Bruges-a-Morta: Capítulo VIII
Capítulo VIII
Num domingo de março, que era o de Páscoa, a velha Barbe soube de seu patrão, pela manhã, que ele não jantaria nem cearia em casa e que ela estava livre até a noite. Alegrou-se muito, pois, já que seu dia de folga coincidia com um dia de grande festa, iria à Beguinagem, assistiria aos ofícios, à missa solene, às vésperas, à bênção, e passaria o resto do dia em casa de sua parenta, a irmã Rosalie, que morava num dos principais conventos daquele recinto religioso.
Era uma das melhores, uma das únicas alegrias de Barbe ir à Beguinagem. Todos ali a conheciam. Tinha várias amigas entre as beguinas e sonhava, para seus dias muito velhos, quando tivesse juntado algumas economias, ir ela também tomar o véu e terminar a vida como tantas outras, tão felizes, que via com uma corneta envolvendo a cabeça de marfim envelhecido.
Sobretudo naquela manhã de março ainda jovem, exultava ao encaminhar-se para sua queridà Beguinagem, com passo ainda alerta, dentro do grande manto preto de capuz, oscilando como um sino. Ao longe, repiques pareciam acompanhar sua marcha, sinos unânimes de paróquia, e, entre eles, a cada quarto de hora, a música franzina e trêmula do carrilhão, uma melodia como batida num teclado de vidro.
Um começo de verdura primaveril dava ao arrabalde um ar de campo. Ora, embora houvesse mais de trinta anos que Barbe servia na cidade, guardara, como todas as suas iguais, a lembrança persistente de sua aldeia, uma alma camponesa que um pouco de erva ou de folhagem enternecia.
Que boa manhã. E como ela ia com passo alegre, sob o sol claro, comovida por um grito de pássaro, pelo cheiro dos brotos novos naquele arrabalde já rústico onde verdejavam os lugares escolhidos do Minnewater, o lago de amor, como se traduziu, mas melhor ainda: a água onde se ama. Ali, diante daquele lago sonolento, com os nenúfares como corações de primeiras-comungantes, as margens gramadas cheias de florinhas, as grandes árvores, os moinhos gesticulando no horizonte, Barbe teve de novo a ilusão da viagem, do retorno pelos campos rumo à infância.
Era também uma alma piedosa, dessa fé das Flandres em que subsiste algo do catolicismo espanhol, fé na qual os escrúpulos e o terror prevalecem sobre a confiança, e que tem mais medo do Inferno do que nostalgia do Céu. Com isso, porém, conservava um amor pela decoração, a sensualidade das flores, do incenso, dos tecidos ricos, algo próprio de sua raça.
Por isso o espírito obscuro da velha criada se extasiava antecipadamente com as pompas dos santos ofícios, enquanto atravessava a ponte arqueada dà Beguinagem e penetrava no recinto místico.
Ali, já havia o silêncio de uma igreja. Até o rumor das fontes finas de fora, escorridas para o lago, chegava como murmúrio de bocas que rezam; e os muros ao redor, muros baixos que delimitam os conventos, eram brancos como toalhas de Santa Mesa. No centro, uma erva espessa e compacta, um prado de Jean Van Eyck, onde pastava uma ovelha com ar de Cordeiro pascal.
Ruas com nomes de santas e bem-aventurados se curvavam, desviavam, enredavam-se e alongavam-se, formando um burgo medieval, uma pequena cidade à parte dentro da outra cidade, mais morta ainda. Tão vazia, tão muda, de um silêncio tão contagioso, que ali se anda devagar e se fala baixo, como num domínio onde há um doente.
Se por acaso algum passante se aproxima e faz barulho, tem-se a impressão de uma coisa anormal e sacrílega. Só algumas beguinas podem circular ali de modo lógico, com passos roçantes, nessa atmosfera apagada; pois parecem menos caminhar do que deslizar, e são antes cisnes, irmãs dos cisnes brancos dos longos canais.
Algumas, que se haviam atrasado, apressavam-se sob os olmos do terreiro, quando Barbe se dirigiu à igreja de onde já vinha o eco do órgão e da missa cantada. Entrou ao mesmo tempo que as beguinas, que iam ocupar os lugares nos cadeirais, em dupla fileira de madeira esculpida, alinhada perto do coro. Todas as toucas se justapunham, as asas de linho imóveis, brancas com reflexos decalcados, vermelhos e azuis, quando o sol atravessava os vitrais.
Barbe olhou de longe, com olhos de inveja, o grupo ajoelhado das Irmãs da comunidade, esposas de Jesus e servas de Deus, com a esperança de, um dia, também fazer parte dele.
Tomara lugar numa das naves laterais da igreja, entre alguns fiéis leigos: velhos, crianças, famílias pobres hospedadas nas casas dà Beguinagem que se despovoava. Barbe, que não sabia ler, desfiava um grosso rosário, rezando a plenos lábios, olhando às vezes para o lado da irmã Rosalie, sua parenta, que ocupava o segundo lugar no cadeiral depois da Madre Reverenda.
