Capítulo XIV - Quem manda no mundo?
# Capítulo XIV - Quem manda no mundo?
A substância ou índole de uma nova época histórica resulta de variações internas do homem e de seu espírito, ou de variações externas, formais e quase mecânicas. Entre estas últimas, a mais importante, quase sem dúvida, é o deslocamento do poder. Porém este traz consigo um deslocamento do espírito.
Por isso, ao nos debruçarmos sobre uma época com ânimo de compreendê-la, uma das primeiras perguntas deve ser esta: "Quem manda no mundo agora?". Pode acontecer que, então, a humanidade esteja dispersa em vários pedaços sem comunicação entre si, formando mundos interiores e independentes. No tempo de Milcíades, o mundo mediterrâneo ignorava a existência do mundo extremo-oriental. Em casos assim, teríamos de dirigir nossa pergunta, "quem manda no mundo?", a cada grupo de convivência. Mas, desde o século XVI, a humanidade inteira entrou num processo gigantesco de unificação que em nossos dias chegou a seu termo insuperável. Já não há pedaço de humanidade que viva à parte; não há ilhas de humanidade. Portanto, desde aquele século pode dizer-se que quem manda no mundo exerce, de fato, sua influência autoritária sobre todo ele. Tal foi o papel do grupo homogêneo formado pelos povos europeus durante três séculos. A Europa mandava, e sob sua unidade de mando o mundo vivia com um estilo unitário, ou ao menos progressivamente unificado.
Esse estilo de vida costuma chamar-se "Idade Moderna", nome cinzento e inexpressivo sob o qual se oculta esta realidade: época da hegemonia europeia.
Por "mando" não se entende aqui primordialmente exercício de poder material, de coação física. Porque aqui se procura evitar as tolices, ao menos as mais grossas e manifestas. Ora, essa relação estável e normal entre homens que se chama "mando" nunca repousa na força; ocorre o inverso: porque um homem ou grupo de homens exerce o mando, tem à sua disposição esse aparelho ou máquina social que se chama "força". Os casos em que, à primeira vista, a força parece ser o fundamento do mando revelam-se, a uma inspeção posterior, os melhores exemplos para confirmar aquela tese. Napoleão dirigiu contra a Espanha uma agressão, sustentou essa agressão por algum tempo; porém não mandou propriamente na Espanha nem um só dia. E isso embora tivesse a força, precisamente porque tinha apenas a força. Convém distinguir entre um fato ou processo de agressão e uma situação de mando. O mando é o exercício normal da autoridade, o qual se funda sempre na opinião pública: sempre, hoje como há dez anos, entre os ingleses como entre os botocudos. Jamais alguém mandou na terra alimentando seu mando essencialmente de outra coisa que não fosse a opinião pública.
Ou se acredita que a soberania da opinião pública foi invenção feita pelo advogado Danton em 1789 ou por São Tomás de Aquino no século XIII? A noção dessa soberania terá sido descoberta aqui ou ali, nesta ou naquela data; porém o fato de que a opinião pública é a força radical que nas sociedades humanas produz o fenômeno de mandar é coisa tão antiga e perene quanto o próprio homem. Assim, na física de Newton, a gravitação é a força que produz o movimento. E a lei da opinião pública é a gravitação universal da história política. Sem ela, nem a ciência histórica seria possível. Por isso Hume insinua com muita agudeza que o tema da história consiste em demonstrar como a soberania da opinião pública, longe de ser uma aspiração utópica, é aquilo que pesou sempre e a toda hora nas sociedades humanas. Pois até quem pretende governar com os janízaros depende da opinião destes e da que os demais habitantes têm sobre eles.
A verdade é que não se manda com os janízaros. Assim, Talleyrand pôde dizer a Napoleão: "Com as baionetas, sire, pode-se fazer tudo, salvo uma coisa: sentar-se sobre elas." Mandar consiste menos em arrebatar o poder que em exercê-lo tranquilamente. Em suma, mandar é sentar-se. Trono, cadeira curul, banco azul, poltrona ministerial, sede. Contra o que supõe uma visão ingênua e folhetinesca, mandar é questão menos de punhos que de nádegas. O Estado é, em definitivo, o estado da opinião: uma situação de equilíbrio, de estática.
O que ocorre é que às vezes a opinião pública não existe. Uma sociedade dividida em grupos discrepantes, cuja força de opinião fica reciprocamente anulada, não dá lugar à constituição de um mando. E, como a natureza tem horror ao vazio, esse espaço deixado pela força ausente da opinião pública se enche com a força bruta. No máximo, pois, esta se apresenta como substituta daquela.
Por isso, se queremos exprimir com toda precisão a lei da opinião pública como lei da gravitação histórica, convém levar em conta esses casos de ausência; chega-se então a uma fórmula que é o conhecido, venerável e verídico lugar-comum: não se pode mandar contra a opinião pública.
Isso nos leva a perceber que mando significa preponderância de uma opinião; portanto, de um espírito; que mando, em última instância, é poder espiritual. Os fatos históricos confirmam isso escrupulosamente. Todo mando primitivo tem caráter "sacro", porque se funda na religião, e o religioso é a primeira forma sob a qual aparece sempre aquilo que depois será espírito, ideia, opinião; em suma, o imaterial e ultrafísico. Na Idade Média se reproduz, em escala maior, o mesmo fenômeno. O Estado ou poder público que primeiro se forma na Europa é a Igreja, com seu caráter específico e já nominativo de "poder espiritual". Da Igreja aprende o poder político que ele também, originariamente, é poder espiritual, vigência de certas ideias, e cria-se o Sacro Império Romano. Desse modo lutam dois poderes igualmente espirituais que, incapazes de diferenciar-se na substância, pois ambos são espírito, chegam ao acordo de instalar-se cada qual em um modo do tempo: o temporal e o eterno. Poder temporal e poder religioso são identicamente espirituais; o primeiro é espírito do tempo, opinião pública intramundana e cambiante; o segundo é espírito de eternidade, a opinião de Deus, a que Deus tem sobre o homem e seus destinos.
Vale o mesmo, pois, dizer: em tal data manda tal homem, tal povo ou tal grupo homogêneo de povos; ou dizer: em tal data predomina no mundo tal sistema de opiniões, ideias, preferências, aspirações, propósitos.
De que modo se deve entender esse predomínio? A maior parte dos homens não tem opinião, e é preciso que ela lhe venha de fora sob pressão, tal qual entra o lubrificante nas máquinas. Por isso é preciso que o espírito, seja ele qual for, tenha poder e o exerça, para que a gente que não opina, e é a maioria, opine. Sem opiniões, a convivência humana seria o caos; menos ainda: o nada histórico. Sem opiniões, a vida dos homens careceria de arquitetura, de organicidade. Por isso, sem um poder espiritual, sem alguém que mande, e na medida em que isso falte, reina na humanidade o caos. Paralelamente, todo deslocamento do poder, toda mudança de imperantes, é ao mesmo tempo uma mudança de opiniões e, consequentemente, nada menos que uma mudança de gravitação histórica.
Voltemos agora ao começo. Durante vários séculos, a Europa mandou no mundo, um conglomerado de povos com espírito afim. Na Idade Média, ninguém mandava na ordem temporal. É o que aconteceu em todas as idades médias da história. Por isso ela representa sempre um relativo caos e uma relativa barbárie, um déficit de opinião. São tempos em que se ama, se odeia, se anseia, se repugna, e tudo isso em grande medida. Em compensação, opina-se pouco. Tempos assim não carecem de encanto. Nos grandes tempos, porém, é da opinião que vive a humanidade, e por isso há ordem. Do outro lado da Idade Média encontramos novamente uma época em que, tal como na Moderna, alguém manda, ainda que sobre uma porção delimitada do mundo: Roma, a grande mandona. Ela pôs ordem no Mediterrâneo e arredores.
Nestes dias do pós-guerra começa a dizer-se que a Europa já não manda no mundo. Percebe-se toda a gravidade desse diagnóstico? Com ele se anuncia um deslocamento do poder. Para onde ele se dirige? Quem sucederá a Europa no mando do mundo? Estamos seguros de que alguém vai sucedê-la? E, se não fosse ninguém, que aconteceria?
A pura verdade é que no mundo acontecem, a cada instante e portanto agora, uma infinidade de coisas. A pretensão de dizer o que é que agora acontece no mundo deve ser entendida, pois, ironizando a si mesma. Contudo, justamente por ser impossível conhecer diretamente a plenitude do real, não temos outro recurso senão construir arbitrariamente uma realidade, supor que as coisas são de certa maneira. Isso nos proporciona um esquema, isto é, um conceito ou grade de conceitos. Com ele, por meio de uma quadrícula, olhamos depois a realidade efetiva, e só então conseguimos uma visão aproximada dela. Nisso consiste o método científico. Mais ainda: nisso consiste todo uso do intelecto. Quando, ao ver chegar nosso amigo pela vereda do jardim, dizemos: "Este é Pedro", cometemos deliberadamente, ironicamente, um erro. Porque Pedro significa para nós um repertório esquemático de modos de comportar-se física e moralmente, aquilo que chamamos "caráter"; e a pura verdade é que nosso amigo Pedro, às vezes, quase nada se parece com a ideia "nosso amigo Pedro".
Todo conceito, o mais vulgar e também o mais técnico, vai montado na ironia de si mesmo, nos dentinhos de um sorriso alciônico, como o diamante geométrico vai montado na dentadura de ouro de seu engaste. Ele diz com muita seriedade: "Esta coisa é A, e esta outra coisa é B." Porém a sua é a seriedade de um pince-sans-rire. É a seriedade instável de quem engoliu uma gargalhada e, se não aperta bem os lábios, a vomita. Ele sabe muito bem que nem esta coisa é A, assim, sem mais, nem a outra é B, assim, sem reservas. O que o conceito pensa, em rigor, é um pouco outra coisa do que aquilo que diz, e nessa duplicidade consiste a ironia. O que verdadeiramente pensa é isto: eu sei que, falando com todo rigor, esta coisa não é A, nem aquela B; porém, admitindo que são A e B, eu me entendo comigo mesmo para os efeitos de meu comportamento vital diante de uma e outra coisa.
Esta teoria do conhecimento da razão teria irritado um grego. Porque o grego acreditou ter descoberto na razão, no conceito, a própria realidade. Nós, em compensação, cremos que a razão, o conceito, é um instrumento doméstico do homem, que este necessita e usa para aclarar a própria situação em meio à realidade infinita e arquiproblemática que é sua vida. Vida é luta com as coisas para sustentar-se entre elas. Os conceitos são o plano estratégico que formamos para responder ao ataque delas. Por isso, se se escruta bem a entranha última de qualquer conceito, encontra-se que ele nada nos diz da coisa mesma, e sim resume o que um homem pode fazer com essa coisa ou padecer dela. Esta opinião taxativa, segundo a qual o conteúdo de todo conceito é sempre vital, é sempre ação possível, ou sofrimento possível de um homem, até agora, que eu saiba, ninguém a sustentou; porém é, a meu juízo, o termo inevitável do processo filosófico que se inicia com Kant. Por isso, se revisamos à sua luz todo o passado da filosofia até Kant, parecer-nos-á que, no fundo, todos os filósofos disseram o mesmo. Ora, toda descoberta filosófica é apenas descobrir e trazer à superfície aquilo que estava no fundo.
Porém semelhante introdução é desmedida para aquilo que vou dizer, tão alheio a problemas filosóficos. Eu ia dizer, simplesmente, que o que agora acontece no mundo, entenda-se o histórico, é exclusivamente isto: durante três séculos a Europa mandou no mundo, e agora a Europa não está segura de mandar nem de seguir mandando. Reduzir a fórmula tão simples a infinidade de coisas que integram a realidade histórica atual é, sem dúvida e no melhor dos casos, um exagero; eu precisava, por isso, recordar que pensar é, queira-se ou não, exagerar. Quem prefere evitar o exagero tem de calar-se; mais ainda: tem de paralisar o intelecto e ver a maneira de embrutecer-se.
Creio, com efeito, que é isso o que verdadeiramente está passando no mundo, e que todo o restante é consequência, condição, sintoma ou anedota disso.
Eu não disse que a Europa tenha deixado de mandar; disse estritamente que nestes anos a Europa sente graves dúvidas sobre se manda ou não, sobre se amanhã mandará. A isso corresponde, nos demais povos da terra, um estado de espírito congruente: duvidar se agora são mandados por alguém. Tampouco estão seguros disso.
Falou-se muito nestes anos da decadência da Europa. Suplico fervorosamente que se pare de cometer a ingenuidade de pensar em Spengler simplesmente porque se fala de decadência da Europa ou do Ocidente. Antes que seu livro aparecesse, todo mundo falava disso, e o êxito de seu livro se deveu, como é notório, ao fato de que tal suspeita ou preocupação preexistia em todas as cabeças, com os sentidos e pelas razões mais heterogêneas.
