Apêndice - Dinâmica do tempo: as vitrines mandam
# Apêndice - Dinâmica do tempo: as vitrines mandam
Diz-se que o dinheiro é o único poder que atua sobre a vida social. Se olharmos a realidade com uma ótica de retícula fina, a proposição é mais falsa que verdadeira. Entretanto, a visão de retícula grossa também tem seus direitos, e então não há inconveniente em aceitar essa sentença terrível.
Seria preciso, contudo, retirar alguns ingredientes e acrescentar outros para que a ideia se tornasse luminosa. Acontece que, em muitas épocas históricas, se disse o mesmo que agora, e isto convida a suspeitar que jamais tenha sido verdade, ou que tenha sido verdade em sentidos muito diversos. Porque é raro que tempos tão distintos coincidam em ponto tão principal. Em geral, convém dar pouco crédito ao que as épocas passadas disseram de si mesmas, pois, é preciso declará-lo, eram muito pouco inteligentes a respeito de si. Essa perspicácia sobre o próprio modo de ser, essa clarividência para o próprio destino, é coisa relativamente nova na história.
No século VII antes de Cristo, já corria por todo o Oriente do Mediterrâneo o famoso apotegma: *Chrémata, chrémata aner!* "Seu dinheiro, seu dinheiro é o homem!" No tempo de César dizia-se o mesmo; no século XIV, nosso turbulento tonsurado de Hita o põe em *cuaderna vía*; no XVII, Gôngora faz disso letrilhas. Que consequências tiramos dessa insistência monótona? Que o dinheiro, desde que foi inventado, é uma grande força social? Não era preciso sublinhar isso: seria uma obviedade. Em todas essas lamentações insinua-se algo mais. Quem as usa expressa com elas, no mínimo, sua surpresa de que o dinheiro tenha mais força do que deveria ter. E de onde nos vem essa convicção segundo a qual o dinheiro deveria ter menos influência do que efetivamente possui? Por que, depois de tantos e tantos séculos, ainda não nos habituamos ao fato constante, que sempre nos colhe de surpresa?
É talvez o único poder social que, ao ser reconhecido, nos causa asco. A própria força bruta que costuma indignar-nos encontra em nós uma última ressonância de simpatia e estima. Incita-nos a repeli-la criando uma força equivalente, porém não nos causa asco. Dir-se-ia que estes ou aqueles defeitos da violência nos revoltam; ela mesma, contudo, parece-nos um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivo, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules.
Creio que essa surpresa, sempre renovada diante do poder do dinheiro, encerra uma porção de problemas curiosos ainda não esclarecidos. As épocas em que esse poderio foi lamentado com mais autenticidade e com gritos mais dolorosos são, entre si, muito distintas. Contudo, pode-se descobrir nelas uma nota comum: são sempre épocas de crise moral, tempos muito transitórios entre duas etapas. Os princípios sociais que regeram uma idade perderam seu vigor, e ainda não amadureceram aqueles que vão imperar na seguinte. Que pensar? Será que o dinheiro não possui, em rigor, o poder que, deplorando-o, lhe atribuímos, e que sua influência só se torna decisiva quando os demais poderes organizadores da sociedade se retiraram? Se assim fosse, entenderíamos um pouco melhor essa estranha mistura de submissão e asco que a humanidade sente diante dele, essa surpresa e essa insinuação perene de que o poder exercido não lhe corresponde. Ao que parece, ele não o deveria ter porque o poder não é seu: foi usurpado das outras forças ausentes.
A questão é sobremaneira complicada e não é coisa de resolvê-la em quatro palavras. Tudo isto que digo vai apenas como possibilidade de interpretação. O importante é evitar a concepção econômica da história, que aplaina toda a graça do problema ao fazer da história inteira uma consequência monótona do dinheiro. Pois é demasiado evidente que, em muitas épocas humanas, o poder social deste foi muito reduzido, e outras energias alheias à economia deram forma à convivência humana. Se hoje os judeus possuem o dinheiro e são os donos do mundo, também o possuíam na Idade Média e eram a escória da Europa. Que não se diga que o dinheiro deixava de constituir a forma principal da riqueza, da realidade econômica nos tempos feudais. Pois, ainda que isso seja verdade, e avaliando na medida devida o peso puramente econômico do dinheiro na dinâmica da economia medieval, não há correspondência entre a riqueza daqueles judeus e sua posição social. Os marxistas, para ajustar os fatos à pauta de sua tese, desprezaram excessivamente a importância da moeda na etapa pré-capitalista da evolução econômica, e depois foi necessário refazer a história econômica daquela idade para mostrar a importância efetiva que o dinheiro hebreu tinha nos Estados medievais.
