existentes dependem de que exista ou não efetivamente uma sociedade europeia. Se a Europa é apenas uma pluralidade de nações, os pacíficos podem despedir-se radicalmente de suas esperanças. Entre sociedades independentes não pode existir verdadeira paz. Aquilo que costumamos chamar assim é apenas um estado de guerra mínima ou latente.

Como os fenômenos corporais são o idioma e o hieróglifo por meio dos quais pensamos as realidades morais, é difícil exagerar o dano produzido por uma imagem visual errônea quando se converte em hábito de nossa mente. Por essa razão censuro essa figura da Europa em que ela aparece constituída por uma multidão de esferas, as nações, que mantêm apenas alguns contatos externos. Essa metáfora de jogador de bilhar deveria desesperar o bom pacifista, pois, tal qual o bilhar, nada promete além do choque. Corrijamo-la, portanto. Em vez de imaginar as nações europeias como uma série de sociedades isentas, imaginemos uma sociedade única, Europa, dentro da qual se produziram grumos ou núcleos de condensação mais intensa. Essa figura corresponde muito mais aproximadamente que a outra ao que, de fato, foi a convivência ocidental. Com isso, não se pretende desenhar um ideal; pretende-se dar expressão gráfica ao que essa convivência realmente foi desde sua iniciação, depois da morte do período romano.

A convivência, sem mais, não significa sociedade, viver em sociedade ou fazer parte de uma sociedade. Convivência implica apenas relações entre indivíduos. Contudo, não pode haver convivência duradoura e estável sem que se produza automaticamente o fenômeno social por excelência: os usos. Há usos intelectuais, ou "opinião pública"; usos de técnica vital, ou "costumes"; usos que dirigem a conduta, ou "moral"; usos que a imperam, ou "direito". O caráter geral do uso consiste em ser uma norma do comportamento, intelectual, sentimental ou físico, que se impõe aos indivíduos, queiram eles ou não. O indivíduo poderá, por sua conta e risco, resistir ao uso; precisamente esse esforço de resistência, porém, demonstra melhor que nada a realidade coativa do uso, aquilo que chamaremos sua "vigência". Pois bem: uma sociedade é um conjunto de indivíduos que mutuamente se sabem submetidos à vigência de certas opiniões e valorações. Segundo isso, não há sociedade sem a vigência efetiva de certa concepção do mundo, que atua como última instância à qual se pode recorrer em caso de conflito.

A Europa sempre foi um âmbito social unitário, sem fronteiras absolutas nem descontinuidades, porque nunca faltou esse fundo ou tesouro de "vigências coletivas", convicções humanas e tábuas de valores, dotadas dessa força coativa tão estranha em que consiste "o social". Não seria exagero algum dizer que a sociedade europeia existe antes das nações europeias, e que estas nasceram e se desenvolveram no regaço maternal daquela. Os ingleses podem ver isso com alguma clareza no livro de Dawson: *The Making of Europe. Introduction to the History of European Society*.

Contudo, o livro de Dawson é insuficiente. Foi escrito por uma mente alerta e ágil, ainda não liberta por completo do arsenal de conceitos tradicionais da historiografia, conceitos mais ou menos melodramáticos e míticos que ocultam as realidades históricas, em vez de iluminá-las. Poucas coisas contribuirão tanto para apaziguar o horizonte quanto uma história da sociedade europeia, entendida como acabo de apontar: uma história realista, sem "idealizações". Mas esse assunto nunca foi visto, porque as formas tradicionais da óptica histórica tapavam essa realidade unitária que chamei, *sensu stricto*, "sociedade europeia", e a suplantavam por um plural, as nações, como aparece, por exemplo, no título de Ranke: *História dos povos germânicos e românicos*. A verdade é que esses povos, no plural, flutuam como ludiões dentro do único espaço social que é a Europa: "nele se movem, vivem e são". A história que postulo nos contaria as vicissitudes desse espaço humano e nos faria ver como variou seu índice de socialização, como em certas ocasiões desceu gravemente, fazendo temer a cisão radical da Europa, e sobretudo como a dose de paz em cada época esteve em razão direta desse índice. Isso último é o que mais nos importa nas angústias atuais.