Falou-se tanto da decadência europeia que muitos chegaram a dá-la por fato. Chegaram a esse ponto por hábito: tomam-na por certa, embora não recordem sinceramente ter-se convencido resolutamente disso em nenhuma data determinada. O recente livro de Waldo Frank, Redescobrimento da América, apoia-se integralmente na suposição de que a Europa agoniza. Não obstante, Frank nem analisa, nem discute, nem transforma em questão esse fato enorme, que vai servir-lhe de formidável premissa. Sem maior averiguação, parte dele como algo indiscutível. E essa ingenuidade no ponto de partida me basta para pensar que Frank não está convencido da decadência da Europa; longe disso, nem sequer pôs tal questão para si. Toma-a como quem toma um bonde. Os lugares-comuns são os bondes do transporte intelectual.
E, como ele, fazem-no muitas gentes. Sobretudo, fazem-no os povos, os povos inteiros.
É uma paisagem de puerilidade exemplar que agora o mundo oferece. Na escola, quando alguém comunica que o mestre saiu, a multidão infantil se agita e se indisciplina. Cada qual sente a delícia de evadir-se da pressão que a presença do mestre impunha, de arrojar os jugos das normas, de pôr os pés para o alto, de sentir-se dono do próprio destino. Porém, retirada a norma que fixava as ocupações e as tarefas, a multidão infantil carece de uma tarefa própria, de uma ocupação formal, de uma tarefa com sentido, continuidade e trajetória; resulta que não pode executar senão uma coisa: a cabriola.
É deplorável o espetáculo frívolo que os povos menores oferecem. Visto que, segundo se diz, a Europa decai e, portanto, deixa de mandar, cada nação e cada nacionzinha salta, gesticula, põe-se de cabeça para baixo ou infla o peito e se estica, dando-se ares de pessoa maior que rege os próprios destinos. Daqui vem o panorama agitado de "nacionalismos" que se nos oferece por toda parte.
Nos capítulos anteriores tentei determinar a filiação de um novo tipo de homem que hoje predomina no mundo: chamei-o homem-massa, e fiz notar que sua principal característica consiste em que, sentindo-se vulgar, proclama o direito à vulgaridade e se nega a reconhecer instâncias superiores a ele. Era natural que, se esse modo de ser predomina dentro de cada povo, o fenômeno também se produza quando olhamos o conjunto das nações. Também há, relativamente, povos-massa resolvidos a rebelar-se contra os grandes povos criadores, minoria de estirpes humanas que organizaram a história. É verdadeiramente cômico contemplar como esta ou aquela republiqueta, desde seu canto perdido, põe-se na ponta dos pés, increpa a Europa e declara sua demissão da história universal.
Que resulta? A Europa havia criado um sistema de normas cuja eficácia e fertilidade os séculos demonstraram. Essas normas nem de longe são as melhores possíveis. São, sem dúvida, definitivas enquanto não existam ou se entrevejam outras. Para superá-las, é indispensável dar à luz outras. Agora os povos-massa resolveram considerar caduco aquele sistema de normas que é a civilização europeia; contudo, incapazes de criar outro, não sabem que fazer e, para preencher o tempo, entregam-se à cabriola.
Esta é a primeira consequência que sobrevém quando no mundo alguém deixa de mandar: os demais, ao se rebelarem, ficam sem tarefa, sem programa de vida.
O cigano foi confessar-se; mas o padre, precavido, começou por perguntar-lhe se sabia os mandamentos da lei de Deus. Ao que o cigano respondeu: "Mió padre, eu ia aprendê-los; mas ouvi um zunzum de que iam tirá-los."
Não é essa a situação presente do mundo? Corre o zunzum de que já não regem os mandamentos europeus e, em vista disso, as gentes, homens e povos, aproveitam a ocasião para viver sem imperativos. Porque existiam apenas os europeus. Aqui não se trata de uma germinação de normas novas que, como aconteceu em outras ocasiões, desloque as antigas e de um fervor novíssimo que absorva em seu fogo jovem os velhos entusiasmos de temperatura minguante. Isso seria o corrente. Mais ainda: o velho resulta velho por haver já um princípio novo que, só por ser novo, supera de pronto o preexistente. Sem filhos, não seríamos velhos, ou demoraríamos muito mais a sê-lo. O mesmo ocorre com os artefatos. Um automóvel de dez anos parece mais velho que uma locomotiva de vinte, simplesmente porque as invenções da técnica automobilística se sucederam com maior rapidez. Essa decadência que se origina no broto de novas juventudes é sintoma de saúde.
Porém o que agora se passa na Europa é coisa doentia e estranha. Os mandamentos europeus perderam vigência sem que outros apareçam no horizonte. A Europa, dizem, deixa de mandar, e não se vê quem possa substituí-la. Por Europa entende-se, antes de tudo e propriamente, a trindade França, Inglaterra, Alemanha. Na região do globo que elas ocupam amadureceu o módulo de existência humana conforme o qual o mundo foi organizado. Se, conforme agora se diz, esses três povos estão em decadência e seu programa de vida perdeu validade, não é estranho que o mundo se desmoralize.
E esta é a verdade pura. Todo o mundo, nações e indivíduos, está desmoralizado. Durante algum tempo essa desmoralização diverte e até vagamente ilude. Os inferiores pensam que lhes tiraram um peso de cima. Os decálogos conservam, do tempo em que eram inscritos sobre pedra ou bronze, seu caráter de peso. A etimologia de mandar significa carregar, pôr algo nas mãos de alguém. Quem manda é, inevitavelmente, aquele que carrega. Os inferiores de todo o mundo já estão fartos de que os carreguem e encarreguem, e aproveitam com ar festivo este tempo exonerado de imperativos gravosos. Porém a festa dura pouco. Sem mandamentos que nos obriguem a viver de certo modo, nossa vida fica em pura disponibilidade. Esta é a horrível situação íntima em que já se encontram as melhores juventudes do mundo. De tanto se sentirem livres, isentas de travas, sentem-se vazias. Uma vida em disponibilidade é negação maior de si mesma que a morte. Porque viver é ter de fazer algo determinado, é cumprir um encargo, e, na medida em que eludimos pôr nossa existência a serviço de algo, esvaziamos nossa vida. Em pouco tempo se ouvirá um grito formidável em todo o planeta, que subirá, como uivo de cães inumeráveis, até as estrelas, pedindo alguém e algo que mande, que imponha uma tarefa ou obrigação.
Fique dito isto para os que, com inconsciência de meninos, nos anunciam que a Europa já não manda. Mandar é dar tarefa às pessoas, metê-las em seu destino, em seu eixo: impedir sua extravagância, que costuma ser vagância, vida vazia, desolação.
Não importaria que a Europa deixasse de mandar se houvesse alguém capaz de substituí-la. Porém não há sombra disso. Nova York e Moscou nada têm de novo com respeito à Europa. Uma e outra são duas parcelas do mandamento europeu que, ao se dissociarem do resto, perderam seu sentido. Em rigor, dá arrepios falar de Nova York e de Moscou. Porque ninguém sabe com plenitude o que são; sabe-se apenas que sobre uma e outra ainda não foram ditas palavras decisivas. Mesmo sem sabê-lo plenamente, alcança-se o bastante para compreender seu caráter genérico. Ambas, com efeito, pertencem de cheio ao que algumas vezes chamei "fenômeno de camuflagem histórica". A camuflagem é, por essência, uma realidade que difere de sua aparência. Seu aspecto oculta a substância, em vez de declará-la. Por isso engana a maior parte das gentes. Só pode livrar-se da equivocação que a camuflagem produz quem sabe de antemão, e em geral, que a camuflagem existe. O mesmo ocorre com a miragem. O conceito corrige os olhos.
Em todo fato de camuflagem histórica há duas realidades que se sobrepõem: uma profunda, efetiva, substancial; outra aparente, acidental e de superfície. Assim, em Moscou há uma película de ideias europeias, o marxismo, pensadas na Europa em vista de realidades e problemas europeus. Debaixo dela há um povo distinto do europeu em matéria étnica e, coisa muito mais importante, de idade diferente da nossa. Um povo ainda em fermento; isto é, juvenil. Que o marxismo tenha triunfado na Rússia, onde não há indústria, seria a maior contradição que poderia sobrevir ao marxismo. Porém não há tal contradição, porque não há tal triunfo. A Rússia é marxista aproximadamente como eram romanos os tudescos do Sacro Império Romano. Os povos novos não têm ideias. Quando crescem em um âmbito onde existe ou acaba de existir uma velha cultura, embuçam-se na ideia que esta lhes oferece. Aí está a camuflagem e sua razão. Esquece-se, conforme notei outras vezes, que há dois grandes tipos de evolução para um povo. Há o povo que nasce em um "mundo" vazio de toda civilização. Exemplo: o egípcio ou o chinês. Em um povo assim tudo é autóctone, e seus gestos têm sentido claro e direto. Existem, porém, povos que germinam e se desenvolvem em um âmbito já ocupado por uma cultura de antiga história. Assim Roma, que cresce em pleno Mediterrâneo, cujas águas estavam impregnadas de civilização greco-oriental. Daí que metade dos gestos romanos fossem aprendidos. E o gesto aprendido, recebido, é sempre duplo, e sua verdadeira significação é oblíqua, indireta. Quem faz um gesto aprendido, por exemplo um vocábulo de outro idioma, faz por baixo dele o gesto seu, o autêntico; por exemplo, traduz para sua própria língua o vocábulo exótico. Daí que para atender às camuflagens também seja mister um olhar oblíquo: o de quem traduz um texto com um dicionário ao lado. Espero um livro em que o marxismo de Stalin apareça traduzido à história da Rússia. Pois aquilo que há nele de russo é o que tem de forte, e não aquilo que há de comunista. Vá alguém saber o que será! A única coisa que cabe assegurar é que a Rússia ainda precisa de séculos para aspirar ao mando. Porque carece ainda de mandamentos, precisou fingir sua adesão ao princípio europeu de Marx. Porque lhe sobra juventude, bastou-lhe essa ficção. O jovem não precisa de razões para viver: precisa apenas de pretextos.
Coisa muito semelhante acontece com Nova York. Também é um erro atribuir sua força atual aos mandamentos a que obedece. Em última instância, estes se reduzem a um: a técnica. Que casualidade! Outro invento europeu, não americano. A técnica é inventada pela Europa durante os séculos XVIII e XIX. Que casualidade! Os séculos em que a América nasce. E nos dizem a sério que a essência da América é sua concepção praticista e técnica da vida! Em vez de dizer-nos: a América é, tal qual sempre as colônias, uma repristinação ou rejuvenescimento de raças antigas, sobretudo da Europa. Por razões distintas da Rússia, os Estados Unidos significam também um caso dessa realidade histórica específica que chamamos "povo novo". Acredita-se que isso seja uma frase, quando é coisa tão efetiva quanto a juventude de um homem. A América é forte por sua juventude, que se pôs a serviço do mandamento contemporâneo "técnica", tal qual poderia ter-se posto a serviço do budismo se este fosse a ordem do dia. A América, porém, apenas começa sua história com isso. Agora começarão suas angústias, suas dissensões, seus conflitos. Ainda tem de ser muitas coisas; entre elas, algumas das mais opostas à técnica e ao praticismo. A América tem menos anos que a Rússia. Sempre sustentei, com medo de exagerar, que era um povo primitivo camuflado pelos últimos inventos. Agora Waldo Frank, em seu Redescobrimento da América, o declara francamente. A América ainda não sofreu; é ilusório pensar que possa possuir as virtudes do mando.
Quem evite cair na consequência pessimista de que ninguém vai mandar e de que, portanto, o mundo histórico volta ao caos, tem de retroceder ao ponto de partida e perguntar-se a sério: é tão certo quanto se diz que a Europa esteja em decadência e resigne o mando, abdique? Não será essa decadência aparente a crise benfeitora que permita à Europa ser literalmente Europa? A evidente decadência das nações europeias acaso não se impunha a priori para que algum dia fossem possíveis os Estados Unidos da Europa, a pluralidade europeia substituída por sua unidade formal?
A função de mandar e obedecer é decisiva em toda sociedade. Quando fica turva a questão de quem manda e quem obedece, todo o resto marcha de modo impuro e torpe. Até a intimidade mais íntima de cada indivíduo, salvas as exceções geniais, ficará perturbada e falsificada. Se o homem fosse um ser solitário que acidentalmente se acha enredado em convivência com outros, talvez permanecesse intacto diante de tais repercussões, originadas nos deslocamentos e nas crises do imperar, do Poder. Porém, sendo social em sua constituição mais elementar, fica transtornado em sua índole privada por mutações que, em rigor, só afetam imediatamente a coletividade. Daí que, se tomamos à parte um indivíduo e o analisamos, caiba colegir, sem mais dados, como anda em seu país a consciência de mando e obediência.
