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O Quarto Vermelho

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O Quarto Vermelho

Capítulo 1 · O Quarto Vermelho

ESTOCOLMO A VOO DE PÁSSARO

Capítulo I Estocolmo A Voo De Pássaro Era um entardecer do começo de maio.

O pequeno jardim do “Morro de Moisés”, no lado sul da cidade, ainda não fora franqueado ao público, e os canteiros continuavam por revolver.

As flores-de-neve haviam aberto caminho através dos montes de folhas mortas do ano anterior e estavam prestes a encerrar sua breve carreira, cedendo lugar aos crocos, que encontraram abrigo sob uma pereira estéril; o sabugueiro esperava um vento sul para rebentar em flor, mas os botões ainda cerrados das tílias ofereciam esconderijo aos galanteios dos tentilhões, atarefados na construção de seus ninhos forrados de líquen entre tronco e galho.

Desde que a neve do último inverno derretera, nenhum pé humano pisara os caminhos de cascalho, e a vida livre e solta dos animais e das flores seguia sem perturbação. Os pardais recolhiam diligentemente toda sorte de refugos e os guardavam sob as telhas da Escola de Navegação. Sobrecarregavam-se com farrapos dos invólucros de foguetes dos fogos do último outono e arrancavam as proteções de palha das árvores novas, transplantadas havia apenas um ano do viveiro do Djurgården — nada lhes escapava.

Descobriram tiras de musselina nos caramanchões de verão; a perna lascada de um banco forneceu-lhes tufos de pelo deixados no campo de batalha por cães que já não combatiam ali desde os tempos de Josefina.

Que vida havia ali! O sol pairava sobre Liljeholm, lançando feixes de raios para o leste; eles atravessavam as colunas de fumaça de Bergsund, faiscavam sobre o Riddarfjoerd, subiam até a cruz da igreja de Riddarholm, precipitavam-se sobre o telhado íngreme da Igreja Alemã, em frente, brincavam com as flâmulas desfraldadas pelos barcos na ponte de pontões, cintilavam nas janelas da alfândega principal, iluminavam os bosques da ilha de Lidingö e iam morrer numa nuvem rósea, muito, muito longe, na distância onde estava o mar.

E de lá vinha o vento, refazendo o mesmo caminho, por Vaxholm, passando pela fortaleza e pela alfândega e ao longo da ilha de Sickla, abrindo passagem por trás de Hästarholm, lançando um olhar às casas de veraneio; depois tornava a sair e seguia, seguia até o hospital de Danviken; ali se assustava e disparava, numa carreira precipitada, ao longo da margem sul, percebia o cheiro de carvão, alcatrão e óleo de peixe, chocava-se de frente com o cais da cidade, subia de rompante ao Morro de Moisés, varria o jardim e se debatia contra uma parede.

A parede se abriu por obra de uma criada que, naquele exato momento, arrancava o papel colado sobre as frestas das janelas duplas; um cheiro terrível de gordura pingada, borra de cerveja, agulhas de pinheiro e serragem derramou-se para fora e foi levado pelo vento, enquanto a criada ficava ali, aspirando o ar fresco pelas narinas.

O vento arrancou o algodão, salpicado de bagas de bérberis, ouropel e pétalas de rosa, do vão entre as janelas, e o fez dançar pelos caminhos, acompanhado por pardais e tentilhões, que viam ali a solução para a maior parte de seu problema de alojamento. Enquanto isso, a criada continuava seu trabalho nas janelas duplas; em poucos minutos, a porta que dava para o restaurante estava aberta, e um homem, bem-vestido mas simples, saiu para o jardim.

Nada havia de notável em seu rosto, além de uma leve expressão de cuidado e preocupação, que desapareceu assim que ele saiu da sala abafada e avistou o largo horizonte. Voltou-se para o lado de onde vinha o vento, abriu o sobretudo e, repetidas vezes, aspirou profundamente, como se aquilo lhe aliviasse o coração e os pulmões. Depois começou a passear de um lado para outro junto ao parapeito que separava o jardim dos rochedos, na direção do mar.

