Capítulo X - Primitivismo e história A Rebelião das Massas - Tradução Literunico · Capítulo 10 de 20
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Capítulo X - Primitivismo e história

# Capítulo X - Primitivismo e história

A natureza está sempre aí. Sustenta-se a si mesma. Nela, na selva, podemos ser impunemente selvagens. Podemos inclusive resolver nunca deixar de sê-lo, sem outro risco além do advento de outros seres que não sejam selvagens. Em princípio, porém, são possíveis povos perenemente primitivos. Existem; Breyssig os chamou "os povos da perpétua aurora", os que ficaram numa alvorada detida, congelada, que não avança para nenhum meio-dia.

Isto acontece no mundo que é apenas natureza. Não acontece no mundo que é civilização, como o nosso. A civilização não está aí, não se sustenta a si mesma. É artifício e requer um artista ou artesão. Se o senhor quer aproveitar-se das vantagens da civilização e não se preocupa em sustentá-la, o senhor está perdido. Em dois tempos fica sem civilização. Um descuido, e quando olha em redor, tudo se volatilizou. Recolhidos os tapetes que cobriam a pura natureza, reaparece, repristinada, a selva primitiva. A selva é sempre primitiva. E vice-versa: tudo quanto é primitivo é selva.

Aos românticos de todos os tempos desconcertavam essas cenas de violação, em que o natural e infra-humano voltava a oprimir a palidez humana da mulher, e pintavam o cisne sobre Leda, estremecido, o touro com Pasífae e Antíope sob o bode. Generalizando, encontraram um espetáculo mais sutilmente indecente na paisagem com ruínas, onde a pedra civilizada, geométrica, se afoga sob o abraço da vegetação silvestre. Quando um bom romântico divisa um edifício, a primeira coisa que seus olhos buscam, sobre a acrótera ou o telhado, é o "amarelo jaramago". Ele anuncia que, em definitiva, tudo é terra, que em toda parte a selva brota de novo.

Seria estúpido rir do romântico. Também o romântico tem razão. Sob essas imagens inocentemente perversas late um problema enorme e sempiterno: o das relações entre a civilização e o que ficou atrás dela, a natureza, entre o racional e o cósmico. Reclamo, pois, a licença de ocupar-me dele em outra ocasião e de ser, na hora oportuna, romântico.

Agora, porém, encontro-me em tarefa oposta. Trata-se de conter a selva invasora. O "bom europeu" tem de dedicar-se agora àquilo que constitui, segundo se sabe, grave preocupação dos Estados australianos: impedir que as figueiras-da-índia ganhem terreno e lancem os homens ao mar. Lá pelo ano de quarenta e tantos, um emigrante meridional, saudoso de sua paisagem, Málaga, Sicília?, levou para a Austrália um vaso com uma figueirinha-da-índia de nada. Hoje os orçamentos da Oceania carregam partidas onerosas destinadas à guerra contra essa planta, que invadiu o continente e a cada ano avança numa frente de mais de um quilômetro.

O homem-massa acredita que a civilização em que nasceu e que usa é tão espontânea e primigênia quanto a natureza, e ipso facto se converte em primitivo. A civilização lhe parece selva. Já o disse. Agora é preciso acrescentar algumas precisões.

Os princípios em que se apoia o mundo civilizado, aquele que é preciso sustentar, não existem para o homem médio atual. Não lhe interessam os valores fundamentais da cultura, não se faz solidário deles, não está disposto a pôr-se a seu serviço. Como aconteceu isto? Por muitas causas; agora destacarei apenas uma.

A civilização, quanto mais avança, torna-se mais complexa e mais difícil. Os problemas que hoje propõe são arquintrincados. Cada vez é menor o número de pessoas cuja mente está à altura dos problemas. O pós-guerra nos oferece um exemplo bem claro disso. A reconstrução da Europa, vai-se vendo, é assunto demasiado algébrico, e o europeu vulgar se revela inferior a uma empresa tão sutil. Não faltam meios para a solução. Faltam cabeças. Mais exatamente: há algumas cabeças, muito poucas, porém o corpo vulgar da Europa central não quer pô-las sobre os ombros.

Esse desequilíbrio entre a sutileza complicada dos problemas e a das mentes será cada vez maior se não se puser remédio nisso, e constitui a tragédia mais elementar da civilização. Por serem tão férteis e certeiros os princípios que a informam, sua colheita aumenta em quantidade e em agudeza até transbordar a receptividade do homem normal. Não creio que isto tenha acontecido alguma vez no passado. Todas as civilizações pereceram pela insuficiência de seus princípios. A europeia ameaça sucumbir pelo contrário. Na Grécia e em Roma fracassaram os princípios, e não o homem. O Império romano terminou por falta de técnica; ao chegar a um grande volume de população e exigir tão vasta convivência a solução de certas urgências materiais que só a técnica poderia achar, o mundo antigo começou a involuir, a retroceder e a consumir-se.

