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Os Decadentes

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Os Decadentes

Capítulo 1 · Os Decadentes

Prólogo

A sociedade portuguesa atravessa atualmente uma fase tão singular e estranha, que só

a uma intensa e predominante tára doentia ela se póde atribuir.

Essa fase abrange, na imensidade dos seus tentaculos, todas as manifestações da mentalidade e do espirito humano, pelas quaes se avalia da civilisação e da prosperidade moral dos povos civilisados.

Ha uma absoluta falencia e carencia de principios, de ideias, de crenças, de dedicações, de “ enérgias, de criterio, de verdade, de justiça, de bom senso e de honestidade!

Anciosas de gozar rapidamente os bens mat+-

riaes da existencia, as almas e os cerebros não se preoceupam nem se demoram no estudo de qualquer problema de certa elevação civica ou sociologica, tendente a retemperar as exaustas e debeis forças da nossa pobre gente.

Vive-se uma vida fiticia, doentia, torturante, cheia de vaidades torpes e ambições deshonestas, mal contidas num meio rachitico, egoista e sordido, sem elevação nem superioridade de especie alguma.

O strugle for life tem no nosso país as aparencias de uma luta de canibaes, e não a daquela que predomina nos paizes civilisados, e que consiste em conceder maiores garantias aos mais talentosos e aos que mais trabalham,

A geração atual, salvo diminutas excepções, é uma geração doentia, que agonisa entre os relampagos do seu temperamento peninsular que lhes riscam no cerebro luminosas ilusões de gloria, e a inanidade das suas qualidades de trabalho, falidas quase por completo, à mingua dessa tenacidade de ferro, que indica que todo o homem que quer produzir deve impôr-se a si proprio um regimen austero e firme, quando não sente que a natureza o dotou com azas de condor que lhes permilttam elevar-se sem esforço às alturas quase inaccessiveis do genio, onde só chegam os escolhidos de Deus.

Em todos os tempos e em todas as-civilisações, a arte e a literatura constituiram sempre o esta-

lão pelo qual a critica avalia do grau de progresso e adeantamento dos respetivos povos.

E à proporção que as qualidades artísticas e literarias vão baixando de nivel, a ciência vai reconhecendo o grau de inferioridade criadora e moral das gentes, até elas desaparecerem por completo nas tribus selvagens dos negros e dos indios, nos esquimós e laponios, dos quaes não existem manifestações que nos revelem qualquer superioridade brilhante da sua pobre mentalidade.

Durante longos seculos, coube á raça chamada latina, em especial aos francezes é italianos, a palma virente das artes e das letras, que avassalaram o mundo com as suas grandiosas e imponentes manifestações.

Surgiram e vigoraram talentos do mais fino quilate, verdadeiros genios, como Miguel Angelo e Shakespeare, Benevenuto Celini e Camões, Dante e Milton, Miguel de Cervantes, e tantos outros que seria fastidioso enumerar.

O Paraizo perdido, a Divina Comedia, o Hamlet, os Lusíadas e o D. Quixote, são esplendorosas manifestações do talento e do engenho do homem, que hão de atravessar os seculos sempre admiradas e celebradas como a obra imortal de Homero e de Virgilio, de Demosthenes e de Platão.

Foi dentre as oscilações mais violentas dos grandes embates sociaes, nesses periodos de lncta e de guerra, que esses genios floresceram

cheios de fé, de crença e de ideal, tendo na alma uma sublimidade filosofica, como Shakespeare, vu no coração o idolo sagrado da patria, como Luiz de Camões.

Na arte, uma grande inspiradora sagrada, a religião, criava as madonas de Raphael e as virgens de Murilo.

Na literatura, as festas heroicas dum povo de guerreiros e navegadores, inspiravam os Lusíadas, o unico poema épico que o mundo tem visto é admirado depois da Iliada e da Odysséa, com a diferença que estes não descreveram a historia completa duma nacionalidade, mas sim um episodio dessa mesma historia, aliás mais ou menos posto em duvida pelos modernos criticos helenistas.

E não falando apenas nos genios da arte e das letras universalmente conhecidos, é justo accentuar que muitos escritores e artistas de notabilissimo merito floresceram nesse belo periodo chamado da renascença, e ainda na primeira metade do seculo passadó apareceram homens do valor de Vitor Hugo, Lamartine, Zorrila, Campoamor, Alexandre Herculano, Beranger, Anthero do Quental, e outros, que em obras de alto merito deixaram vinculada a superioridade criadora do seu talento.