A realidade histórica, ou, dito de modo mais vulgar, aquilo que se passa no mundo humano, possui uma anatomia rigorosa e uma clara estrutura; não é um amontoado de fatos soltos. Mais ainda: talvez seja a única coisa no universo que tem por si mesma estrutura, organização. Todo o restante, por exemplo os fenômenos físicos, carece disso. São fatos soltos aos quais o físico precisa inventar uma estrutura imaginária. Mas essa anatomia da realidade histórica precisa ser estudada. Os editoriais dos jornais e os discursos de ministros e demagogos não nos dão notícia dela. Quando se a estuda bem, torna-se possível diagnosticar com certa precisão o lugar ou estrato do corpo histórico onde a enfermidade radica. Havia no mundo uma sociedade amplíssima e potente, a sociedade europeia. Como sociedade, estava constituída por uma ordem básica devida à eficiência de certas instâncias últimas: o credo intelectual e moral da Europa. Essa ordem, que por baixo de todas as suas desordens superficiais atuava nos fundos profundos do Ocidente, irradiou durante gerações sobre o restante do planeta e pôs nele, muito ou pouco, toda a ordem de que esse restante era capaz.

Pois bem: nada deveria hoje importar tanto ao pacifista quanto averiguar o que se passa nesses fundos profundos do corpo ocidental, qual é seu índice atual de socialização, por que se volatilizou o sistema tradicional de "vigências coletivas" e se, a despeito das aparências, algumas delas conservam vivacidade latente. Porque o direito é operação espontânea da sociedade, mas a sociedade é convivência sob instâncias. Poderia suceder que, na data presente, faltassem essas instâncias em proporção sem exemplo ao longo de toda a história europeia. Nesse caso, a enfermidade seria a mais grave sofrida pelo Ocidente desde Diocleciano ou os Severos. Isso não quer dizer que seja incurável; quer dizer apenas que seria preciso chamar médicos excelentes, e não qualquer transeunte. Quer dizer, sobretudo, que não se pode esperar remédio algum da Sociedade das Nações, segundo aquilo que ela foi e continua sendo: instituto anti-histórico que um maldizente poderia supor inventado em um clube cujos membros principais fossem míster Pickwick, monsieur Homais e congêneres.

O diagnóstico anterior, esteja certo ou errado, parecerá abstruso. E o é, de fato. Eu o lamento, mas evitá-lo não está em minhas mãos.

Também os diagnósticos mais rigorosos da medicina atual são abstratos. Que leigo, ao ler uma fina análise de sangue, vê ali definida uma doença terrível? Esforcei-me sempre em combater o esoterismo, que por si só é um dos males de nosso tempo. Mas não nos façamos ilusões. Há um século, por causas fundas e em parte respeitáveis, as ciências derivam irresistivelmente em direção esotérica. Essa é uma das muitas coisas cuja grave importância os políticos não souberam ver, homens acometidos do vício oposto, que é um excessivo exoterismo. Por ora, só cabe aceitar a situação e reconhecer que o conhecimento se distanciou radicalmente das conversas de *table-beer*.

A Europa está hoje dessocializada ou, o que dá no mesmo, faltam princípios de convivência vigentes aos quais se possa recorrer. Uma parte da Europa se esforça por fazer triunfar princípios que considera "novos"; a outra se esforça por defender os tradicionais. Ora, essa é a melhor prova de que nem uns nem outros estão vigentes: perderam, ou ainda não conquistaram, a virtude de instâncias. Quando uma opinião ou norma chegou a ser de verdade "vigência coletiva", ela não recebe seu vigor do esforço que grupos determinados empregam dentro da sociedade para impô-la ou sustentá-la. Ao contrário, todo grupo determinado busca sua máxima fortaleza reclamando-se dessas vigências. No momento em que é preciso lutar em prol de um princípio, isso quer dizer que ele ainda não é vigente ou deixou de sê-lo. Inversamente, quando vigora em plenitude, basta usá-lo, referir-se a ele, amparar-se nele, do mesmo modo que fazemos com a lei da gravidade. As vigências operam seu mágico influxo sem polêmica nem agitação, quietas e jacentes no fundo das almas, às vezes sem que estas percebam que são dominadas por elas, e às vezes crendo inclusive que combatem contra elas. O fenômeno é surpreendente, porém é inquestionável e constitui o fato fundamental da sociedade. As vigências são o autêntico poder social, anônimo, impessoal, independente de todo grupo ou indivíduo determinado.