Agora é o homem que fracassa por não poder seguir emparelhado ao progresso de sua própria civilização. Dá calafrio ouvir pessoas relativamente cultas falarem sobre os temas mais elementares do dia. Parecem rudes lavradores que, com dedos grossos e torpes, querem apanhar uma agulha posta sobre uma mesa. Manejam, por exemplo, os temas políticos e sociais com o instrumental de conceitos embotados que serviram há duzentos anos para enfrentar situações de fato duzentas vezes menos sutis.

Civilização avançada é uma só coisa com problemas árduos. Daí que, quanto maior o progresso, mais em perigo ele está. A vida é cada vez melhor, bem entendido, cada vez mais complicada. Claro está que, ao se complicarem os problemas, vão-se aperfeiçoando também os meios de resolvê-los. Mas é preciso que cada nova geração se faça dona desses meios adiantados. Entre eles, para concretizar um pouco, há um obviamente unido ao avanço da civilização: trazer muito passado às costas, muita experiência; em suma, história. O saber histórico é uma técnica de primeira ordem para conservar e continuar uma civilização provecta. Não porque dê soluções positivas à nova feição dos conflitos vitais, pois a vida é sempre diferente do que foi; antes, porque evita cometer erros ingênuos de outros tempos. Porém, se o senhor, além de velho e de ter uma vida que começa a ser difícil, perdeu a memória do passado, se não aproveita sua experiência, então tudo são desvantagens. Pois creio que esta é a situação da Europa. As pessoas mais "cultas" de hoje padecem de uma ignorância histórica incrível. Sustento que hoje o europeu dirigente sabe muito menos história que o homem do século XVIII, e até do XVII. Aquele saber histórico das minorias governantes, governantes sensu lato, tornou possível o avanço prodigioso do século XIX. Sua política está pensada pelo XVIII precisamente para evitar os erros de todas as políticas antigas, foi concebida à vista desses erros e resume em sua substância a experiência mais longa. Já o século XIX começou a perder "cultura histórica", apesar de que em seu transcurso os especialistas a fizeram avançar muitíssimo como ciência. A esse abandono se devem em boa parte seus erros peculiares, que hoje gravitam sobre nós. Em seu último terço iniciou-se, ainda subterraneamente, a involução, o retrocesso à barbárie, isto é, à ingenuidade e ao primitivismo de quem não tem ou esquece seu passado.

Por isso, o bolchevismo e o fascismo, as duas tentativas "novas" de política que na Europa e em suas adjacências estão sendo feitas, são dois claros exemplos de regressão substancial. Não tanto pelo conteúdo positivo de suas doutrinas, que, isolado, tem naturalmente uma verdade parcial, pois quem no universo não tem uma pequena parte de razão?, quanto pela maneira anti-histórica, anacrônica, com que tratam sua parte de razão. Movimentos típicos de homens-massa, dirigidos, como todos os que o são, por homens medíocres, extemporâneos e sem longa memória, sem "consciência histórica", comportam-se desde o princípio como coisas já passadas, pertencentes, embora aconteçam nesta hora, à fauna de outrora.

A questão não está em ser ou não ser comunista e bolchevique. Não discuto o credo. O que é inconcebível e anacrônico é que um comunista de 1917 se lance a fazer uma revolução que é, em sua forma, idêntica a todas as que antes houve, e na qual não se corrigem minimamente os defeitos e erros das antigas. Por isso não é historicamente interessante o que aconteceu na Rússia; por isso é estritamente o contrário de um começo de vida humana. É, em compensação, uma repetição monótona da revolução de sempre, o perfeito lugar-comum das revoluções. A tal ponto que não há frase feita, das muitas que a velha experiência humana formulou sobre as revoluções, que não receba deplorável confirmação quando se aplica a esta. "A revolução devora seus próprios filhos." "A revolução começa por um partido moderado, passa em seguida aos extremistas e começa muito cedo a retroceder para uma restauração", etc. A esses tópicos veneráveis poderiam ser acrescentadas algumas outras verdades menos notórias, porém não menos prováveis, entre elas esta: uma revolução não dura mais de quinze anos, período que coincide com a vigência de uma geração.

Quem aspire verdadeiramente a criar uma nova realidade social ou política precisa preocupar-se antes de tudo em que esses humildíssimos lugares-comuns da experiência histórica fiquem invalidados pela situação que suscita. De minha parte, reservarei a qualificação de genial para o político que, assim que comece a operar, faça enlouquecerem os professores de História dos institutos, em vista de que todas as "leis" de sua ciência resultam caducadas, interrompidas e feitas em ciscos.

