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Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série

Universo da obra

Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série

Capítulo 1 · Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série

Um século de literatura

Os primeiros aiinos do século XIX são de decadência, do estagnação completa para as letras no Brazil. Após o brilho dos Mineiros, de Basilio da Gama, de Silva Alvarenga, succede, até os últimos annos de 30, o escuro, que um ou outro talento de mais porte, Souza Caldas, JoséEloy Ottoni, José Bonifácio, Pedra Branca, mal consegue allumiar com a sua luz, aliás pouco intensa. Nesse primeiro período do século, uma historia minuciosa da literatura brazileira contaria muitos nomes, além desses, mas nenhuma obra das que vivem ou merecem viver: Antônio Mendes Bordallo, Joaquim José (ia Silva, Domingos Caldas Barbosa, Francisco de Mello Franco, Bento de Figueiredo Tenreiro Aranha, Manoel Joaquim Piibeiro, Fr. Francisco de S.

Carlos, Marquezde Paranaguá, Visconde de Caravellas, Paulo José de Mello Azevedo e Brito, José da Nalividade Saldanha, Luiz Paulino Pinto de França, Joaquim José Lisboa, Gaspar José de Mattos Pimenlel, Januário da Cunha Barbosa, Padre Silverio da Paraopeba, Ladisláo dos Santos Tilara, João Gualberto Ferreira dos Santos Picis, Álvaro Teixeira de Macedo, Francisco Bernardino Ribeiro, Antônio Augusto de Queiroga e ainda menores, e todos de poetas. Nenhuma obra em prosa de qualquer gênero literário apparece no Brazil antes dos annos de 40. A só manifestação do pensamento existente é cm verso que se faz. A literatura — a expressão espiritual da vida nacional — resume-se na poesia. Ella é de facto a fôrma e a lingua dos povos cm nascimento, dos primitivos, o idioma especial cm que, antes de chegarem á idade da razão e da cultura, os povos exprimem as suas.sensações e as suas idéas, contara as suas íicções c a.sua mesma historia, misturada de lendas.

No Brazil, até á segunda metade do século XIX, a literatura propriamente dita, isto é; a obra escripla com uma intenção literária e de arte, é quasi exclusivamente constituída pela poesia, si não o é totalmente. A existência daquelles poetas no começo do século e até o cabo de seu primeiro quartel mostra que, embora desfallecida e decadente, a cultura das musas, segundo a linguagem dos tempo, cultura sempre viva na raça porlugueza, se não perdera de todo aqui, num tempo em que uma profunda decadência literária reduzia a literatura portugucza aos miseráveis gênios da Nova Arcadia, ao prodigiosoeôcoversejador Bocage, ao insupportavel José Agostinho de Macedo e ao copioso e duro metrificador Filinlo Elysio — quescão os typos eminentes da época. De factdsó Bocage linha talento —Filinto não tinha mesmo nenhum — nessa ultima geração poética portugueza do século XVIII e comeces do XIX, mestra c guia da nossa no mesmo periodo.

Dos poelas nomeados, alguns, como Mendes Bordallo e Caldas Barbosa, apenas têm de braziteiro o accidente do nascimento, pois viveram e poetaram exclusivamente em Portugal. Barbosa tinha, além disso, o tocar viola e cantar modinhas, o que o tornou querido nos saráos da gento fina de Lisboa, o llie mereceu a protecção decidida dos condes de Pombeiro. As obras mais notáveis desses poetas, apparecidas neste periodo, são: Obras poéticas, de Manoel Joaquim Ilibeiro, Lisboa, '1(S05; Cantigas,de Caldas Barbosa, Lisboa, 1806-1807, contrafacçào na Bahia em 1813; Paraphrase dos provérbios de Salomão em verso portuguez, por José Eloy Oltoni, Bahia, 1815, lendo este poeta publicado em Lisboa, em 1801-1802, sob O titulo de Analia de Josino, uma coUecçào de lyras e sonetos e no Rio de Janeiro, em 1811, outras poesias avulsas; Assumpção, poema de Fr. Francisco de S. Carlos, Rio de Janeiro, 1819; Obras poéticas do Padre Souza Caldas, Pariz 1820-21; Poemas offereeidos aos amantes do Brasil, de José deNalividade Saldanha, Coimbra, 1822: Poesias offerccidas ás senhoras brazileiras por um Bahiano.