Inversamente, quando uma ideia perdeu esse caráter de instância coletiva, produz uma impressão entre cômica e desconcertante ver alguém considerar suficiente aludir a ela para sentir-se justificado ou fortalecido. Pois bem: isso acontece ainda hoje, com excessiva frequência, na Inglaterra e na América do Norte. Ao adverti-lo, ficamos perplexos. Essa conduta significa erro ou ficção deliberada? É inocência ou tática? Não sabemos a que nos ater, porque, no homem anglo-saxão, a função de expressar-se, de "dizer", talvez represente papel distinto daquele que representa nos demais povos europeus. Mas, seja qual for o sentido desse comportamento, temo que ele seja funesto para o pacifismo. Mais ainda: seria preciso ver se não foi um dos fatores que contribuíram para o desprestígio das vigências europeias o uso peculiar que delas a Inglaterra costumou fazer. A questão deverá algum dia ser estudada a fundo, mas não agora nem por mim.

O fato é que o pacifista precisa dar-se conta de que se encontra em um mundo onde falta, ou está muito debilitado, o requisito principal para a organização da paz. No trato de uns povos com outros, não cabe recorrer a instâncias superiores, porque não as há. A atmosfera de sociabilidade em que flutuavam, interposta entre eles como um éter benéfico e permitindo-lhes comunicar-se suavemente, foi aniquilada. Restam, pois, separados e frente a frente. Enquanto, há trinta anos, as fronteiras eram para o viajante pouco mais que linhas imaginárias, todos vimos como foram rapidamente endurecendo, convertendo-se em matéria córnea que anulava a porosidade das nações e as fazia herméticas. A pura verdade é que, há anos, a Europa se acha em estado de guerra, em um estado de guerra substancialmente mais radical que em todo o seu passado. E a origem que atribuí a essa situação me parece confirmada pelo fato de que existe uma guerra virtual entre os povos e, dentro de cada um, há uma grave discórdia declarada ou em preparação. É frívolo interpretar os regimes autoritários do dia como engendrados pelo capricho ou pela intriga. Está bem claro que são manifestações ineludíveis do estado de guerra civil em que quase todos os países se acham hoje. Agora se vê como a coesão interna de cada nação se nutria, em boa parte, das vigências coletivas europeias.

Esse enfraquecimento súbito da comunidade entre os povos do Ocidente equivale a um enorme distanciamento moral. O trato entre eles é dificílimo. Os princípios comuns constituíam uma espécie de linguagem que lhes permitia entender-se. Por isso, era menos necessário que cada povo conhecesse bem e *singulatim* cada um dos demais. Com isto, porém, fechamos o círculo de nossas considerações iniciais.

Porque esse distanciamento moral se complica perigosamente com outro fenômeno oposto, que é precisamente o que inspirou, de modo concreto, todo este artigo. Refiro-me a um fato gigantesco, cujos caracteres convém precisar um pouco.

Há quase um século se fala que os novos meios de comunicação, deslocamento de pessoas, transferência de produtos e transmissão de notícias, aproximaram os povos e unificaram a vida no planeta. Mas, tal como costuma acontecer, todo esse dizer era exagerado. Quase sempre as coisas humanas começam por ser lendas e só mais tarde se convertem em realidades. Neste caso, vemos hoje com clareza que se tratava apenas de uma antecipação entusiasta. Alguns dos meios que haviam de tornar efetiva essa aproximação já existiam em princípio: vapores, ferrovias, telégrafos, telefone. Mas sua invenção ainda não havia sido aperfeiçoada, nem eles haviam sido amplamente postos em serviço, nem sequer tinham sido inventados os mais decisivos, como o motor de explosão e a radiocomunicação. O século XIX, emocionado ante as primeiras grandes conquistas da técnica científica, apressou-se a emitir torrentes de retórica sobre os "adiantamentos", o "progresso material" etc. De tal sorte que, para o seu fim, as almas começaram a fatigar-se desses lugares-comuns, embora os julgassem verídicos, isto é, embora se houvessem persuadido de que o século XIX havia, de fato, realizado já aquilo que aquela fraseologia proclamava. Isso ocasionou um curioso erro de óptica histórica, que impede a compreensão de muitos conflitos atuais.

