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Suspiros Poéticos e Saudades

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Suspiros Poéticos e Saudades

Capítulo 1 · Suspiros Poéticos e Saudades

Artigo de Sr. Torres-Homem

ARTIGO

DO

S FRANCISCO DE SALES TORRES-HOMEM,

PUBLICADO NA REVISTA BRASILIENSE,

IMPRESSA EM PARIZ EM 1836

Desde os principios do seculo actual uma grande reacção começou a abalar os antigos fundamentos do reino mysterioso das Musas. O vago das lembranças do berço da civilisação moderna, os sublimes pensamentos do Christianismo, a simplicidade das scenas da natureza, que tão tocantes relações offerecem com as miserias do nosso coração, pareceram uma fonte de emoções mais delicadas e verdadeiras que os engenhosos sonhos da antiguidade. Faltava á lyra antiga essa corda grave e chorosa, pela qual se exprime a religião, e o infortunio; faltava-lhe a consonancia com os sentimentos poeticos da existencia, e com a eterna melancolia do pensamento moderno. Essa poesia, remanescente da poeira de um mundo que acabou, transportava-nos fóra da esphera dos nossos habitos, principios, e costumes, e nem o segredo podia adivinhar dos nossos sentimentos. Preciso era que de industria nos transformassemos em Gregos ou Romanos, despindo-nos de tudo o que constitue a individualidade do homem de hoje, por que nos enternecessemos pelo pantheismo phenomenal da Grecia e de Roma, e pelos sentimentos estrangeiros dessas illustres mortas. Mas ainda assim, o peso, das nossas crenças precipitava todas as sombras evocadas do polytheismo; ellas dissipavam-se ao primeiro movimento dos nossos sentimentos reaes, como ao primeiro albor da aurora fogem os phantasmas que as trevas simulam. Como tudo o que é grande, bello, e verdadeiro, foi pleno o succeso da reacção contra a imitação da poesia antiga. O Christianismo, banindo do Universo as elegantes divindades, de que o povoára a mythologia, restabelecêo a majestade, a grandeza, e a gravidade da criação, e nova carreira abrio á poesia, que té então não podia encarar a natureza senão a través das ficções consagradas por Hesiodo, e por Homero. Nestas novas fontes bebe hoje suas mais brilhantes inspirações não só a poesia, como as artes, e a philosophia, irmã da theologia.

Entretanto que este movimento remoçava com uma vida toda nova, e mais florente que a primeira, a litteratura europea, os poetas da nossa lingua iam muito satisfeitos batendo a estrada sediça, e dizendo-se inspirados pelas Musas pallidas e decrepitas do Parnaso. Mas eis que um joven poeta da nova escola, nascido debaixo do céo pomposo do Río de Janeiro, ardente de futuro, e de gloria, com a cabeça repleta de harmonias, e o coração pesado de nobres emoções, acaba de relevar a pobreza da nossa litteratura com um volume admiravel de poesias. Profundo sentimento dos segredos do gosto, o qual é o bom senso do genio, sentimento bem raro nas producções da mocidade, levada sempre para o grandioso extravagante; riqueza, variedade, e excellente concepção de imagens, que imprimem um effeito magico á doce melancolia do poeta; perfume, e unção religiosa espalhada sobre as scenas da natureza; elevação dos pensamentos philosophicos, inspirados pela escola idealista allemã, e pelas doctrinas do Christianismo; pureza, e pompa de versificação; taes são em resumo os meritos dos Suspiros Poeticos do Sr. Magalhaens. O espaço nos falta, e só uma amostra incompleta podemos dar, extrahindo alguns fragmentos, que por separados do todo perdem um tanto da sua belleza…

A incerteza da duração da existencia, que como um contrapeso conserva-nos suspensos no meio das illusões da vida, era assumpto que naturalmente devia offerecer-se á meditação do poeta. No momento mesmo em que o mundo vacilla em torno de nós, em que os mais descorados objectos se tingem de brilhantes cores, em que uma superabundancia de vida parece trasbordar do nosso seio, e vivificar tudo o que nos cerca, a onda rapida da vida vai passando, e de chimera em chimera nos lança fóra do nada da existencia, quando cuidavamos colher a flor promettida pela esperança. O Canto do Cysne diz essa fragilidade da vida com uma simplicidade profundamente tocante, e com aquella harmoniosa tristeza de meditação, que corresponde ao que ha de mais vago, de mais indefinido, e ao mesmo tempo de mais intimo em nossa alma.

Entre tantas outras magnificas harmonias, de que os limites circumscriptos desta noticia não nos permittem dar uma idéa, apparece o Cantico de Waterloo, composição notavel pela novidade das imagens, vigor do colorido, e energia da expressão. Por meio d’ella o Sr. Magalhaens dêo-nos a mostra de que podia tirar das cordas da sua lyra os sons os mais diversos, e todos iguaes na grandeza dos effeitos. Para entoar o cantico desse drama terrivel, que se chama a Batalha de Waterloo, donde a mais gigantesca realidade que ha passado sobre a terra, foi exhalar-se como um sonho na extremidade solitaria dos tres continentes, o engenhoso vate suffoca por momento os accentos favoritos do seu coração. Aqui não sôa mais essa voz docemente gemebunda da Musa, que soffre com o espectaculo da vida; seu enthusiasmo parece acender-se no fogo do raio, e o tumulto das armas lhe retine nos versos.