Seria interessante e até útil submeter a esse exame o caráter individual do espanhol médio. A operação seria, entretanto, enfadonha e, embora útil, deprimente; por isso a evito. Ela faria ver a enorme dose de desmoralização íntima, de aviltamento, que no homem médio de nosso país produz o fato de ser a Espanha uma nação que vive há séculos com a consciência suja na questão de mando e obediência. O aviltamento consiste na aceitação, como estado habitual e constituído, de uma irregularidade, de algo que, enquanto se aceita, continua parecendo indevido. Como não é possível converter em normalidade sã aquilo que em sua essência é criminoso e anormal, o indivíduo opta por adaptar-se ao indevido, fazendo-se por completo homogêneo ao crime ou irregularidade que arrasta. É um mecanismo parecido com o que o adágio popular enuncia quando diz: "Uma mentira faz cem." Todas as nações passaram por jornadas em que aspirou a mandar sobre elas quem não devia mandar; porém um forte instinto as fez concentrar de pronto suas energias e expelir aquela irregular pretensão de mando. Rechaçaram a irregularidade transitória e reconstituíram assim sua moral pública. O espanhol fez o contrário: em vez de opor-se a ser imperado por quem sua íntima consciência rejeitava, preferiu falsificar todo o resto de seu ser para acomodá-lo àquela fraude inicial. Enquanto isso persistir em nosso país, é vão esperar algo dos homens de nossa raça. Não pode ter vigor elástico para a difícil faina de sustentar-se com decoro na história uma sociedade cujo Estado, cujo império ou mando é constitutivamente fraudulento.
Nada há de estranho, pois, em que tenha bastado uma leve dúvida, uma simples vacilação sobre quem manda no mundo, para que todo o mundo, em sua vida pública e em sua vida privada, tenha começado a desmoralizar-se.
A vida humana, por sua própria natureza, tem de estar posta a algo, a uma empresa gloriosa ou humilde, a um destino ilustre ou trivial. Trata-se de uma condição estranha, porém inexorável, escrita em nossa existência. De um lado, viver é algo que cada qual faz por si e para si. De outro, se essa minha vida, que só a mim importa, não é entregue por mim a algo, caminhará desconjuntada, sem vigor e sem "forma". Nestes anos assistimos ao gigantesco espetáculo de inúmeras vidas humanas que marcham perdidas no labirinto de si mesmas por não terem a que se entregar. Todos os imperativos, todas as ordens, ficaram em suspenso. Parece que a situação deveria ser ideal, pois cada vida fica em absoluta franquia para fazer o que lhe der vontade, para vagar em si mesma. O mesmo se dá com cada povo. A Europa afrouxou sua pressão sobre o mundo. O resultado, porém, foi contrário ao que se podia esperar. Entregue a si mesma, cada vida fica em si mesma, vazia, sem ter que fazer. E, porque precisa encher-se com algo, finge-se frivolamente a si mesma, dedica-se a falsas ocupações que nada íntimo, sincero, impõe. Hoje é uma coisa; amanhã, outra, oposta à primeira. Está perdida ao encontrar-se sozinha consigo. O egoísmo é labiríntico. Compreende-se. Viver é ir disparado para algo, é caminhar para uma meta. A meta não é meu caminhar, não é minha vida; é algo a que ponho esta vida e que por isso mesmo está fora dela, mais além. Se me resolvo a andar apenas por dentro de minha vida, egoisticamente, não avanço, não vou a parte alguma; dou voltas e reviravoltas no mesmo lugar. Isto é o labirinto: um caminho que não leva a nada, que se perde em si mesmo, de puro ser apenas caminhar por dentro de si.
Depois da guerra, o europeu fechou-se em seu interior; ficou sem empresa para si e para os demais. Por isso seguimos historicamente como há dez anos.
Não se manda a seco. O mando consiste em uma pressão que se exerce sobre os demais. Porém não consiste apenas nisso. Reduzido a isso, seria violência. Não se esqueça que mandar tem duplo efeito: manda-se em alguém, e também se manda algo a esse alguém. E aquilo que se manda é, em última instância, que participe de uma empresa, de um grande destino histórico. Por isso não há império sem programa de vida, precisamente sem um plano de vida imperial. Como diz o verso de Schiller: "Quando os reis constroem, há trabalho para os carreteiros."
Não convém, pois, embarcar na opinião trivial que vê na atuação dos grandes povos, tal qual na dos homens, uma inspiração puramente egoísta. Ser puro egoísta não é tão fácil quanto se crê, e ninguém jamais triunfou sendo-o. O egoísmo aparente dos grandes povos e dos grandes homens é a dureza inevitável com que tem de comportar-se quem tem sua vida posta a uma empresa. Quando de verdade vamos fazer algo e nos entregamos a um projeto, não se nos pode pedir que estejamos disponíveis para atender os transeuntes e que nos dediquemos a pequenos altruísmos de acaso. Uma das coisas que mais encantam os viajantes quando cruzam a Espanha é que, se perguntam a alguém na rua onde fica uma praça ou edifício, com frequência o interpelado deixa o caminho que levava e generosamente se sacrifica pelo estranho, conduzindo-o até o lugar que lhe interessa. Não nego que possa haver nessa índole do bom celtibero algum fator de generosidade, e alegro-me de que o estrangeiro interprete assim sua conduta. Nunca, porém, ao ouvi-lo ou lê-lo pude reprimir este receio: será que o compatriota perguntado ia de verdade a alguma parte? Porque poderia muito bem ocorrer que, em muitos casos, o espanhol não vá a nada, não tenha projeto nem missão, saia antes à vida para ver se as vidas de outros enchem um pouco a sua. Em muitos casos me consta que meus compatriotas saem à rua para ver se encontram algum forasteiro a quem acompanhar.
É grave que essa dúvida sobre o mando do mundo exercido até agora pela Europa tenha desmoralizado o restante dos povos, salvo aqueles que por sua juventude ainda estão em sua pré-história. Porém é muito mais grave que este piétinement sur place chegue a desmoralizar por completo o próprio europeu. Não penso assim porque eu seja europeu ou coisa parecida. Tampouco digo: se o europeu não há de mandar no futuro próximo, a vida do mundo não me interessa. Nada me importaria a cessação do mando europeu se existisse hoje outro grupo de povos capaz de substituí-lo no poder e na direção do planeta. Nem sequer isso eu pediria. Aceitaria que ninguém mandasse, se isto não trouxesse consigo a volatilização de todas as virtudes e dotes do homem europeu.
Ora, isto último é irremissível. Se o europeu se habitua a deixar de mandar, bastarão geração e meia para que o velho continente, e atrás dele o mundo todo, caia na inércia moral, na esterilidade intelectual e na barbárie omnímoda. Só a ilusão do império e a disciplina de responsabilidade que ela inspira podem manter as almas do Ocidente em estado de alto vigor. A ciência, a arte, a técnica e todo o mais vivem da atmosfera tônica que cria a consciência de mando. Se esta falta, o europeu irá se envilecendo. Já não terão as mentes aquela fé radical em si mesmas que as lança, enérgicas, audazes, tenazes, à captura de grandes ideias, novas em toda ordem. O europeu se fará definitivamente cotidiano. Incapaz de esforço criador e luxuoso, recairá sempre no ontem, no hábito, na rotina. Fará de si uma criatura chabacana, formulista, oca, como os gregos da decadência e como os de toda a história bizantina.
A vida criadora supõe um regime de alta higiene, de grande decoro, de estímulos constantes, que excitam a consciência da dignidade. A vida criadora é vida enérgica, e esta só é possível em uma destas duas situações: ou sendo alguém aquele que manda, ou achando-se alojado em um mundo onde manda alguém a quem reconhecemos pleno direito para tal função; ou mando eu, ou obedeço. Obedecer difere de aguentar, pois aguentar é envilecer-se; consiste, ao contrário, em estimar aquele que manda e segui-lo, solidarizando-se com ele, situando-se com fervor sob o ondular de sua bandeira.
Convém agora retroceder ao ponto de partida destes artigos: ao fato, tão curioso, de que no mundo se fale tanto, nestes anos, sobre a decadência da Europa. Já é surpreendente o detalhe de que essa decadência tenha sido notada primeiro pelos próprios europeus, e não pelos estranhos. Quando ninguém, fora do velho continente, pensava nisso, ocorreu a alguns homens da Alemanha, da Inglaterra, da França, esta sugestiva ideia: será que começamos a decair? A ideia teve boa imprensa, e hoje todo mundo fala da decadência europeia como de uma realidade inconcussa.
Detende, porém, com um leve gesto, aquele que a enuncia e perguntai-lhe em que fenômenos concretos e evidentes funda seu diagnóstico. De pronto o vereis fazer vagos meneios e praticar essa agitação de braços rumo à redondeza do universo que é característica de todo náufrago. Em efeito, não sabe a que se agarrar. A única coisa que aparece sem grandes precisões quando se quer definir a atual decadência europeia é o conjunto de dificuldades econômicas que hoje se põe diante de cada uma das nações europeias. Porém, quando se procura precisar um pouco o caráter dessas dificuldades, adverte-se que nenhuma delas afeta seriamente o poder de criação de riqueza e que o velho continente passou por crises muito mais graves nessa ordem.
Porventura o alemão ou o inglês não se sentem hoje capazes de produzir mais e melhor que nunca? De modo algum, e importa muito filiar o estado de espírito desse alemão ou desse inglês nessa dimensão do econômico. Pois o curioso é precisamente que a depressão indiscutível de seus ânimos não provém de que se sintam pouco capazes; nasce, ao contrário, de que, sentindo-se com mais potencialidade que nunca, tropeçam em certas barreiras fatais que os impedem de realizar aquilo que muito bem poderiam. Essas fronteiras fatais da economia atual alemã, inglesa, francesa, são as fronteiras políticas dos respectivos Estados. A dificuldade autêntica, pois, reside no fato de que a forma de vida pública em que as capacidades econômicas deveriam mover-se é incongruente com o tamanho destas, e não neste ou naquele problema econômico que esteja proposto. A meu juízo, a sensação de menoscabo, de impotência, que abruma inegavelmente nestes anos a vitalidade europeia, nutre-se dessa desproporção entre o tamanho da potencialidade europeia atual e o formato da organização política em que tem de atuar. O arranque para resolver as graves questões urgentes é tão vigoroso quanto o foi nos melhores momentos; porém tropeça de pronto nas reduzidas jaulas em que está alojado, nas pequenas nações em que até agora vivia organizada a Europa. O pessimismo, o desânimo que hoje pesa sobre a alma continental, parece-se muito com o da ave de asa longa que, ao bater suas grandes remiges, se fere contra os ferros do gaiolão.
A prova disso é que a combinação se repete em todas as demais ordens, cujos fatores são, em aparência, tão distintos do econômico. Por exemplo, na vida intelectual. Todo bom intelectual da Alemanha, Inglaterra ou França se sente hoje afogado nos limites de sua nação, sente sua nacionalidade como uma limitação absoluta. O professor alemão já se dá conta clara de que é absurdo o estilo de produção a que o obriga seu público imediato de professores alemães, e sente falta da superior liberdade de expressão de que gozam o escritor francês e o ensaísta britânico. Vice-versa, o homem de letras parisiense começa a compreender que está esgotada a tradição do mandarinismo literário, de formalismo verbal, a que o condena sua origem francesa, e preferiria, conservando as melhores qualidades dessa tradição, integrá-la com algumas virtudes do professor alemão.
Na ordem da política interior acontece o mesmo. Ainda não se analisou a fundo a estranhíssima questão de por que anda tão em agonia a vida política de todas as grandes nações. Diz-se que as instituições democráticas caíram em desprestígio. Porém é justamente isso que conviria explicar, pois se trata de um desprestígio estranho. Fala-se mal do Parlamento em todas as partes; contudo, não se vê que em nenhuma das nações que contam se tente sua substituição, nem sequer que existam perfis utópicos de outras formas de Estado que, ao menos idealmente, pareçam preferíveis. Não há, pois, que acreditar muito na autenticidade desse aparente desprestígio. Não são as instituições, enquanto instrumento de vida pública, que marcham mal na Europa; são as tarefas em que empregá-las. Faltam programas de tamanho congruente com as dimensões efetivas que a vida chegou a ter dentro de cada indivíduo europeu.