Convencido de que a centúria anterior havia levado a termo os grandes adiantamentos, o homem médio não percebeu que a época sem par dos inventos técnicos e de sua realização foram estes últimos quarenta anos. O número e a importância das descobertas, bem como o ritmo de seu emprego efetivo nessa etapa brevíssima, superam de longe todo o pretérito humano tomado em conjunto. Quer dizer: a efetiva transformação técnica do mundo é um fato recentíssimo, e essa mudança está produzindo agora, agora, e não desde há um século, suas consequências radicais. E isso em todas as ordens. Não poucos dos profundos desajustes na economia atual vivem da mudança súbita que esses inventos causaram na produção, mudança à qual o organismo econômico não teve tempo de adaptar-se. Que uma só fábrica seja capaz de produzir todas as lâmpadas elétricas ou todos os sapatos de que necessita meio continente é um fato demasiado afortunado para deixar de ser, por enquanto, monstruoso.

O mesmo aconteceu com as comunicações. De repente e de verdade, nestes últimos anos, cada povo recebe, à hora e ao minuto, tal quantidade de notícias, e tão recentes, sobre o que se passa nos outros, que isso provocou nele a ilusão de que, efetivamente, está nos outros povos ou em sua absoluta imediatez. Dito de outra forma: para os efeitos da vida pública universal, o tamanho do mundo contraiu-se subitamente, reduziu-se. Os povos se encontraram, de improviso, dinamicamente mais próximos. E isso acontece precisamente na hora em que os povos europeus se distanciaram mais moralmente.

O leitor não percebe desde logo o perigo de semelhante conjuntura? Sabe-se que o ser humano não pode, sem mais, aproximar-se de outro ser humano. Como viemos de uma das épocas históricas em que a aproximação era aparentemente mais fácil, tendemos a esquecer que sempre foram necessárias grandes precauções para aproximar-se dessa fera com veleidades de arcanjo que costuma ser o homem. Por isso corre, ao longo de toda a história, a evolução da técnica da aproximação, cuja parte mais notória e visível é a saudação. Talvez, com certas reservas, se pudesse dizer que as formas da saudação são função da densidade da população; portanto, da distância normal em que alguns homens estão de outros. No Saara, cada tuaregue possui um raio de solidão que alcança bastantes milhas. A saudação do tuaregue começa a cem jardas e dura três quartos de hora. Na China e no Japão, povos pululantes, onde os homens vivem, por assim dizer, uns em cima dos outros, nariz contra nariz, em compacto formigueiro, a saudação e o trato se complicaram na mais sutil e complexa técnica de cortesia, tão refinada que o extremo-oriental recebe do europeu a impressão de tratar com um grosseiro e insolente, alguém com quem, a rigor, só o combate é possível. Nessa proximidade superlativa, tudo é ferino e perigoso: até os pronomes pessoais se convertem em impertinências. Por isso o japonês chegou a excluí-los de seu idioma, e em vez de "tu" dirá algo assim como "a maravilha presente"; no lugar de "eu", fará uma mesura e dirá "a miséria que há aqui".

Se uma simples mudança de distância entre dois homens comporta tais riscos, imaginem-se os perigos engendrados por sua súbita aproximação entre os povos, sobrevinda nos últimos quinze ou vinte anos. Creio que não se reparou devidamente nesse novo fator e que urge prestar-lhe atenção.

Falou-se muito nestes meses da intervenção, ou da abstenção de intervir, de certos Estados na vida de outros países. Entretanto, pouco se falou, ao menos com ênfase suficiente, da intervenção que hoje exerce de fato a opinião de umas nações na vida de outras, às vezes muito remotas. E esta é hoje, a meu juízo, muito mais grave que aquela. Porque o Estado é, afinal, um órgão relativamente "racionalizado" dentro de cada sociedade. Suas atuações são deliberadas e dosadas pela vontade de indivíduos determinados, os homens políticos, aos quais deve acompanhar um mínimo de reflexão e sentido de responsabilidade. Já a opinião de todo um povo ou de grandes grupos sociais é um poder elementar, irrefletido e irresponsável, que, além disso, oferece indefesa sua inércia ao influxo de todas as intrigas.