do Visconde da Pedra Branca, Pariz, i8'i~i,; Nitherohr/, poema do Gonego Januário da Cunha Barbosa, Londres, 1822; Poesias avulsas de America Elysio, de José Bonifácio, Bordeaux, 1825; os primeiros volumes das Obras de Santos Titara, de 1829 e annos seguintes. Uma re])usca mais minuciosa e completa poderia descobrir alguma cousa mais, algum livro provinciano, folhas avulsas, opusculos quasi ignorados com versos de comprimentos, odes allusivas, felicitações a poderosos, conforme a moda do tempo; cousa de mais valor duvido encontrasse. A imprensa foi estabelecida no Brazil, no Rio de Janeiro, em 1808. Era ofíicial a primeira lypographia aqui fundada, o por muito tempo a única, a Impressão Regia chamada. As obras que delia nos primeiros annos sairam, foram publicações ofíiciaes, pastoraes episcopaes, livros de piedade e edificação, de propaganda política dos interesses dynasticos, memórias economi- cas, livros didaclicos, em geral traduzidos, sermões, odes avulsas dirigidas aos príncipes, reimpressões de algum livro porluguez, traducções.

Na longa lisla das obras dali saldas se não encontra, além de composições poéticas de nenhum valor, de reimpressões (entre outras, em 1810, da Marilia de Dirceu) e traducções, nada que seja propriamente literatura. Esla vivia então exclusivamente da poesia. O theatro era porluguez, original ou traduzido, e de commum também em verso; a íicção em prosa não apparecêra ainda entre nós, a historia estava abandonada, a critica não existia, a philosophia era puramente oral, feita nas classes dos seminários e conventos. A prosa não tinha oulro emprego que as memórias econômicas, agrícolas, políticas — todas numerosas no tempo, e na polemica jornalislica, que ia começar com a agitação da independência. A poesia de alé 1810, porém, apezar de occupar só o campo da literatura, ou talvez por isso mesmo, é dcsvaliosa e sem caracter. Si a banalidade pudesse distinguir, seria ella a sua característica. É o classicismo dessorado, anêmico, gasto por uma imitação que se não renova e ao contrario ha séculos se repete.

Contemporâneos ainda do facto mais estrondoso do mundo moderno, e alguns também do movimento philosophico que o precedeu, não revelam. entretanto, esses poetas que o mundo real existisse para elles. O seu pensamento é o atrazado e rotineiro pensamento portuguez, ainda mais apoucado em um estreito meio colonial, de um século atraz. Afora, talvez, Souza Caldas, a quem a forte poesia biblica empresta ainda a sua força, e José Bonifácio, cuja larga cultura injecta sangue novo á depauperada musa lusitana, todos esses poetas são sem valor algum. Valem apenas por não terem deixado interromper de lodo a tradição da nossa poesia. Os primeiros tempos da independência, e mesmo os primeiros annos que se seguiram, todos occupados pela agitação política, não deixaram lugar para as preoccupações literárias. De '1822 a 1830, além do já citado, nada mais se publica no Brazil e de Brazileiro digno de menção e apreço. A poesia, essa mesma, nos annos da independência calou-se, talvez envergonhada dos liymnos patrióticos de Evaristo da Veiga e quejandos vales.

É nos últimos annos de 30 que se manifesta no Rio de Janeiro, centro único da vida espiritual brazileira, e delle se irradia frouxamente pelo paiz, um movimento intellectual, que corresponderia na ordem do espirito ao que foram o 7 de setembro de 22 e o 7 de abril de 1831 na ordem política. Si a ordem interna não estava ainda firmada, já não havia duvidas sobre a estabilidade da independência, da nova nacionalidade e das mesmas instituições, que desde 37 ganhavam força bastante para resistirem aos embates da guerra civil começada dons annos antes no Rio Grande do Sul, c das revoltas de 1842 em Minas e de 48 em Pernambuco. A joven nacionalidade assente, confiada em si, esperançosa, cheia do orgulho da sua aliás fácil victoria, como que sentia no seu organismo novo a falta de um órgão e a necessidade de exprimir-se por elle. A creação, em 1838, do Instituto Histórico e Geographico Brazileiro, correspondeu, creio, a este sentimento e a esta aspiração.