Há aqui um erro de ótica que convém corrigir de uma vez, porque dá arrepios escutar as inépcias que a toda hora se dizem, por exemplo, a propósito do Parlamento. Existe toda uma série de objeções válidas ao modo de conduzir-se dos Parlamentos tradicionais; porém, se as tomamos uma a uma, vemos que nenhuma permite concluir que o Parlamento deva ser suprimido; todas levam, por via direta e evidente, à necessidade de reformá-lo. Ora, o melhor que humanamente se pode dizer de algo é que necessita ser reformado, porque isso implica que é imprescindível e capaz de nova vida. O automóvel atual saiu das objeções que se fizeram ao automóvel de 1910. A desestima vulgar em que caiu o Parlamento não procede dessas objeções. Diz-se, por exemplo, que ele não é eficaz. Devemos perguntar então: para que não é eficaz? Porque a eficácia é a virtude que um utensílio tem para produzir uma finalidade. Neste caso, a finalidade seria a solução dos problemas públicos em cada nação. Por isso exigimos de quem proclama a ineficácia dos Parlamentos que possua uma ideia clara de qual é a solução dos problemas públicos atuais. Pois, se em nenhum país está hoje claro, nem sequer teoricamente, em que consiste o que há de fazer-se, não tem sentido acusar de ineficácia os instrumentos institucionais. Valeria mais recordar que jamais instituição alguma criou na história Estados mais formidáveis, mais eficientes que os Estados parlamentares do século XIX. O fato é tão indiscutível que esquecê-lo demonstra franca estupidez. Não se deve confundir, pois, a possibilidade e a urgência de reformar profundamente as assembleias legislativas, para fazê-las "ainda mais" eficazes, com declarar sua inutilidade.
O desprestígio dos Parlamentos nada tem a ver com seus defeitos notórios. Procede de outra causa, alheia por completo a eles enquanto utensílios políticos. Procede de que o europeu não sabe em que empregá-los, de que não estima as finalidades da vida pública tradicional; em suma, de que não sente ilusão pelos Estados nacionais em que está inscrito e prisioneiro. Se se olha com um pouco de cuidado esse famoso desprestígio, o que se vê é que o cidadão, na maior parte dos países, não sente respeito por seu Estado. Seria inútil substituir o detalhe de suas instituições, porque o próprio Estado ficou pequeno e deixou de merecer respeito.
Pela primeira vez, ao tropeçar em seus projetos econômicos, políticos, intelectuais, com os limites de sua nação, o europeu sente que aqueles, isto é, suas possibilidades de vida, seu estilo vital, são incomensuráveis no tamanho do corpo coletivo em que está encerrado. Então descobriu que ser inglês, alemão ou francês é ser provinciano. Encontrou-se, pois, com que é "menos" que antes, porque antes o francês, o inglês e o alemão acreditavam, cada qual por si, que eram o universo. Esta é, parece-me, a origem autêntica dessa impressão de decadência que aflige o europeu. Portanto, uma origem puramente íntima e paradoxal, já que a presunção de haver diminuído nasce, precisamente, do fato de haver crescido sua capacidade, que tropeça com uma organização antiga dentro da qual já não cabe.
Para dar ao que foi dito um apoio plástico que o esclareça, tome-se qualquer atividade concreta; por exemplo: a fabricação de automóveis. O automóvel é invenção puramente europeia. Contudo, hoje é superior a fabricação norte-americana desse artefato. Consequência: o automóvel europeu está em decadência. E, entretanto, o fabricante europeu, industrial ou técnico, de automóveis sabe muito bem que a superioridade do produto norte-americano não procede de nenhuma virtude específica gozada pelo homem de ultramar; procede simplesmente de que a fábrica americana pode oferecer seu produto sem trava alguma a cento e vinte milhões de homens. Imagine-se que uma fábrica europeia visse diante de si uma área mercantil formada por todos os Estados europeus, e suas colônias e protetorados. Ninguém duvida de que esse automóvel previsto para quinhentos ou seiscentos milhões de homens seria muito melhor e mais barato que o Ford. Todas as graças peculiares da técnica americana são, quase seguramente, efeitos, e não causas, da amplitude e homogeneidade de seu mercado. A "racionalização" da indústria é consequência automática de seu tamanho.
A situação autêntica da Europa viria, portanto, a ser esta: seu magnífico e longo passado a faz chegar a um novo estádio de vida onde tudo cresceu; ao mesmo tempo, as estruturas sobreviventes desse passado são anãs e impedem a expansão atual. A Europa se fez em forma de pequenas nações. Em certo modo, a ideia e o sentimento nacionais foram sua invenção mais característica. E agora ela se vê obrigada a superar-se a si mesma. Este é o esquema do drama enorme que vai representar-se nos anos vindouros. Saberá libertar-se das sobrevivências, ou ficará prisioneira delas para sempre? Porque já aconteceu uma vez na história que uma grande civilização morreu por não poder substituir sua ideia tradicional de Estado...
Contei em outro lugar a paixão e morte do mundo greco-romano e, quanto a certos detalhes, remeto ao que ali ficou dito. Agora, porém, podemos tomar o assunto sob outro aspecto.
Gregos e latinos aparecem na história alojados, como abelhas em sua colmeia, dentro de urbes, de poleis. Este é um fato que nestas páginas precisamos tomar como absoluto e de gênese misteriosa; um fato do qual se deve partir sem mais, tal qual o zoólogo parte do dado bruto e inexplicado de que o sphex vive solitário, errabundo, peregrino, ao passo que a abelha loura só existe em enxame construtor de favos. O caso é que a escavação e a arqueologia nos permitem ver algo do que havia no solo de Atenas e no de Roma antes que Atenas e Roma existissem. Mas a passagem dessa pré-história, puramente rural e sem caráter específico, ao broto da cidade, fruto de nova espécie que o solo de ambas as penínsulas dá, permanece arcana: nem sequer está claro o nexo étnico entre aqueles povos proto-históricos e essas comunidades estranhas, que trazem ao repertório humano uma grande inovação: a de construir uma praça pública e, em torno dela, uma cidade fechada ao campo. Porque, com efeito, a definição mais certeira do que são a urbe e a polis se parece muito à que comicamentese dá do canhão: tomai um buraco, rodeai-o de arame muito apertado, e isso é um canhão. Pois o mesmo ocorre aqui: a urbe ou polis começa por ser um vazio, o foro, a ágora; todo o resto é pretexto para assegurar esse vazio, para delimitar seu contorno. A polis, antes de tudo, é um lugar de ajuntamento civil, um espaço acotado para funções públicas, não um conjunto de casas habitáveis. A urbe existe para discutir sobre a coisa pública; a cabana ou o domus servem para abrigar-se da intempérie e engendrar, que são misteres privados e familiares.
Note-se que isto significa nada menos que a invenção de uma nova classe de espaço, muito mais nova que o espaço de Einstein. Até então só existia um espaço: o campo, e nele se vivia com todas as consequências que isso traz para o ser do homem. O homem camponês ainda é um vegetal. Sua existência, quanto pensa, sente e quer, conserva a modorra inconsciente em que vive a planta. As grandes civilizações asiáticas e africanas foram, nesse sentido, grandes vegetações antropomorfas. Mas o greco-romano decide separar-se do campo, da "natureza", do cosmos geobotânico. Como isto é possível? Como pode o homem retrair-se do campo? Aonde irá, se o campo é toda a terra, se é o ilimitado? Muito simples: limitando um pedaço de campo mediante muros que oponham o espaço incluso e finito ao espaço amorfo e sem fim. Eis a praça. Ela difere da casa, de um "interior" fechado por cima, igual às cavernas que existem no campo; é pura e simplesmente a negação do campo. A praça, graças aos muros que a delimitam, é um pedaço de campo que vira as costas ao resto, prescinde do resto e se opõe a ele. Esse campo menor e rebelde, que pratica secessão do campo infinito e se reserva a si mesmo frente a ele, é campo abolido e, portanto, um espaço sui generis, novíssimo, no qual o homem se liberta de toda comunidade com a planta e o animal, deixa-os fora e cria um âmbito à parte, puramente humano. É o espaço civil. Por isso Sócrates, o grande urbano, triplo extrato do sumo que a polis destila, dirá: "Não tenho que ver com as árvores no campo; só tenho que ver com os homens na cidade." Que souberam jamais disto o hindu, o persa, o chinês, o egípcio?
Até Alexandre e César, respectivamente, a história da Grécia e de Roma consiste na luta incessante entre esses dois espaços: entre a cidade racional e o campo vegetal, entre o jurista e o lavrador, entre o ius e o rus.
Não se creia que essa origem da urbe seja pura construção minha e que só lhe corresponda uma verdade simbólica. Com rara insistência, no estrato primário e mais fundo de sua memória, os habitantes da cidade greco-latina conservam a lembrança de um synoikismos. Não há, pois, que violentar os textos; basta traduzi-los. Synoikismos é acordo de ir viver juntos; portanto, ajuntamento, estritamente no duplo sentido físico e jurídico desse vocábulo. Ao espalhamento vegetativo pela campina sucede a concentração civil na cidade. A urbe é a supercasa, a superação da casa ou ninho infra-humano, a criação de uma entidade mais abstrata e mais alta que o oikos familiar. É a república, a politeia, composta de cidadãos, não apenas de homens e mulheres. Uma dimensão nova, irredutível às primigênias e mais próximas do animal, oferece-se ao existir humano, e nela vão pôr suas melhores energias aqueles que antes eram apenas homens. Dessa maneira nasce a urbe, desde logo como Estado.
Em certo modo, toda a costa mediterrânea mostrou sempre uma tendência espontânea a esse tipo estatal. Com maior ou menor pureza, o norte da África, Cartago, isto é, a cidade, repete o mesmo fenômeno. A Itália não saiu até o século XIX do Estado-cidade, e nosso Levante cai, sempre que pode, no cantonalismo, que é um ressaibo daquela inspiração milenar.
O Estado-cidade, pela relativa pequenez de seus ingredientes, permite ver claramente o que há de específico no princípio estatal. De uma parte, a palavra Estado indica que as forças históricas conseguem uma combinação de equilíbrio, de assento. Nesse sentido significa o contrário de movimento histórico: o Estado é convivência estabilizada, constituída, estática. Porém esse caráter de imobilidade, de forma quieta e definida, oculta, como todo equilíbrio, o dinamismo que produziu e sustenta o Estado. Faz esquecer, em suma, que o Estado constituído é apenas o resultado de um movimento anterior de luta, de esforços que tendiam a ele. Ao Estado constituído precede o Estado constituinte, e este é um princípio de movimento.
Com isso quero dizer que o Estado precisa ser forjado penosamente; o homem não o encontra dado e de presente. Ele difere da horda ou da tribo e das demais sociedades fundadas na consanguinidade, que a natureza se encarrega de fazer sem colaboração do esforço humano. Ao contrário, o Estado começa quando o homem se afana por evadir-se da sociedade nativa dentro da qual o sangue o inscreveu. E quem diz o sangue diz também qualquer princípio natural; por exemplo, o idioma. Originariamente, o Estado consiste na mistura de sangues e línguas. É superação de toda sociedade natural. É mestiço e plurilíngue.
Assim, a cidade nasce por reunião de povos diversos. Constrói sobre a heterogeneidade zoológica uma homogeneidade abstrata de jurisprudência. Claro está que a unidade jurídica não é a aspiração que impulsiona o movimento criador do Estado. O impulso é mais substantivo que todo direito; é o propósito de empresas vitais maiores que as possíveis às minúsculas sociedades consanguíneas. Na gênese de todo Estado vemos ou entrevemos sempre o perfil de um grande empresário.
Se observamos a situação histórica que precede imediatamente o nascimento de um Estado, encontraremos sempre o seguinte esquema: várias coletividades pequenas cuja estrutura social foi feita para que cada qual viva voltada para dentro de si mesma. A forma social de cada uma serve apenas a uma convivência interna. Isso indica que no passado viveram efetivamente isoladas, cada uma por si e para si, sem mais que contatos excepcionais com as limítrofes. Mas a esse isolamento efetivo sucedeu de fato uma convivência externa, sobretudo econômica. O indivíduo de cada coletividade já não vive apenas dela: parte de sua vida está enlaçada com indivíduos de outras coletividades, com os quais comercia mercantil e intelectualmente. Sobrevém, pois, um desequilíbrio entre duas convivências: a interna e a externa. A forma social estabelecida, direitos, "costumes" e religião, favorece a interna e dificulta a externa, mais ampla e nova. Nessa situação, o princípio estatal é o movimento que leva a aniquilar as formas sociais de convivência interna, substituindo-as por uma forma social adequada à nova convivência externa. Aplique-se isto ao momento europeu atual, e essas expressões abstratas adquirirão figura e cor.
Não há criação estatal se a mente de certos povos carece da capacidade de abandonar a estrutura tradicional de uma forma de convivência e, além disso, imaginar outra jamais havida. Por isso é autêntica criação. O Estado começa por ser uma obra de imaginação absoluta. A imaginação é o poder libertador que o homem tem. Um povo é capaz de Estado na medida em que sabe imaginar. Daí que todos os povos tenham tido um limite em sua evolução estatal, precisamente o limite imposto pela natureza à sua fantasia.
