Capítulo VIII - Por que as massas intervêm em tudo, e por que intervêm apenas violentamente
# Capítulo VIII - Por que as massas intervêm em tudo, e por que intervêm apenas violentamente
Havíamos ficado em que aconteceu algo extremamente paradoxal, embora, na verdade, muito natural: de tanto se mostrarem abertos o mundo e a vida ao homem medíocre, fechou-se nele a alma. Pois bem: sustento que nessa obliteração das almas médias consiste a rebeldia das massas, e nela, por sua vez, consiste o gigantesco problema hoje posto à humanidade.
Sei que muitos dos que me leem pensam de outra maneira. Também isso é naturalíssimo e confirma o teorema. Ainda que minha opinião venha a resultar errônea, restaria sempre o fato de que muitos desses leitores discordantes não pensaram cinco minutos sobre matéria tão complexa. Como hão de pensar o mesmo que eu? Ao se julgarem com direito a ter uma opinião sobre o assunto sem o esforço prévio de formá-la, manifestam seu pertencimento exemplar ao modo absurdo de ser homem que chamei "massa rebelde". Isso é precisamente ter a alma obliterada, hermética. Neste caso, tratar-se-ia de hermetismo intelectual. A pessoa se encontra com um repertório de ideias dentro de si. Decide contentar-se com elas e considerar-se intelectualmente completa. Ao não sentir falta de nada fora de si, instala-se definitivamente naquele repertório. Eis o mecanismo da obliteração.
O homem-massa se sente perfeito. Um homem de seleção, para sentir-se perfeito, precisa ser especialmente vaidoso, e a crença em sua perfeição não está consubstancialmente unida a ele, não é ingênua; vem de sua vaidade e, até para ele mesmo, tem caráter fictício, imaginário e problemático. Por isso o vaidoso precisa dos demais, busca neles a confirmação da ideia que quer ter de si mesmo. De modo que nem nesse caso mórbido, nem mesmo "cego" pela vaidade, consegue o homem nobre sentir-se de verdade completo. Em compensação, ao homem medíocre de nossos dias, ao novo Adão, não lhe ocorre duvidar da própria plenitude. Sua confiança em si é, como a de Adão, paradisíaca. O hermetismo nato de sua alma o impede de fazer aquilo que seria condição prévia para descobrir sua insuficiência: comparar-se com outros seres. Comparar-se seria sair um momento de si mesmo e transportar-se ao próximo. A alma medíocre, porém, é incapaz dessas transmigrações, esporte supremo.
Encontramo-nos, pois, com a mesma diferença que eternamente existe entre o tolo e o perspicaz. Este se surpreende sempre a dois dedos de ser tolo; por isso faz um esforço para escapar à tolice iminente, e nesse esforço consiste a inteligência. O tolo, ao contrário, não suspeita de si mesmo: parece a seus próprios olhos muito sensato, e daí vem a invejável tranquilidade com que o néscio se assenta e se instala na própria torpeza. Tal como esses insetos que não há maneira de extrair do orifício em que habitam, não há modo de desalojar o tolo de sua tolice, levá-lo a passear um momento para além de sua cegueira e obrigá-lo a contrastar sua visão torpe habitual com outros modos de ver mais sutis. O tolo é vitalício e sem poros. Por isso dizia Anatole France que um néscio é muito mais funesto que um malvado. Porque o malvado descansa algumas vezes; o néscio, jamais.
Não se trata de afirmar que o homem-massa seja tolo. Ao contrário, o atual é mais esperto, tem mais capacidade intelectiva que o de qualquer outra época. Essa capacidade, entretanto, não lhe serve para nada; em rigor, a vaga sensação de possuí-la lhe serve apenas para fechar-se mais em si e não usá-la. De uma vez por todas consagra o jorro de tópicos, preconceitos, restos de ideias ou, simplesmente, vocábulos ocos que o acaso amontoou em seu interior, e com uma audácia explicável somente pela ingenuidade, irá impô-los onde quer que seja. Isto é o que eu enunciava no primeiro capítulo como característico de nossa época: não que o vulgar creia ser sobressalente e não vulgar; antes, que o vulgar proclame e imponha o direito da vulgaridade, ou a vulgaridade como um direito.