A despeito do seu titulo e do seu fim especial, essa associação, que no primeiro momento recolheu o que havia no paiz de mais distincto em letras e sciencias, e que com pouco se faria illustre, foi de facto um centro de irradiadiação literária, sendo um ponto de convergência e de contacto, sobretudo pela sua Revista, de todos os espirites cultos e homens de letras do paiz. Até certo ponto, exerceu o Instituto Histórico a funcção de uma Academia, congregando os esforços esparsos, provocando estudos, estimulando vocações tibias ou desamparadas, facilitando a publicação de trabalhos, consagrando escriplores, creando, em summa, a preoccupa- ção espiritual das cousas brazileiras. E o seu máximo serviço ás nossas letras foi dar-lhes a base histórica e tradicional, sem a qual impossível é exista uma literatura original ou ao menos nacional.

Comprehendendo largamente a historia e a geographia, o Instituto Histórico animou de facto o estudo do Brazil sob todos os aspectos, não esquecendo o ethnographico, que teria uma tão grande influencia na literatura, de que alguns dos seus sócios mais illustres seriam os creadores. Antes da Revista do Instituto, Gonçalves Magalhães, Salles Torres Homem e o Francez E. Monglave publicavam em Pariz, em 1836, uma revista brazileira de sciencias, letras e artes, e simultaneamente com aquella erão aqui publicadas a Minerva Braziliense (1843), o íris (1847), o Guanabara (1849), e a primeira Revista Brasileira (1857), todas consagradas ás sciencias, letras e artes. Favorecendo, acompanhando, estimulando, dirigindo o movimento literário que se pronunciava, surgia a critica com Torres Homem, Gama Castro, Paula Menezes, Varnhagen, Pereira da Silva, Norberto de Souza, Santiago Nunes Ribeiro, José Soares de Azevedo e outros, que naqucUas revistas escreviam sobre a literatura nacional sua contemporânea.

Magalhães, Domingos José Gonçalves de UM SÉCULO DE LirWlATUUA Magalhães, futuro Visconde de Araguaya, é o chefe do movimento. Lendo-o hoje, malcomprehendemos a impressão que elle fez no seu tempo, ecomo a critica, quasi unanime, e não só a critica mas a nação, que podemos dizer que ainda enlão lia os seus autores, o consagrou como o grande poeta nacional, o creador da literatura brazileira. Elle nos parece agora apenas um pseudoclassico, de talento não muito elevado, e que somente houvesse despido o apparelho mylhologico e outros accessorios da velha poética, sem haver adoptado com intelligencia e convicção os da nova. Em 1832 publicou Magalhães um volume de Poesias, que não destoariam no parnaso coévo. Em Pariz, para onde foi com um cargo diplomático, publicou em 36 os Suspiros poéticos e Saudades, que a falta de outros poetas melhores, a ajuda da critica amiga, e, sobretudo, as circumstancias, fizeram um acontecimento literário, o ponto de partida da nova literalura, uma data da nossa historia literária.

Não nos insurjamos desasisadamente por isso, nem accusemos os nossos pais de mau gosto ou de falia de senso critico. Em primeiro lugar, a poesia quasi não existia aqui: íicara-se em Titara, em versos patrióticos, capazes de fazerem de um homem de bom gosto um renegado, de odes laudatorias e que taes productos de uma musa em completo esgotamento. Depois, a nova nacionalidade queria ter também a sua literatura, emancipar-se também intellectualmente. Havia nella, e jamais houve depois, um ardor de viver, um enthusiasmo juvenil e creador, de que os coryplieus do romantismo aproveitaram sem talvez o merecerem. Leiamse as criticas do tempo e estes mesmos poetas, Magalhães e Porto Alegre, e ver-se-á que não fantasiamos. Magalhães exclamava no final do seu poema — Deus e o homem, de 1834, supplicando a Deus: Nada por mim, por minha Pátria tudo, Fados briltiantes ao Brazil concede. e Porto Alegre brada, em um verso de ponta de lenço de patriota de 1830: O ítalo, o Franco e o Britano Conquistaram o orbe inteiro! Mas a conquista dos ares Deu-a Deus a um Brazilelro!

