Capítulo 3
CAPÍTULO 3
Era pequeno, mas muito confortável e ensolarado, o quarto que a Sra. Wickett lhe alugava. A casa em si era feia e pretensiosa, mas isso não tinha importância. Era conveniente, e esse era o ponto principal. Pois ele gostava, quando o tempo estava ameno o bastante, de atravessar a rua à tarde até os campos de jogo e assistir às partidas. Gostava de sorrir e trocar algumas palavras com os meninos quando eles lhe tocavam o boné. Fazia questão especial de conhecer todos os novatos e de recebê-los para o chá durante o primeiro período deles. Sempre encomendava um bolo de noz com glacê rosa na Reddaway’s, no vilarejo, e durante o período de inverno havia também crumpets, uma pequena pilha diante do fogo, encharcada de manteiga de tal modo que o de baixo ficava numa pocinha rasa. Seus convidados achavam divertido vê-lo preparar o chá, misturando colheradas cuidadosas de diferentes latas. Ele perguntava aos novatos onde moravam e se tinham ligações familiares em Brookfield. Vigiava para que seus pratos nunca ficassem vazios e, pontualmente às cinco, depois de a visita ter durado uma hora, olhava para o relógio e dizia:
— Bem, humph, foi muito agradável, humph, conhecê-los assim. Lamento, humph, que vocês não possam ficar...
E sorria e apertava a mão deles no alpendre, deixando-os correr de volta pela rua até a Escola com seus comentários.
— Velho decente, o Chips. Dá um chá muito bom, de qualquer modo, e você sabe muito bem quando ele quer que você vá embora...
Chips também fazia seus comentários, para a Sra. Wickett, quando ela entrava no quarto para retirar os restos da reunião.
— Uma ocasião muito, humph, interessante, Sra. Wickett. O jovem Branksome me contou, humph, que seu tio era o major Collingwood, o Collingwood que tivemos aqui em, humph, zero-dois, acho. Minha nossa, lembro-me muito bem de Collingwood. Uma vez lhe dei uma surra, humph, por subir no telhado do ginásio para pegar uma bola na calha. Poderia, humph, ter quebrado o pescoço, o jovem tolo. A senhora se lembra dele, Sra. Wickett? Deve ter sido do seu tempo.
A Sra. Wickett, antes de juntar algum dinheiro, fora encarregada da rouparia da Escola.
— Sim, conheci ele, senhor. Atrevido, era comigo, no geral. Mas nunca tivemos palavra feia entre nós. Só atrevido assim. Nunca fazia por mal. Esse tipo nunca faz, senhor. Não foi ele que ganhou uma medalha, senhor?
— Sim, uma D.S.O.
— O senhor vai querer mais alguma coisa, senhor?
— Nada mais agora, humph, até a hora da capela. Ele morreu, no Egito, creio... Sim, humph, pode trazer minha ceia por essa hora.
— Muito bem, senhor.
Uma vida agradável e plácida, na casa da Sra. Wickett. Não tinha preocupações; sua pensão era suficiente, e havia ainda um pouco de dinheiro economizado. Podia pagar tudo e qualquer coisa que desejasse. Seu quarto era mobiliado de modo simples, com gosto de mestre-escola: algumas estantes e troféus esportivos; uma lareira abarrotada de cartões de jogos e fotografias autografadas de meninos e homens; um tapete turco gasto; grandes poltronas; quadros na parede da Acrópole e do Fórum. Quase tudo viera de seu antigo quarto de housemaster em School House. Os livros eram sobretudo clássicos, pois clássicos haviam sido sua matéria; havia, contudo, uma dose de história e belles-lettres. Havia também uma prateleira de baixo empilhada com edições baratas de romances policiais. Chips gostava deles. Às vezes tirava Virgílio ou Xenofonte da estante e lia por alguns instantes, mas logo voltava ao doutor Thorndyke ou ao inspetor French. Apesar dos longos anos de ensino assíduo, não era um classicista muito profundo; na verdade, pensava no latim e no grego muito mais como línguas mortas das quais cavalheiros ingleses deveriam conhecer algumas citações do que como línguas vivas que haviam sido faladas por pessoas vivas. Gostava daqueles editoriais curtos do Times que introduziam algumas expressões que ele reconhecia. Estar entre o número cada vez menor de pessoas que compreendiam essas coisas era, para ele, uma espécie de maçonaria secreta e preciosa; representava, sentia, um dos principais benefícios de uma educação clássica.
Assim vivia ele na casa da Sra. Wickett, com seus prazeres tranquilos de ler, conversar e recordar; um velho de cabelos brancos e apenas um pouco calvo, ainda bastante ativo para a idade, tomando chá, recebendo visitas, ocupando-se com correções para a próxima edição do Diretório Brookfieldiano, escrevendo cartas ocasionais numa caligrafia fina, de aranha, mas muito legível. Recebia professores novos para o chá, além de meninos novos. Havia dois naquele período de outono, e, quando saíam depois da visita, um deles comentou:
— Um belo tipo, o velho, não é? Todo aquele alarde para misturar o chá, solteirão típico, se é que já houve um.
O comentário era curiosamente incorreto, porque Chips não era solteirão. Havia se casado, embora isso tivesse acontecido havia tanto tempo que ninguém do corpo docente de Brookfield conseguia lembrar-se de sua esposa.