O grego e o romano, capazes de imaginar a cidade que triunfa da dispersão camponesa, detiveram-se nos muros urbanos. Houve quem quisesse levar as mentes greco-romanas mais além, quem tentasse libertá-las da cidade; porém foi empenho vão. A cerração imaginativa do romano, representada por Bruto, encarregou-se de assassinar César, a maior fantasia da Antiguidade. Importa muito a nós, europeus de hoje, recordar esta história, porque a nossa chegou ao mesmo capítulo.
Cabeças claras, aquilo que se chama cabeças claras, provavelmente não houve em todo o mundo antigo mais que duas: Temístocles e César; dois políticos. A coisa surpreende porque, em geral, o político, inclusive o famoso, é político precisamente por ser tosco. Houve, sem dúvida, na Grécia e em Roma, outros homens que pensaram ideias claras sobre muitas coisas: filósofos, matemáticos, naturalistas. Porém sua clareza foi de ordem científica, isto é, uma clareza sobre coisas abstratas. Todas as coisas de que fala a ciência, qualquer que seja ela, são abstratas, e as coisas abstratas são sempre claras. De sorte que a clareza da ciência está menos na cabeça dos que a fazem que nas coisas de que falam. O essencialmente confuso, intrincado, é a realidade vital concreta, sempre única. Quem seja capaz de orientar-se com precisão nela; quem vislumbre sob o caos que toda situação vital apresenta a anatomia secreta do instante; em suma, quem não se perca na vida, esse é de verdade uma cabeça clara. Observai os que vos rodeiam e vereis que avançam perdidos por sua vida; vão como sonâmbulos dentro de sua boa ou má sorte, sem a mais ligeira suspeita do que lhes acontece. Vós os ouvireis falar em fórmulas taxativas sobre si mesmos e sobre seu contorno, o que indicaria que possuem ideias sobre tudo isso. Porém, se analisardes superficialmente essas ideias, notareis que elas refletem pouco ou nada da realidade a que parecem referir-se; e, se aprofundardes a análise, achareis que nem sequer pretendem ajustar-se a tal realidade. Muito ao contrário: o indivíduo trata, com elas, de interceptar sua própria visão do real, de sua própria vida. Porque a vida é, antes de tudo, um caos onde se está perdido. O homem o suspeita; porém se aterra ao encontrar-se face a face com essa terrível realidade e procura ocultá-la com um telão fantasmagórico, onde tudo está muito claro. Pouco lhe importa que suas "ideias" sejam verdadeiras; emprega-as como trincheiras para defender-se de sua vida, como espantalhos para afugentar a realidade.
O homem de cabeça clara é aquele que se liberta dessas "ideias" fantasmagóricas, olha a vida de frente, toma consciência de que tudo nelas é problemático e se sente perdido. Por ser esta a pura verdade, a saber, que viver é sentir-se perdido, quem a aceita já começou a encontrar-se, já começou a descobrir sua autêntica realidade, já está em terreno firme. Instintivamente, tal qual o náufrago, buscará algo a que agarrar-se, e esse olhar trágico, peremptório, absolutamente veraz, porque se trata de salvar-se, o fará ordenar o caos de sua vida. Estas são as únicas ideias verdadeiras: as ideias dos náufragos. O resto é retórica, postura, íntima farsa. Quem não se sente de verdade perdido perde-se inexoravelmente; isto é, jamais se encontra, jamais topa com a própria realidade.
Isto é certo em todas as ordens, até na ciência, apesar de ser a ciência, por si mesma, uma fuga da vida. A maior parte dos homens de ciência se dedicou a ela por terror de enfrentar a própria vida. São cabeças pouco claras; daí sua notória torpeza diante de qualquer situação concreta. Nossas ideias científicas valem na medida em que nos tenhamos sentido perdidos numa questão, em que tenhamos visto bem seu caráter problemático e compreendido que não podemos apoiar-nos em ideias recebidas, em receitas, em lemas nem vocábulos. Quem descobre uma nova verdade científica teve antes de triturar quase tudo o que aprendera e chega a essa nova verdade com as mãos ensanguentadas por haver degolado inúmeros lugares-comuns.
A política é muito mais real que a ciência, porque se compõe de situações únicas em que o homem se encontra de pronto submerso, queira ou não. Por isso é o tema que nos permite distinguir melhor quem são cabeças claras e quem são cabeças rotineiras.
César é o exemplo máximo que conhecemos de dom para encontrar o perfil da realidade substantiva num momento de confusão pavorosa, numa das horas mais caóticas que a humanidade viveu. E, para que o destino sublinhasse a exemplaridade, pôs ao seu lado uma magnífica cabeça de intelectual, a de Cícero, dedicada durante toda a existência a confundir as coisas.
O excesso de boa fortuna havia deslocado o corpo político romano. A cidade tiberina, dona da Itália, da Espanha, da África Menor, do Oriente clássico e helenístico, estava a ponto de arrebentar. Suas instituições públicas tinham uma substância municipal e eram inseparáveis da urbe, tal qual as hamadríades estão, sob pena de consumição, presas à árvore que tutelam.
A saúde das democracias, quaisquer que sejam seu tipo e seu grau, depende de um mísero detalhe técnico: o procedimento eleitoral; todo o resto é secundário. Se o regime dos comícios é acertado, se se ajusta à realidade, tudo vai bem; se falha, ainda que o restante marche otimamente, tudo vai mal. Roma, ao começar o século I antes de Cristo, é onipotente, rica, sem inimigos diante de si. Contudo, está a ponto de fenecer porque se obstina em conservar um regime eleitoral estúpido. Um regime eleitoral é estúpido quando é falso. Era preciso votar na cidade. Os cidadãos do campo já não podiam assistir aos comícios. Muito menos os que viviam repartidos por todo o mundo romano. Tornadas impossíveis as eleições, foi necessário falsificá-las, e os candidatos organizavam bandos de porrete, com veteranos do exército, com atletas do circo, encarregados de quebrar as urnas.
Sem o apoio de sufrágio autêntico, as instituições democráticas ficam no ar. No ar ficam as palavras: "A República não passava de uma palavra." A expressão é de César. Nenhuma magistratura gozava de autoridade. Os generais da esquerda e da direita, Mário e Sila, se insolentavam em ditaduras vazias que nada produziam.
César jamais explicou sua política; ocupou-se de fazê-la. Dava-se a casualidade de que era precisamente César, e não o manual de cesarismo que costuma vir depois. Se queremos entender aquela política, temos de tomar seus atos e dar-lhes seu nome. O segredo está em sua façanha capital: a conquista das Gálias. Para empreendê-la, teve de declarar-se rebelde diante do poder constituído. Por quê?
Constituíam o poder os republicanos, isto é, os conservadores, os fiéis ao Estado-cidade. Sua política pode resumir-se em duas cláusulas. Primeira: os transtornos da vida pública romana provêm de sua expansão excessiva. A cidade não pode governar tantas nações. Toda nova conquista é delito de lesa-república. Segunda: para evitar a dissolução das instituições, é preciso um príncipe.
Para nós, a palavra "príncipe" tem um sentido quase oposto ao que tinha para um romano. Este entendia por tal precisamente um cidadão como os demais, investido de poderes superiores a fim de regular o funcionamento das instituições republicanas. Cícero, em seus livros Sobre a República, e Salústio, em seus memoriais a César, resumem o pensamento de todos os publicistas ao pedir um princeps civitatis, um rector rerum publicarum, um moderator.
A solução de César é totalmente oposta à conservadora. Compreende que, para curar as consequências das conquistas romanas anteriores, era forçoso prossegui-las, aceitando até o fim destino tão enérgico. Sobretudo urgia conquistar os povos novos, mais perigosos, num futuro próximo, que as nações corruptas do Oriente. César sustentará a necessidade de romanizar a fundo os povos bárbaros do Ocidente.
Disse-se, com Spengler, que os greco-romanos eram incapazes de sentir o tempo, de ver sua vida como uma dilatação na temporalidade. Existiam num presente pontual. Suspeito que esse diagnóstico seja errôneo, ou ao menos que confunda duas coisas. O greco-romano padece de uma surpreendente cegueira para o futuro. Não o vê, tal qual o daltônico não vê a cor vermelha. Em contrapartida, vive radicado no pretérito. Antes de fazer agora alguma coisa, dá um passo atrás, tal qual Lagartijo ao entrar para matar; busca no passado um modelo para a situação presente e, informado por ele, mergulha na atualidade protegido e deformado pela escafandra ilustre. Daí que todo o seu viver seja, em certo modo, reviver. Isto é ser arcaizante, e isto foi, quase sempre, o antigo. Isso difere de ser insensível ao tempo. Significa, simplesmente, um cronismo incompleto, manco da asa futurista e com hipertrofia de antanhos. Nós, europeus, gravitamos desde sempre para o futuro e sentimos que é esta a dimensão mais substancial do tempo, que para nós começa pelo "depois", não pelo "antes". Compreende-se, pois, que ao olhar a vida greco-romana ela nos pareça acrônica.
Essa espécie de mania de tomar todo presente com as pinças de um exemplar pretérito transferiu-se do homem antigo ao filólogo moderno. O filólogo também é cego para o porvir. Também ele retrograda, busca para toda atualidade um precedente, ao qual chama, com lindo vocábulo de écloga, sua "fonte". Digo isto porque já os antigos biógrafos de César se fecham à compreensão dessa enorme figura ao supor que tratava de imitar Alexandre. A equação se impunha: se Alexandre não podia dormir pensando nos louros de Milcíades, César tinha, por força, de sofrer insônia pelos de Alexandre. E assim sucessivamente. Sempre o passo atrás e o pé de hoje na pegada de antanho. O filólogo contemporâneo repete o biógrafo clássico.
Crer que César aspirava a fazer algo parecido com o que fez Alexandre, e isto acreditaram quase todos os historiadores, é renunciar radicalmente a entendê-lo. César é aproximadamente o contrário de Alexandre. A ideia de um reino universal é a única coisa que os emparelha. Porém essa ideia vem da Pérsia, e não de Alexandre. A imagem de Alexandre teria empurrado César para o Oriente, para o prestigioso passado. Sua preferência radical pelo Ocidente revela antes a vontade de contradizer o macedônio. Além disso, o que César se propõe vai além de um reino universal sem mais. Seu propósito é mais profundo. Quer um Império romano que viva da periferia, das províncias, e isto implica a superação absoluta do Estado-cidade. Um Estado onde os povos mais diversos colaborem, onde todos se sintam solidários. Sem um centro que manda e uma periferia que obedece: um gigantesco corpo social, onde cada elemento seja ao mesmo tempo sujeito passivo e ativo do Estado. Tal é o Estado moderno, e esta foi a fabulosa antecipação de seu gênio futurista. Porém isso supunha um poder extrarromano, antiaristocrata, infinitamente elevado sobre a oligarquia republicana, sobre seu príncipe, que era apenas um primus inter pares. Esse poder executor e representante da democracia universal só podia ser a monarquia com sede fora de Roma.
República, monarquia! Duas palavras que na história mudam constantemente de sentido autêntico, e que por isso é preciso triturar a cada instante para certificar-se de sua eventual substância.
Seus homens de confiança, seus instrumentos mais imediatos, estavam longe de ser arcaicas ilustrações da urbe. Eram gente nova, provincianos, personagens enérgicos e eficientes. Seu verdadeiro ministro foi Cornélio Balbo, um homem de negócios gaditano, um atlântico, um "colonial".
Porém a antecipação do novo Estado era excessiva: as cabeças lentas do Lácio não podiam dar salto tão grande. A imagem da cidade, com seu materialismo tangível, impediu que os romanos "vissem" aquela organização novíssima do corpo público. Como poderiam formar um Estado homens que não viviam numa cidade? Que gênero de unidade era essa, tão sutil e quase mística?
Repito uma vez mais: a realidade que chamamos Estado começa para além da convivência espontânea de homens unidos pela consanguinidade. O Estado começa quando se obriga a conviverem grupos nativamente separados. Essa obrigação vai além da violência nua; supõe um projeto iniciador, uma tarefa comum proposta aos grupos dispersos. Antes de tudo, o Estado é projeto de um fazer e programa de colaboração. Chama-se a gente para que faça algo em conjunto. O Estado se distingue da consanguinidade, da unidade linguística, da unidade territorial, da contiguidade de habitação. Nada tem de material, inerte, dado e limitado. É puro dinamismo, a vontade de fazer algo em comum, e graças a isso a ideia estatal fica sem limite físico algum.