Muito abaixo dele jazia a cidade ruidosa, que despertava de novo; os guindastes a vapor zuniam no porto, as barras de ferro chocalhavam na balança de ferro, os apitos dos guardas da eclusa estrilavam, os vapores junto à ponte de pontões fumegavam, os ônibus ribombavam sobre o calçamento desigual; ruído e tumulto no mercado de peixe, velas e bandeiras sobre a água lá fora; os gritos das gaivotas, os toques de corneta do estaleiro, a troca da guarda, o tamanco dos operários batendo e estalando — tudo isso produzia uma impressão de vida e alvoroço que parecia despertar a energia do jovem. Seu rosto assumiu uma expressão de desafio, alegria e resolução; e, quando se inclinou sobre o parapeito e olhou a cidade lá embaixo, parecia observar um inimigo. As narinas se dilataram, os olhos faiscaram, e ele ergueu o punho cerrado, como se desafiasse ou ameaçasse a pobre cidade.

Os sinos de Santa Catarina bateram sete horas; o agudo bilioso de Santa Maria os secundou; os baixos da igreja grande e da Igreja Alemã juntaram-se a eles, e logo o ar vibrava com o som produzido pelos sete sinos da cidade. Depois, um após outro, recaíram no silêncio, até que, muito longe, na distância, apenas o último deles ainda se ouvia, cantando sua pacífica canção vespertina; tinha uma nota mais alta, um timbre mais puro e um andamento mais rápido que os outros — sim, tinha! Ele escutou e se perguntou de onde viria aquele som, pois parecia despertar nele vagas lembranças.

De súbito, seu rosto se desarmou, e suas feições exprimiram a miséria de uma criança abandonada. E ele estava abandonado; seu pai e sua mãe jaziam no cemitério de Santa Clara, de onde o sino ainda podia ser ouvido; e ele era uma criança: ainda acreditava em tudo, na verdade e nos contos de fada igualmente. O sino de Santa Clara calou-se, e o ruído de passos no caminho de cascalho arrancou-o de seu devaneio.

Um homem baixo, de suíças, vinha em sua direção pela varanda; usava óculos, ao que parecia, mais para proteger os olhares do que os olhos, e sua boca maliciosa costumava se torcer numa expressão bondosa, quase benevolente. Vestia um sobretudo asseado, com botões defeituosos, um chapéu um tanto amassado e calças içadas a meio mastro. Seu modo de andar indicava segurança e timidez ao mesmo tempo.

Toda a sua aparência era tão indefinida que se tornava impossível adivinhar-lhe a idade ou a posição social. Ele poderia ser tanto um artesão quanto um funcionário público; sua idade ficava em algum ponto entre os vinte e nove e os quarenta e cinco anos. Estava obviamente lisonjeado por se encontrar na companhia do homem com quem viera ter, pois ergueu o chapéu abaulado com cerimônia incomum e sorriu seu sorriso mais amável.

— Espero que não tenha ficado à minha espera, assessor?

— Nem por um segundo; acaba de dar sete horas. Obrigado por ter vindo. Devo confessar que este encontro é da maior importância para mim; eu quase poderia dizer que diz respeito a todo o meu futuro, senhor Struve.

— Valha-me Deus! Está falando sério? — O senhor Struve piscou; viera beber um copo de grogue e não estava nem um pouco inclinado a uma conversa séria. Tinha suas razões para isso.

— Ficaremos menos perturbados se tomarmos nosso grogue aqui fora, se o senhor não se importar — continuou o assessor. O senhor Struve acariciou a suíça direita, pôs cuidadosamente o chapéu na cabeça e agradeceu ao assessor o convite; mas parecia inquieto.

— Antes de mais nada, preciso pedir-lhe que abandone o “assessor” — começou o jovem. — Nunca fui mais que um simples assistente, e a partir de hoje deixo de ser até isso; sou o senhor Falk, nada mais.