O império que a vulgaridade intelectual exerce hoje sobre a vida pública é talvez o fator mais novo da situação presente, o menos assimilável a qualquer coisa do pretérito. Pelo menos na história europeia até esta data, nunca o vulgo havia acreditado possuir "ideias" sobre as coisas. Tinha crenças, tradições, experiências, provérbios, hábitos mentais, porém não imaginava possuir opiniões teóricas sobre o que as coisas são ou devem ser, por exemplo, sobre política ou literatura. Parecia-lhe bem ou mal aquilo que o político projetava e fazia; oferecia ou retirava sua adesão, porém sua atitude reduzia-se a refletir, positiva ou negativamente, a ação criadora de outros. Nunca lhe ocorreu opor às "ideias" do político outras ideias suas; nem sequer julgar as "ideias" do político a partir do tribunal de outras "ideias" que acreditasse possuir. O mesmo acontecia na arte e nas demais ordens da vida pública. Uma consciência inata de sua limitação, de não estar qualificado para teorizar, vedava-lhe isso por completo. A consequência automática era que o vulgo não pensava, nem de longe, em decidir quase nenhuma das atividades públicas, que em sua maior parte são de índole teórica.
Hoje, ao contrário, o homem médio tem as "ideias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para que ouvir, se já traz dentro de si tudo o que lhe falta? Já não é tempo de escutar; ao contrário, é tempo de julgar, sentenciar, decidir. Não há questão de vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo suas "opiniões".
Contudo, isto não é uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "ideias", isto é, que sejam cultas? De maneira alguma. As "ideias" desse homem médio não são autenticamente ideias, nem sua posse é cultura. A ideia é um desafio à verdade. Quem quiser ter ideias precisa antes dispor-se a querer a verdade e aceitar as regras de jogo que ela imponha. Não vale falar de ideias ou opiniões onde não se admite uma instância que as regule, uma série de normas às quais se possa apelar na discussão. Essas normas são os princípios da cultura. Não me importa quais sejam. O que digo é que não há cultura onde faltam normas a que nossos próximos possam recorrer. Não há cultura onde faltam princípios de legalidade civil aos quais recorrer. Não há cultura onde não há acatamento de certas posições intelectuais últimas às quais referir-se na disputa. Não há cultura quando não preside às relações econômicas um regime de tráfego sob o qual amparar-se. Não há cultura onde as polêmicas estéticas não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte.
Quando faltam todas essas coisas, não há cultura; há, no sentido mais estrito da palavra, barbárie. E isto é, não nos iludamos, o que começa a haver na Europa sob a progressiva rebelião das massas. O viajante que chega a um país bárbaro sabe que naquele território não regem princípios a que caiba recorrer. Não há propriamente normas bárbaras. A barbárie é ausência de normas e de possível apelação.
O mais e o menos de cultura se medem pela maior ou menor precisão das normas. Onde há pouca cultura, elas regulam a vida apenas grosso modo; onde há muita, penetram até o detalhe no exercício de todas as atividades. A escassez da cultura intelectual espanhola, isto é, do cultivo ou exercício disciplinado do intelecto, manifesta-se não em que se saiba mais ou menos; antes, na habitual falta de cautela e de cuidado para ajustar-se à verdade que costumam mostrar os que falam e escrevem. Portanto, não em que acertem ou errem, pois a verdade não está em nossa mão; antes, na falta de escrúpulo que leva a não cumprir os requisitos elementares para acertar. Continuamos sendo o eterno cura de aldeia que refuta triunfante o maniqueu, sem antes se ocupar de averiguar o que pensa o maniqueu.
Qualquer um pode perceber que na Europa, há anos, começaram a acontecer "coisas raras". Para dar algum exemplo concreto dessas coisas raras, nomearei certos movimentos políticos, como o sindicalismo e o fascismo. Não se diga que parecem raros simplesmente porque são novos. O entusiasmo pela inovação é de tal modo inato no europeu que o levou a produzir a história mais inquieta de quantas se conhecem. Não se atribua, pois, o que esses novos fatos têm de raro ao que têm de novo; antes, à estranhíssima marca dessas novidades. Sob as formas do sindicalismo e do fascismo aparece pela primeira vez na Europa um tipo de homem que não quer dar razões nem quer ter razão; simplesmente, mostra-se resolvido a impor suas opiniões.
Eis o novo: o direito a não ter razão, a razão da sem-razão. Vejo nisso a manifestação mais palpável do novo modo de ser das massas, por terem decidido dirigir a sociedade sem capacidade para isso. Em sua conduta política revela-se a estrutura da alma nova da maneira mais crua e contundente; a chave, porém, está no hermetismo intelectual. O homem médio encontra "ideias" dentro de si, mas carece da função de idear. Nem suspeita sequer qual é o elemento utilíssimo em que as ideias vivem. Quer opinar. Daí que suas "ideias" não sejam, efetivamente, senão apetites com palavras, como as romanças musicais.