Como a igreja estava bela, toda ardendo de velas acesas. Barbe, no momento do Ofertório, foi comprar um pequeno círio à irmã sacristã, que se mantinha junto a um teixo de ferro forjado, onde logo a oferta da velha criada queimou também.
De tempos em tempos, acompanhava o consumir de seu círio, que reconhecia entre as outras.
Ah, como estava feliz. E como os padres tinham razão em dizer que a igreja é a casa de Deus. Principalmente nà Beguinagem, onde eram Irmãs que cantavam no jubé, com vozes doces como só os anjos devem ter.
Barbe não se cansava de escutar o harmônio, os cânticos que se desdobravam todos brancos, como belos panos de linho.
Entretanto, a missa terminara. As luzes se apagavam.
Todas juntas, num frêmito de suas cornetas, as beguinas saíram, enxame que levantou voo, semeando por um instante o jardim verde de asas brancas abertas, como uma partida de gaivotas. Barbe seguiu, mas a distância, por uma espécie de discrição respeitosa, a irmã Rosalie, sua parenta. Depois, quando a viu entrar em seu convento, apressou o passo e, um instante depois, ali entrava também.
As beguinas vivem assim em várias dentro de cada uma das moradas que compõem a comunidade. Aqui, três ou quatro; ali, até quinze ou vinte. O convento da irmã Rosalie era numeroso; e todas as Irmãs, no momento em que Barbe entrou, apenas voltadas da igreja, conversavam, riam, chamavam-se umas às outras na vasta sala de trabalho. Por causa do dia feriado, os cestos de costura e as almofadas de renda estavam arrumados nos cantos.
Algumas, no pequeno jardim diante da casa, examinavam as plantas, o crescimento dos canteiros bordados de buxo. Outras, às vezes jovens, mostravam presentes recebidos, ovos de Páscoa com açúcar em geada. Barbe, um pouco intimidada, seguia sua parenta por toda parte, pelos quartos, pelas salas de visita, onde outras visitas afluíam, com medo de ficar sozinha, de parecer intrusa, esperando com uma pequena ansiedade que a convidassem para jantar, como era costume.
Mas e se naquele dia houvesse parentes demais chegados, e não houvesse lugar?
Barbe ficou tranquila quando a irmã Rosalie veio convidá-la em nome da Superiora, desculpando-se por deixá-la só, muito ocupada, pois as beguinas dirigem a casa por turnos de uma semana, e aquela era a vez dela.
“Conversaremos depois do jantar”, acrescentou. “Ainda mais porque tenho uma coisa grave para lhe dizer.”
“Grave?”, perguntou Barbe, assustada. “Então diga logo.”
“Não tenho tempo... daqui a pouco...”
E escapou pelos corredores, deixando a velha criada consternada. Uma coisa grave? O que poderia haver? Uma desgraça? Mas ela já não tinha nada de caro no mundo, ninguém além daquela única parenta.
Então se tratava dela. O que poderiam censurar-lhe? De que a acusavam? Jamais enganara um liard. Quando ia se confessar, mal sabia o que dizer e que pecado atribuir a si mesma.
Barbe ficou ansiosa. A irmã Rosalie tivera um ar tão sombrio, quase severo, ao falar-lhe. Estava acabada a boa alegria daquele dia. Já não tinha ânimo para rir, para juntar-se aos grupos que ali adiante se divertiam, tagarelavam, examinavam rendas começadas, de um desenho novo onde desembocavam os fios inextricáveis dos bilros.
Sozinha, à parte, numa cadeira, pensava agora naquela coisa desconhecida que a irmã Rosalie lhe diria.
Quando se sentaram à mesa, no longo refeitório, depois da oração em voz alta, Barbe quase não comeu, e sem verdadeiro prazer, enquanto via as beguinas sadias e rosadas e algumas outras convidadas, parentes como ela, fazerem honra àquela refeição de festa e domingo. Servia-se vinho naquele dia, vinho de Tours, untuoso e de ouro, vinho de galhetas. Barbe esvaziou o copo que lhe haviam servido, acreditando afogar as preocupações. Veio-lhe uma enxaqueca.
A refeição lhe pareceu interminável. Quando acabou, correu direto à irmã Rosalie, interrogando-a com os olhos. Esta percebeu-lhe a perturbação e tratou depressa de acalmá-la.
“Não é nada, Barbe. Vamos, minha amiga, não se alarme assim.”
“O que há?”
“Nada, nada muito grave. Um pequeno conselho que eu devia lhe dar.”
“Ah, a senhora me assustou...”
“Quando digo nada grave, falo do presente. Mas a coisa poderia tornar-se grave. Eis o caso: talvez seja necessário que você mude de serviço.”
“Mudar de serviço! E por quê? Faz cinco anos que estou na casa do senhor Viane. Sou-lhe apegada porque o vi muito infeliz; e ele também se prende a mim. É o homem mais honesto do mundo.”
“Ah, minha pobre filha, como você é ingênua. Pois não. Não é o homem mais honesto do mundo.”