Agudíssima a conhecida empresa política de Saavedra Fajardo: uma flecha, e embaixo: "Ou sobe ou desce." Isso é o Estado. O Estado, antes de coisa, é movimento. Em todo instante, ele é algo que vem de algo e vai para algo. Como todo movimento, tem um terminus a quo e um terminus ad quem. Tomada em qualquer hora a vida de um Estado que o seja verdadeiramente, achar-se-á uma unidade de convivência que parece fundada neste ou naquele atributo material: sangue, idioma, "fronteiras naturais". A interpretação estática nos levará a dizer: isso é o Estado. Porém logo advertimos que esse agrupamento humano está fazendo algo comunal: conquistando outros povos, fundando colônias, federando-se com outros Estados; isto é, a toda hora está superando aquilo que parecia princípio material de sua unidade. É o terminus ad quem, é o verdadeiro Estado, cuja unidade consiste precisamente em superar toda unidade dada. Quando esse impulso rumo ao mais além cessa, o Estado automaticamente sucumbe, e a unidade que já existia e parecia fisicamente cimentada, raça, idioma, fronteira natural, de nada serve: o Estado se desagrega, se dispersa, atomiza-se.
Só essa duplicidade de momentos no Estado, a unidade que já é e a mais ampla que projeta ser, permite compreender a essência do Estado nacional. Sabe-se que ainda está por dizer em que consiste uma nação, se damos a esse vocábulo sua acepção moderna. O Estado-cidade era uma ideia muito clara, que se via com os olhos da cara. Porém o novo tipo de unidade pública que germinava em gauleses e germanos, a inspiração política do Ocidente, é coisa muito mais vaga e esquiva. O filólogo, o historiador atual, que é por si arcaizante, encontra-se diante desse fato formidável quase tão perplexo quanto César e Tácito quando, com sua terminologia romana, queriam dizer o que eram aqueles Estados incipientes, transalpinos e ultrarrenanos, ou então os espanhóis. Chamam-nos civitas, gens, natio, dando-se conta de que nenhum desses nomes convém à coisa. Civitas, por certo, não são, pela simples razão de que não são cidadãos. Tampouco cabe tornar vago o termo e aludir com ele a um território delimitado. Os povos novos mudam com suma facilidade de terrunho, ou ao menos ampliam e reduzem o que ocupavam. Tampouco são unidades étnicas, gentes, nationes. Por mais longe que recorramos, os novos Estados aparecem já formados por grupos de natividade independente. São combinações de sangues distintos. Que é, pois, uma nação, já que não é comunidade de sangue, nem adscrição a um território, nem coisa alguma dessa ordem?
Também neste caso, conforme sempre acontece, uma submissão escrupulosa aos fatos nos dá a chave. Que é o que salta aos olhos quando repassamos a evolução de qualquer "nação moderna": França, Espanha, Alemanha? Simplesmente isto: aquilo que em certa data parecia constituir a nacionalidade aparece negado numa data posterior. Primeiro, a nação parece a tribo, e a não-nação, a tribo vizinha. Depois, a nação se compõe de duas tribos; mais tarde é uma comarca, e pouco depois já é todo um condado, ducado ou "reino". A nação é Leão, porém não Castela; depois é Leão e Castela, porém não Aragão. É evidente a presença de dois princípios: um, variável e sempre superado, tribo, comarca, ducado, "reino", com seu idioma ou dialeto; outro, permanente, que salta liberrimamente sobre todos esses limites e postula como unidade aquilo que aquele considerava precisamente como contraposição radical.
Os filólogos, chamo assim os que hoje pretendem denominar-se "historiadores", praticam a mais deliciosa gedeonada quando partem daquilo que agora, nesta data fugaz, nestes dois ou três séculos, são as nações do Ocidente, e supõem que Vercingetórix ou que o Cid Campeador queriam já uma França de Saint-Malo a Estrasburgo, precisamente, ou uma Espanha de Finisterra a Gibraltar. Esses filólogos, iguais ao dramaturgo ingênuo, quase sempre fazem seus heróis partir para a guerra dos Trinta Anos. Para explicar-nos a formação de França e Espanha, supõem que França e Espanha preexistiam como unidades no fundo das almas francesas e espanholas. Imaginam franceses e espanhóis originários antes que França e Espanha existissem. Imaginam o francês e o espanhol como algo diferente de coisas que foi preciso forjar em dois mil anos de faina.
A verdade pura é que as nações atuais são apenas a manifestação atual daquele princípio variável, condenado a perpétua superação. Esse princípio agora já não é o sangue nem o idioma, posto que a comunidade de sangue e de idioma na França ou na Espanha foi efeito, e não causa, da unificação estatal; esse princípio agora é a "fronteira natural".
Está bem que um diplomata empregue, em sua esgrima astuta, esse conceito de fronteiras naturais como ultima ratio de suas argumentações. Porém um historiador não pode entrincheirar-se atrás dele como atrás de um reduto definitivo. Nem é definitivo, nem sequer suficientemente específico.
Não se esqueça qual é, rigorosamente posta, a questão. Trata-se de averiguar que é o Estado nacional, aquilo que hoje costumamos chamar nação, em diferença de outros tipos de Estado, como o Estado-cidade ou, indo ao outro extremo, como o Império que Augusto fundou. Se se quer formular o tema de modo ainda mais claro e preciso, diga-se assim: que força real produziu essa convivência de milhões de homens sob uma soberania de poder público que chamamos França, Inglaterra, Espanha, Itália ou Alemanha? A causa foi outra que não a prévia comunidade de sangue, porque cada um desses corpos coletivos está regado por torrentes cruentos muito heterogêneos. Tampouco foi a unidade linguística, porque os povos hoje reunidos em um Estado falavam, ou ainda falam, idiomas distintos. A relativa homogeneidade de raça e língua de que hoje gozam, supondo que isso seja um gozo, é resultado da prévia unificação política. Portanto, nem o sangue nem o idioma fazem o Estado nacional; antes, é o Estado nacional que nivela as diferenças originárias do glóbulo vermelho e de sua articulação. E sempre aconteceu assim. Poucas vezes, para não dizer nunca, o Estado terá coincidido com uma identidade prévia de sangue ou idioma. A Espanha hoje é Estado nacional por razão diversa do espanhol falado em toda ela; Aragão e Catalunha tampouco foram Estados nacionais porque, em certo dia arbitrariamente escolhido, os limites territoriais de sua soberania coincidissem com os da fala aragonesa ou catalã. Estaríamos mais perto da verdade se, respeitando a casuística que toda realidade oferece, nos inclinássemos a esta presunção: toda unidade linguística que abarca um território de alguma extensão é, quase seguramente, precipitado de alguma unificação política precedente. O Estado foi sempre o grande trujamão.
Há muito tempo isto consta, e resulta muito estranha a obstinação com que, apesar disso, se persiste em dar à nacionalidade, como fundamentos, o sangue e o idioma. Nisso vejo tanta ingratidão quanto incongruência. Porque o francês deve sua França atual, e o espanhol sua Espanha atual, a um princípio X, cujo impulso consistiu precisamente em superar a estreita comunidade de sangue e de idioma. De sorte que França e Espanha consistiriam hoje no contrário do que as tornou possíveis.
Tergiversação parelha se comete ao querer fundar a ideia de nação em uma grande figura territorial, descobrindo, no misticismo geográfico das "fronteiras naturais", o princípio de unidade que sangue e idioma não proporcionam. Tropeçamos aqui com o mesmo erro de ótica. O acaso da data atual nos mostra as chamadas nações instaladas em amplos terrunhos de continente ou nas ilhas adjacentes. Desses limites atuais se quer fazer algo definitivo e espiritual. São, diz-se, "fronteiras naturais", e com sua "naturalidade" se significa uma espécie de mágica predeterminação da história pela forma telúrica. Porém esse mito se volatiliza em seguida quando o submetemos ao mesmo raciocínio que invalidou a comunidade de sangue e de idioma como fontes da nação. Também aqui, se retrocedemos alguns séculos, surpreendemos França e Espanha dissociadas em nações menores, com suas inevitáveis "fronteiras naturais". A montanha fronteiriça seria menos elevada que os Pireneus ou os Alpes, e a barreira líquida, menos caudalosa que o Reno, o passo de Calais ou o estreito de Gibraltar. Porém isso demonstra apenas que a "naturalidade" das fronteiras é meramente relativa. Depende dos meios econômicos e bélicos da época.
A realidade histórica da famosa "fronteira natural" consiste, simplesmente, em ser um obstáculo à expansão do povo A sobre o povo B. Porque é obstáculo, de convivência ou de guerra, para A, é defesa para B. A ideia de "fronteira natural" implica, pois, ingenuamente, como mais natural ainda que a fronteira, a possibilidade de expansão e fusão ilimitadas entre os povos. Pelo visto, apenas um obstáculo material lhes põe freio. As fronteiras de ontem e de anteontem hoje nos parecem fundamentos da nação francesa ou espanhola às avessas: obstáculos que a ideia nacional encontrou em seu processo de unificação. Apesar disso, queremos atribuir caráter definitivo e fundamental às fronteiras de hoje, embora os novos meios de tráfego e guerra tenham anulado sua eficácia como obstáculos.
Qual foi então o papel das fronteiras na formação das nacionalidades, já que elas não foram seu fundamento positivo? A coisa é clara e de suma importância para entender a autêntica inspiração do Estado nacional frente ao Estado-cidade. As fronteiras serviram para consolidar, em cada momento, a unificação política já alcançada. Portanto, não foram princípio da nação; ao contrário, no começo foram obstáculo e, depois, uma vez aplainadas, foram meio material para assegurar a unidade.
Pois bem: exatamente o mesmo papel corresponde à raça e à língua. A comunidade nativa de uma ou outra não constituiu a nação; ao contrário, o Estado nacional se encontrou sempre, em seu afã de unificação, diante das muitas raças e das muitas línguas, como diante de outros tantos obstáculos. Dominados estes energicamente, produziu uma relativa unificação de sangue e idiomas que serviu para consolidar a unidade.
Não há, pois, outro caminho senão desfazer a tergiversação tradicional padecida pela ideia de Estado nacional e habituar-se a considerar como obstáculos primários para a nacionalidade precisamente as três coisas em que se acreditava consistir. Claro está que, ao desfazer uma tergiversação, serei eu quem agora parecerá cometê-la.
É preciso resolver-se a buscar o segredo do Estado nacional em sua peculiar inspiração como tal Estado, em sua política mesma, e não em princípios forasteiros de caráter biológico ou geográfico.
Por que, em definitivo, se acreditou necessário recorrer a raça, língua e território nativos para compreender o fato maravilhoso das nações modernas? Pura e simplesmente porque nelas achamos uma intimidade e solidariedade radical dos indivíduos com o poder público, desconhecidas no Estado antigo. Em Atenas e em Roma, só uns quantos homens eram o Estado; os demais, escravos, aliados provinciais, colonos, eram apenas súditos. Na Inglaterra, na França, na Espanha, ninguém foi jamais apenas súdito do Estado; foi sempre participante dele, um com ele. A forma, sobretudo jurídica, dessa união com e no Estado foi muito distinta segundo os tempos. Houve grandes diferenças de categoria e estatuto pessoal, classes relativamente privilegiadas e classes relativamente postergadas; porém, se se interpreta a realidade efetiva da situação política em cada época e se revive seu espírito, aparece evidente que todo indivíduo se sentia sujeito ativo do Estado, partícipe e colaborador. Nação, no sentido que esse vocábulo emite no Ocidente há mais de um século, significa a "união hipostática" do poder público e da coletividade por ele regida.
O Estado é sempre, qualquer que seja sua forma, primitiva, antiga, medieval ou moderna, o convite que um grupo de homens faz a outros grupos humanos para executar juntos uma empresa. Essa empresa, quaisquer que sejam seus trâmites intermediários, consiste no fim em organizar certo tipo de vida comum. Estado e projeto de vida, programa de quefazer ou conduta humanos, são termos inseparáveis. As diferentes classes de Estado nascem das maneiras segundo as quais o grupo empresário estabeleça a colaboração com os outros. Assim, o Estado antigo nunca acerta fundir-se com os outros. Roma manda e educa os italiotas e as províncias; porém não os eleva a união consigo. Na própria urbe, não logrou a fusão política dos cidadãos. Não se esqueça que, durante a República, Roma foi, em rigor, duas Romas: o Senado e o povo. A unificação estatal nunca passou de mera articulação entre os grupos que permaneceram externos e estranhos uns aos outros. Por isso o Império ameaçado não pôde contar com o patriotismo dos outros e teve de defender-se exclusivamente com seus meios burocráticos de administração e de guerra.