Não obstante, a opinião pública *sensu stricto* de um país, quando opina sobre a vida de seu próprio país, tem sempre "razão", no sentido de que nunca é incongruente com as realidades que julga. A causa disso é óbvia. As realidades que julga são aquelas que efetivamente se passaram com o mesmo sujeito que as julga. O povo inglês, ao opinar sobre as grandes questões que afetam sua nação, opina sobre fatos que lhe aconteceram, que experimentou em sua própria carne e em sua própria alma, que viveu e que, em suma, são ele mesmo. De que modo iria, no essencial, equivocar-se? A interpretação doutrinal desses fatos poderá dar ocasião às maiores divergências teóricas, e estas suscitar opiniões partidárias sustentadas por grupos particulares; mas, por baixo dessas discrepâncias "teóricas", os fatos insofisticáveis, gozados ou sofridos pela nação, precipitam nela uma "verdade" vital que é a própria realidade histórica e tem valor e força superiores a todas as doutrinas. Essa "razão" ou "verdade" viventes que, como atributo, temos de reconhecer a toda autêntica "opinião pública", consiste, conforme se percebe, em sua congruência. Dito em outras palavras, obtemos esta proposição: é maximamente improvável que, em assuntos graves de seu país, a "opinião pública" careça da informação mínima necessária para que seu juízo corresponda organicamente à realidade julgada. Padecerá erros secundários e de detalhe, mas, tomada como atitude macrocósmica, não é verossímil que seja uma reação incongruente com a realidade, inorgânica em relação a ela e, por conseguinte, tóxica.

O contrário acontece, estritamente, quando se trata da opinião de um país sobre aquilo que se passa em outro. É maximamente provável que essa opinião resulte incongruente em alto grau. O povo A pensa e opina a partir do fundo de suas próprias experiências vitais, que são distintas das do povo B. Pode isso levar a outra coisa que não ao jogo dos disparates? Eis, pois, a primeira causa de uma incongruência inevitável, que só poderia ser contrabalançada por algo muito difícil, a saber: informação suficiente. Como aqui falta a "verdade" do vivido, seria preciso substituí-la por uma verdade de conhecimento.

Há um século, não importava que o povo dos Estados Unidos se permitisse ter uma opinião sobre o que se passava na Grécia e que essa opinião estivesse mal informada. Enquanto o Governo americano não atuasse, essa opinião era inoperante sobre os destinos da Grécia. O mundo era então "maior", menos compacto e elástico. A distância dinâmica entre povo e povo era tão grande que, ao transpô-la, a opinião incongruente perdia sua toxicidade. Nestes últimos anos, porém, os povos entraram em extrema proximidade dinâmica, e a opinião, por exemplo, de grandes grupos sociais norte-americanos está intervindo de fato, diretamente como opinião e não como Governo, na guerra civil espanhola. O mesmo digo da opinião inglesa.

Nada mais longe de minha pretensão que qualquer tentativa de podar o arbítrio de ingleses e americanos discutindo seu "direito" de opinar o que quiserem sobre tudo quanto lhes aprouver. Não se trata de "direito" nem da desprezível fraseologia que costuma amparar-se nesse título: trata-se simplesmente de bom senso. Sustento que a ingerência da opinião pública de uns países na vida dos outros é hoje um fator impertinente, venenoso e gerador de paixões bélicas, porque essa opinião ainda não está regida por uma técnica adequada à mudança de distância entre os povos. Terá o inglês, ou o americano, todo o direito que quiser de opinar sobre o que aconteceu e deve acontecer na Espanha, mas esse direito é uma injúria se não aceita uma obrigação correspondente: a de estar bem informado sobre a realidade da guerra civil espanhola, cujo primeiro e mais substancial capítulo é sua origem, as causas que a produziram.