A detestável estrophe é de um poema das Bra::ilianas, consagrado a Bartholoineu de Gusmão. Era este o diapasão da alma dos poetas e dos seus leitores. Magalhães é um chefe quasi sem soldados, um mestre quasi sem alumnos, e elle, quasi SÓ, eccupa o Parnaso nacional por alguns annos. O seu mais notável discípulo é Porto Alegre, que começa a poetarem 1836 na revista Nitlierohy, dirigida por Magalhães em Pariz, mas que só publica volume em 1845, no Rio. São as Brasilianas a mais enfadonha leitura que é possível imaginar. Mas o que devia levantar ainda mais o nome de Magalhães e consagrarlhe deíinilivamente a reputação, seriam as suas obras dramáticas, a que', parece, o gênio de xloão Caetano emprestaria a força que lhe não sentimos ã leitura. Dous annos antes de Garrcit crear o theatro portuguez moderno, Magalhães o inaugura aqui, com o Antônio José ou o poeta e a inquisição, representado em 1838. Um anno depois dava elle a tragédia Olgiato, e mais tarde o Othello, traduzido de Ducis. A gloria do autor dramático devia servir a do poeta — e foi o que succedeu.

Nem Magalhães, nem Porto Alegre foram verdadeiramente românticos. São dous temperamentos clássicos, de clássicos de decadência, perdidos no romantismo. Achando-se no foco do romantismo na Europa, no momento do seu apogeu, elles, não duvido dizer, não o comprehenderam. Filinto Elysio, também, atravessou a Revolução franceza sem se aperceber delia. Ha naturezas que, sem nenhuma originalidade, são entretanto refraclarias aos contactos exte- riores. Basilio da Gama é mais romanlico que Magalhães ou Porlo Alegre. Entretanio são estes os promotores do nosso romantismo, que Gonçalves Dias, dez annos mais tarde, devia de facto crear. Não neguemos, porém, a Magalhães e Porlo Alegre a parte relevante que lhes cabe na nossa literatura, no momento em que com elles pincipalmeate nascia ella para uma existência mais conscientemente nacional. Qualqu(;r que seja o valor esthetico da sua obra, ella só por si, pela sua variedade — poesia, historia, critica, theatro, philosophia — pelo seu mesmo volume, contribuiu poderosamente para a sua creação.

E, somente sob o aspecto da belleza, ha na Confederação dos Tamoyos a no Colombo trechos magniticos. Gonçalves Dias publica successivamente em 1846, 1848 e 1851 sens Primeiros, Segundos e Últimos Cantos, e então vê o Brazil o que era de facto um grande poeta, e tem uma sensação nova na poesia. O romantismo lá eslava na predominância do sentimento, na abundância do subjeclivismo, o, sob o aspecto social, no erro — felix culpa! — de lomar o indio pelo nosso antepassado e voltar-se para elle como os românticos europeus se voltavam para a idade média. Gonçalves Dias creava o indianismo, não o indianismo puramente rhelorico de Basiho da Gama e Durão, mas o indianismo intencionalmenle amoroso do nosso selvagem. Pela primeira vez a nossa poesia Iraz um sopro em que se misturam.

na realidade o acre das essências e o suave dos perfumes da nossa malla virgem, o hálito dos nossos campos, o sentimentalismo dengoso e sensual da nossa paixão amorosa, da nossa dôr, em que se casam a saudade do Porluguez e a nostalgia do negro, alguma cousa emfim que era bem nalivo, como que a nossa poesia popular, a nossa modinha, sublimada alé á grande poesia e impregnandoa do seu sentimento o da sua melancolia. Pela primeira vez a idealização do selvagem despertava em nossas almas a nossa sensibilidade por esses miseráveis, a que a reacção romântica, exagerando, ia emprestar aspectos cavalheirescos e gloriosos. Era novo, não estava em Garção, nem cmDiniz, nem nos Arcados, nem nos Mineiros, nem mesmo em Durão ou Basilio ou ainda em Magalhães e Porto Alegre. A veia épica da poesia portugueza creada por Camões, dessangrada embora, não se extinguira ainda do Brazil em meio do século.