Lentamente porém, as crenças e o ideal foramse amortecendo no coração dos povos latinos, deixando-se substituir por esse cynismo ulilita-

rio, que é o caracleristico deprimente da nossa época.

A vida material, elevada ao seu maximo grau de saluração, mercê os progressos da industria, tem como que obsecado todos os espiritos, embotando-lhes a fibra da sensibilidade fantasiosa e idealislica.

A politica, abrindo a todos os seus lubricos braços, e tentando as inteligencias mais finas e as alimas mais perfetiveis, tem arredado da pura arte milhares de apostolos ferverosos que assim se deixam perverter por essa impndica e chagosa rameira.

E o systema de vida das sociedades modernas, tem gerado uma camada de miseros decadentes inteletuaes, perfeitamente incapazes de produzirem uma obra, e torturados de continuo por essa séde ardente da originalidade, que em regra desabrocha numa triste manifestação doentia, como se póde observar em todos os produtos da chamada escola nephelibata, ainda mesmo naqueles onde a chispa azulada do talento fulgura de espaço a espaço.

O que succede em Portugal succede por toda essa Europa latina, que se abraçou cheia de enthusiasmo e de paixão ao romance nada original de Ebrik Scienckwisck, Quo Vadis, romance cujo grande merecimento consiste em sensibilisar pela | ternura, pela fé, pelo amor e pela arte, as fibras mais delicadas do coração humano.

A literatura latina não teve um unico livro pelo «qual se apaixonasse no agonisar do seculo passa- “do, vendo-se na necessidade de ir procurar na “obra honesta e simples do romancista polaco, essa «comoção e sentimento que os seus prosadores é poetas não poderam dar-lhe!

E para prova desta grande verdade é que nem mesmo o fulgido talento emotivo e sentimental de Gabriel dAnunzio conseguiu com as suas obras, dum tragico aliás falseante, falar aos corações com tanto interesse e sympalhia como aqueles amores de Lygia e Vinicius, amparados na crença duma religião nova que lhes rasgava ante as almas juvenis e apaixonadas belos horisontes duma moral e duma expressão singulares, «que por vezes impressionavam a alma stoica de Petronius!

Como complemento da decadencia literaria dos latinos, é ver as nações do Meio Dia pasmadas ante a obra nebulosa e filosofica desse rasso extraordinario que se chama o conde Leão Tolstoi, e os dramas singulares desse norueguez setuegenario, Ibsen, que nas suas peças coloca cenas ardentes, que dir-se-hiam saidas do cerebro javenil dum dramatargo peninsular!

E dia a dia, a literatura dos paizes do norte vem invadindo os mercados centraes da Europa, revelando nesses escritores dos paizes dos gelos poderosas faculdades criadoras e inspirativas, que os francezes, os hespanhoes, os italianos, e os

porluguezes, parece haverem perdido completa mente.

A obra, aliás de certo merito, de Rostand, é em tudo e por tudo muito inferior em sentimento, em inspiração e em fatura artística, áquela que em prosa e verso o grande Vitor Hugo legou à posteridade.

Cyrano de Bergerac nunca poderá egualar-se ao Ruy Blas, e a Marion Delorme é imilhares de vezes superior em tudo e por tado ao LAiglon.

O burilamento da frase não desvanece a pobreza e a fraqueza da ideia.

Os Miseraveis de Vitor Hugo, como a Graziela de Lamartine, como toda a obra de Musset, de Chateaubriand, de Murger, do Goethe, e de Leopardi, hão de perdurar eternamente nas almas e nos corações, porque elas são a resultante de uma inspiração sentida e humana, tradutora legitim a do periodo brilhante duma ativa e expressiva elaboração literaria que glorificou os paizes onde esses escritores produziram as mais belas e delicadas perolas do seu talento.

A decadencia literaria veiu accentuando-se vertiginosamente nos paizes da Europa meridional desde o ultimo quartel do seculo XIX, apezar da producção augmentar de uma maneira extraordinariamente pasmosa.

A obra de Zola, tão combatida e criticada, será talvez a unica dos tempos modernos que poderá sobreviver ao seu autor.