Mas é aqui que os meios atuais de comunicação produzem seus efeitos, por enquanto daninhos. Porque a quantidade de notícias que constantemente recebe um povo sobre o que se passa em outro é enorme. De que modo será fácil persuadir o homem inglês de que ele não está informado sobre o fenômeno histórico que é a guerra civil espanhola, ou outra emergência análoga? Ele sabe que os jornais ingleses gastam somas fortíssimas para manter correspondentes dentro de todos os países. Sabe que, embora entre esses correspondentes não poucos exerçam seu ofício de maneira apaixonada e partidária, há muitos outros cuja imparcialidade é inquestionável e cuja pulcritude em transmitir dados exatos não é fácil superar. Tudo isso é verdade, e por sê-lo resulta muito perigoso. Pois o caso é que, se o homem inglês lançar uma rápida olhada sobre estes últimos três ou quatro anos, encontrará no mundo acontecimentos de grave importância para a Inglaterra que o surpreenderam. Como na história nada de algum relevo se produz subitamente, não seria excessiva suspicácia admitir a hipótese de que ele está muito menos informado do que costuma crer, ou de que essa informação tão copiosa se compõe de dados externos, sem perspectiva fina, entre os quais escapa o mais autenticamente real da realidade. O exemplo mais claro disso, por suas formidáveis dimensões, é o fato gigante que serviu a este artigo como ponto de partida: o fracasso do pacifismo inglês, de vinte anos de política internacional inglesa. Tal fracasso declara estrondosamente que o povo inglês, apesar de seus inumeráveis correspondentes, sabia pouco do que realmente estava acontecendo nos demais povos.

Representemo-nos esquematicamente, para entendê-la bem, a complicação do processo que se dá. As notícias que o povo A recebe do povo B suscitam nele um estado de opinião, seja de grupos amplos, seja de todo o país. Entretanto, dado que essas notícias lhe chegam hoje com rapidez, abundância e frequência superlativas, essa opinião já não permanece num plano mais ou menos "contemplativo", tal qual acontecia há um século; carrega-se inevitavelmente de intenções ativas e assume desde logo um caráter de intervenção. Há sempre, além disso, intrigantes que, por motivos particulares, se dedicam deliberadamente a instigá-la. Por sua vez, o povo B também recebe, com abundância, rapidez e frequência, notícias dessa opinião distante, de seu nervosismo, de seus movimentos, e tem a impressão de que o estranho, com impertinência intolerável, invadiu seu país, estando ali, quase presente, atuando. Essa reação de ira se multiplica até a exasperação porque o povo B percebe, ao mesmo tempo, a incongruência entre a opinião de A e aquilo que em B efetivamente se passou. Já é irritante que o próximo pretenda intervir em nossa vida; se, além disso, revela ignorar por completo nossa vida, sua audácia provoca em nós verdadeiro frenesim.

Enquanto em Madri os comunistas e seus afins obrigavam, sob as mais graves ameaças, escritores e professores a assinar manifestos, a falar pelo rádio etc., alguns dos principais escritores ingleses, comodamente sentados em seus gabinetes ou clubes, livres de toda pressão, assinavam outro manifesto no qual se garantia que esses comunistas e seus afins eram os defensores da liberdade. Evitemos os gestos teatrais e as frases feitas, porém deixemos que eu convide o leitor inglês a imaginar qual pôde ser meu primeiro movimento diante de um fato semelhante, que oscila entre o grotesco e o trágico. Pois não é fácil encontrar maior incongruência. Felizmente, cuidei durante toda a minha vida de montar em meu aparelho psicofísico um sistema muito forte de inibições e freios, talvez a civilização não seja outra coisa senão essa montagem; além disso, tal qual dizia Dante, a seta prevista vem mais lenta, e a surpresa não contribuiu para me enfraquecer. Há muitos anos me ocupo de assinalar a frivolidade e a irresponsabilidade frequentes no intelectual europeu, que denunciei como fator de primeira grandeza entre as causas da desordem presente. Entretanto, essa moderação que por acaso posso ostentar não tem nada de "natural". O natural seria que eu estivesse agora em guerra apaixonada contra esses escritores ingleses. Por isso, este é um exemplo concreto do mecanismo belicoso criado pelo desconhecimento mútuo entre os povos.