Em 47 publicava Antônio Gonçalves Teixeira e Souza o primeiro volume (o segundo saiu em 55) do seu poema épico em doze cantos, A Independência do Brazil; em 57 Magalhães e Gonçalves Dias publicavam quasi simultaneamente A Confederação dos Tamoyos e os Tymbiras. Joa- quim Manoel de Macedo, no mesmo anno, dava A Nebulosa, poema ullra-romanlico, em que ha trechos de real vigor c belleza. Enlre os poetas do tempo convém ainda contar Odorico Mendes, Joaquim Norberto, e somenos. Mas o decennio de 50 a 60 devia ver surgir da semente lançada á terra por Magalhães, e sobreludo por Gonçalves Dias, a serie dos poetas mais notáveis, mais espontâneos, mais sinceros, mais verdadeiramente poetas que, com ■esle ultimo, jamais teve o Brazil: Alvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu, Laurindo Piabello. Estes poetas vêm até aos annos de 60. Com elles entra na nossa poesia e na nossa literatura o romantismo sceptico ou desesperado de Byron, Musset, Espronceda, e o sentimenlalismo, sem a rehgião, de Lamartine.

Os que lhe succcderam mais proximamente, Bernardo Guimarães, Aureliano Lessa, Fagundes Varella, não se distinguem notavelmente delles, principalmenles os dous últimos. Castro Alves é dos últimos annos de 60 e dos primeiros de 70. Aparta-se dos da geração prcccdenie por maior arroubo do estro, imaginação mais viva, um grande enthusiasmo e, essencialmente, novas preoccupações sociaes. Com Magalhães e Marlins Penna, comediographo seu contemporâneo, tinha o Iheatro nascido no Brazil, podemos fixar a data, em 1838. Com esses dous autores, dos quaes foi Penna o creador, com a 1'arça, da comediu nacional, devemos conlar mais como escriplores dramáticos dignos de no Ia aqui: Joaquim Manoel de Macedo, Agrário de Menezes (morto em 63), e José de Alencar. E' muito maior o numero dos que só se podem chamar autores de theatro. O tlieatro teve em gei^al no Brazil, e particularmente no Rto de Janeiro, muito melhor situação que a que tem hoje. E' Joaquim Macedo o creador do i^omance brazileiro, com o Forasteiro, de 1889.

Acompanham-no Teixeira e Souza, Joaquim Norberto, que se encontra, laborioso sem gênio, em todos os gêneros da nossa literatura, que deve aliás muito á sua obra de erudição literária, Pereira da Silva e outros de ainda menor valor. Será, porém, José de Alencar o grande romancista do romantismo aqui, eque nos dará o quadro mais perfeito e mais completo da vida brazileira. As suas obras capitães não são, entretanto, ao meu ver, nenhuma das suas descripções dessa vida, sinão duas idealizações da vida selvagem no seu contacto com a porlugueza. O Guarany {Í857) e a Iracema {1865). Um outro romancista que é preciso ei lar, é Bernardo Guimarães, cujo primeiro romance, O Erinitão do Muquem, é de 1858.. Depois delles, no tempo, vêm Taunay (Sylvio Dinarte) cuja Innoccncia é uma das obras primas da nossa literatura, e Macliado de Assis, ainda vivo, o patriarclia querido e admirado da nossa lileralura, cuja obra, quer como poela, quer como romancista, occupa nella um lugar á parle e distincto. O i'omanlismo íizera vollar os nossos poetas para a consideração e estudo de nós mesmos e do nosso meio.