E essa sobrevivencia resulta naturalmente de ela ser uma obra sentida e profundamente verdadeira, especialmente na sua primeira parte, onde os Rougon Macquart são a analyse duma sociedade, que na Thereza Raquin e na Nana tem à sua melhor e mais profunda autopsia.

Fundador de uma escola nova, lutando heroicamente contra a critica e contra a hypocrisia indiguada dos que se alarmaram em ver assim expostas a nú todas as esverdeantes chagas sociaes, Zola rompeu essas duras muralhas, e o seu nome, hojo universalmente conhecido, impõe-se como o de um dus mais potentes cerebros contemporaneos.

Se a Roma não possue o valor lilterario que se julgava, nem obteve o exito que o autor esperava, já o Lourdes e o Germinal são magnificos trabalhos que atacam pela base dois dos mais importantes problemas syciaes — a crendice religiosa e as aspirações das classes proletarias.

Na Obra den o grande romancista a nota exata desse neurasthenismo esgotante e desesperados que caraterisa a maioria dos modernos artistas, quer eles manejem a pena, quer o pincel ou o eseropo.

E alem de Zola, quem mais terá em França um nome literario no final deste seculo?

Daudet? Gustavo Flaubert? Os irmãos Gon-

courts? Talvez o segundo seja o que mais probabilidades apresente dessa sobrevivencia.

Vejamos com pasmo a obra colossal de Honorato de Balzac —a sua Grande comedia humana, e observemos esse admiravel trabalho intitulado Eugenia Grandet.

A elaboração daquele cerebro privilegiado, cujos primordios decorreram na humildade de uma existencia pratica proxima da miseria, é verdadeiramente espantosa.

E descendo a outros generos lilterarios, onde a psicologia e a critica social não têm interferencia, o nosso espirito pasma perante esse trabalho enorme de Dumas pai criando o roman ce historico, de Ponson du Terrail no romance fantasioso, de Paulo de Kock no desenho admiravel do grotesco e dos typos e costumes do seu tempo, e de Alfonso Karr na analyse espirituosa, viva, seintilante e unica, de todas as paixões, caprichos e defeitos da alma humana, que constituem essa delicia de humorismo que se chama as Guépes, e que nenhum literato pôde ou deve legitimamente desconhecer.

quase contemporaneos, vê-se que todos esses escritores obedeciam à força mysteriosa de uma potente elaboração literaria, e que dispunham duma sanidade de espirito e dum equilibrio de funeções inteletuaes, que lhes permittiram levar a cabo o seu grandioso trabalho sem acabarem num hospital de doidos, como o pobre Guy de Maupassant, devorado pelo morphinismo, ao qual durante anos pediu a superexcitação mental que

naturalmente lhe faltava, talvez por ser já um produto infeliz dessa decadencia fisica que dia a dia se vai gradualmente accentuando em toda a raça latina.

Expôr todos os abortos literarios que nos ultimos tempos têm visto a luz da publicidade em França, desde os versos symbolistas de Mauricio Rolinat, até às atrocidades comediographicas de Bissou, seria trabalho inglorio que occuparia dezenas de paginas.

Basta porém que se diga, que nenhuma dessas obras sobreviverá dez anos, nem mesmo as que tiveram algum exito, porque as outras constiluiram apenas uma sucata de livraria.

Existem talentos literarios em França, negal-os seria um crime; mas são talentos devorados por essa malária ardente que caraterisa a luta entre as anciedades da imaginação sedenta de produzir, e as difliculdades do organismo encarregado de executar.

Explicando:

O escritor gera no seu cerebro o esqueleto duma obra de vulto, tragica, grotesca, critica ou psicologica cujo entrecho se lhe afigura interessante e nos casos de despertar os aífetos e applausos do publico. Esse esqueleto necessita porém de arterias, de musculos, de carne, de orgãos, de sangue e de vida, para poder mover-se e expressar a ideia do escritor.

Eis ahi a dificuldade.

O estado nevrotico dos homens de hoje não lhes: permitte sentarem-se a uma masa durante longashoras, e escreverem com fasilidade e brilho, sem» um esmorecimento, sem uma fraqueza, sem uma ausencia de animo ou de vontade, como Alexandre Dumas escreveu em um mês aquele sempre seu delicioso e fantasioso romance O conde de Monte Christo!

