Apêndice - Juventude
# Apêndice - Juventude
## Juventude
As variações históricas nunca procedem de causas externas ao organismo humano, ao menos dentro de um mesmo período zoológico. Se houve catástrofes telúricas, dilúvios, submersão de continentes, mudanças súbitas e extremas de clima, conforme nos mitos mais arcaicos parece recordar-se confusamente, o efeito por elas produzido transcendeu os limites do histórico e transtornou a espécie como tal. O mais provável é que o homem nunca tenha assistido a catástrofes semelhantes. A existência foi, ao que parece, sempre muito cotidiana. As mudanças mais violentas que nossa espécie conheceu, os períodos glaciais, não tiveram caráter de grande espetáculo. Basta que, durante algum tempo, a temperatura média do ano desça cinco ou seis graus para que a glaciação se produza. Em suma: os verões ficam um pouco mais frescos. A lentidão e a suavidade desse processo dão tempo para que o organismo reaja, e essa reação dentro do organismo à mudança física do ambiente é a verdadeira variação histórica. Convém abandonar a ideia de que o meio, mecanicamente, modele a vida; portanto, que a vida seja um processo de fora para dentro. As modificações externas atuam apenas como excitantes de modificações intraorgânicas; são, antes, perguntas às quais o ser vivo responde com ampla margem de originalidade imprevisível. Cada espécie, e mesmo cada variedade, e dentro dela cada indivíduo, preparará uma resposta mais ou menos diferente, nunca idêntica. Viver, em suma, é uma operação que se faz de dentro para fora, e por isso as causas ou princípios de suas variações devem ser buscados no interior do organismo.
Pensando assim, deveria parecer-me muito verossímil que, nos fenômenos históricos mais profundos e amplos, apareça, mais ou menos clara, a influência decisiva das diferenças biológicas mais elementares. A vida é masculina ou feminina, é jovem ou velha. De que modo poderíamos pensar que esses módulos tão elementares e divergentes da vitalidade não sejam gigantescos poderes plásticos da história? A meu juízo, uma das descobertas sociológicas mais importantes foi a que se fez há quase trinta anos, quando se advertiu que a organização social mais primitiva nada é senão a marca, na massa coletiva, dessas grandes categorias vitais: sexos e idades. A estrutura mais primitiva da sociedade reduz-se a dividir os indivíduos que a integram em homens e mulheres, e cada uma dessas classes sexuais em crianças, jovens e velhos, em classes de idade. As próprias formas biológicas foram, por assim dizer, as primeiras instituições.
Masculinidade e feminilidade, juventude e velhice são dois pares de potências antagônicas. Cada uma dessas potências significa a mobilização da vida inteira em um sentido divergente daquele levado por sua contrária. Vêm a ser estilos diversos de viver. E, como todos coexistem em qualquer instante da história, produz-se entre eles uma colisão, um forcejo no qual cada uma tenta arrastar a existência humana inteira em sua direção. Para compreender bem uma época, é preciso determinar a equação dinâmica que essas quatro potências formam nela e perguntar: quem pode mais? Os jovens ou os velhos, isto é, os homens maduros? O varonil ou o feminino? É muito interessante acompanhar, ao longo dos séculos, os deslocamentos do poder em direção a uma ou outra dessas potências. Então se percebe aquilo que de antemão se devia presumir: que, sendo rítmica toda vida, também o é a histórica, e que os ritmos fundamentais são precisamente os biológicos; ou seja, há épocas em que predomina o masculino e outras dominadas pelos instintos da feminilidade, há tempos de jovens e tempos de velhos.
No ser humano, a vida se duplica porque, ao intervir a consciência, a vida primária se reflete nela: é interpretada por ela em forma de ideia, imagem, sentimento. E, como a história é antes de tudo história da mente, da alma, o interessante será descrever a projeção, na consciência, desses predomínios rítmicos. A luta misteriosa que juventude e velhice, masculinidade e feminilidade mantêm nas secretas oficinas do organismo se reflete na consciência sob a forma de preferências e desdéns. Chega uma época que prefere, que estima mais as qualidades da vida jovem, e posterga ou desestima as da vida madura; ou então encontra a graça máxima nos modos femininos diante dos masculinos. Por que acontecem essas variações da preferência, às vezes súbitas? Eis uma questão sobre a qual ainda não podemos dizer uma só palavra.
O que me parece evidente é que nosso tempo se caracteriza pelo predomínio extremo dos jovens. É surpreendente que, em povos tão velhos quanto os nossos, e depois de uma guerra mais triste que heroica, a vida tome de súbito um aspecto de juventude triunfante. Na realidade, como tantas outras coisas, esse império dos jovens vinha preparando-se desde 1890, desde o *fin de siècle*. Hoje de um lugar, amanhã de outro, foram desalojadas a maturidade e a velhice: em seu lugar se instalava o homem jovem com seus atributos peculiares.
