Bruges-a-Morta: Capítulo I
Capítulo I
O dia declinava, escurecendo os corredores da grande morada silenciosa, pondo anteparos de crepe nas vidraças.
Hugues Viane preparou-se para sair, como fazia todos os dias ao fim da tarde. Desocupado, solitário, passava o dia inteiro no quarto, um grande aposento no primeiro andar, cujas janelas davam para o Cais do Rosário, ao longo do qual se alinhava sua casa, espelhada na água.
Lia um pouco: revistas, velhos livros. Fumava muito. Ficava a devanear junto à janela aberta nos tempos cinzentos, perdido em suas lembranças.
Havia cinco anos que vivia assim, desde que viera fixar-se em Bruges, logo depois da morte da esposa. Cinco anos já. E repetia a si mesmo: “Viúvo! Ser viúvo! Sou o viúvo!” Palavra irremediável e breve, de uma única sílaba, sem eco. Palavra ímpar, que designa bem o ser desparelhado.
Para ele, a separação fora terrível. Conhecera o amor no luxo, nos lazeres, nas viagens, nos países novos que renovavam o idílio. Tinha sido a delícia pacífica de uma vida conjugal exemplar, e também a paixão intacta, a febre continuada, o beijo mal apaziguado, o acordo das almas, distantes e unidas, como os cais paralelos de um canal que mistura os dois reflexos.
Dez anos dessa felicidade, quase não sentidos, de tão depressa que passaram.
Depois, a jovem esposa morrera, no limiar dos trinta anos, acamada apenas algumas semanas, logo estendida naquele leito do último dia, onde ele a revia para sempre: murcha e branca como a cera que a iluminava, ela que adorara tão bela, com a tez de flor, os olhos de pupila dilatada e negra em meio ao nácar, cuja escuridão contrastava com os cabelos de um amarelo de âmbar, cabelos que, soltos, lhe cobriam todo o dorso, longos e ondulados.
As Virgens dos Primitivos têm madeixas semelhantes, que descem em calmos arrepios.
Sobre o cadáver deitado, Hugues cortara aquele feixe, trançado em longa trança nos últimos dias da doença. Não é isso uma espécie de piedade da morte? Ela arruína tudo, mas deixa intactos os cabelos. Os olhos, os lábios, tudo se turva e desaba. Os cabelos nem sequer perdem a cor. Só neles alguma coisa de nós sobrevive. E agora, depois de cinco anos, a trança conservada da morta quase não empalidecera, apesar do sal de tantas lágrimas.
Naquele dia, o viúvo reviveu com mais dor todo o seu passado, por causa desses tempos cinzentos de novembro em que os sinos, dir-se-ia, semeiam no ar poeiras de sons, a cinza morta dos anos.
Decidiu, porém, sair, não para buscar lá fora alguma distração obrigatória ou algum remédio para o seu mal. Não queria tentar nenhum. Mas gostava de caminhar nas aproximações da noite e de procurar analogias para o seu luto nos canais solitários e nos bairros eclesiásticos.
Descendo ao térreo da morada, viu, abertas para o grande corredor branco, as portas que de costume ficavam fechadas.
Chamou no silêncio sua velha criada:
“Barbe!... Barbe!...”
Logo a mulher apareceu no vão da primeira porta e, adivinhando por que o patrão a chamara, disse:
“Senhor, tive de cuidar dos salões hoje, porque amanhã é dia de festa.”
“Que festa?”, perguntou Hugues, contrariado.
“Como? O senhor não sabe? É a festa da Apresentação da Virgem. Preciso ir à missa e à bênção da Beguinagem. É um dia como domingo. E, já que amanhã não posso trabalhar, arrumei os salões hoje.”
Hugues Viane não escondeu seu descontentamento. Ela sabia bem que ele queria assistir àquele trabalho. Havia, naquelas duas salas, tesouros demais, lembranças demais dela e do outro tempo, para deixar a criada circular ali sozinha. Desejava poder vigiá-la, acompanhar seus gestos, controlar sua prudência, observar seu respeito.
Queria ele mesmo manusear, quando fosse preciso deslocá-los para retirar o pó, tal bibelô precioso, tais objetos da morta: uma almofada, um biombo que ela fizera com as próprias mãos. Parecia que os dedos dela estavam por toda parte naquele mobiliário intacto e sempre igual: sofás, divãs, poltronas onde ela se sentara e que conservavam, por assim dizer, a forma de seu corpo. As cortinas guardavam as pregas eternizadas que ela lhes dera.
E nos espelhos parecia necessário roçar com prudência, com esponjas e panos, a superfície clara, para não apagar o rosto dela adormecido no fundo.
Mas o que Hugues queria também vigiar e preservar de qualquer choque eram os retratos da pobre morta, retratos em diferentes idades, espalhados um pouco por toda parte, sobre a lareira, as mesas de apoio, as paredes; e sobretudo, pois um acidente ali lhe partiria a alma inteira, o tesouro conservado daquela cabeleira inteira que ele não quisera encerrar em alguma gaveta de cômoda ou em algum cofre escuro. Seria como pôr a cabeleira num túmulo. Preferira, já que ela ainda estava viva, ela, e de um ouro sem idade, deixá-la estendida e visível como a porção de imortalidade de seu amor.
Para vê-la sem cessar, no grande salão sempre igual, essa cabeleira que ainda era Ela, ele a pusera ali, sobre o piano agora mudo, simplesmente deitada: trança interrompida, corrente partida, cabo salvo do naufrágio. E, para abrigá-la das contaminações, do ar úmido que poderia desbotá-la ou oxidar-lhe o metal, tivera esta ideia, ingênua se não fosse comovente: colocá-la sob vidro, estojo transparente, caixa de cristal onde repousava a trança nua que ele ia honrar todos os dias.
Para ele, como para as coisas silenciosas que viviam ao redor, parecia que aquela cabeleira estava ligada à existência delas e que era o espírito da casa.
Barbe, a velha criada flamenga, um pouco carrancuda, mas dedicada e cuidadosa, sabia de que precauções era preciso cercar aqueles objetos e deles só se aproximava tremendo. Pouco comunicativa, tinha, com o vestido preto e a touca de tule branco, a aparência de uma irmã porteira. Aliás, ia frequentemente à Beguinagem visitar sua única parenta, a irmã Rosalie, que era beguina.
Dessas convivências e desses hábitos piedosos, guardara o silêncio, o deslizar dos passos acostumados às lajes de igreja. E era por isso, porque não punha barulho nem risos ao redor de sua dor, que Hugues Viane se acomodara tão bem a ela desde sua chegada a Bruges.
Não tivera outra criada, e esta se tornara necessária a ele, apesar de sua tirania inocente, suas manias de solteirona e devota, sua vontade de agir à própria maneira, como ainda naquele dia em que, por causa de uma festa sem importância no dia seguinte, havia desarrumado os salões sem ele saber e contra suas ordens expressas.
Hugues esperou para sair que ela tivesse reposto os móveis, certificou-se de que tudo o que lhe era caro estivesse intacto e de volta ao lugar.
Depois, tranquilizado, com as persianas e as portas fechadas, decidiu fazer sua caminhada habitual do crepúsculo. Continuava, porém, a garoar, garoa frequente dos fins de outono, pequena chuva vertical que lacrimeja, cose água, alinhava o ar, eriça de agulhas os canais planos, captura e gela a alma como um pássaro numa rede molhada, de malhas intermináveis.