— O quê?

O senhor Struve pareceu ter perdido um amigo ilustre, mas conservou a calma.

— O senhor é um homem de tendências liberais...

O senhor Struve tentou explicar-se, mas Falk prosseguiu:

— Pedi que viesse encontrar-me aqui na qualidade de colaborador do liberal Barrete Vermelho.

— Santo Deus! Sou um colaborador tão insignificante...

— Li seus artigos tonitruantes sobre a questão operária e sobre todas as outras questões que nos dizem respeito de perto. Estamos no ano III, em algarismos romanos, pois este é o terceiro ano do novo Parlamento, e em breve nossas esperanças se tornarão realidade. Li suas excelentes biografias de nossos principais políticos no Amigo do Camponês, as vidas desses homens do povo que, afinal, tiveram permissão para dar voz ao que por tanto tempo os oprimia; o senhor é um homem do progresso, e eu o estimo muito.

Struve, cujos olhos haviam se tornado opacos em vez de se acenderem diante daquelas palavras fervorosas, agarrou com prazer a válvula de escape que lhe fora oferecida.

— Devo confessar — disse ele, pressuroso — que me sinto imensamente satisfeito por me ver apreciado por um homem jovem e — devo dizê-lo — excelente como o senhor, assessor; mas, por outro lado, por que falar de coisas tão graves, para não dizer tristes, quando estamos sentados aqui, no regaço da natureza, no primeiro dia da primavera, enquanto todos os botões rebentam e o sol derrama seu calor sobre a criação inteira? Mandemos as preocupações às favas e bebamos nosso copo em paz. Perdoe-me — creio ser mais velho que o senhor — e, portanto, ouso... propor...

Falk, que, como uma pederneira, saíra à procura de aço, percebeu que havia batido em madeira. Aceitou a proposta sem entusiasmo. E os novos irmãos sentaram-se lado a lado; tudo o que tinham a dizer um ao outro estava no desapontamento estampado em seus rostos.

— Mencionei há pouco — retomou Falk — que rompi hoje com minha vida passada e abandonei minha carreira de funcionário público. Acrescentarei apenas que pretendo dedicar-me à literatura.

— Literatura? Santo Deus! Por quê? Ah, mas isso é uma pena!

— Não é; mas quero que me diga como devo proceder para encontrar trabalho.

— Hum! Isso é realmente difícil de dizer. A profissão está abarrotada de todo tipo de gente. Mas o senhor não deve pensar nisso. É mesmo uma pena estragar sua carreira; a profissão literária é uma profissão ruim.

Struve parecia condoído, mas não conseguia ocultar certa satisfação por ter encontrado um amigo na desgraça.

— Mas diga-me — continuou ele —, por que abandona uma carreira que promete a um homem honras e influência?

— Honras para os que usurparam o poder, e influência para os mais inescrupulosos.

— Bobagem! A coisa não é assim tão ruim.

— Não é? Pois então preciso falar com mais clareza. Vou lhe mostrar o funcionamento interno de um dos seis departamentos em que eu havia inscrito meu nome. Os cinco primeiros abandonei imediatamente, pela razão muito simples de que não havia lugar para mim. Sempre que eu ia perguntar se havia algo que eu pudesse fazer, respondiam-me: não! E nunca vi ninguém fazendo coisa alguma. E isso nos departamentos atarefados, como a Comissão das Destilarias de Aguardente, a Repartição dos Impostos Diretos e a Junta Administrativa das Pensões dos Funcionários. Mas, quando observei aquela multidão formigante de empregados, ocorreu-me que o departamento encarregado de pagar todos os salários devia, por força, ser atarefadíssimo. Inscrevi, portanto, meu nome na Junta de Pagamento dos Salários dos Funcionários.

— E foi até lá? — perguntou Struve, começando a se interessar.

— Fui. Jamais esquecerei a grande impressão que me causou a visita a esse departamento tão perfeitamente organizado. Fui lá certa manhã, às onze horas, porque se supõe que essa seja a hora em que as repartições abrem. Na sala de espera, encontrei dois jovens contínuos esparramados sobre uma mesa, de bruços, lendo a Pátria.