Elles o fizeram quer em verso, quer em prosa, com o partido determinado de brazileirismo. E. em sumnia, ó na sua obra que se encontra a deíinição da vida brazileira. Nem todos os aspectos dessa vida estão nella representados, a imitação estrangeira de um lado, e de outro o exclusivismo da vida literária na « Corte T, freqüentemente alheiaram os nossos romancistas de uma representação exacta e completa do mundo e da sociedade que se offereciam á sua observação. O naturalismo, que aqui data dos annos de 80, quando já elle entrava em decliniona França, d'onde o tomámos, não teve em a nossa literatura a importância do romantismo, nem o seu vigor. Com elle se multiplicam, sinão os romancistas, os novellistas ou contistas, que foram e são numerosos. No naturalismo enxortou-se alguma cousa das novas tendências, ou antes da fôrma das novas tendências estheticas, conhecidas em França com o nome geral e impreciso de sym- bolismo, e das preoccupações psychologicas do romance francez contemporâneo, e a nossa ficção ganhou de algum modo cm inlelligencia.

O naturalismo na poesia precedeu no Brasil o naturalismo no romance, sob a tbrma chamada em França parnasianismo. Salvo aos seus representantes mais eminentes, o esses são Ires ou quatro, essa poesia Ibi aqui muito inferior á romântica, e toda de imitação, lendo-se-talvez nella perdido as melhores qualidades do lyrismo brazileiro. Não é este o lugar para maiores desenvolvimentos, nem para dizer de outros aspectos da literatura, a historia, a philosophia, a moral, a erudição, que aqui são propriamente deste século também com Varnhagen, ocreador da nossa historia, com Caetano da Silva, com Cândido Mendes, com João Lisboa, o mais philosopho dos nossos historiadores, o mais correcto dos nossos escriptoros, com Sotero dos Reis, com Pereira da Silva, com Júlio Ribeiro, e com outros, cujos nomes escapam á minha penna. Deve-se dizer da nossa literatura que ella tem vivido muito do imitação; mas isso não é deprecial-a. Todas, as mais ricas, vivem de escambos de idéas e concepções. Somente nós não trocamos, apenas recebemos.

Nem podemos pretender a uma literatura original, não tendo, nem podendo ler, um pensamento original, c não sendo nós, sociologicamente, uma organisação clhnica original. E' a França, e, cm segundo grau, Portugal ([ue tem fornecido idéas, moldes, inspirações ao nosso pensamento literário. A literatura franceza, aliás a mais rica e formosa do século, é-nos mais familiar talvez que a portugueza. Todos os seus grandes autores do século, de Ghatcaubriand a Zola, de Victor Hugo a Verlaine, tiveram aqui notável influencia. Não foi certamente menor a dos Portuguezes, Hcrculano, Garrelt, Castilho, Castello Branco, Tlieophilo Braga e os coimbrões, Eça de Queiroz, Ramallio Oríigão e derradeiramente dos « novos » dali, Eugênio de Castro, Antônio Nobre e Alberto de Oliveira. Para dar ao nosso pensamento sinão mais originalidade, mais força; para pôl-o em estado de melliorjulgar o pensamento europeu, e translundil-o no nosso pensamento próprio, o que nos falta é cultura e os hábitos de reflexão que ella impõe.

Ha, porventura, muita seiva na nossa intelligencia literária, prompta e fácil; mas falta-lhe a cultura, feita irregular, mal e apressadamente, sem nenhuma correspondência com a cultura literária de outros paizes, mesmo da America. Ora, sem ella, não vejo que uma literatura possa prosperar e sair dos constantes inicios em que mais ou menos tem andado a nossa. Não quiz falar dos vivos, receioso de esquecer, mau grado meu, nomes e obras; nào signiíica esse silencio que não se faça neste acabar do século no paiz nenhum trabalho literário. A verdade c que, não obstante as condições sociaes serem antipathicas a toda a forma de vida espiritual, ha quem ainda continue a viver principalmente dessa vida... cm 2 3 4 unesp" 7 9 10 11

Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série

Sinopse

Leia gratuitamente Estudos de Literatura Brasileira: 3ª Série, de José Veríssimo, obra crítica em domínio público publicada em 1903. Texto preparado em HTML para leitura online no Literunico, com 14 ensaios, capa nova no padrão Literunico, fonte BLPL/UFSC validada, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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