Há poucos dias, Alberto Einstein julgou-se com "direito" de opinar sobre a guerra civil espanhola e tomar posição diante dela. Ora, Alberto Einstein usufrui uma ignorância radical sobre o que se passou na Espanha agora, há séculos e sempre. O espírito que o leva a essa intervenção insolente é o mesmo que há muito tempo vem causando o desprestígio universal do homem intelectual, o qual, por sua vez, faz com que hoje o mundo vá à deriva, falto de *pouvoir spirituel*.

Note-se que falo da guerra civil espanhola enquanto exemplo entre muitos, o exemplo que conheço com maior exatidão, e me limito a procurar que o leitor inglês admita por um momento a possibilidade de não estar bem informado, apesar de suas copiosas "informações". Talvez isso o mova a corrigir seu conhecimento insuficiente das demais nações, pressuposto mais decisivo para que volte a reinar uma ordem no mundo.

Mas eis aqui outro exemplo mais geral. Há pouco, o Congresso do Partido Trabalhista rejeitou, por 2.100.000 votos contra 300.000, a união com os comunistas, isto é, a formação, na Inglaterra, de uma "frente popular". Entretanto, esse mesmo partido e a massa de opinião que ele conduz se ocupam de favorecer e fomentar, do modo mais concreto e eficaz, a "frente popular" formada em outros países. Deixo intacta a questão de saber se uma "frente popular" é benéfica ou catastrófica, e me limito a confrontar dois comportamentos de um mesmo grupo de opinião, sublinhando sua incongruência nociva. A diferença numérica da votação pertence àquelas diferenças quantitativas que, segundo Hegel, se convertem automaticamente em diferenças qualitativas. Esses números mostram que, para o bloco do Partido Trabalhista, a união com o comunismo, a "frente popular", está longe de ser uma questão de mais ou de menos; eles a considerariam um mal terrível para a nação inglesa. Ocorre, porém, que ao mesmo tempo esse mesmo grupo de opinião se dedica a cultivar esse mesmo micróbio em outros países, e isto é uma intervenção. Mais ainda: poderia ser chamada de intervenção guerreira, pois tem não poucos caracteres da guerra química. Enquanto se produzirem fenômenos desse tipo, todas as esperanças de que a paz reine no mundo são, repito, empenhos amorosos perdidos. Porque essa conduta incongruente, essa duplicidade da opinião trabalhista, só pode inspirar irritação fora da Inglaterra.

Parece-me vão objetar que essas intervenções irritam uma parte do povo que as sofre e agradam à outra. Esta é uma observação demasiado óbvia para ser verdadeira. A parte do país momentaneamente favorecida pela opinião estrangeira procurará, claro, beneficiar-se dessa intervenção. Outra atitude seria pura tolice. Por baixo dessa gratidão aparente e transitória, porém, corre o processo real daquilo que foi vivido pelo país inteiro. A nação acaba por estilizar-se em "sua verdade", naquilo que efetivamente se passou, e ambos os partidos hostis coincidem nela, declarem-no ou não. Daí que acabem por unir-se contra a incongruência da opinião estrangeira. Esta só pode esperar agradecimento duradouro na medida em que, por acaso, acerte ou seja menos incongruente com essa "verdade" vivente. Toda realidade desconhecida prepara sua vingança. Está aí a origem das catástrofes na história humana. Por isso será funesta toda tentativa de desconhecer que um povo é, tal qual uma pessoa, embora de outro modo e por outras razões, uma intimidade, portanto um sistema de segredos que não pode ser descoberto, sem mais, a partir de fora. Que o leitor não pense em nada vago nem místico. Tome qualquer função coletiva, por exemplo, a língua. É bem notório que resulta praticamente impossível conhecer intimamente um idioma estrangeiro, por muito que se o estude. E não será insensatez acreditar que é coisa fácil o conhecimento da realidade política de um país estranho?

Sustento, pois, que a nova estrutura do mundo converte os movimentos da opinião de um país sobre o que se passa em outro, movimentos que antes eram quase inócuos, em autênticas incursões. Isto bastaria para explicar por que, quando as nações europeias pareciam mais próximas de uma unificação superior, começaram repentinamente a fechar-se para dentro de si mesmas, a hermetizar suas existências umas diante das outras e a transformar as fronteiras em escafandros isoladores.

