Bruges-a-Morta: Capítulo VI Bruges-a-Morta: Tradução Literunico · Capítulo 7 de 16
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Bruges-a-Morta: Capítulo VI

Capítulo VI

Hugues pensava: que poder indefinível o da semelhança.

Ela corresponde às duas necessidades contraditórias da natureza humana: o hábito e a novidade.

O hábito, que é a lei, o próprio ritmo do ser. Hugues o experimentara com uma acuidade que decidira seu destino sem remédio. Por ter vivido dez anos junto de uma mulher sempre querida, já não conseguia desacostumar-se dela, continuava a ocupar-se da ausente e a procurar sua figura em outros rostos.

Por outro lado, o gosto da novidade é igualmente instintivo. O homem se cansa de possuir o mesmo bem. Só se goza a felicidade, como a saúde, por contraste. E o amor também está em sua própria intermitência.

Ora, a semelhança é precisamente o que concilia essas duas coisas em nós, o que lhes dá parte igual e as junta num ponto impreciso. A semelhança é a linha do horizonte do hábito e da novidade.

No amor, sobretudo, essa espécie de refinamento opera: encanto de uma mulher nova que chegasse e se parecesse com a antiga.

Hugues gozava disso com delícia crescente, ele a quem a solidão e a dor haviam tornado, havia muito, sensível até a essas nuances de alma. Aliás, não fora por um sentimento inato das analogias desejáveis que viera viver em Bruges desde a viuvez?

Tinha aquilo que se poderia chamar “o sentido da semelhança”, um sentido suplementar, frágil e doentio, que religava as coisas entre si por mil laços tênues, aparentava as árvores por fios da Virgem, criava uma telegrafia imaterial entre sua alma e as torres inconsoláveis.

Por isso escolhera Bruges, Bruges de onde o mar se retirara como também se retirara uma grande felicidade.

Já fora um fenômeno de semelhança, porque seu pensamento estaria em uníssono com a maior das Cidades Cinzentas.

Melancolia desse cinza das ruas de Bruges, onde todos os dias têm ar de Todos os Santos. Esse cinza como que feito com o branco das toucas de religiosas e o preto das batinas de padres, cuja passagem incessante ali o torna contagioso. Mistério desse cinza, de um eterno meio-luto.

Pois por toda parte as fachadas, ao longo das ruas, se matizam ao infinito: umas têm uma caiação verde-pálida ou tijolos desbotados rejuntados de branco; mas, logo ao lado, outras são negras, desenhos a carvão severos, águas-fortes queimadas cujas tintas corrigem e compensam os tons vizinhos um pouco claros; e, do conjunto, é cinza mesmo que emana, flutua, propaga-se pelo fio dos muros alinhados como cais.

O canto dos sinos também se imaginaria antes preto; mas, acolchoado, fundido no espaço, chega como rumor igualmente cinzento que se arrasta, rebate e ondula sobre a água dos canais.

E essa própria água, apesar de tantos reflexos: cantos de céu azul, telhas dos telhados, neve dos cisnes vogando, verdura dos choupos da margem, unifica-se em caminhos de silêncio sem cor.

Há ali, por milagre do clima, uma penetração recíproca, não se sabe que química da atmosfera, que neutraliza as cores vivas demais, reconduzindo-as a uma unidade de sonho, a um amálgama de sonolência antes cinzenta.

É como se a neblina frequente, a luz velada dos céus do Norte, o granito dos cais, as chuvas incessantes, a passagem dos sinos tivessem influenciado, por sua liga, a cor do ar; e também, nessa cidade idosa, a cinza morta do tempo, a poeira da ampulheta dos Anos, acumulando sobre tudo sua obra silenciosa.

Foi por isso que Hugues quisera retirar-se ali: para sentir suas últimas energias, imperceptível e seguramente, soterrar-se, atolar-se sob aquela pequena poeira de eternidade que também lhe faria uma alma cinzenta, da cor da cidade.

Hoje, esse sentido da semelhança, por um desvio brusco e quase milagroso, agira ainda, mas de maneira inversa. Como, e por que artimanha do destino, naquela Bruges tão distante de suas primeiras lembranças, surgira bruscamente aquele rosto que devia ressuscitá-las todas?

Fosse o que fosse aquele acaso singular, Hugues entregou-se dali em diante à embriaguez da semelhança de Jane com a morta, como outrora se exaltara com a semelhança de si mesmo com a cidade.

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