A inspiração do poeta compara o Heróe de Austerlitz ao Astro da luz, que caminha ao occáso. E na verdade ha em Napoleão alguma cousa da immensidade das maiores obras da criação. Surgido de uma ilha, vai sepultar-se em uma outra ilha, no meio dos mares, onde Camões situou o Genio das Tempestades, depois de ter em seu gyro espantado os povos com tão grandes revoluções. Esse halito inflammado, que suffoca as phalanges inimigas, e accende a coragem das suas; esse effeito de orchestra produzido pelos horrores da guerra; essa abóbada de balas, que penetradas de respeito, á maneira de submissos leões, apenas ousam lamber o pés do ginete, — são ardidezas de uma sublime energia, e que traçam ao vivo as proporções colossaes de genio do grande homem, diante de cujo sopro se aniquilam todas as humanas resistencias, e até a natureza physica parece curvar-se de respeito.

As saudades da patria, e as reminiscencias das impressões da primeira juventude, que mais tarde, depois de uma amarga experiencia do mundo e dos homens, apparecem como ruínas vistas ao clarão do archote, são para o genio do Sr. Magalhaens uma fonte inexgotavel de inspirações. No meio de todos os povos, ao longo dos caminhos desertos, no tope das montanhas cobertas de gelo, nos valles sombrios, a lembrança do Brasil faz vibrar todas as cordas do coração do poeta. Os Suspiros á Patria, arrancados do mais intimo d’alma, correm parelhas com os bellos versos, versos saudosos do infeliz lord Byron em Newstead Abbey aos olmeiros de Harrow, cujas sombras lhe abrigaram o berço.

Este volume de poesias do Sr. Magalhaens não é somente uma collecção de bellas harmonias, mas tambem um codigo de moral na sua expressão a mais sublime, nas suas fórmas as mais ternas e consoladoras, e cuja luz alumia sem irritar os olhos, como o doce clarão que a lua espalha sobre um dédalo de flores. Elle é proprio a aplacar a necessidade de emoções grosseiras, que a nossa epocha agita. O sopro do infortunio, da religião, e da philosophia animou esses cantos, onde domina um doloroso enthusiasmo por tudo quanto é grande, bom, e justo. Parece que a Providencia faz soffrer todos os poetas de genio, afim que instruam os outros homens com a sublime melodia dos seus gemidos: as criaturas mediocres soffrem menos, porque seus queixumes não teem harmonia, e são um desacordo de mais entre os sons confusos do mundo moral.

Esta producção de um novo genero é destinada a abrir uma era á poesia brasileira. Permitta Deos que ella não fique solitaria no meio da nossa litteratura, como uma sumptuosa palmeira no meio dos desertos. Apezar de tudo, cremos que o tempo futuro não conseguirá riscar da memoria dos admiradores das musas o nome do auctor dos Suspiros Poeticos. Dizemos apezar de tudo, porque nós outros Brasileiros não podemos soffrer reputações; nosso orgulho é em extremo susceptivel; elle desconfia dos menores successos; um nome pronunciado tres vezes nos importuna, e irrita. O Brasil não está hoje para as lettras, e as sciencias. Entre nós quantos talentos passam incognitos na vida, como esses ríos sem nome nas suas solidões! A nossa mocidade tão bella e esperançosa, por falta de direcção, de carreira, e de espirito publico, esgarra-se em falsos caminhos, ou debate-se inutilmente no meio de uma sociedade obscura. Os homens que dirigem os destinos do Brasil, sem comprehender as condições de sua missão, parecem ter dado as mãos a todas as influencias do mal, para aggravar o estado da triste epocha em que vivemos. Cada dia que corre, receamos seriamente ler nas Gazetas, que por mandado da sabia e liberal administração, o fogo fôra lançado aos estabelecimentos consagrados aos progressos da intelligencia e da civilisação. Ao menos haveria nisso o merito de um systema de trevas logicamente combinado, e aquella belleza da desordem perfeita, que os antigos estamparam no semblante das furias. Onde estão esses illustres regeneradores, que um bello dia declararam á face do paiz, que o homem nascêra philosopho, e que o estudo da sciencia e das lettras era pura chimera? Por detrás dos homens actuaes não estão escondidos outros homens; o que hoje fere as vistas no Brasil não é uma excepção, e porêm sim o estado geral das idéas, proveniente do scepticismo moral, da indifferença para o bem e o mal, da nullidade dos caracteres extranhos a todos os nobres sentimentos, e votados a um duro egoismo, e alfim, da extincção dos sentimentos religiosos, que são o contrapeso das humanas loucuras. Ha alguns annos, bem difficeis eram as circumstancias do Brasil, e da sua mocidade; mas do proprio excesso dos males a esperança renascia; o presente era então sem alegrias, mas contava-se sobre um melhor futuro. O estado actual pesa sem esperanças como uma maça de ferro sobre todos os bons espiritos; tanto é elle pouco unísono com as cousas que se vão arrastando a nossos olhos.

Desgraçada mocidade!

F. S. TORRES-HOMEM.

Suspiros Poéticos e Saudades

Sinopse

Leia gratuitamente Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, obra fundadora do romantismo brasileiro, publicada originalmente em 1836. Texto integral em domínio público preparado em HTML para leitura online no Literunico, com fonte Wikisource validada, 57 unidades, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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