O egoismo de hoje, impondo-se vitorioso a” tola uma sociedade chata de torpes mercantilismos, as grandes conquistas da industria e da politica: sobrelevando a todos os esforços da arte, as tretasantepondo-se às letras, e as manhas ao trabalhohonest) e sentido, tudo isto, incidindo sobre orgimismos tarados pela hereditariedade do alcool, di syphyilis, da tuberculose, da neurasthenia, doaihrilismo, e da escrophnlose, tortura horrendamente esses pobres cerebros iluminados pela claridade d; talento, mas contrarialos pelas fragilidades de uma organisação enfermiça, que os nãodeixa seguir serenos e fortes, na linha traçada numa sobria e firme orientação.

nad *

Reportando-nos agora ao nosso minusculo e des valorisado país, no campo das artes e das letras,.

desprotegidas publica e ofisialmente de todos os auxilios e incentivos, país onde nos beneficios dos toureiros lhes são oferecidos brindes de alto valor, & ao nosso unico romancista historico da atualidade, Antonio de Campos Junior, lhe deram os seus admiradores de Evora uma simples pena de oiro, a alma confrange-se-nos de lastima, e quase que o animo nos desfalece, perante as sombrias côres deste miserando e grotesco quadro.

hoje, como ontem, como sempre, o escritor português que não possua um bordão onde amparar os meios da sua subsistencia, morrerá infalivelmente de fome, tendo como unica esperança o catre do hospital e as nénias mais ou menos rhetoricas dos jornaes!

Eu, que me considero o mais infimo de todos os escritores e jornalistas do meu país, mas tenho já publicados dezoito volumes e ha dez anos que escrevo continuamente na imprensa periodica, vejome obrigado a continuar a ser empregado publico, afim de conquistar a minha reforma, para na velhice horrenda, ou na doeuça terrorifica, não estender à caridade publica esta mão que alguma cousa cá deixa de aproveitavel, senão positivamente valiosa, pelo menos não de todo inutil.

E como eu, todos os que manejam uma pena têm que se encostar às argolas da burra do Estado, porque as letras não os salvam da miseria, ainda que possuam o mais belo e notavel dos talentos!

Em França, o meu trabalho de tantos anos ter-me-hia já ganho uma pequena fortuna, bastante aliás para ser independente e viver com «lesafogo e comodidades.

Aqui trabalharei emquanto poder, para agatanhar esses pequenos detalhes da vida, sempre florentes num meio onde os ganhos não estão em harmonia com o casto de todos os encargos da existencia.

Ainda assim, levanto as mãos ao cen, cheio de gratidão para com o bom Deus, que me concedeu uma saude perfeita e um systema nervoso bem equilibrado, que me permittem trabalhar sem cansaço nem esmorecimento em cinco misteres diversos.

E pois do alto dessa saude e desse equilibrio que eu observo todas as miserias sociaes, e entre elas essa da nossa pobre decadensia literaria a caminho seguro da sua completa ruina.

Este livro, sem intenção reservada de molestar ninguem, porque a ninguem visa em especial, tem por fim analysar essa decadencia tão manifesta, filha legitima e pura do abatimento fisico da nossa raça, como tentarei demonstrar, abatimento vindo na sua origem das condições fisiologicas do pais, e aggravado pelo systema de vida dos rapazes atuaes, que se inutilisam precocemente nessa vida doentia dos cafés e dos alconces, anciosos de conquistarem um nome literario que nunca chegam a gisar, porque lhes falta para isso a persistencia,

a energia, a tenacidade e a robustez, sempre indispensaveis para tornar vencedores todos aqueles. que trabalham.

Dos nossos escritores do seculo passado, qual será o que ha de atravessar as gerações vindouras conservando 0.amor e o respeito da posteridade?

A mim, só um me parece destinado a essa consagração: Alexandre Herculano,

A sua obra tem a solidez profunda dos mansoleus de granito dos antigos reis egypcios.

Vive nela, a par do seu grande valor literario, toda a magnificente analyse do passado heroico de um povo na aurora turbulenta da formação genesica da sua hegemonia social.

O Eurico e o Monge de Cister são dois trabalhos: esplendorosos que enobreceriam qualquer lilteratura do mundo.

Palpita neles uma vida intensa que traduz uma época e os embates singulares das luclas que a caraterisam, conjunctamente com uma elevada inspiração romantica, na qual todas as emoções mais fortes e vibrantes da alma humana se encontram insculpidas nas suas aureas paginas com mão de mestre.