— A Pátria? — Struve, que até então vinha alimentando os pardais com açúcar, aguçou os ouvidos.

— Sim. Eu disse “bom dia”. Um fraco ondular das costas dos senhores indicou que aceitavam o meu bom-dia sem desagrado manifesto; um deles chegou mesmo ao ponto de sacudir o calcanhar do pé direito, o que talvez pretendesse substituir um aperto de mão. Perguntei se algum dos senhores estava desocupado e poderia mostrar-me as salas. Ambos declararam-se impossibilitados de fazê-lo, porque suas ordens eram não abandonar a sala de espera. Indaguei se havia outros contínuos. Sim, havia outros. Mas o contínuo-chefe estava de férias; o primeiro contínuo, de licença; o segundo não estava de serviço; o terceiro fora ao correio; o quarto estava doente; o quinto fora buscar água potável; o sexto estava no pátio, “onde permanecia o dia inteiro”; além disso, nenhum funcionário jamais chegava antes da uma hora.

Aquilo foi uma sugestão de que minha visita matutina e incômoda não era de bom-tom, e ao mesmo tempo uma lembrança de que também os contínuos eram funcionários públicos.

— Mas, quando declarei que estava firmemente resolvido a ver as salas, a fim de formar uma ideia da divisão do trabalho em departamento tão importante e abrangente, o mais jovem dos dois consentiu em acompanhar-me. Quando abriu a porta, tive uma vista magnífica de uma sequência de dezesseis salas de tamanhos variados. “Aqui deve haver trabalho”, pensei, congratulando-me pela feliz ideia de ter vindo. O crepitar de dezesseis fogos de lenha de bétula em dezesseis estufas de azulejo interrompia do modo mais agradável a solidão do lugar.

Struve, que se tornara cada vez mais interessado, remexeu à procura de um lápis entre o tecido e o forro do colete e escreveu “16” no punho esquerdo da camisa.

— Esta é a sala dos adjuntos — explicou o contínuo.

— Estou vendo! Há muitos adjuntos neste departamento? — perguntei.

— Oh, sim! Mais que suficientes!

— E o que fazem o dia inteiro?

— Ora! Escrevem, naturalmente, um pouco...

Ele falava com familiaridade, de modo que achei chegado o momento de interrompê-lo. Depois de atravessar as salas dos copistas, dos notários, do escriturário, do controlador e de seu secretário, do revisor e de seu secretário, do procurador, do registrador do erário, do mestre dos registros e do bibliotecário, do tesoureiro, do caixa, do procurador geral, do protonotário, do guarda das atas, do atuário, do guarda dos arquivos, do secretário, do primeiro escriturário e do chefe do departamento, chegamos a uma porta que trazia, em letras douradas, as palavras: “O Presidente”.

Eu ia abrir a porta, mas o contínuo me deteve; sinceramente inquieto, agarrou-me pelo braço e sussurrou:

— Psiu!

— Ele está dormindo? — perguntei, com o pensamento ocupado por um velho boato.

— Pelo amor de Deus, faça silêncio! Ninguém pode entrar aqui, a menos que o presidente toque a campainha.

— E ele toca com frequência?

— Não, nunca o ouvi tocar desde que estou aqui, e já faz doze meses.

Ele novamente parecia inclinado à familiaridade; por isso, não disse mais nada.

— Por volta do meio-dia, os adjuntos começaram a chegar e, para meu espanto, não encontrei entre eles senão velhos conhecidos da Comissão das Destilarias de Aguardente e da Junta Administrativa das Pensões dos Funcionários.

Meu espanto cresceu quando o registrador da Repartição dos Impostos Internos entrou passeando na sala do atuário e se instalou confortavelmente em sua poltrona, como costumava fazer na própria Repartição dos Impostos Internos.