Não sei se esse triunfo da juventude será um fenômeno passageiro ou uma atitude profunda que a vida humana tomou e que chegará a qualificar toda uma época. É preciso que passe algum tempo para poder aventurar esse prognóstico. O fenômeno é demasiado recente e ainda não se pôde ver se essa nova vida *in modo juventutis* será capaz daquilo que direi depois, sem o qual não é possível a permanência de seu triunfo. Se fôssemos atender apenas ao aspecto do momento atual, seríamos forçados a dizer: houve na história outras épocas em que predominaram os jovens, porém nunca, entre as bem conhecidas, o predomínio foi tão extremado e exclusivo. Nos séculos clássicos da Grécia, a vida inteira se organiza em torno do efebo; junto a ele, porém, e como potência compensatória, está o homem maduro que o educa e dirige. O par Sócrates-Alcibíades simboliza muito bem a equação dinâmica de juventude e maturidade desde o século V até o tempo de Alexandre. O jovem Alcibíades triunfa sobre a sociedade, mas sob a condição de servir ao espírito que Sócrates representa. Desse modo, a graça e o vigor juvenis são postos a serviço de algo além deles, que lhes serve de norma, de incitação e de freio. Roma, ao contrário, prefere o velho ao jovem e se submete à figura do senador, do pai de família. O "filho", contudo, o jovem, atua sempre frente ao senador em forma de oposição. Os dois nomes que enunciam os partidos da luta multissecular aludem a essa dualidade de potências: patrícios e proletários.
Ambos significam "filhos", mas os primeiros são filhos de pai cidadão, casado segundo a lei do Estado, e por isso herdeiros de bens, enquanto o proletário é filho no sentido da carne, não é filho de "alguém" reconhecido, é mero descendente e não herdeiro, prole. Conforme se vê, a tradução exata de patrício seria fidalgo.
Para encontrar outra época de juventude como a nossa, seria preciso descer até o Renascimento. Que o leitor repasse rapidamente a série das épocas europeias. O romantismo, que com uma ou outra intensidade impregna todo o século XIX, pode parecer, em seu início, um tempo de jovens. Há nele, efetivamente, uma subversão contra o passado, e é uma tentativa de a juventude afirmar-se a si mesma. A Revolução havia feito tábula rasa da geração precedente e permitiu, durante quinze anos, que ocupassem todas as eminências sociais homens muito moços. O jacobino e o general de Bonaparte são rapazes. Entretanto, esse tempo oferece o exemplo de um falso triunfo juvenil, e o romantismo tornará manifesta sua falta de autenticidade. O jovem revolucionário é apenas o executor das velhas ideias confeccionadas nos dois séculos anteriores. Aquilo que o jovem afirma então está longe de ser sua juventude; são princípios recebidos: nada tão representativo quanto Robespierre, o velho de nascimento. Quando no romantismo se reage contra o século XVIII, é para voltar a um passado mais antigo; e os jovens, ao olhar dentro de si, só encontram desânimo vital. É a época dos *blasés*, dos suicídios, do ar prematuramente caduco no andar e no sentir. O jovem imita em si o velho, prefere suas atitudes fatigadas e se apressa a abandonar sua mocidade. Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o quanto antes e sentiam estranha vergonha de sua própria juventude. Compare-se com os jovens atuais, varões e mulheres, que tendem a prolongar ilimitadamente sua condição juvenil e se instalam nela quase em definitivo.
Se damos um passo atrás, caímos no século *vieillot* por excelência, o XVIII, que abomina toda qualidade juvenil, detesta o sentimento e a paixão, o corpo elástico e nu. É o século de entusiasmo pelos decrépitos, que se estremece à passagem de Voltaire, cadáver vivo que passa sorrindo para si mesmo no sorriso incontável de suas rugas. Para extremar tal estilo de vida, finge-se na cabeça a neve da idade, e a peruca empoada cobre toda fronte primaveril, homem ou mulher, com uma suposição de sessenta anos.
Ao chegar ao século XVII nesse retrocesso virtual, temos de perguntar, ingenuamente surpreendidos: para onde foram os jovens? Tudo quanto vale nessa idade parece ter quarenta anos: o traje, o uso, os modos, só são adequados a gente dessa idade. Em Ninon estima-se a maturidade, não a confusa juventude. Domina o século Descartes, vestido à espanhola, de negro. Busca-se por toda parte a *raison*, e interessa mais que tudo a teologia: jesuítas contra Jansênio. Pascal, o menino genial, é genial porque antecipa a velhice dos geômetras.