Concretas, sóbrias, admiravelmente detalhadas, as cenas e episodios dessas duas obras magistraes da literatura portuguesa, leem-se, releem-se, decoram-se, e os vultos de Hermengarda e do gardingo nunca mais se apagam da memoria dos que

es conheceram descritos pelo pulso superior do romancista.

Naquele cerebro potente e privilegiado, que cheio de tedio e de asco viu de alto as podridões e miserias do seu meio, e delas se afastou soberano e altivo, com o stoico desprezo de um spartano, não luziam os fogos fatuos que deslumbram por um momento as sociedades, para depois se apagarem rapidos no Stige do esquecimento.

aquela luz era firme e rútila como a das estrelas; e assim como a destas continha a ser vista durante seculos, mesmo depois do astro se haver exlinguido, tambem a que do seu talento jorrou continuará a brilhar por longos tempos, apezar do grande fóco donde nascera se ter apagado nas trevas do tumulo.

Não vejo pois, em todo o vasto horisonte da literatura portuguesa contemporanea, outro escritor que encerre na sua obra as qualidades precisas para esta sobreviver e resistir à acção corrosiva do tempo.

Camilo foi grande, incontestavelmente uma das organisações literarias mais potentes que temos possuido, e se de longe em longe, no futuro, o sen nome hade ser citado como o de um bom mestre da lingua, a fatura da sua obra, pela restricção do meio em que quase toda ela se passa, pela repetição do typo fundamental do brazileiro, que tende a desaparecer em absoluto do nosso país, e ainda por não haver altingido um superior grau

de anatomia social e dissecção de analyse critica e filosofica, apenas ao de leve esboçadas no Eusebio Macario, não poderá resistir muito além da primeira metade do seculo atual.

Nas letras um outro nome ficaria talvez flutuando nas turvas aguas onde todos os demais devem fatalmente afundar-se, o de Anthero.

Os seus versos talhados em diamante, e expressando todos as attribulações de uma alma sedenta do inaftingivel, e como tal traduzindo as mais supremas e dolorosas attribulações, hão de perdurar sempre como obra prima e sincera da poesia portuguesa.

E depois destes não vejo mais nenhum.

Nem Rebelo da Silva, nem Mendes Leal, nem Thomaz Ribeiro, nem Pinheiro Chagas, nem Soares de Passos, nem Guilherme Braga, nem o proprio Guerra Junqueiro, que talvez de todos eles seja o mais duradouro e admirado pelas gerações vindouras.

E no entanto, seja dito em abono da verdade, todos estes homens trabalharam com uma enorme força de vontade sob os impulsos do verdadeiro talento, com o qual honraram a sua patria e enalteceram a nossa literatura.

Mau grado toda a controversia e acrobatismos da critica ligeira e facil de jornaes, é indiscutivel que Eça de Queiroz foi um vulto primacial na literatura portuguesa, e que os seus romances filosoficos, duma grande profundeza de analyse «

psicologica e dum scintilante espirito epigramatico, apenas torturados pela monomania de encontrar a definitiva fórma exata na traducção gramatical da ideia, são belos diplomas consagrantes de um escritor de raça.

Injustiça seria deixar no esquecimento o delicioso Julio Diniz, que a morte tão cedo roubou ao proseguimento duma obra romantica genuinamente portuguesa, da mais-séria e elevada fatura, que nos Fidalgos da casa mourisca, nas Pupilas do sr. reitor, em Uma familia ingleza, e em outros romances que ainda escreveu, deixou prever quanto se deveria esperar do seu grande e luminoso espirito de romancista.

Indiscutivelmente magnifica em toda a sua architetura htteraria, essa obra, sem duvida um dos mais apreciaveis primores das nossas letras, já hoje, e não vão decorridos ainda muitos anos, começa a entrar nos sombrios corredores do esquecimento.

Um literato possuimos, que por bastante tempo ainda, perdurará na memoria da nossa sociedade; Manuel Pinheiro Chagas.

Mixto valioso de poeta, de romancista, de historiador e de dramaturgo, ele foi a mais legitima e preclara vitima deste meio anti-lilterario, que se não fosse o mercado do Brasil já teria fenecido de todo.

Era realmente um talento privilegiado e pujantissimo o de Pinheiro Chagas.

mia

Se tivesse vivido num país onde as letras se pagam pelo seu justo valor e não aqui (que com caixas de charutos foram algumas vezes pagos varios folhetos do grande Camilo!), Pinheiro Chagas teria deixado uma obra de vulto capaz de, como a de Herculano, sobreviver secularmente na lilteratura portuguesa.