Creio que há aqui um novo problema de primeira ordem para a disciplina internacional, paralelo ao do direito, tocado mais acima. Assim como antes postulávamos uma nova técnica jurídica, aqui reclamamos uma nova técnica de trato entre os povos. Na Inglaterra, o indivíduo aprendeu a guardar certas cautelas quando se permite opinar sobre outro indivíduo. Existe a lei do libelo, e existe a formidável ditadura das "boas maneiras". Não há razão para que a opinião de um povo sobre outro não sofra regulação análoga.

Claro que isto supõe estar de acordo sobre um princípio básico. Este: os povos, as nações, existem. Ora, o velho e barato "internacionalismo" que engendrou as angústias presentes pensava, no fundo, o contrário. Nenhuma de suas doutrinas e atuações se torna compreensível se não se descobre em sua raiz o desconhecimento do que é uma nação e de que isto que são as nações constitui uma formidável realidade situada no mundo, com a qual é preciso contar. Era um curioso internacionalismo aquele que, em suas contas, esquecia sempre o detalhe de que há nações.

Talvez o leitor reclame agora uma doutrina positiva. Não tenho inconveniente em declarar qual é a minha, ainda que me exponha a todos os riscos de uma enunciação esquemática.

No livro *The Revolt of the Masses*, que foi bastante lido em língua inglesa, propugno e anuncio o advento de uma forma mais avançada de convivência europeia, um passo adiante na organização jurídica e política de sua unidade. Essa ideia europeia tem sinal inverso ao daquele abstruso internacionalismo. Europa não é, nem será a inter-nação, porque isso significa, em noções claras de história, um buraco, um vazio e nada. Europa será a ultra-nação. A mesma inspiração que formou as nações do Ocidente continua atuando no subsolo com a lenta e silenciosa proliferação dos corais. O descarrio metódico representado pelo internacionalismo impediu ver que só por meio de uma etapa de nacionalismos exacerbados se pode chegar à unidade concreta e plena da Europa. Uma nova forma de vida não consegue instalar-se no planeta antes que a anterior e tradicional se tenha ensaiado em seu modo extremo. As nações europeias chegam agora aos seus próprios limites, e o choque será a nova integração da Europa. Pois é disso que se trata: integrar as nações, sem laminá-las, deixando ao Ocidente todo o seu rico relevo. Nesta data, conforme acabo de insinuar, a sociedade europeia parece volatilizada. Seria erro, porém, acreditar que isso significa seu desaparecimento ou sua dispersão definitiva. O estado atual de anarquia e dissociação superlativa na sociedade europeia é mais uma prova da realidade que ela possui. Pois, se isso acontece na Europa, é porque ela sofre uma crise de sua fé comum, da fé europeia, das vigências em que consiste sua socialização. A doença de que padece é, portanto, comum. A questão não está em que a Europa esteja enferma enquanto estas ou aquelas nações gozam de plena saúde, tornando provável o desaparecimento da Europa e sua substituição por outra forma de realidade histórica, por exemplo, nações soltas ou uma Europa ocidental dissociada até a raiz de uma Europa oriental; nada disso se oferece no horizonte. Sendo comum e europeia a doença, também o será o restabelecimento. Por ora, virá uma articulação da Europa em duas formas distintas de vida pública: a forma de um novo liberalismo e a forma que, com nome impróprio, se costuma chamar "totalitária". Os povos menores adotarão figuras de transição e intermediárias. Isto salvará a Europa. Mais uma vez ficará patente que toda forma de vida necessita de seu antagonista. O "totalitarismo" salvará o "liberalismo", tingindo-o, depurando-o, e graças a isso veremos em breve um novo liberalismo temperar os regimes autoritários. Esse equilíbrio puramente mecânico e provisório permitirá uma nova etapa de repouso mínimo, imprescindível para que volte a brotar, no fundo do bosque que as almas têm, o manancial de uma nova fé. Esta é o autêntico poder de criação histórica, porém mana apenas no recato do ensimesmamento, longe da alteração.

Paris, dezembro de 1937.

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