Chamei um dos jovens de lado e perguntei se não seria aconselhável apresentar-me ao presidente. “Psiu!”, foi sua resposta misteriosa, enquanto me conduzia à sala n.º 8. De novo aquele “psiu!” misterioso.

A sala em que acabávamos de entrar era tão escura quanto as demais, mas muito mais suja. O enchimento de crina rebentava através do couro que cobria os móveis; uma espessa camada de poeira repousava sobre a escrivaninha; ao lado de um tinteiro em que a tinta secara havia muito tempo, jazia um bastão de lacre intacto, com o nome do antigo proprietário gravado em letras anglo-saxônicas; havia ainda uma tesoura de papel cujas lâminas se mantinham unidas pela ferrugem; um calendário de mesa que não fora virado desde o solstício de verão de cinco anos antes; um almanaque do Estado de cinco anos; uma folha de mata-borrão inteiramente coberta com as palavras Júlio César, Júlio César, Júlio César, escritas pelo menos cem vezes, alternando com igual número de Pais Noés.

— Este é o gabinete do mestre dos registros; aqui não seremos incomodados — disse meu amigo.

— Então o mestre dos registros não vem aqui? — perguntei.

— Ele não aparece há cinco anos, e agora tem vergonha de dar as caras.

— Mas quem faz o trabalho dele?

— O bibliotecário.

— Mas qual é o trabalho dele num departamento como a Junta de Pagamento dos Salários dos Funcionários?

— Os contínuos separam os recibos, em ordem cronológica e alfabética, e os enviam aos encadernadores; o bibliotecário supervisiona a colocação deles em prateleiras especialmente adaptadas para esse fim.

A conversa parecia agora divertir Struve; de vez em quando ele rabiscava uma palavra no punho da camisa e, quando Falk fez uma pausa, julgou ser seu dever formular uma pergunta importante.

— Mas como o mestre dos registros recebia o salário?

— Era enviado ao endereço particular dele. Não era simples o bastante? Em todo caso, meu jovem amigo aconselhou-me a apresentar-me ao atuário e pedir-lhe que me introduzisse aos demais funcionários, que então começavam a aparecer para atiçar o fogo de suas estufas de azulejo e aproveitar o último brilho da lenha incandescente. Meu amigo me disse que o atuário era uma pessoa influente e bondosa, muito sensível a pequenas cortesias.

Eu, que já o encontrara na qualidade de registrador do erário, formara dele uma opinião diferente; mas, acreditando que meu amigo sabia mais do que eu, fui procurá-lo.

O temível atuário estava sentado numa poltrona espaçosa, com os pés sobre uma pele de rena. Ocupava-se em curar um verdadeiro cachimbo de espuma-do-mar, costurado em couro macio. Para não parecer ocioso, lançava olhares ao Correio da véspera, inteirando-se assim dos desejos do Governo.

Minha entrada pareceu contrariá-lo; empurrou os óculos para o alto da cabeça calva; escondendo o olho direito atrás da borda do jornal, disparou-me com o esquerdo uma bala cônica. Fiz meu pedido. Ele tomou a piteira do cachimbo de espuma-do-mar na mão direita e examinou-a, para ver até que ponto já a havia escurecido. O terrível silêncio que se seguiu confirmou minhas apreensões. Limpou a garganta; houve um ruído forte, sibilante, no monte de brasas vivas. Então se lembrou do jornal e continuou a leitura.

Achei prudente repetir meu pedido sob outra forma. Ele perdeu a paciência.

— Que diabo o senhor quer? O que está fazendo no meu gabinete? Não posso ter sossego em meus próprios aposentos? Hein? Fora, fora, fora! Estou dizendo, senhor! Não vê que estou ocupado? Vá ao protonotário se quer alguma coisa! Não venha me importunar!

Fui ao protonotário.

A Comissão de Suprimentos estava reunida; já fazia três semanas que se reunia. O protonotário presidia, e três escriturários redigiam a ata. As amostras enviadas pelos fornecedores jaziam espalhadas sobre as mesas, ao redor das quais se ajuntavam todos os escriturários, copistas e notários desocupados.