Invertendo o signo que afeta o bolchevismo, poderíamos dizer coisas semelhantes do fascismo. Nem um nem outro ensaio está "à altura dos tempos", não levam dentro de si, em escorço, todo o pretérito, condição imprescindível para superá-lo. Com o passado não se luta corpo a corpo. O porvir o vence porque o engole. Se deixar algo dele fora, estará perdido.

Um e outro, bolchevismo e fascismo, são duas pseudoalvoradas: não trazem a manhã de amanhã; antes, a de um dia arcaico, já usado uma e muitas vezes; são primitivismo. E isto serão todos os movimentos que recaiam na simplicidade de travar pugilato com esta ou aquela porção do passado, em vez de proceder à sua digestão.

Sem dúvida, é preciso superar o liberalismo do século XIX. Contudo, isto é justamente o que não pode fazer quem, como o fascismo, se declara antiliberal. Porque isso, ser antiliberal ou não liberal, era o que fazia o homem anterior ao liberalismo. E como este já triunfou uma vez sobre aquele, repetirá sua vitória inúmeras vezes ou se acabará tudo, liberalismo e antiliberalismo, na destruição da Europa. Há uma cronologia vital inexorável. O liberalismo é nela posterior ao antiliberalismo, ou, o que é o mesmo, é mais vida que este, como o canhão é mais arma que a lança.

À primeira vista, uma atitude anti-algo parece posterior a esse algo, posto que significa uma reação contra ele e supõe sua prévia existência. Mas a inovação que o anti representa se desvanece em gesto negador vazio e deixa apenas como conteúdo positivo uma "velharia". Aquele que se declara anti-Pedro não faz, traduzindo sua atitude para uma linguagem positiva, senão declarar-se partidário de um mundo onde Pedro não exista. Ora, isto é precisamente o que acontecia ao mundo quando Pedro ainda não havia nascido. O antipedrista, em vez de colocar-se depois de Pedro, coloca-se antes e retrotrai todo o filme à situação passada, ao cabo da qual está inexoravelmente a reaparição de Pedro. A todos esses anti acontece, pois, o que, segundo a lenda, aconteceu a Confúcio. O qual nasceu, naturalmente, depois de seu pai; porém, diabos!, nasceu já com oitenta anos, enquanto seu progenitor tinha apenas trinta. Todo anti não é mais que um simples e oco não.

Tudo seria muito fácil se com um não puro e simples aniquilássemos o passado. Contudo, o passado é, por essência, revenant. Se o expulsam, volta, volta irremediavelmente. Por isso sua única autêntica maneira de separar-se dele é não expulsá-lo. Contar com ele. Comportar-se em vista dele para contorná-lo, para evitá-lo. Em suma, viver à "altura dos tempos", com hiperestésica consciência da conjuntura histórica.

O passado tem razão, a sua. Se não lhe damos essa que tem, voltará a reclamá-la e, de passagem, a impor a que não tem. O liberalismo tinha uma razão, e essa é preciso concedê-la per saecula saeculorum. Contudo, não tinha toda a razão, e essa que não tinha é preciso retirar-lhe. A Europa necessita conservar seu liberalismo essencial. Esta é a condição para superá-lo.

Se falei aqui de fascismo e bolchevismo, foi apenas obliquamente, fixando-me só em sua feição anacrônica. Esta é, a meu juízo, inseparável de tudo quanto hoje parece triunfar. Porque hoje triunfa o homem-massa e, portanto, somente tentativas por ele informadas, saturadas de seu estilo primitivo, podem celebrar uma aparente vitória. Fora isso, não discuto agora a entranha de um nem de outro, como tampouco pretendo dirimir o perene dilema entre revolução e evolução. O máximo que este ensaio se atreve a solicitar é que revolução ou evolução sejam históricas, e não anacrônicas.

O tema que persigo nestas páginas é politicamente neutro, porque se move em estrato muito mais profundo que a política e suas dimensões. O conservador não é mais nem menos massa que o radical, e essa diferença, que em toda época foi muito superficial, não impede nem de longe que ambos sejam um mesmo homem, vulgo rebelde.

A Europa não tem remissão se seu destino não for posto em mãos de pessoas verdadeiramente "contemporâneas", que sintam sob si palpitar todo o subsolo histórico, que conheçam a altitude presente da vida e repugnem todo gesto arcaico e silvestre. Necessitamos da história íntegra para ver se logramos escapar dela, sem recair nela.

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