Universo da obra
Universo da obra
A UNIDADE INFINITA DO TODO O UNIVERSO E A CONSCIÊNCIA Como definir o Ser? Restrinjamos a nossa impossibilidade a este axioma: o Ser é o Ser. E' a substancia com os phenomenos e só nós o conhecemos pelos phenomenos. Para o espirito humano só ha realidade no que é phenomenal; fora d'ahi o Universo, a unidade infinita, é uma pura idealidade. Nem a Substancia, nem a Vontade, nem o Inconsciente, nem as Idéas são o principio causal da existência. Se o fossem, o supremo problema metaphysico se explicaria por um incorrigivel dualismo, inherente a estes conceitos primordiaes, porque o nosso espirito teria necessariamente de comprehender a dualidade de uma força ou energia agindo sobre a matéria, embora se pretendesse explicar que a substancia é força e matéria e que não ha matéria sem força, nem energia independente da matéria. O dualismo subsistiria como uma fatalidade da nossa comprehensão, e por lie jamais chegaríamos a explicar o Todo e a perceber a essência da causalidade. Ora, o sentimento da Unidade infinita do Universo é o facto transcendente do espirito humano. E' um sentimento e não uma realidade objectiva, sentimento que reside na consciência. Todo o problema metaphysico (philosophico, religioso ou esthetico) está subordinado á consciência que nos explica o Universo, e este só existe na sua realidade subjectiva pelo facto da consciência. Sem a consciência metaphysica o Universo não nos seria realisado, como uma unidade abstracta e transcendental, e assim a questão philosophica, ou melhor a explicação da causalidade, está restricta ao raio de luz da consciência. Uma demonstração lógica de um principio causal, seja o noús, a vontade, o inconsciente, é impossível. O Universo é porque é, e só nos é dado explicar scientificamente os seus phenomenos, o que importa na fragmentação do Todo, infinito e inattingivel á investigação da sciencia. Mas, por uma necessidade fatal do espirito, aquillo que é indemonstravel pela lógica é comprehendido como realidade ideal. Ha uma unidade infinita do Ser que se impõe ao espirito e á consciência. A formação da consciência metaphysica é o mysterio do espirito humano. Fora da consciência o Universo não existe. Só por ella e para O UNIVERSO E A CONSCIÊNCIA D ella o Universo se realisa. Póde-se ter a consciência de si, a consciência individual, sem se ter a consciência metaphysica. A consciência de si tem o indivíduo quando percebe pelas suas sensações que elle fôrma um todo separado e distincto dos outros seres. Essa consciência se estende e se amplia, quando o indivíduo applica á percepção introspectiva dos phenomenos subjectivos a mesma attenção, que emprega na observação dos phenomenos objectivos. Mas o indivíduo ainda não attingiu ao domínio da consciência metaphysica da existência, isto é, a explicação ou o sentimento da sua própria existência, o sentimento do Todo, a causalidade. O indivíduo pôde sentir e conhecer que elle não é outro ser, que está separado das outras cousas, tendo a consciência da sua unidade perfeita, e os outros seres lhe apparecem como unidades differentes sem necessidade de as ligar intimamente e compor com ellas a unidade absoluta e infinita. A consciência de si dá ao indivíduo o sentimento da separação, a consciência do seu próprio eu e a interpretação dos phenomenos subjectivos dos outros seres. Antes dessa consciência conceituai o indivíduo se considera um entre os outros objectos, e não um em opposição aos outros objectos. Elle ainda não é sujeito e não comprehende que outros o sejam. 0 estado a que se chega pela consciência conceituai, metaphysica, é o que explica as unidades psychicas perfeitas, nós e os outros, sendo todos objecto de conhecimento de sujeitos conscientes, que somos nós mesmos. Para estes estados de consciência que são de preceitos ou de conceitos, o Universo não existe, o sentimento do Infinito ainda não foi despertado. O indivíduo é indifferente a tudo que não seja objecto da sua sensação real. Tem a inconsciencia do Todo, não se sente como uma expressão, uma simples apparencia phenomenal do Universo. Ha uma perfeita incorporação do indivíduo no Todo universal, e pelo facto da inconsciencia metaphysica ha uma unidade infinita e completa na essência do Ser.
Texto original de Graça Aranha publicado em 1921, organizado a partir do exemplar digitalizado pela Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias do Livro como colaboração ao autor e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.