Infelizmente ele tinha que transformar a pena e o talento, em balancins de cunhar moeda para acudir aos encargos materiaes da familia numerosa de que era chefe.

Trabalhou como um heroe até ao ultimo momento da existencia, atravez de todas as dificaldades e desgostos, e até da sua propria doença!

A sua obra, variadissima, é enorme, desde a Morgadinha de Val Flor até à ardente poesia, a Liberdade, desde a Historia de Portugal até aos seus magnificos artigos de polemica no Diario da Manhã, artigos cheios de humorismo, de logica, de graça e de sublileza de espirito.

Um outro nome surge agora como o de um dos mais considerados das nossas letras: Oliveira Martins.

Romancista e historiador, tambem, como Pinheiro Chagas, a sua obra, aliás não isenta de defeitos, possue comtudo uma certa solidez e gravidade que a não deixarão facilmente esquecer.

Os seus romances, o Condestavel NunAlvares é os Filhos de D. João I, são duas magnificas télas historicas dum profundo estudo da época longiqua

em que se passa a acção, e da revivencia dos mais importantes vultos do segundo periodo da nossa nacionalidade.

Estes livros ficam.

Ao lado dos de Herculano hão de atravessar muitos lustres, sempre lidos e admirados com interesse por todos os cultuaes.

Tambem morreu cedo, pois que muito ainda havia a esperar do talento e da ilustração solida e profunda deste notavel homem de letras.

Por ultimo acode-me à memoria o nome de um literato ilustre, morto em Paris na flor da vida, e que deixou um trabalho pelo qual se póde afirmar, que, se ele tem continuado a viver, seria decerto O nosso primeiro critico: — Moniz Barreto.

O seu Esboço critico de Oliveira Martins é uma destas obras de cunho que revelam claramente o saber e as faculdades inteletuaes de um homem de genio.

Tudo ali se encontra apresentado com uma for - ça de logica, um brilho de exposição, e uma serie de conhecimentos lilterarios, que decerto nenhum dos escritores do seu tempo, nem mesmo Theophilo Braga, que é um poço de saber, se lhe teria avantajado.

Moniz Barreto foi a mais completa organisação literaria do nosso tempo, que a morte, impiedosa e inconscientemente nos roubou,

E já que falei em Theophilo Braga devo dizer que o seu trabalho gigantesco, perfeitamente aca-

demico, ficará pertencendo ao numero daqueles que os eruditos de todos os tempos hão de sempre com pulsar, não tendo aliás o condão de presistir na alma das multidões.

E a obra de um sabio, e os sabios em regra não alingem o coração dos povos.

E depois destes, todos já mortos, menos Theophilo, a derrocada tem sido completa, apenas a espaços sustida pela inteligencia vigorosa e sádia de Fialho dAlmeida nas fulgurações da sua obra incompleta e dispersa, e pelo moderno aparecimento dum rapaz de verdadeiro merito, Carlos Malheiro Dias, que com os seus romances Filho das hervas e Os Tels de Albergaria, provou possuir a solida envergadura literaria do romancista moderno.

Tudo mais.são tentativas doentias que florescem às mesas do Suisso, e pelas bancas das redacções, em tristes fragmentos barafandados de cerebros decadentes e animos impolentes para construirem uma obra literaria mais ou menos acceitavel, mas em todo o caso definida e comprovativa de verdadeira predisposição para o trabalho das leltras.

Qual o im pois deste livro?

Um unico, muito simples e despretencioso: traçar sob a fórma amena do romance uns pequenos detalhes dessa decadencia, as fontes que a alimentam, os prejuizos que ela causa, e o caminho errado que seguem aqueles que a symbolisam, porque, nisto de literatura não ha meio termo: ou se nasce

literato, de cerebro, de alma e de coração, ou por muito que se leia e que se estude, fica-se toda a vida a deitar tombas, recolhido no triste vão de escada do palacio das leltras.

O AUTOR

Os Decadentes

Sinopse

Leia gratuitamente Os Decadentes, de Alfredo Gallis, quarto volume da série Tuberculose Social. Edição Literunico em pt-BR moderno preparada por OCR a partir da cópia pública da Biblioteca Nacional Digital, com crítica naturalista da boemia literária, decadência social e doença.

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