Barbe ficou muito pálida e perguntou:
“O que a senhora quer dizer? O que meu patrão fez de mal?”
A irmã Rosalie contou-lhe então a história que correra a cidade e se divulgara até naquele recinto plácido dà Beguinagem: a má conduta daquele cuja dor de viúvo, tão pungente e tão inconsolável, todo mundo outrora admirava. Pois bem, ele se consolara de modo abominável. Ia agora à casa de uma má mulher, uma antiga dançarina do teatro.
Barbe tremia. A cada palavra, sufocava uma revolta interior; pois venerava sua parenta, e aquelas revelações tão ofensivas, tão incríveis para ela, ganhavam autoridade em sua boca. Era essa, então, a causa de toda aquela mudança de vida que ela não compreendia, as saídas frequentes, as idas e vindas, as refeições tomadas fora, as voltas tardias, as ausências noturnas?
A beguina continuava:
“Você refletiu, Barbe, que uma criada honesta e cristã não pode continuar por mais tempo a serviço de um homem que se tornou libertino?”
A essa palavra, Barbe explodiu. Aquilo não era possível. Calúnias, tudo aquilo, de que a irmã Rosalie era vítima. Um patrão tão bom, que adorava a esposa. E todas as manhãs ainda, sob seus próprios olhos, ia chorar diante dos retratos da defunta, guardava seus cabelos melhor que uma relíquia.
“É como lhe digo”, respondeu com calma a irmã Rosalie. “Sei de tudo. Conheço até a casa onde essa mulher mora. Fica no meu caminho quando vou à cidade, e mais de uma vez vi o senhor Viane entrar ou sair dali.”
Isso era formal. Barbe pareceu vencida. Não replicou nada, absorveu-se numa meditação, com uma dobra grossa e franzida no meio da testa.
Depois disse apenas estas palavras:
“Vou refletir.”
Enquanto isso, sua parenta, chamada de volta ao ofício pelas ocupações de seu encargo, despedia-se dela por um momento.
A velha criada ficou atônita, sem força, com as ideias embaralhadas, diante daquela notícia que contrariava todas as suas esperanças e desarranjava todo o caminho de seu futuro.
Antes de tudo, era apegada ao patrão e não o deixaria sem pesar.
Além disso, que outro serviço encontraria, tão bom, fácil, lucrativo? Naquela casa de solteirão envelhecido, poderia completar suas economias, o pequeno dote indispensável para terminar os dias nà Beguinagem. No entanto, a irmã Rosalie tinha razão. Ela não podia continuar na casa de um homem que escandalizava o próximo.
Já sabia que não se pode servir na casa de ímpios, que não rezam, que não observam as leis da Igreja, as Têmporas, a Quaresma. A mesma razão valia para os devassos. Eles cometem até o pior pecado, aquele que os pregadores, nos sermões e retiros, mais ameaçam com o fogo do inferno. E Barbe afastava depressa de si até essa longínqua ligação com a Luxúria, a cujo simples nome fazia o sinal da cruz.
Que decidir? Barbe permaneceu muito perplexa durante todo o tempo das vésperas e da bênção solene, para as quais voltara à igreja com a Comunidade. Rezou ao Espírito Santo para que a iluminasse; e suas orações foram atendidas, pois, ao sair, tomara uma decisão.
Já que o caso era espinhoso e acima de seu julgamento, iria imediatamente ao seu confessor habitual, na igreja de Nossa Senhora, e seguiria docilmente sua sentença.
O padre a quem contou tudo o que acabara de saber, e que conhecia havia anos aquela natureza simples, reta, logo atormentada por escrúpulos graças aos quais sua pobre alma obscura parecia realmente coroada de espinhos, procurou tranquilizá-la, fez-lhe prometer não precipitar nada. Se o que se dizia do patrão fosse verdade e ele mantivesse tais relações culpadas, ainda era preciso distinguir, quanto a ela: enquanto os encontros ocorressem fora da casa, devia ignorá-los, em todo caso não se inquietar com isso; se, por desgraça, aquela mulher de má vida de que se falava viesse à casa do patrão, para visitá-lo, jantar ou de qualquer outra maneira, então ela já não poderia ser cúmplice da devassidão, deveria recusar seus serviços e partir.
Barbe pediu que lhe repetisse duas vezes a distinção. Depois, tendo enfim compreendido, saiu do confessionário, deixou a igreja após uma curta oração e voltou para o Cais do Rosário, para a casa de onde partira tão feliz pela manhã e que seria preciso abandonar, ela bem o sentia, cedo ou tarde.
Ah, como é difícil permanecer alegre por muito tempo. E voltava pelas ruas mortas, lamentando o arrabalde verde da aurora, a missa, os cânticos brancos, todas as coisas sobre as quais a noite caía; pensando em partidas próximas, em novos rostos, em seu patrão em estado de pecado mortal; e vendo-se a si mesma, sem esperança agora de terminar a vida nà Beguinagem, morrer numa noite semelhante, sozinha, no hospício cujas janelas dão para o canal.