Essa incapacidade de todo grupo grego e romano para fundir-se com outros provém de causas profundas que não convém investigar agora e que, em definitivo, se resumem em uma: o homem antigo interpretou a colaboração em que, queira-se ou não, o Estado consiste de uma maneira simples, elementar e tosca, a saber, como dualidade de dominantes e dominados. A Roma tocava mandar e não obedecer; aos demais, obedecer e não mandar. Dessa sorte, o Estado se materializa no pomoerium, no corpo urbano que alguns muros delimitam fisicamente.
Os povos novos, porém, trazem uma interpretação menos material do Estado. Se ele é projeto de empresa comum, sua realidade é puramente dinâmica: um fazer, a comunidade na atuação. Segundo isso, faz parte ativa do Estado, é sujeito político, todo aquele que preste adesão à empresa; raça, sangue, adscrição geográfica, classe social, ficam em segundo termo. O título para a convivência política vem da comunidade futura no fazer efetivo, e não da comunidade anterior, pretérita, tradicional ou imemorial, em suma, fatal e irreformável. O que nos reúne em Estado é o que vamos fazer amanhã juntos, não aquilo que fomos ontem. Daí a facilidade com que a unidade política salta no Ocidente sobre todos os limites que aprisionaram o Estado antigo. É que o europeu, relativamente ao homo antiquus, comporta-se como um homem aberto ao futuro, que vive conscientemente instalado nele e desde ele decide sua conduta presente.
Tal tendência política avançará inexoravelmente rumo a unificações cada vez mais amplas, sem que haja nada que, em princípio, a detenha. A capacidade de fusão é ilimitada. Não apenas de um povo com outro, e também aquilo que é ainda mais característico do Estado nacional: a fusão de todas as classes sociais dentro de cada corpo político. Conforme a nação cresce territorial e etnicamente, vai fazendo-se mais una a colaboração interior. O Estado nacional é, em sua própria raiz, democrático, em sentido mais decisivo que todas as diferenças nas formas de governo.
É curioso notar que, ao definir a nação fundando-a numa comunidade de pretérito, acaba-se sempre por aceitar como melhor a fórmula de Renan, simplesmente porque nela se acrescenta ao sangue, ao idioma e às tradições comuns um atributo novo, e se diz que é um "plebiscito cotidiano". Mas entende-se bem o que essa expressão significa? Não podemos dar-lhe agora um conteúdo de sinal oposto ao que Renan lhe insuflava, e que é, contudo, muito mais verdadeiro?
"Ter glórias comuns no passado, uma vontade comum no presente; ter feito juntos grandes coisas, querer fazer outras mais: eis as condições essenciais para ser um povo... No passado, uma herança de glórias e remorsos; no porvir, um mesmo programa a realizar... A existência de uma nação é um plebiscito cotidiano."
Tal é a conhecidíssima sentença de Renan. A que se deve sua fortuna excepcional? Sem dúvida, pela graça da cauda final. Essa ideia de que a nação consiste em um plebiscito cotidiano opera sobre nós como uma libertação. Sangue, língua e passado comuns são princípios estáticos, fatais, rígidos, inertes: são prisões. Se a nação consistisse nisso e em nada mais, seria uma coisa situada às nossas costas, com a qual nada teríamos a fazer. A nação seria algo que se é, porém não algo que se faz. Nem sequer teria sentido defendê-la quando alguém a ataca.
Queiramos ou não, a vida humana é ocupação constante com algo futuro. Desde o instante atual, ocupamo-nos daquele que sobrevém. Por isso viver é sempre, sempre, sem pausa nem descanso, fazer. Por que não se reparou que fazer, todo fazer, significa realizar um futuro? Inclusive quando nos entregamos a recordar. Fazemos memória neste segundo para lograr algo no imediato, ainda que seja apenas o prazer de reviver o passado. Esse modesto prazer solitário apresentou-se a nós há um momento como um futuro desejável; por isso o fazemos. Conste, pois: nada tem sentido para o homem senão em função do porvir.
Se a nação consistisse apenas em passado e presente, ninguém se ocuparia de defendê-la contra um ataque. Os que afirmam o contrário são hipócritas ou mentecaptos. Sucede, porém, que o passado nacional projeta alicientes, reais ou imaginários, no futuro. Parece-nos desejável um porvir no qual nossa nação continue existindo. Por isso nos mobilizamos em sua defesa; não pelo sangue, nem pelo idioma, nem pelo passado comum. Ao defender a nação, defendemos nosso amanhã, não nosso ontem.
Isto é o que reverteria na frase de Renan: a nação como excelente programa para amanhã. O plebiscito decide um futuro. Que neste caso o futuro consista numa perduração do passado não modifica minimamente a questão; revela apenas que também a definição de Renan é arcaizante.
Portanto, o Estado nacional representaria um princípio estatal mais próximo da pura ideia de Estado que a antiga polis ou que a "tribo" dos árabes, circunscrita pelo sangue. De fato, a ideia nacional conserva não pouco lastro de adscrição ao passado, ao território, à raça; precisamente por isso é surpreendente notar como nela triunfa sempre o puro princípio de unificação humana em torno de um programa de vida incitante. Mais ainda: eu diria que esse lastro de pretérito e essa relativa limitação dentro de princípios materiais não foram nem são por completo espontâneos nas almas do Ocidente; procedem da interpretação erudita dada pelo romantismo à ideia de nação. Se houvesse existido na Idade Média esse conceito oitocentista de nacionalidade, Inglaterra, França, Espanha, Alemanha teriam ficado natimortas. Porque essa interpretação confunde o que impulsiona e constitui uma nação com aquilo que meramente a consolida e conserva. Diga-se de uma vez: não foi o patriotismo que fez as nações. Crer o contrário é a gedeonada a que já aludi e que o próprio Renan admite em sua famosa definição. Se, para que uma nação exista, é preciso que um grupo de homens conte com um passado comum, pergunto-me que nome daremos a esse mesmo grupo de homens enquanto vivia no presente aquilo que, visto de hoje, é passado. Pelo visto, era forçoso que essa existência comum fenecesse, passasse, para que pudessem dizer: somos uma nação. Não se adverte aqui o vício gremial do filólogo, do arquivista, sua ótica profissional que o impede de ver a realidade quando ela pertence ao presente? Para ser filólogo, o filólogo necessita que antes de tudo exista um passado; a nação, antes de possuir um passado comum, teve de criar essa comunidade e, antes de criá-la, teve de sonhá-la, querê-la, projetá-la. Basta que tenha o projeto de si mesma para que a nação exista, embora não o logre, embora fracasse a execução, como sucedeu tantas vezes. Falaríamos, nesse caso, de uma nação malograda, por exemplo, a Borgonha.
Com os povos da América Central e da América do Sul, a Espanha tem passado comum, raça comum, linguagem comum e, contudo, não forma com eles uma nação. Por quê? Falta apenas uma coisa que, pelo visto, é a essencial: o futuro comum. A Espanha não soube inventar um programa de porvir coletivo que atraísse esses grupos zoologicamente afins. O plebiscito futurista foi adverso à Espanha, e de nada valeram então os arquivos, as memórias, os antepassados, a "pátria". Quando há aquilo, tudo isto serve como força de consolidação; nada mais.
Vejo, pois, no Estado nacional uma estrutura histórica de caráter plebiscitário. Tudo o que além disso pareça ser tem valor transitório e mutável; representa o conteúdo, a forma ou a consolidação que em cada momento o plebiscito requer. Renan encontrou a palavra mágica, que irrompe em luz. Ela nos permite vislumbrar, como numa imagem catódica, a trama essencial de uma nação, que se compõe destes dois ingredientes: primeiro, um projeto de convivência total em uma empresa comum; segundo, a adesão dos homens a esse projeto incitativo. Essa adesão de todos engendra a solidez interna que distingue o Estado nacional de todos os antigos, nos quais a união se produz e se mantém por pressão externa do Estado sobre os grupos díspares, ao passo que aqui o vigor estatal nasce da coesão espontânea e profunda entre os "súditos". Na realidade, os súditos já são o Estado e não podem senti-lo, isto é o novo, o maravilhoso da nacionalidade, como algo estranho a eles.
E, entretanto, Renan anula, ou quase isso, seu acerto, dando ao plebiscito um conteúdo retrospectivo que se refere a uma nação já feita, cuja perpetuação decide. Eu preferiria mudar-lhe o sinal e fazê-lo valer para a nação in statu nascendi. Esta é a ótica decisiva. Porque, em verdade, uma nação nunca está feita. Nisto se diferencia de outros tipos de Estado. A nação está sempre fazendo-se ou desfazendo-se. Tertium non datur. Ou está ganhando adesões, ou as está perdendo, segundo seu Estado represente ou não, na data presente, uma empresa vivaz.
Por isso, o mais instrutivo seria reconstruir a série de empresas unificadoras que sucessivamente inflamaram os grupos humanos do Ocidente. Então se veria de que modo delas viveram os europeus, tanto no público quanto em sua existência mais privada; de que modo se "treinaram" ou se desmoralizaram, conforme houvesse ou faltasse uma empresa à vista.
Outra coisa esse estudo mostraria claramente: as empresas estatais dos antigos, justamente porque não implicavam a adesão dos grupos humanos sobre os quais se tentavam, e porque o Estado propriamente tal ficava sempre inscrito em uma limitação fatal, tribo ou urbe, eram praticamente ilimitadas. Um povo, o persa, o macedônio ou o romano, podia submeter à unidade de soberania quaisquer porções do planeta. Por carecer de autenticidade interna e definitiva, a unidade ficava sujeita apenas à eficácia bélica e administrativa do conquistador. No Ocidente, contudo, a unificação nacional teve de seguir uma série inexorável de etapas. Deveria causar-nos mais espanto o fato de que na Europa nenhum império tenha sido possível no tamanho alcançado pelo persa, pelo de Alexandre ou pelo de Augusto.
O processo criador de nações levou sempre na Europa este ritmo. Primeiro momento. O peculiar instinto ocidental, que faz sentir o Estado como fusão de vários povos em uma unidade de convivência política e moral, começa a atuar sobre os grupos mais próximos geográfica, étnica e linguisticamente. A razão é que a diversidade entre próximos é mais fácil de dominar, e não que essa proximidade funde a nação. Segundo momento. Período de consolidação, no qual se sente os outros povos, para além do novo Estado, como estranhos e mais ou menos inimigos. É o período em que o processo nacional toma aspecto de exclusivismo, de fechar-se para dentro do Estado; em suma, aquilo que hoje chamamos nacionalismo. O fato, porém, é que, enquanto se sente politicamente os outros como estranhos e adversários, convive-se econômica, intelectual e moralmente com eles. As guerras nacionalistas servem para nivelar as diferenças de técnica e de espírito. Os inimigos habituais vão se tornando historicamente homogêneos. Pouco a pouco se destaca no horizonte a consciência de que esses povos inimigos pertencem ao mesmo círculo humano que o nosso Estado. Contudo, continuam sendo considerados estranhos e hostis. Terceiro momento. O Estado goza de plena consolidação. Então surge a nova empresa: unir-se aos povos que até ontem eram seus inimigos. Cresce a convicção de que são afins com o nosso em moral e interesses, e de que juntos formamos um círculo nacional frente a outros grupos mais distantes e ainda mais estrangeiros. Eis madura a nova ideia nacional.
Um exemplo esclarecerá o que tento dizer. Costuma-se afirmar que no tempo do Cid já era Espanha, Spania, uma ideia nacional, e para superfetar a tese acrescenta-se que séculos antes São Isidoro já falava da "mãe Espanha". A meu juízo, isto é um erro crasso de perspectiva histórica. No tempo do Cid, estava começando a urdir-se o Estado Leão-Castela, e essa unidade leoneso-castelhana era a ideia nacional do tempo, a ideia politicamente eficaz. Spania, em contrapartida, era uma ideia principalmente erudita; em todo caso, uma de tantas ideias fecundas que o Império romano deixou semeadas no Ocidente. Os "espanhóis" haviam se acostumado a ser reunidos por Roma em uma unidade administrativa, em uma diocese do Baixo Império. Porém essa noção geográfico-administrativa era pura recepção, não inspiração íntima e de modo algum aspiração.
Por muita realidade que se queira dar a essa ideia no século XI, reconhecer-se-á que ela nem chega ao vigor e à precisão que a ideia da Hélade já tinha para os gregos do século IV. E, entretanto, a Hélade nunca foi verdadeira ideia nacional. A correspondência histórica efetiva seria antes esta: Hélade foi para os gregos do século IV, e Spania para os "espanhóis" do XI e ainda do XIV, aquilo que Europa foi para os "europeus" no século XIX.
Isto mostra de que modo as empresas de unidade nacional vão chegando a sua hora, tal qual os sons em uma melodia. A mera afinidade de ontem terá de esperar até amanhã para entrar em erupção de inspirações nacionais. Porém, em contrapartida, é quase seguro que sua hora chegará.