Apesar de grande divergência de opiniões, chegara-se ao acordo de encomendar vinte resmas de papel Lessebo; e, depois de repetidos testes de sua capacidade de corte, decidira-se pela compra de quarenta e oito pares de tesouras Grantorp, premiadas em concurso. O atuário possuía vinte e cinco ações dessa firma.

O teste de escrita com as penas de aço consumira uma semana inteira, e a ata relativa a ele ocupara duas resmas de papel. Chegara agora a vez dos canivetes, e a comissão se empenhava em testá-los nas folhas da mesa preta.

— Proponho encomendar canivetes Sheffield de duas lâminas n.º 4, sem saca-rolhas — disse o protonotário, arrancando da mesa uma lasca grande o bastante para acender uma fogueira. — O que diz o primeiro notário?

O primeiro notário, que cortara fundo demais na mesa, encontrara um prego e danificara um Eskilstuna n.º 2, de três lâminas, sugeriu a compra deste último.

Depois que todos deram sua opinião e apresentaram razões para sustentá-la, acrescentando provas práticas, o presidente propôs comprar duas grosas de Sheffield.

Mas o primeiro notário protestou e fez um longo discurso, que foi tomado em ata, copiado duas vezes, registrado, ordenado — alfabética e cronologicamente —, encadernado e colocado pelo contínuo, sob a supervisão do bibliotecário, numa prateleira especialmente adaptada. Esse protesto revelava um caloroso sentimento patriótico; seu principal objetivo era demonstrar a necessidade de estimular as indústrias nacionais.

Mas, como isso equivalia a uma acusação contra o Governo — visto que era dirigida contra um de seus funcionários —, o protonotário sentiu ser seu dever responder a ela.

Começou por uma digressão histórica sobre a origem do desconto em artigos manufaturados — à palavra desconto, todos os adjuntos aguçaram os ouvidos —, tocou nos desenvolvimentos econômicos do país durante os últimos vinte anos e entrou em detalhes tão minuciosos que o relógio da igreja de Riddarholm bateu duas horas antes que ele chegasse ao assunto. Ao toque fatal do relógio, toda a assembleia saltou de seus lugares como se um incêndio tivesse irrompido.

Quando perguntei a um colega o que significava aquilo, o velho notário, que ouvira minha pergunta, respondeu:

— O primeiro dever de um funcionário público é a pontualidade, senhor!

Às duas e dois minutos, não restava uma alma sequer em nenhuma das salas.

— Amanhã teremos um dia quente — sussurrou um colega, enquanto descíamos as escadas.

— Que diabo vai acontecer? — perguntei, inquieto.

— Lápis — respondeu ele.

Havia dias quentes à nossa espera. Lacre, envelopes, corta-papéis, mata-borrão, barbante.

Ainda assim, tudo aquilo poderia passar, pois todos estavam ocupados. Mas chegou um dia em que não havia nada a fazer. Tomei coragem e pedi trabalho. Deram-me sete resmas de papel para tirar cópias limpas em casa, feito pelo qual “eu mereceria bem da pátria”. Fiz o trabalho em pouquíssimo tempo, mas, em vez de receber apreço e incentivo, fui tratado com suspeita; pessoas diligentes não estavam em favor. Desde então, não tive mais trabalho.

— Pouparei ao senhor o relato tedioso de um ano de humilhações, as inúmeras provocações, a amargura interminável.

Tudo o que me parecia pequeno e ridículo era tratado com grave solenidade, e tudo o que eu considerava grande e digno de louvor era recebido com escárnio. O povo era chamado de “populaça”, e sua única utilidade era servir de alvo ao exército, caso surgisse a ocasião. A nova forma de governo era abertamente vilipendiada, e os camponeses eram chamados de traidores.[A]

[A] Desde a grande reorganização das repartições públicas, esta descrição já não corresponde à realidade.