*El Sol*, 9 de junho de 1927.
## Juventude - II
Todo gesto vital ou é gesto de domínio ou é gesto de servidão. *Tertium non datur*. O gesto de combate, que parece interpor-se entre ambos, pertence, em rigor, a um ou outro estilo. A guerra ofensiva é inspirada pela segurança na vitória e antecipa o domínio. A guerra defensiva costuma empregar táticas vis, porque no fundo de sua alma o atacado estima o ofensor acima de si próprio. Essa é a causa que decide um ou outro estilo de atitude.
O gesto servil o é porque o ser não gravita sobre si mesmo, não está seguro de seu próprio valor e vive a todo instante comparando-se com outros. Necessita deles de uma ou de outra forma; necessita de sua aprovação para tranquilizar-se, quando não de sua benevolência e de seu perdão. Por isso o gesto leva sempre uma referência ao próximo. Servir é encher nossa vida de atos que têm valor apenas porque outro ser os aprova ou aproveita. Têm sentido vistos desde a vida desse outro ser, não desde a nossa. E esta é, em princípio, a servidão: viver a partir de outro, não a partir de si mesmo.
O estilo de domínio, ao contrário, não implica a vitória. Por isso aparece com pureza maior que nunca em certos casos de guerra defensiva concluídos com a derrota completa do defensor. O caso de Numância é exemplar. Os numantinos possuem fé inquebrantável em si mesmos. Sua longa campanha contra Roma começou por ser ofensiva. Desprezavam o inimigo e, de fato, o derrotavam uma vez e outra. Quando mais tarde, recolhendo e organizando melhor suas forças superiores, Roma cerca Numância, esta, dir-se-á, toma a defensiva; propriamente, porém, em vez de defender-se, aniquila-se, suprime-se. O fato material da superioridade de forças no inimigo convida o povo de alma dominante a preferir sua própria anulação. Porque só sabe viver a partir de si mesmo, e a nova forma de existência que o destino lhe propõe, servidão, lhe é inconcebível, tem para ele o sabor da negação do próprio viver; portanto, é a morte.
Nas gerações anteriores, a juventude vivia preocupada com a maturidade. Admirava os mais velhos, recebia deles as normas, em arte, ciência, política, usos e regime de vida, esperava sua aprovação e temia sua cólera. Entregava-se a si mesma, àquilo que é peculiar de tal idade, apenas às escondidas e à margem. Os jovens sentiam sua própria juventude como transgressão do que é devido. Objetivamente, isso se manifestava no fato de que a vida social não estava organizada em vista deles.
Os costumes, os prazeres públicos, haviam sido ajustados ao tipo de vida próprio das pessoas maduras, e os jovens tinham de contentar-se com as sobras que estas lhes deixavam ou lançar-se à vida de dissipação. Até no vestir se viam forçados a imitar os velhos: as modas estavam inspiradas na conveniência da gente maior, as moças sonhavam com o momento em que se vestiriam "de longo", isto é, em que adotariam o traje de suas mães. Em suma, a juventude vivia em servidão da maturidade.
A mudança ocorrida nesse ponto é fantástica. Hoje a juventude parece dona indiscutível da situação, e todos os seus movimentos vão saturados de domínio. Em seu gesto transparece com toda clareza que ela não se preocupa minimamente com a outra idade. O jovem atual habita hoje sua juventude com tal resolução e denodo, com tal abandono e segurança, que parece existir apenas nela. Pouco se lhe dá aquilo que a maturidade pense dela; ainda mais: aos seus olhos, esta tem valor próximo ao cômico.
Mudaram-se as posições. Hoje o homem e a mulher maduros vivem quase assustados, com a vaga impressão de que quase não têm direito de existir.
Advertem a invasão do mundo pela mocidade enquanto tal e começam a fazer gestos servis. Por enquanto, imitam-na no vestido. Muitas vezes sustentei que as modas estavam longe de constituir fato frívolo; eram fenômeno de grande transcendência histórica, obediente a causas profundas. O exemplo presente esclarece essa afirmação com evidência de sobra. As modas atuais estão pensadas para corpos juvenis, e é tragicômica a situação de pais e mães que se veem obrigados a imitar seus filhos e filhas no vestuário. Os que já estamos já muito no alto da vida nos encontramos com a inaudita necessidade de ter de desfazer um pouco o caminho feito, como quem o tivesse errado, e tornar-nos, de bom grado ou à força, mais jovens do que somos. Não se trata de fingir uma mocidade ausente de nossa pessoa; o módulo adotado pela vida objetiva é o juvenil e nos força à sua adoção. O mesmo que ocorre com o vestir acontece com todo o resto. Os usos, prazeres, costumes, modos, estão cortados à medida dos efebos.