Ninguém, nem o mais idealista, pode duvidar da importância que o dinheiro tem na história, embora talvez se possa duvidar de que seja um poder primário e substantivo. Talvez o poder social não dependa normalmente do dinheiro; ao contrário, distribui-se conforme esteja distribuído o poder social, e vai ao guerreiro na sociedade belicosa, ao sacerdote na teocrática. O sintoma de um poder social autêntico é criar hierarquias, ser ele quem destaca o indivíduo no corpo público. Pois bem: no século XVI, por muito dinheiro que um judeu tivesse, continuava sendo um infra-homem, e, no tempo de César, os "cavaleiros", que eram os mais ricos enquanto classe, não ascendiam à cúpula da sociedade.
Parece mais verossímil que o dinheiro seja um fator social secundário, incapaz por si mesmo de inspirar a grande arquitetura da sociedade. É uma das forças principais que atuam no equilíbrio de todo edifício coletivo, sem ser a musa de seu estilo tectônico. Em compensação, se cedem os verdadeiros e normais poderes históricos, raça, religião, política, ideias, toda a energia social vaga é absorvida por ele. Diríamos, pois, que, quando os demais prestígios se volatilizam, resta sempre o dinheiro, que, por ser elemento material, não pode volatilizar-se. Ou, de outro modo: o dinheiro manda apenas quando nenhum outro princípio manda.
Assim se explica essa nota comum a todas as épocas submetidas ao império crematístico, que consiste em serem tempos de transição. Morta uma constituição política e moral, a sociedade fica sem motivo que hierarquize os homens. Ora, isto é impossível. Contra a ingenuidade igualitária, é preciso notar que a hierarquização é o impulso essencial da socialização. Onde há cinco homens em estado normal, produz-se automaticamente uma estrutura hierarquizada. Qual seja o princípio desta é outra questão. Algum, porém, terá de existir sempre. Se faltam os normais, um pseudoprincípio se encarrega de modelar a hierarquia e definir as classes. Durante um momento, no século XVII, na Holanda, o homem mais invejado era aquele que possuía certa tulipa rara. A fantasia humana, instigada por esse instinto irreprimível de hierarquia, inventa sempre algum novo tema de desigualdade.
Mas, mesmo limitando desse modo a frase inicial que dá ocasião a esta nota, pergunto-me se há alguma razão para afirmar que, em nosso tempo, o dinheiro goza de um poder social maior que em qualquer momento do passado. Também essa questão é arriscada e difícil de satisfazer. Se nos deixarmos levar, tudo o que acontece em nossa hora nos parecerá único e excepcional na série dos tempos. Há, porém, a meu juízo, uma razão que dá probabilidade clara à suspeita de ser nosso tempo o mais crematístico de todos. É também uma idade de crise: os prestígios ainda vigentes alguns anos atrás perderam sua eficiência. Nem a religião nem a moral dominam a vida social ou o coração da multidão. A cultura intelectual e artística é menos valorizada que há vinte anos. Resta só o dinheiro. Entretanto, conforme indiquei, isto ocorreu várias vezes na história. O novo, o exclusivo do presente, é esta outra conjuntura. O dinheiro teve, para seu poder, um limite automático em sua própria essência. O dinheiro é apenas um meio para comprar coisas. Se há poucas coisas para comprar, por muito dinheiro que exista e por mais livre de conflitos com outras potências se encontre sua ação, sua influência será escassa. Isto nos permite formar uma escala com as épocas de crematismo e dizer: o poder social do dinheiro, *ceteris paribus*, será tanto maior quanto mais coisas houver para comprar, não quanto maior seja a quantidade do próprio dinheiro. Ora, não há dúvida de que o industrialismo moderno, em sua combinação com os fabulosos progressos da técnica, produziu nestes anos um acúmulo tal de objetos comercializáveis, de tantas classes e qualidades, que o dinheiro pode desenvolver de modo fantástico sua essência: comprar.
No século XVIII também existiam grandes fortunas, porém havia pouco que comprar. O rico, se queria algo além do breve repertório de mercadorias existentes, tinha de inventar um apetite e o objeto que o satisfaria, tinha de procurar o artífice que o realizasse e dar tempo para sua fabricação. Em todo esse emaranhado interposto entre o dinheiro e o objeto, o dinheiro se enredava com outras forças espirituais, fantasia criadora de desejos no rico, seleção do artífice, trabalho técnico deste etc., das quais se fazia, sem querer, dependente.
Agora um homem chega a uma cidade e, em quatro dias, pode ser o habitante mais famoso e invejado dela com nada além de passear diante das vitrines, escolher os melhores objetos, o melhor automóvel, o melhor chapéu, o melhor isqueiro etc., e comprá-los. Caberia imaginar um autômato provido de um bolso no qual enfiasse mecanicamente a mão e que chegasse a ser o personagem mais ilustre da urbe.
*El Sol*, 15 de maio de 1927.