— Tive de ouvir coisas desse gênero durante sete meses; começaram a desconfiar de mim porque eu não me juntava a seus risos, e me desafiaram. Na vez seguinte em que atacaram os “cães da oposição”, explodi e fiz um discurso; o resultado foi que ficaram sabendo onde eu estava, e que eu era, dali em diante, impossível.

— E agora farei o que tantos outros náufragos fizeram: lançar-me-ei nos braços da literatura.

Struve, que parecia insatisfeito com aquele final truncado, guardou de novo o lápis, sorveu um pouco de seu grogue e olhou distraidamente. Ainda assim, julgou que devia dizer alguma coisa.

— Meu caro amigo — observou por fim —, o senhor ainda não aprendeu a arte de viver; descobrirá como é difícil ganhar o pão com manteiga, e como isso se torna pouco a pouco o interesse principal. Trabalha-se para comer e come-se para poder trabalhar. Acredite em mim, que tenho mulher e filho, sei do que estou falando. É preciso talhar o casaco conforme o pano, entende? Conforme o pano. E o senhor não faz ideia de qual é a posição de um escritor. Ele está fora da sociedade.

— Seu castigo por aspirar a ficar acima dela. Além disso, detesto a sociedade, pois ela não se funda numa base voluntária. É uma teia de mentiras — renuncio a ela com prazer.

— Está começando a esfriar — disse Struve.

— Sim; vamos?

— Talvez seja melhor.

A chama da conversa se apagara. Enquanto isso, o sol se pusera; a meia-lua subira e pendia sobre os campos ao norte da cidade. Estrela após estrela lutava contra a luz do dia que ainda permanecia no céu; os lampiões a gás estavam sendo acesos na cidade; o ruído e o tumulto começavam a morrer.

Falk e Struve caminharam juntos na direção do norte, falando de comércio, navegação, ofícios — enfim, de tudo o que não lhes interessava; por fim, para alívio de ambos, separaram-se.

Falk desceu sem rumo pela Rua do Rio, em direção ao estaleiro, o cérebro prenhe de pensamentos novos. Sentia-se como um pássaro que tivesse voado contra uma vidraça e agora jazesse machucado no chão, no exato momento em que abrira as asas para voar rumo à liberdade.

Sentou-se num banco, escutando o marulho das ondas; uma brisa leve se erguera e farfalhava entre os bordos floridos, e a luz tênue da meia-lua brilhava sobre a água negra; vinte, trinta barcos estavam amarrados ao cais; por um instante, puxavam suas correntes, erguiam a cabeça, um após outro, e mergulhavam de novo sob a água; o vento e a onda pareciam impeli-los para diante; davam pequenas arrancadas em direção à ponte, como uma matilha de cães, mas a corrente os mantinha na trela e os deixava escoiceando e batendo, como se ansiassem por se libertar.

Permaneceu sentado até a meia-noite; o vento adormeceu, as ondas se aquietaram, os barcos acorrentados cessaram de puxar suas correntes; os bordos pararam de farfalhar, e o orvalho começava a cair. Então ele se levantou e voltou para casa, sonhando, rumo ao seu sótão solitário no nordeste da cidade.

Foi isso que o jovem Falk fez; mas o velho Struve, que naquele mesmo dia se tornara membro da redação do Barrete Cinzento, porque o Barrete Vermelho o despedira, voltou para casa e escreveu, para a notória Bandeira Operária, um artigo sobre a Junta de Pagamento dos Salários dos Funcionários: quatro colunas, a cinco coroas por coluna.

O Quarto Vermelho

Sinopse

Romance de estreia de August Strindberg, publicado em 1879, O Quarto Vermelho acompanha a desilusão de Arvid Falk em meio à imprensa, à burocracia, à arte e às sociabilidades de Estocolmo. Esta edição Literunico em português brasileiro foi preparada a partir da tradução inglesa em domínio público de Ellie Schleussner, com cotejos editoriais pontuais do sueco.

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LITEBN
LITEBN-978650854322619038234456
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