Ter uma ideia é crer que se possuem suas razões e é, portanto, crer que exista uma razão, uma ordem de verdades inteligíveis. Idear, opinar, é o mesmo que apelar a tal instância, subordinar-se a ela, aceitar seu código e sua sentença, crer, portanto, que a forma superior de convivência é o diálogo em que se discutem as razões de nossas ideias. O homem-massa, contudo, se sentiria perdido se aceitasse a discussão, e instintivamente repudia a obrigação de acatar essa instância suprema que se encontra fora dele. Por isso, o "novo" na Europa é "acabar com as discussões", e detesta-se toda forma de convivência que por si mesma implique acatamento de normas objetivas, desde a conversação até o Parlamento, passando pela ciência. Isto quer dizer que se renuncia à convivência de cultura, que é convivência sob normas, e se retrocede a uma convivência bárbara. Suprimem-se todos os trâmites normais e se vai diretamente à imposição daquilo que se deseja. O hermetismo da alma que, conforme vimos antes, empurra a massa para intervir em toda a vida pública, leva-a também, inexoravelmente, a um procedimento único de intervenção: a ação direta.
No dia em que se reconstruir a gênese de nosso tempo, será notado que as primeiras notas de sua melodia peculiar soaram naqueles grupos sindicalistas e realistas franceses de cerca de 1900, inventores da maneira e da palavra "ação direta". Desde sempre o homem recorreu à violência: umas vezes esse recurso era simplesmente um crime, e não nos interessa. Outras vezes, porém, a violência era o meio a que recorria aquele que antes havia esgotado todos os demais para defender a razão e a justiça que acreditava ter. Será muito lamentável que a condição humana leve repetidas vezes a essa forma de violência, mas é inegável que ela significa a maior homenagem à razão e à justiça. Pois tal violência não é outra coisa que a razão exasperada. A força era, com efeito, a ultima ratio. Com certa estupidez, costuma-se entender essa expressão com ironia, que declara muito bem o prévio rendimento da força às normas racionais. A civilização não é outra coisa que o ensaio de reduzir a força a ultima ratio. Agora começamos a ver isto com demasiada clareza, porque a "ação direta" consiste em inverter a ordem e proclamar a violência como prima ratio, em rigor, como única razão. É ela a norma que propõe a anulação de toda norma, que suprime todo intermediário entre nosso propósito e sua imposição. É a Carta Magna da barbárie.
Convém recordar que em todo tempo, quando a massa, por um motivo ou por outro, atuou na vida pública, fez isso em forma de "ação direta". Foi, pois, sempre o modo natural de operar das massas. E corrobora energicamente a tese deste ensaio o fato patente de que agora, quando a intervenção direta das massas na vida pública passou de casual e infrequente a normal, apareça a "ação direta" oficialmente como norma reconhecida.
Toda a convivência humana vai caindo sob esse novo regime em que se suprimem as instâncias indiretas. No trato social, suprime-se a boa educação. A literatura, como "ação direta", converte-se em insulto. As relações sexuais reduzem seus trâmites.
Trâmites, normas, cortesia, usos intermediários, justiça, razão! De onde veio a ideia de inventar tudo isto, de criar tanta complicação? Tudo se resume na palavra civilização, que por meio da ideia de civis, isto é, o cidadão, descobre sua própria origem. Trata-se, com tudo isso, de tornar possível a cidade, a comunidade, a convivência. Por isso, se olhamos por dentro cada um desses utensílios da civilização que acabo de enumerar, encontraremos uma mesma entranha em todos. Todos, com efeito, supõem o desejo radical e progressivo de cada pessoa contar com as outras. Civilização é, antes de tudo, vontade de convivência. É-se incivil e bárbaro na medida em que não se conta com os demais. A barbárie é tendência à dissociação. E assim todas as épocas bárbaras foram tempos de dispersão humana, proliferação de mínimos grupos separados e hostis.
A forma que, em política, representou a mais alta vontade de convivência é a democracia liberal. Ela leva ao extremo a resolução de contar com o próximo e é protótipo da "ação indireta". O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o poder público, embora seja onipotente, limita-se a si mesmo e procura, mesmo à própria custa, deixar espaço no Estado sobre o qual impera para que possam viver os que não pensam nem sentem como ele, isto é, como os mais fortes, como a maioria. Convém hoje recordar isto: o liberalismo é a suprema generosidade. É o direito que a maioria outorga à minoria e, portanto, o mais nobre grito que soou no planeta. Proclama a decisão de conviver com o inimigo, e ainda mais, com o inimigo fraco. Era inverossímil que a espécie humana tivesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve surpreender que logo essa mesma espécie pareça resolvida a abandoná-la. É um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na Terra. Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Semelhante ternura já não começa a tornar-se incompreensível? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente do que o fato de irem sendo tão poucos os países onde existe a oposição. Em quase todos, uma massa homogênea pesa sobre o poder público e esmaga, aniquila todo grupo opositor. A massa, quem o diria ao ver seu aspecto compacto e multitudinário?, não deseja a convivência com aquilo que não é ela. Odeia de morte aquilo que não é ela.