Agora chega para os europeus a sazão em que Europa pode converter-se em ideia nacional. E é muito menos utópico crê-lo hoje assim do que teria sido vaticinar, no século XI, a unidade da Espanha e da França. O Estado nacional do Ocidente, quanto mais fiel permanecer à sua substância autêntica, mais direito terá de depurar-se em um gigantesco Estado continental.
Mal as nações do Ocidente percebem seu perfil atual, surge em torno delas e sob elas, como fundo, a Europa. É esta a unidade de paisagem em que vão mover-se desde o Renascimento, e essa paisagem europeia são elas mesmas, que sem adverti-lo começam já a abstrair-se de sua pluralidade belicosa. França, Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha pelejam entre si, formam ligas contrapostas, desfazem-nas, recompõem-nas. Contudo, tudo isso, guerra ou paz, é conviver de igual para igual, aquilo que Roma nunca pôde fazer, nem em paz nem em guerra, com o celtibero, o gaulês, o britânico e o germano. A história destacou em primeiro termo as querelas e, em geral, a política, que é o terreno mais tardio para a espiga da unidade; porém, enquanto se batalhava em um campo, em cem se comerciava com o inimigo, trocavam-se ideias, formas de arte e artigos da fé. Dir-se-ia que aquele fragor de batalhas foi apenas um telão atrás do qual trabalhava, tanto mais tenazmente, a pacífica polipeira da paz, compondo a vida das nações hostis. Em cada nova geração, aumentava a homogeneidade das almas. Se se quer maior exatidão e mais cautela, diga-se deste modo: as almas francesas, inglesas e espanholas eram, são e serão tão diferentes quanto se queira, porém possuem um mesmo plano ou arquitetura psicológica e, sobretudo, vão adquirindo um conteúdo comum. Religião, ciência, direitos, arte, valores sociais e eróticos vão sendo comuns. Ora, essas são as coisas espirituais de que se vive. A homogeneidade resulta, pois, maior do que seria se as próprias almas fossem de calibre idêntico.
Se hoje fizéssemos balanço de nosso conteúdo mental, opiniões, normas, desejos, presunções, notaríamos que a maior parte de tudo isso provém menos da França do francês ou da Espanha do espanhol que do fundo comum europeu. Hoje, com efeito, pesa muito mais em cada um de nós aquilo que tem de europeu que sua porção diferencial de francês, espanhol etc. Se se fizesse o experimento imaginário de reduzir-se a viver puramente com o que somos como "nacionais", e em obra de mera fantasia se extirpasse do homem médio francês tudo o que usa, pensa e sente por recepção dos outros países continentais, ele sentiria terror. Veria que não lhe seria possível viver apenas disso; que quatro quintos de seu patrimônio íntimo são bens comuns europeus.
Não se vislumbra que outra coisa de importância possamos fazer, nós que existimos neste lado do planeta, além de realizar a promessa que há quatro séculos significa o nome Europa. Só se opõe a isso o preconceito das velhas "nações", a ideia de nação como passado. Agora se verá se os europeus são também filhos da mulher de Ló e se obstinam em fazer história com a cabeça voltada para trás. A alusão a Roma, e em geral ao homem antigo, serviu-nos de advertência: é muito difícil que certo tipo de homem abandone a ideia de Estado que uma vez lhe entrou na cabeça. Por fortuna, a ideia do Estado nacional que o europeu, dando-se conta disso ou não, trouxe ao mundo, difere da ideia erudita, filológica, que lhe foi pregada.
Resumo agora a tese deste ensaio. O mundo sofre hoje uma grave desmoralização, que entre outros sintomas se manifesta por uma desaforada rebelião das massas, e tem sua origem na desmoralização da Europa. As causas desta última são muitas. Uma das principais é o deslocamento do poder que nosso continente antes exercia sobre o resto do mundo e sobre si mesmo. A Europa não está segura de mandar, nem o resto do mundo, de ser mandado. A soberania histórica encontra-se em dispersão.
Já não há "plenitude dos tempos", porque isso supõe um porvir claro, prefixado, inequívoco, como era o do século XIX. Então se acreditava saber o que aconteceria amanhã. Agora, porém, abre-se outra vez o horizonte para novas linhas incógnitas, pois não se sabe quem vai mandar, de que modo o poder vai articular-se sobre a terra. Quem, isto é, que povo ou grupo de povos; portanto, que tipo étnico; portanto, que ideologia, que sistema de preferências, de normas, de molas vitais...
Não se sabe para que centro de gravitação vão pender, em um próximo porvir, as coisas humanas, e por isso a vida do mundo se entrega a uma escandalosa condição provisória. Tudo, tudo o que hoje se faz no público e no privado, até no íntimo, sem outra exceção que algumas partes de algumas ciências, é provisório. Fará bem quem não confie no que hoje se apregoa, se ostenta, se ensaia e se elogia. Tudo isso irá embora com maior celeridade que veio. Tudo, desde a mania do esporte físico, a mania, não o esporte mesmo, até a violência em política; desde a "arte nova" até os banhos de sol nas ridículas praias da moda. Nada disso tem raízes, porque tudo é pura invenção, no mau sentido da palavra, que a faz equivaler a capricho ligeiro. Carece de criação nascida do fundo substancial da vida; carece de anseio e necessidade autênticos. Em suma: tudo isso é vitalmente falso. Só há verdade na existência quando sentimos seus atos como irrevogavelmente necessários. Não há hoje nenhum político que sinta a inevitabilidade de sua política, e quanto mais extremo é seu gesto, mais frívolo, menos exigido pelo destino. Só há vida com raízes próprias, vida autóctone, quando ela se compõe de cenas inevitáveis. O restante, aquilo que está em nossa mão tomar, deixar ou substituir, é precisamente falsificação da vida.
A vida atual é fruto de um interregno, de um vazio entre duas organizações do mando histórico: a que foi, a que vai ser. Por isso é essencialmente provisória. E nem os homens sabem bem a que instituições servir de verdade, nem as mulheres que tipo de homem preferem de verdade.
Os europeus não sabem viver se não vão lançados em uma grande empresa unificadora. Quando esta falta, envilecem-se, afrouxam, sua alma se desarticula. Um começo disso se oferece hoje a nossos olhos. Os círculos que até agora se chamaram nações chegaram há um século, ou pouco menos, à sua máxima expansão. Já não se pode fazer nada com eles senão transcendê-los. Já são apenas passado que se acumula em torno e sob o europeu, aprisionando-o, lastrando-o. Com mais liberdade vital que nunca, sentimos todos que o ar é irrespirável dentro de cada povo, porque é ar confinado. Cada nação que antes era a grande atmosfera aberta, arejada, tornou-se província e "interior". Na superação europeia que imaginamos, a pluralidade atual não pode nem deve desaparecer. Enquanto o Estado antigo aniquilava o diferencial dos povos ou o deixava inativo, fora, ou no máximo o conservava momificado, a ideia nacional, mais puramente dinâmica, exige a permanência ativa desse plural que foi sempre a vida do Ocidente.
Todo o mundo percebe a urgência de um novo princípio de vida. No entanto, conforme sempre acontece em crises parelhas, alguns ensaiam salvar o momento por uma intensificação extrema e artificial precisamente do princípio caduco. Este é o sentido da erupção "nacionalista" nos anos que correm. E sempre, repito, passou assim. A última chama, a mais longa. O derradeiro suspiro, o mais profundo. Na véspera de desaparecer, as fronteiras se hiperestesiam, as fronteiras militares e as econômicas.
Todos esses nacionalismos, porém, são becos sem saída. Tente-se projetá-los para o amanhã, e se sentirá o limite. Por aí não se sai a parte alguma. O nacionalismo é sempre um impulso de direção oposta ao princípio nacionalizador. É exclusivista, enquanto este é inclusivista. Em épocas de consolidação tem, apesar disso, um valor positivo e é uma alta norma. Na Europa, porém, tudo está consolidado de sobra, e o nacionalismo não passa de uma mania, o pretexto que se oferece para eludir o dever de invenção e de grandes empresas. A simplicidade dos meios com que opera e a categoria dos homens que exalta revelam sobradamente que ele é o contrário de uma criação histórica.
Só a decisão de construir uma grande nação com o grupo dos povos continentais voltaria a entoar a pulsação da Europa. Ela voltaria a crer em si mesma e, automaticamente, a exigir muito de si, a disciplinar-se.
Porém a situação é muito mais perigosa do que se costuma apreciar. Vão passando os anos e corre-se o risco de que o europeu se habitue a este tom menor de existência que agora leva; acostuma-se a não mandar nem mandar em si. Nesse caso, iriam volatilizando-se todas as suas virtudes e capacidades superiores.
À união da Europa se opõem, conforme sempre aconteceu no processo de nacionalização, as classes conservadoras. Isso pode trazer para elas a catástrofe, pois ao perigo genérico de que a Europa se desmoralize definitivamente e perca toda a sua energia histórica acrescenta-se outro, muito concreto e iminente. Quando o comunismo triunfou na Rússia, muitos acreditaram que todo o Ocidente ficaria inundado pela torrente vermelha. Não participei de semelhante prognóstico. Ao contrário, por aqueles anos escrevi que o comunismo russo era uma substância inassimilável para os europeus, casta que pôs todos os esforços e fervores de sua história na aposta da individualidade. O tempo correu, e hoje voltaram à tranquilidade os temerosos de outrora. Voltaram à tranquilidade justamente quando chega a ocasião de perdê-la. Porque agora sim pode derramar-se sobre a Europa o comunismo avassalador e vitorioso.
Minha presunção é a seguinte: agora, como antes, o conteúdo do credo comunista à russa não interessa, não atrai, não desenha um porvir desejável aos europeus. E não pelas razões triviais que seus apóstolos, teimosos, surdos e sem veracidade, como todos os apóstolos, costumam alegar. Os "burgueses" do Ocidente sabem muito bem que, mesmo sem comunismo, o homem que vive exclusivamente de suas rendas e as transmite aos filhos tem os dias contados. O que imuniza a Europa contra a fé russa está longe de ser tudo isso, e muito menos o temor. Hoje nos parecem bastante ridículos os pressupostos arbitrários em que, há vinte anos, Sorel fundava sua tática da violência. O burguês não é covarde, como ele cria, e na data presente está mais disposto à violência que os operários. Ninguém ignora que, se o bolchevismo triunfou na Rússia, foi porque na Rússia não havia burgueses. O fascismo, que é um movimento pequeno-burguês, revelou-se mais violento que todo o obreirismo junto. Nada disso, pois, impede o europeu de deixar-se embalar pelo comunismo; há uma razão muito mais simples e prévia. Esta: o europeu não vê na organização comunista um aumento da felicidade humana.
E, entretanto, repito, parece-me muito possível que nos próximos anos a Europa se entusiasme com o bolchevismo. Não por ele mesmo; apesar dele.
Imagine-se que o plano quinquenal levado adiante herculeamente pelo governo soviético alcançasse suas previsões e que a enorme economia russa ficasse além de restaurada, também exuberante. Qualquer que seja o conteúdo do bolchevismo, ele representa um ensaio gigante de empresa humana. Nele, os homens abraçaram resolutamente um destino de reforma e vivem tensos sob a alta disciplina que tal fé lhes injeta. Se a matéria cósmica, indócil aos entusiasmos do homem, não faz fracassar gravemente a tentativa, bastará que lhe deixe a via um pouco livre para que seu esplêndido caráter de magnífica empresa irradie sobre o horizonte continental como uma ardente e nova constelação. Se a Europa, entretanto, persiste no regime vegetativo e ignóbil destes anos, frouxos os nervos por falta de disciplina, sem projeto de vida nova, como poderia evitar o efeito contaminador daquela empresa tão eminente? É desconhecer o europeu esperar que possa ouvir sem inflamar-se esse chamado a uma nova ação quando ele não tem outra bandeira de altivez equivalente a desfraldar em frente. Desde que sirva a algo que dê sentido à vida e fuja do próprio vazio existencial, não é difícil que o europeu engula suas objeções ao comunismo e, ainda que não por sua substância, se sinta arrastado por seu gesto moral.
Vejo na construção da Europa, como grande Estado nacional, a única empresa que poderia contrapor-se à vitória do plano quinquenal.
Os técnicos da economia política asseguram que essa vitória tem escassíssimas possibilidades a seu favor. Seria, porém, vil demais que o anticomunismo esperasse tudo das dificuldades materiais encontradas por seu adversário. O fracasso deste equivaleria assim à derrota universal: de todos e de tudo, do homem atual. O comunismo é uma "moral" extravagante, algo parecido com uma moral. Não parece mais decente e fecundo contrapor a essa moral eslava uma nova moral do Ocidente, a incitação de um novo programa de vida?