É curioso, formidável, o fenômeno, e convida a essa humildade e devoção diante do poder ao mesmo tempo criador e irracional da vida que recomendei fervorosamente durante toda a minha vida. Note-se que, em toda a Europa, a existência social está hoje organizada para que possam viver a gosto somente os jovens das classes médias. Os maiores e as aristocracias ficaram fora da circulação vital, sintoma em que se ligam dois fatores distintos, juventude e massa, dominantes na dinâmica deste tempo. O regime da vida média se aperfeiçoou, por exemplo, os prazeres; em compensação, as aristocracias não souberam criar novos refinamentos que as distanciem da massa. Só lhes resta a compra de objetos mais caros, porém do mesmo tipo geral usado pelo homem médio. As aristocracias, desde 1800 no político e desde 1900 no social, foram derrubadas, e é lei da história que as aristocracias só podem ser derrubadas quando previamente caíram em degeneração irremediável.
Há, porém, um fato que sublinha, acima de qualquer outro, esse triunfo da juventude e revela até que ponto é profundo a inversão de valores na Europa. Refiro-me ao entusiasmo pelo corpo. Quando se pensa na juventude, pensa-se antes de tudo no corpo. Por várias razões: em primeiro lugar, a alma tem frescor mais prolongado, que às vezes chega a honrar a velhice da pessoa; em segundo lugar, a alma é mais perfeita em certo momento da maturidade do que na juventude; sobretudo, o espírito, inteligência e vontade, é sem dúvida mais vigoroso no pleno cimo da vida que em sua etapa ascensional. Em compensação, o corpo tem sua flor, sua *akmé*, diziam os gregos, na juventude estrita; inversamente, decai infalivelmente quando esta é transposta. Por isso, de um ponto de vista superior às oscilações históricas, por assim dizer, *sub specie aeternitatis*, é indiscutível que a juventude rende a maior delícia quando olhada, e a maturidade, quando ouvida. O admirável do moço é seu exterior; o admirável do homem feito é sua intimidade.
Pois bem: hoje o corpo é anteposto ao espírito. Não creio que haja sintoma mais importante na existência europeia atual. Talvez as gerações anteriores tenham rendido culto demasiado ao espírito e, salvo a Inglaterra, tenham desdenhado excessivamente a carne. Era conveniente que o ser humano fosse admoestado e se lhe recordasse que é algo maior que alma: união mágica de espírito e corpo.
O corpo é, por si, pueril. O entusiasmo que hoje desperta inundou de infantilismo a vida continental, afrouxou a rigidez de intelecto e vontade em que se retorceu o século XIX, arco demasiado esticado em direção a metas demasiado problemáticas. Vamos descansar um pouco no corpo. A Europa, quando tem diante de si os problemas mais pavorosos, entrega-se a férias. Brinca, elástico, o músculo do corpo nu atrás de uma bola que declara francamente seu desdém por toda transcendência, voando pelo ar com ar em seu interior.
As associações de estudantes alemães solicitaram energicamente que se reduzisse o plano de estudos universitários. A razão que davam nada tinha de hipócrita: urgia diminuir as horas de estudo porque eles precisavam de tempo para seus jogos e diversões, para "viver a vida".
Esse gesto dominante que hoje faz a juventude me parece magnífico. Só me ocorre uma ressalva. Entrega tão completa ao seu próprio momento é justa enquanto afirma o direito da mocidade enquanto tal, diante de sua antiga servidão. Mas não será exorbitante? A juventude, etapa da vida, tem direito a si mesma; por ser etapa, porém, está inexoravelmente marcada por um caráter transitório. Encerrando-se em si mesma, cortando as pontes e queimando as naves que conduzem às etapas seguintes, parece declarar-se em rebeldia e separatismo diante do resto da vida. Se é falso que o jovem deva fazer apenas preparar-se para ser velho, também não é erro pequeno evitar por completo essa cautela. Pois o caso é que a vida, objetivamente, necessita da maturidade; portanto, a juventude também necessita dela. É preciso organizar a existência: ciência, técnica, riqueza, saber vital, criações de toda ordem são requeridas para que a juventude possa alojar-se e divertir-se. A juventude de agora, tão gloriosa, corre o risco de chegar a uma maturidade inepta. Hoje goza do ócio florescente que lhe criaram gerações sem juventude.
Meu entusiasmo pelo aspecto juvenil que a vida adotou só se detém diante desse temor. Que farão aos quarenta anos os europeus futebolistas? Porque o mundo é certamente uma bola, porém com algo além de ar dentro.
*El Sol*, 19 de junho de 1927.